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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Das alimárias e afins



Hoje, à hora do almoço, no sítio do costume, em horário nobre, as notícias estavam a dar relevo às eventuais cuspidelas do presidente do Sporting sobre outro dirigente desportivo, cujo nome ignoro e nem me interessa saber. Um dos presentes, porventura o que zurra mais alto na sala, sem auscultar ninguém, como se no sofá da sua sala estivesse, foi aumentar o som do aparelho para um volume insustentável.

Depois ficaram todos a comentar, aos berros, as cuspidelas da alimária, como se se tratasse de uma notícia importante para a humanidade.

Entretanto, as notícias do futebol, que ocupam mais de 40% do telejornal das 13h00, deram lugar a um pequeno apontamento de reportagem sobre a cidade sitiada de Alepo, na Síria, onde se podiam ver vídeos, feitos por habitantes sitiados, colocados na Internet, a despedirem-se do mundo, à medida que o som da artilharia se fazia ouvir mais forte sobre o bairro habitacional onde se encontravam.

A mesma besta quadrada que havia aumentado o som do televisor, dirigiu-se, sem delongas, ao aparelho e baixou-lhe o volume.

Qualquer dia sou sexagenário e entristece-me ver este pobre país inundado num lamaçal de corrupção e incubador de gente desprezível, que só lê a Bola, o Rekord, e assiste às degradantes séries, os chamados "reality shows", que as televisões transmitem, desprezando a informação, a cultura, a elevação, a arte, a estética e a qualidade.

Estou-me nas tintas para o desporto rei, para os corruptos dos dirigentes desportivos e para os mexericos que giram à volta dos milhões que eles gerem. Acho que o futebol deveria ocupar um espaço simbólico no horário nobre do noticiário nacional e, para quem quisesse assistir, em detalhe, a tudo o que se passa no seio dessa atividade, bastariam os inúmeros programas desportivos das televisões.

As elites sempre foram perseguidas, apupadas, marginalizadas, até, mas são certamente o último reduto civilizacional e fomentador da elevação de um povo.

É trivial dizermos que temos o povo que merecemos mas, com franqueza, eu sei que muita gente não merece isto, pois, no que a esta "cultura de lixo" respeita, está isenta de culpa.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Ilusionismo



As ilusões são talvez tão inumeráveis como as relações dos homens entre si, ou dos homens com as coisas. E quando a ilusão desaparece, quer dizer, quando nós vemos o ser ou o facto tal como ele existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, complicado em metade pelas saudades do «fantasma» desaparecido, em metade pela surpresa agradável ante o novo, ante os factos reais. E a reposição da clareza e da verdade, muitas vezes, só sucede depois de desnudado o véu bordado de irrealidades que nos impossibilitava de ver com clareza. 

Se existe um fenómeno evidente, trivial, sempre idêntico e de tal natureza que a respeito dele é impossível estarmos enganados, é o amor maternal. É tão impossível imaginar uma mãe destituída de amor maternal como a luz sem calor, como um sol frio, que não seja no sentido da antítese poética.

Ainda há pouco fui comprar um jornal - eu que faz tanto tempo não comprava jornais, apanhava-os ali, acolá, espalhados pelas mesas dos cafés e dessa forma me abeirava das notícias -, sentei-me num banco de jardim sentindo na face a brisa suave da manhã e deleitei os olhos a observar a doçura com que uma mãe brincava com os seus filhos: os beijos e as ternuras que lhes dava, o brilho que se escapulia dos seus olhos e a incondicionalidade daquele amor ali à minha frente. À nossa volta doidivanavam pássaros e as corolas das flores pareciam cálices que exalavam explosões de odores e cores e tudo aquilo me pareceu fazer sentido como se fora um «ensemble» musical reunindo os ingredientes da beleza nas proporções certas.

Recordei que, em tempos, conheci alguém que, na minha licenciosa fantasia, enchia a atmosfera que me circundava de ideais, cujos olhos espalhavam o anseio da grandeza, da beleza, da pureza e da glória, e de tudo o que me fazia acreditar na imortalidade desse amor. Mas essa pessoa não era quem eu julgava ser. Era uma vez mais um fruto das partidas de elfos das minhas perenes ilusões, algo que eu fantasiara, ou desejara que fosse real. 

Hoje dia primaveril lindíssimo, cobertos os pensamentos acerca dela com os mantos da certeza, da realidade, e da consciência aguda da verdade, sinto-me mais conforme comigo mesmo e guardo-me para o dia em que apareça vinda dos meus turvados sonhos, envolta em tules odoríferos, a princesa que se assemelhe em tudo um pouco à minha ilusão; e, por essas alturas, o que ainda sobrar de mim é seu.

O tempo e o amor marcaram-me com as suas garras e ensinaram-me cruelmente o que cada minuto e cada beijo nos roubam em juventude e em frescura. E estou tão certo, como esta manhã soalheira, em que o ar treme ao tocar na água do lago, de que algures, num cantinho escondido, por entre os áureos véus das nuvens, num país distante, numa terra sagrada, aqui perto de mim, ou nalgum lugar naufragado nas brumas do meu desejo, dormita a musa que se assemelha com verdade à felicidade engendrada pela minha ilusão.

Estas linhas escritas no Barreiro, no conforto da minha sala forrada de silêncios, são uma forma de me refugiar na tarde que ai vem; e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de manifestar a insurreição do meu olhar perante estas coisas que, por muito que se afastem, regressam sempre ao entretecido da minha escrita, que é um pouco o cinzel moldado à medida da mão com que vou paulatinamente esculpindo a minha vida. *


*Texto escrito em 2007




quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O Milagre das Rosas



Encontrei a última fotografia conhecida de D. Dinis e de Dona Isabel de Aragão, aqui no registo já sua esposa legítima, que, em virtude de atributos milagrosos e de uma bondade extrema, ficou conhecida para a História como a Rainha Santa Isabel.

O que a infanta espanhola não sabia era que o seu futuro esposo, naturalmente porque não lhe disseram ou porque não teve oportunidade de conhecer melhor a besta, o nosso rex portuga, que ficou registado na História com o cognome de Lavrador - dizem as más línguas que mandou plantar o pinhal de Leiria, cuja madeira foi usada na construção de caravelas e embarcações afins com vista aos descobrimentos - gostava mesmo era de "lavrar em seara alheia" e as pinhas e o madeiro eram a menor das suas preocupações.


O epíteto Lavrador (do étimo: aquele que põe a semente) vem dessa sua faceta sui generis e não dos factos que a História malevolamente lhe imputa. Perguntem ao povo de Amor, aqui no concelho de Leiria, porque é que acentuam a silaba tónica na letra A - Ámor e vivem a irremediável e centenária vergonha de morar numa terra palco de inúmeros adultérios reais...

A espanhola era uma mãos largas, dava esmolas a pobres, indigentes, leprosos e a tudo o que era pessoal do RSI. O rei, além de sovina e adúltero, tinha muito mau feitio, bebia em excesso e metia-se na droga, daí lhe ter perguntado numa manhã de inverno o que é que ela levava no regaço - há muito que ele dava pela falta de pão em casa, sobretudo daquele que ele mais gostava, o com sementes variadas - facilmente se encontra no LIDL, que naquela altura ainda não existia.

Certo dia, vendo a rainha sair com um regaço cheio, desconfiado que podia ser o pão de mistura que faltava de manhã para as torradas, ficou desconfiado e perguntou-lhe:

- Que levais aí no regaço?
E ela respondeu-lhe:
- São rosas, meu senhor.

O rei ficou surpreendido e em tom irónico, com aquela entoação pífia que todos lhe conheciam, questionou:
- Rosas em Janeiro?

Ela abriu o regaço e saíram as mais lindas rosas albardeiras.

E foi este episódio que ficou conhecido como o Milagre das Rosas.

Esta é que é a verdadeira história, não aquela que vem nos manuais escolares. Acreditem se puderem.

Mata de São Pedro de Moel
setembro de 2016

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

The fabulous four


Almada - final dos anos 60



À época, um agregado familiar composto por um casal com quatro filhos, no seio da classe média-alta, com fortes práticas e convicções católicas, era considerado normalíssimo. As famílias numerosas começavam a ser consideradas como tal nos casais com seis e mais filhos. As polémicas que hoje se geram com as chamadas "famílias numerosas", que, na sua ideação obsessivo-compulsiva de fazer meninos, invocando o "feito patriótico" do repovoamento do país, para obterem benesses fiscais, são uma das muitas hipocrisias que medram no tecido social. Todos sabemos que no Portugal de hoje, famílias numerosas só existem no seio de dois tipos sociais: aqueles que, por ignorância, pobreza de espírito, indiferença, egoísmo, obtenção de mais-valias com o rendimento social de inserção, entre outras motivações menos nobres, se reproduzem como coelhos; e, naturalmente, nas famílias ricas, que podem pagar, por cada rebento que geram, propinas de mais de 1500 € em colégios particulares, na sua maioria de índole religiosa, que são sempre os mais bem abençoados e também os mais caros, estadias em campos de férias na Grã-Bretanha, ou na Suíça,  reservados às elites sociais, estudos superiores em universidades estrangeiras bem conceituadas, entre outras mordomias a que só os riquinhos têm acesso. Nascer rico ou nascer pobre, é um desígnio que nos calha em sorte, um fruto aleatório, semelhante ao resultado numérico dos dados que se lançam numa mesa de pano verde. Ninguém escolheu nascer, muito menos com um certa e determinada condição económico-social. A responsabilidade é sempre daqueles que, por uma razão ou outra, decidem trazer muitos filhos ao mundo. Não são poucos os que pensam que é à sociedade que se deve imputar o custo com a educação e a alimentação dos seus filhos e que os impostos, cobrados à população em geral, inclusive aos que decidiram não ter filhos, seja por não poderem, ou por não quererem, devem servir de almofada para as suas, quantas  vezes, imponderadas decisões. Mas o que mais custa é ver famílias milionárias, com rendimentos mensais de milhões, apresentarem-se na comunicação social, no papel de vitimas de uma pretensa discriminação a que se dizem sujeitas, desgostosas com a ingratidão com que são tratadas, apesar das mais-valias humanas que pugnam trazer ao mundo, tudo a bem da nação, constituindo associações para a exigência de benesses fiscais. E tudo isto por causa das suas pulsões, aparentadas com a apetência pela cunicultura, das quais são os únicos responsáveis. Se querem ter muitos filhos, que os sustentem e não me peçam a mim, pagador de impostos, que contribua para educar a sua prole. O que mais não faltam, neste mundo cruel e injusto, é crianças a morrer de fome. Adoptem-nos, minorem-lhes a dor, eduquem-nos, seus hipócritas! Não me façam é a mim pagar pelas vossas histéricas decisões! Benefícios fiscais para famílias numerosas? Homessa! Jamais! Se quiserem, juntem-se à Associação Portuguesa de Cunicultura e ... lutem como coelhos que são!


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Fragmentos das memórias de um puto xarila


Às vezes penso em Almada, a cidade da minha infância e juventude, a urbe onde saboreei os primeiros gostos e desgostos da vida, o Frei Luís de Sousa, o afamado externato onde frequentei o infantário e a primeira classe; e, mais tarde, o ano propedêutico, logo substituído pelo 12º ano, numa das maiores reformas do ensino do meu tempo. Se fechar os olhos e me concentrar, consigo razoavelmente viajar no tempo e vislumbrar um puto vestido com uma bata azul, com um monograma com as letras RJ bordadas no bolso direito, um remoinho teimoso aprestado no cabelo, magrinho, baixote, enfezado, trajando calções justos e com uns caricatos sapatos de atacadores vermelhos nos pés. Esse puto xarila sou eu. Sempre a piscar os olhos, um tique que ainda hoje me habita, e a pestanejar por causa da luz insuportável do sol. Com uma mala de cabedal afivelada às costas, parece que o estou a ver a caminho da escola, acompanhado pelo batuque ritmado produzido pela caixa de madeira, onde guardava os lápis, as canetas, o compasso e as réguas, a bater contra o interior da mala. Usualmente, acertava o passo por essa batida familiar. Vivia-se o glorioso tempo das borrachas de cheiro que, além de servirem para apagar os erros, também espalhavam odores e sabiam a frutos diversos, que se cheiravam e, não raro, também se degustavam.. O tempo das batas obrigatórias e das fisgas fabricadas com elástico de avião, das criadas arregimentadas na província, imaculadamente fardadas, que iam levar os meninos ricos à escola; das crianças que não usavam sapatos, mas possuíam calosidades tão espessas, que faziam inveja aos cascos de muitos equídeos. Uma época em que os ciganos roubavam o lanche aos meninos ricos, os berlindes multicolores, as moedas que lhes conseguissem sacar dos bolsos e os piões com que se faziam habilidades impressionantes - tornei-me um especialista na arte do pião, mais do que no futebol, desporto que nunca dominei. Era essencialmente o protótipo do puto solitário. Fechado no meu pequeno mundo, diferente do não voluntarismo de um autista, criava conscientemente espaços interditos aos outros. Muito por culpa da Enid Blyton, montava casas no cimo da copa das árvores, levava para lá livros, bolachas, uma almofada, lápis e papel para escrever, tudo acessórios capazes de me entreter durante uma tarde inteira. Era o puto xarila voyeur que gostava de observar do alto dos ramos, na segurança da folhagem espessa, tudo o que se passava lá em baixo, com a granitíca certeza de nunca ser visto. E a sensação de poder que isso dava!  O puto xarila que se deleitava a desviar carreiros de formigas com um pauzinho e que observava, com um espanto continuado, a forma como elas conseguiam, em perfeita união de esforços e coordenação, transportar um gafanhoto morto, com várias dezenas de vezes o seu tamanho e peso. Também me lembro de seguir pessoas, escolhidas ao acaso, sem critério, numa qualquer rua da cidade, e anotar a sua descrição física, onde moravam, e, quantas vezes, ter de fugir a sete pés da sua fúria, sempre que era descoberto a armar-me em sombra; furtar smiles e rebuçados no Pão de Açúcar de Almada, até um dia ser apanhado em flagrante e passar pela vergonha de ser resgatado pelo pai, com um puxão de orelhas e uma séria advertência - o pai, que até era amigo pessoal do chefe da polícia!; levar um ou dois despertadores para as sessões de cinema da meia-noite, na saudosa Incrível Almadense, e, a meio da cena mais intensa - geralmente um daqueles filmes de terror série B, mais que rodados, cheios de estalinhos, tipo batata-frita, e cortes - pôr os despertadores a tocar em simultâneo,  provocando o quase desmaio de algumas espetadoras e o riso inevitável dos restantes.

Não têm fim as memórias do puto xarila e elas surgem às camadas, umas vezes em catadupa, outras por efeito de associações fruto do momento. Acabei de contar apenas aquelas que hoje me vieram no imediato à mente, numa espécie de brainstorming benigno, sem peias ou crivo, mas muitas outras, se não a maior parte, estão a marinar na minha mente, entorpecidas, até um dia...Não é verdade, puto xarila?

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Obrigado, mas não é preciso


Hoje de manha quando cheguei à rua, a opacidade da manhã envolveu-me com aquela luz especial, a luz de outono que adoça os contornos e envolve a paisagem em mistério. O céu plúmbeo, ameaçando chuva, e a chilreada inusitada dos passarinhos que pernoitam na copa das árvores, foram os primeiros registos do dia que acabava de começar. No passeio fronteiro ao prédio onde habito, os carros, com os vidros embaciados do orvalho da noite, engalanavam-se de folhas escarlates e amarelas, mas, à medida que a luz se descobria, a quietude começava a soçobrar. Todos o dias, depois de tomar café no sítio do costume, conduzo por uma espécie de avenida, uma ladeira sem bermas, com pouco mais de mil metros, bastante íngreme por sinal, que rapidamente me leva ao centro da cidade; e, não raro, cruzo-me com várias mães que levam os filhos pela mão para a escola. As bermas, como referi, são praticamente inexistentes e os carros, regra geral, transitam a velocidades pouco recomendáveis. No regresso a casa, desta vez a subir, deparo-me com um cenário idêntico: pessoas que, ou por não terem transporte próprio, ou dinheiro para o transporte público, dirigem-se a pé para casa. O caminho é penoso, uma subida bastante inclinada, especialmente para quem já vem cansado de uma jornada de trabalho extenuante, quantas vezes com crianças pela mão. É comum cruzar-me com velhinhos que fazem diariamente o mesmo trajeto e, por incrível que pareça, até já me deparei com pessoas com deficiências físicas. Este cenário não é uma visão inerente à meia estação que nos bateu de mansinho à porta, mas antes, por infelicidade, uma realidade que, de tão corriqueira, já não toca o coração de pedra dos automobilistas que seguem afanosamente no quentinho das suas casinhas de quatro rodas, embalados pelo som do rádio sintonizado na estação preferida. Não sou melhor do que ninguém: sou um ser igualmente egoísta, que pensa primeiro em si e, depois, remotamente nos outros. Enfim, sou feito da mesma massa com que se fabricam os seres imperfeitos. Isto não significa que não tenha coração, que a consciência não me roa, que não questione o direito sublime de viajar no conforto do meu popó, enquanto os menos validos seguem com sacrifício a pé, ao frio, à chuva e à mercê de um condutor menos lesto que os possa passar a ferro. O que fiz para remediar isto? Para aplacar a minha má consciência? Ofereci boleia, por mais de uma vez, a duas senhoras que subiam com crianças pela mão e também a uma velhinha e, sem exceção, todas recusaram a minha oferenda. Não apresentaram justificação para a negação. Limitaram-se a sorrir e a dizer: "obrigado, mas não é preciso". Não as censuro. A misericórdia pelos outros, por vezes, humilha, ofende, confronta-nos com a nossa própria infelicidade; e os tempos são complicados, a criminalidade lateja em cada esquina. Afinal, de boas intenções está o inferno cheio. E quem não lhes diz a eles, transeuntes incautos, que eu não sou o diabo encarnado pessoa?

domingo, 29 de abril de 2012

Old Beach

Fonte: Internet - Praia Velha - São Pedro de Moel
O dia acordou cinéreo, friorento e as bátegas de chuva recomeçaram logo cedo pela manhã. Após o pequeno-almoço, talvez para quebrar a monotonia do recato do lar, do escritório confortável, quente, em ambiente adequado para trabalhar, escrever, ler, a minha escritora, companheira de muitas lides, teve a ideia luminosa de levarmos os portáteis connosco, a fim de trabalharmos num sítio diferente. Já nos meus tempos de estudante universitário, muitas vezes preferia o ambiente ruidoso dos grandes cafés de Lisboa, ou da linha de Cascais, em detrimento do silêncio solene e fúnebre das bibliotecas. Parecia que o facto de mudar de ambiente, trazia um novo alento à parca vontade de enfrentar a aridez das matérias jurídicas. De qualquer forma, a proposta para o dia de hoje agradou-me. A solução revelou-se bastante simples: acomodar os computadores dentro das maletas respetivas, calçar umas sapatilhas confortáveis, vestir roupa prática, não fosse o sol lembrar-se de aparecer e nos apetecer fazer uma caminhada após o almoço, e descer até à garagem para ir buscar o carro.   

Há um café-restaurante em São Pedro de Moel, aberto durante as vinte e quatro horas do dia, com vista para o areal da praia e o mar, chamado "Old Beach", com ligação wireless à Internet, música ao vivo às terças-feiras e aos domingos à noite e que serve refeições completas a qualquer hora do dia ou da noite, tudo ao som de bandas ou boa música ambiente. Não é minha intenção publicitar comercialmente o espaço - nada lucraria com o facto -, até porque o relativo isolamento do lugar, só acessível por transporte particular, garante um certo recato. É, aliás, deste estabelecimento  que estou a escrevinhar estas linhas, ao som de uma música instrumental, de quem não identifico a autoria, mas que mistura agradavelmente os timbres do jazz e da soul music. Na mesa ao lado da minha, um francês e duas francesas, provavelmente turistas acidentais, estão para almoçar. Riem desmesuradamente e falam pelos cotovelos sobre os mais diversos temas, na convicção absoluta de que ninguém, neste pequenote país, estivado por gente inculta, os entende. Comem ameijoas enquanto lambem com consistência os dedos e aposto que nem sonham que, neste preciso instante, entraram como por magia no fiar das palavras que vão correndo ao longo deste texto. O sol, embora timidamente, rompeu as nuvens e agora já apetece dar um passeio pelo areal, sorvendo a brisa que vem do lado do mar. As outras palavras ficam para próximas andanças, já que a escrita, tal como a prática da guitarra, também carece de exercícios que, muitas vezes, não têm necessariamente a ver com a harmonia dos sons. Escrever "just because", de quando em quando, também é bom.


domingo, 22 de abril de 2012

Comboiando p’la Europa




Nos anos oitenta do século passado, as minhas férias de Verão ficaram indelevelmente associadas ao comboio. Foi, para mim e para muitos, a gloriosa época dos inter-rails; das viagens no Sud-Express através da interminável Espanha, rumo a Paris-Austerlitz que, à época, funcionava como uma espécie de interface no mundo dos mochileiros. No topo do País Basco, na fronteira de Irun-Hendaye, dava-se a inevitável troca de comboio, tudo por causa da bitola dos carris franceses que era diferente da que existia na Península Ibérica.

Nós, os mochileiros, com o animo de quem se dispôs a transportar as cangas às costas durante um mês, alguns de viola amolgada na mão, despedíamo-nos do comboio provinciano cor de alumínio, que nos trazia desde Portugal, misturávamo-nos com as gentes emigrantes e corríamos juntos para as composições gaulesas azuis e brancas, muito mais modernas e atraentes. Era assaz curiosa aquela visão matinal tardia: magotes de guedelhudos, trajados de gangas, pulseiras e colares, mochilas e outros penduricalhos, misturando-se com gente de trabalho, metida em fatiotas simples, acompanhada do legendário garrafão, agarrando embrulhos e malões gigantes atados com cordas, todos saltitando numa ampla sintonia de agilidade por entre os carris de ferro. Sentíamo-nos deportados por livre vontade e era aí, nesse preciso instante, que a grande aventura começava verdadeiramente a ganhar corpo. França era já a sensação de «estrangeiro» que a Espanha ainda não transmitira. 

Ainda hoje relembro, com bastante saudade, a inolvidável experiência que é dormir sentado com a cabeça apoiada no ombro de alguém, ou numa almofada de improviso, ou mesmo na prateleira onde se coloca habitualmente a bagagem, rezando para que não entrassem passageiros a meio da noite, a fim de se poder dispor de um banco inteiro para esticar o esqueleto; o barulho característico e ritmado do ferro passando nas junções dos carris; os solavancos das travagens; os apitos lúgubres dos chefes-de-estação, na calada da noite, algures em estações perdidas nos confins dos Alpes; as luzes no interior das cabines da composição, que esmaecem a partir de uma certa hora; os revisores dos bilhetes e os guardas das fronteiras, que não olham a horas para nos acordarem, a princípio com delicadeza, de seguida, se preciso, com alguma energia e os odores humanos que insidiosamente se vão instalando, começando a fazer parte dos nossos quotidianos, naquela que é, doravante, durante um mês, a nossa primeira casa: o comboio.

[Depois de fazer um inter-rail fica-se muito melhor preparado para o seguinte. Apanhar o comboio da noite, mesmo viajando em segunda classe, pode significar duas coisas importantes: por um lado, a poupança em dinheiro de uma dormida em parque de campismo ou pensão, ainda que modesta; por outro, a garantia, quase certa, de que durante grande parte da noite se pode dispor de um banco inteiro para esticar as pernas e, naturalmente, dormir.]

De manhã, lavamo-nos nos compartimentos minúsculos do comboio enquanto sentimos o nosso destino quase à vista. Tudo com uma alegria esfuziante, estampada num rosto vincado de olheiras e cansaços, que não soçobra perante nada, tal o prazer das emoções que nos aguardam e a sede de aventura. Depois de alguns dias na cidade-luz, cada qual tomava rumos diferentes, consoante a ideia que levasse em mente. Umas vezes fui para norte, na direcção da Holanda, da Alemanha e da Escandinávia; noutras ocasiões, fui para o centro da Europa, visitando a Áustria e os países anexos, mas foram as viagens para sul, mormente as visitas à Itália, à ex-Jugoslávia, à Grécia e à Turquia, que mais saudades me deixaram.

Com pouquíssimo dinheiro no bolso, duas ou três mudas de roupa, comida para os primeiros dias, uma tenda o mais leve possível, um saco-cama e, sobretudo, uma enorme motivação e espírito de aventura, passavam-se umas férias inesquecíveis e conhecia-se gente incrível. Cada dia representava uma nova aventura e as oportunidades para pôr em prática os conhecimentos de línguas estrangeiras eram imensas. Tudo o que aprendêramos era pouco, mas chegava, já que os jovens têm uma linguagem de cariz universal.

Faz muito tempo que não utilizo esse meio de transporte que ficou, deste modo tão terno,  ligado permanentemente à minha juventude. Mas cada vez que me sento numa carruagem, num certo momento do percurso, encosto a cabeça ao vidro e olho-me nele de viés, como se fora um espelho. Nessa altura, fecho os olhos e tento transportar-me mais de trinta anos para trás, no alcance exato do pretérito desta saudade. Então, consigo vislumbrar através do vidro polido, num ligeiro assomo, um jovem magro, de cabelo farto, olhos claros e luminosos, cofiando uma barba de poucos pergaminhos, metido a fundo no caminho de um sonho. Nessa altura sorrio.  E é sempre assim. 




quinta-feira, 22 de março de 2012

Amigos da Caneta

Houve um período da minha vida, andaria eu pelos meus catorze ou quinze anos, em que escrevia muitas cartas. Eram sobretudo cartas escritas em língua inglesa, feitas de frases simples e standartizadas. Há muitos anos atrás, muito antes da Internet ser inventada, ou sequer sonhada, existia uma organização internacional chamada "Pen Friends" que oferecia aos seus aderentes a possibilidade de se corresponderem com pessoas de todo o mundo. Creio que ainda hoje, algures lá em casa, numa caixa de sapatos, dentro de uma gaveta, terei guardada a maioria da correspondência que à época troquei com jovens de todos os cantos do mundo. Satisfaziamos as mesmas curiosidades que hoje os novos meios de comunicação nos possibilitam, com a diferença que na altura ansiávamos pela chegada do correio que trazia as almejadas cartas, em envelopes "air mail", vindas dos lugares mais díspares do planeta. Recordo que, para além de ter mantido correspondência com Pen Friends da Europa, também me correspondi com gente do Brasil, da Coreia do Sul, do Japão e do Chile. Trocávamos postais, fotos e, por vezes, "juras de amor" - soube de casos esporádicos de jovens que chegaram inclusive a conhecer-se presencialmente - tudo dentro do enquadramento caracteristíco do florescimento da adolescência. Nunca conheci em carne e osso nenhuma dessas pessoas, apesar das "juras" que por vezes se faziam e dos "apaixonamentos" long distance. A Internet com as suas salas de chat, os blogues e todas as novíssimas formas de comunicação de que actualmente dispomos, plantará um esgar de sorriso na face dos mais novos - se porventura lerem este texto -, gente que não viveu estas realidades dos anos setenta do século passado. Mas uma coisa é certa: não há nada nos dias de hoje, por maior sofisticação que possua, capaz de substituir a alegria de abrir a caixa do correio e vislumbrar uma carta vinda do outro lado do mundo. Uma carta especialmente endereçada a nós.

(escrito em meados do ano 2007)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Macedo da Travessa da Glória



Não há dia que me desloque à Baixa lisboeta, com algum algum tempo livre, que não visite o Macedo da Travessa da Glória. Tanto quanto recordo, há quase quarenta anos que frequento os principais alfarrabistas da cidade, desde os mais finórios, da Rua do Alecrim - e, nesses, era só mesmo para ver os livros e admirar as suas lombadas gravadas a oiro, bem como as gravuras antigas, os mapas e as fotografias de época, pois os preços praticados eram-me interditos -, onde, não raro, encontrava escritores de vulto e nomes sonantes da nossa cultura, passando pelos alfarrábios do Bairro Alto, do Chiado, da Trindade e do Príncipe Real. E se no início o que me movia era a impossibilidade económica de comprar livros novos, restando-me como única opção o livro usado, ou manuseado, como eufemisticamente alguns prosaicos os gostam de apelidar, aquilo que começou como uma falta de alternativa, foi-se paulatinamente transformando num gosto e mais tarde num vício. Mas foram sempre os alfarrabistas modestos, aqueles cujo comércio são os livros manuseados, e não as preciosidades literárias, ou as edições raras e de luxo, que recolheram as minhas preferências. E ainda hoje assim é, pois, mais do que a eventual beleza da capa e da contracapa do livro, que não desprezo, o que me mais me importa é mesmo o conteúdo da obra.

Apesar de ter perdido grande parte das minhas capacidades olfactivas e, com isso, algum do espólio desse repositório de memórias formidável, cada vez que entro na tabanca pombalina do Macedo, reconheço de imediato odores que sempre me foram familiares: a humidade entranhada nas paredes, o bafio mesclado com os cheiros indescritíveis que se desprendem das estantes esconsas, onde livros, que há mais de um século não vêem a luz do sol, jazem amontoados uns sobre os outros. Um ambiente deveras impróprio para quem sofre de algum tipo de alergia ou renite, onde uma amálgama de odores, que se mesclam generosamente com os cheiros das frituras e dos vinhos, das casas de pasto que convivem paredes meias com o sebo do Macedo, entram sem parcimónia pela livraria, criando uma atmosfera olfactiva de tal ordem que, ainda que me vendassem os olhos, quase podia jurar conseguir adivinhar que me encontrava dentro do estabelecimento do alfarrabista da Travessa da Glória.  

O Macedo, tripeiro de gema, há muito radicado em Lisboa, vivendo para os lados da Almirante Reis, mas conservando uma inconfundível pronúncia do norte, é um homem esguio, seco, de rosto encovado e varicoso, chupado por uma vida de cigarros e tacinhas, de cuja boca sobressaem dentes escassos, de um amarelo acastanhado. Não raro, quando se emociona, pois está sempre a opinar sobre tudo e o que era antigo é que era bom, espicha perdigotos, que se lhe depositam no canto da boca, mas dos quais rapidamente se livra, passando a manga da camisola pela boca. O livreiro ainda mantém aquele ar de 'pintas dos anos 50': desafiador, irónico, fadista, amante de ditoches, falador incansável e armado com a sempiterna unharra multiusos do dedo mindinho, com que amiúde coça o interior dos ouvidos, adereço que sempre lhe conheci. Cada vez que me vê, todo ele é uma festa. Mima-me com o epíteto de "doutor" no começo de cada frase. Oiço-lhe as histórias de sempre, que aliás conheço de cor. A viagem ao Brasil, nos anos 60, e as peripécias no Rio de Janeiro com as brasileiras; a sua infância na Ribeira; os banhos no Douro, como os meninos do Anikibobó do Manoel de Oliveira; a vida boa que já teve; as inúmeras amantes que passaram pelo seu leito; a mulher, que é uma santa e tudo lhe tem aturado e desculpado. Julga-se, acima de tudo, um literato, porque vende livros há muitos anos e conhece títulos como ninguém. Faz questão em discutir comigo algumas leituras - diz que já não lê há uns anos porque as cataratas, entretanto, comeram-lhe os olhos - e fica radiante quando se apercebe que eu conheço alguns dos muito livros de que fala. A mulher tem uma venda de peixe no Mercado do Rego, mas só quer saber de telenovelas. O primitivo arrendatário do estabelecimento está cego, internado num lar, e agora é ele que tem de continuar sozinho à frente do negócio. A renda, antiquíssima, felizmente, é simbólica, pois o dinheiro que actualmente ganha mal dá para o tabaco, para umas quantas tacitas e para comer qualquer coisinha. E o prédio, com cerca de trezentos anos, estala de podre. Mas que fazer? Os herdeiros do senhorio recusam-se a fazer obras e já lhe fizeram saber que até iam a Fátima a pé se ele algum dia resolvesse sair dali.

O Macedo cria em mim, esperava ainda ver o meu canudo de senhor doutor, dizia ser eu um jovem diferente dos outros e nunca o consegui convencer do seu erro. Falávamos de ópera e ele trauteava as árias, falávamos do Camilo e do Zola e da enorme fortuna que ele teria se os livros de sebo que tinha em stock fossem libras. E ele ria-se sempre e cofiava o bigode amarelecido, que entretanto estranhamente fez desaparecer, com a ponta da unharra do dedo mindinho.

«Um santo natal para si e para os seus, Sr. Macedo, e obrigado por me aconselhar sempre "boas leituras". "Apareça sempre, doutor, nem que não compre nada, nem que seja para me visitar, pois enquanto nos virmos um ao outro, ainda que poucas vezes por ano, é sinal de que ambos estamos vivos.»



sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O gosto do cheiro a póvora

As lutas continuas desgastam-nos, envelhecem-nos, separam-nos. Prefiro de longe o consenso ao conflito, a concórdia à guerra. E quando discordo em absoluto de alguém, inamovível e inconversável, regra geral, deixo-o falar sozinho. Sempre que possível, evito o conflito, a escalada originada por uma discussão, que, regra geral, conduz à irracionalidade e ao débito de descargas emocionais absurdas, desajustadas e ocas, proferidas apenas com o fito de magoar. Nessa fase, aquilo que parecia ser à partida uma saudável troca de argumentos, um desajuste que se queria ver ajustado, transforma-se numa espiral de agressividade. Não raro, naturalmente por defeito meu, que suspeito tenha a ver com a verbosidade enfática com que defendo certas teses, acontece muitas pessoas sentirem um prazer quase mórbido em me contrariar. Não que a atitude de contra argumentar, a clivagem, seja pouco salutar, ou construtivamente incorrecta. Antes pelo contrário. E não foram raras as vezes em que, à conversa com pessoas muito mais sensatas e lúcidas do que eu, depois de alguma introspecção, me tenha forçado a mudar de pensamentos e atitudes. O cerne da questão é outro. Refiro-me naturalmente à guerrilha em que rapidamente se pode transformar uma troca de argumentos contrários e inconciliáveis. E as tensões são sempre superiores quando as principais linhas de clivagem se situam no plano da moral, ou no âmago das formas primárias de subjectivar que respeitam a cada um de nós. Quando a discussão tem por temática realidades mundanas, as tensões são indubitavelmente mais baixas, pois a capacidade negocial e conciliatória é maior. O que eu rejeito liminarmente é a querela fácil e brejeira e o transbordar agressivo de quem, por recusar ficar na 'mó de baixo', independentemente da justeza das ideias que contradita e apenas porque sente a sua estima maculada por um argumento que julga lhe está a ser imposto, reage com desproporcionalidade. Todos queremos ser inovadores, donos da razão, seres únicos, dotados de uma armadura moral e de uma estrutura de pensamento assertiva. A natureza humana assim nos fez, dessa forma formatada e irrevogável.

Eu sou, sobretudo, um homem de paz, de mimos e de amor, assumidamente lamechas. Acho que vou envelhecer irremediavelmente assim. Gosto do bom humor e da doçura, detesto a contenda e a crispação, e muitas vezes as minhas atitudes de 'fuga', e uma certa insociabilidade, são confundidas com cobardia. Há justamente quem pense que para mantermos íntegra a nossa personalidade, para nos sentirmos valorizados como pessoas, devemos ter sempre pronta na ponta da língua, uma resposta implacável e demolidora, como fora uma espada apta a ser desembainhada, perante um argumento ou uma crítica que nos desagrade. Deixo essa gloriosa tarefa para os fazedores de opinião que ganham a vida participando em debates e contendas. Tenho uma estrutura de pensamento, arquétipos morais, vícios, preconceitos, contradições, tiques, e não sei quantos mais defeitos, com mais de meio século de sedimentação. Admito e agradeço que me mostrem o outro lado do espelho, me façam mudar de opinião, me coloquem num lugar onde a forma como perspectivo as coisas possa ter um olhar diferente e me conduza a conclusões opostas. Não tenho é pachorra para corridinhas para ver quem chega em primeiro lugar, degladiações  frustres, contendas onde a regra é ganhar o que berrar mais alto os seus argumentos e for capaz de colocar a voz duas oitavas acima. Em troca dessa consciente abdicação, aceito para a minha vida um acrescento de solidão, uma sociabilidade mitigada e uma maneira cada vez mais selectiva na forma como escolho aqueles com quem interajo no tempo e no espaço, aquele que sobra depois de o usufruir comigo e com aqueles que mais admiro e mais amo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

HSAC - Bloco de Cirurgia 6 - cama 11

Muito mais do que um mero gesto de cortesia que, desde pequenos, nos é apresentado como fazendo parte da 'boa educação', agradecer aquilo que a vida nos dá torna mais fluída a energia que existe no interior de nós mesmos. E este sentimento de apreciação grata relativamente aos benefícios recebidos é uma expressão da alma. Agradecer, sem ter de revestir necessariamente uma atitude de cariz religioso, é estar atento ao milagre que representa viver com saúde, energia e boa disposição. É dar graças à sorte, à felicidade que nos podem transmitir as pequenas coisas boas que nos vão sucedendo; e, sobretudo, consciencializar o quão relativa pode ser a nossa (pequena) dor face a sofrimentos alheios bastante mais significativos. Há frases, pensamentos recorrentes, que já nos parecem gastos, tanto o uso que lhes damos, mas que não perdem, ainda assim, actualidade. É verdade que não existe nada melhor do que a perda de algo valioso, que no dia-a-dia tomamos por trivial, para nos fazer percepcionar com humildade a importância que revestem para nós certas coisas. Faltando-nos a saúde, sentindo-nos invadidos pela dor, à  mercê da ajuda dos outros para nos locomovermos, fica comprometida a nossa autonomia e a nossa liberdade -  dois dos dos valores que mais prezo. E em virtude de certos dramas que vivi neste mais de meio século de existência - alguns deles, aliás, continuam, ainda hoje, a ser territórios de silêncio - compreendi finalmente que só a vida vivida no instante presente, sem desperdiçar uma gota que seja do seu precioso líquido, me pode confortar e fazer-me alhear da questão da morte. Quando ela chegar é a voragem da inevitabilidade que viajou até mim, mas até isso acontecer, quero-me feliz e fazer felizes os que me são queridos.

Num hospital público central, na enfermaria de um bloco cirúrgico, ganhamos todos um estatuto de igualdade. É uma espécie de democracia imposta por um desígnio comum. Não há doentes com primazia face aos demais, nem relevam os títulos académicos ou os meios de fortuna de cada um. Todos somos pacientes a aguardar uma cirurgia ou a recuperar de uma cirurgia. E, com excepção dos poucos que não abdicam de usar o seu pijama pessoal, a maioria usa o tradicional pijama às riscas azul claro, one size fits all, com a sigla do hospital bordada no bolso direito da camisa. Uma vez que a lavandaria não consegue dar vazão à quantidade de pijamas que a todo o instante são trocados, já que a maioria dos doentes estão entubados para receberem soros e medicamentos, e com drenos que os sujam de sangue e outros fluidos corporais, não existe uma grande preocupação em atribuir aos internados uma roupa interior à medida da sua estatura, o que é de algum modo compreensível. As trocas por números mais concordantes fazem-se de seguida, a pedido dos interessados, caso existam medidas disponíveis. Somos todos, como na célebre canção do Zappa, 'pijama people'; e, como tal, sentimos esse espécie de estigma pairar sobre nós. Mesmo em época de crise económica e fortíssimas restrições orçamentais, felizmente não encontrei menos amor e dedicação por parte do pessoal auxiliar e das equipas de enfermagem. Os médicos, uma classe profissional endeusada ao longo dos tempos, face à condição de eterno elo fraco, nessa relação desajustada, que representa o doente  -  por vezes, o paciente quase sente a obrigação de mendigar ajuda para a sua enfermidade - vão cumprindo com zelo as suas tarefas técnicas, mas longe de se envolverem emocionalmente com os pacientes. Faz parte da imagem de 'superioridade natural' que fazem jus denotar, essa postura algo distante, por vezes, até, com laivos de arrogância [mas, diga-se com justiça, nem todos são assim e as generalizações são sempre perigosas]. No entanto, a minha apreciação geral é francamente positiva no que concerne ao acolhimento que me foi ofertado no HSAC. Daí a minha extensa reflexão no parágrafo inicial e a certeza de que, ainda assim, considero-me um privilegiado face a tanta dor que presenciei. Que a boa sorte guarde todos os doentes com quem convivi, durante este curto internamento, e que deixei para trás, alguns já sem esperança alguma no olhar; outros, tal como eu, menos mal. Bem hajam todos. 

sábado, 18 de junho de 2011

O Alfarrabista

Entra-se por uma larga portada de madeira em tons verdete, cravada com rebites ferrugentos, mesclados de laranja e negro, que só abre com um veemente empurrão, que faz soar uma sineta doirada de um tinido frouxo; e por onde quer que a vista avance, divisam-se livros, montanhas deles, posterizados em estantes gigantescas, simetricamente dispostos, como velhas fragatas ancoradas no último porto, guardião de uma quietude de paz, imorredoura de silêncios. O odor carregado a acre que adeja o antro, torna-se mais intenso à medida que as narinas detectam as prateleiras mais esconsas, onde repousam os alfarrábios e as antigualhas que faz muito tempo perderam a afoiteza de se deixarem manusear. Os acordes de 'Claire de Lune' de Debussy, quase em surdina, conferem a sobriedade que o sacro lugar almeja. Por detrás de um balcão, que mais parece um féretro tisnado de negro azeviche, está o alfarrabista: a tez esquinada, a cabeça cabisbaixa, quase calva, luzindo intensamente por entre a escassa cã. Veste uma camisa de popelina esbranquiçada, que mais parece a vela de um navio; e, aperrado ao cesto da gávea do colarinho, uma gravata de nó eterno, arroxeada, acaba abruptamente, pouco abaixo da zona do umbigo. Nas suas longas mãos de esterlina, lídimas como um papiro, move-se com desenvoltura uma esferográfica comum que rabisca algo que me suscita invulgar curiosidade. O vendedor de alfarrábios, finalmente erguendo a cabeça, como um grande vaso que se retira de um poço, deixa cair uns óculos ovais embaciados, encavalitados no terminal de um nariz adunco; e, esboçando um sorriso quase glicérico, estende  um manual de ornitologia de lombada carmesim a uma jovem com ar de estudante afincada.

Os meus olhos, a principio ludibriados pela luz espúria, pousam numa estante dedicada aos temas de grave questiúncula: os intimoratos ensaios de Filosofia. Deixei para trás a 'Utopia' de Thomás Morus, o 'Elogio da Loucura' de Erasmo, o 'Organon' de Aristóteles, ou a 'A República' em três volumes de Platão, tudo obras que já lera por dever de estudante, para me debruçar nos ensaios do meu pensador preferido do século XX: Bertrand Russel. A clareza e utilidade imediata das suas ideias e, sobretudo, o incisivo poder de ortografar, de uma forma serena, sistemática e bem enquadrada, uma linha coerente de pensamento, sempre acolheram a minha dilecta atenção. Russel foi um pensador do mundo; que sempre encarou como um todo.

Sem pressas, escolhido o livro de Russel, paguei e saí para a rua com ele debaixo do braço. Lá fora esperava-me um sol flavo e um dia de esplendor; e, se por sortilégio do acaso, me perguntassem onde é que eu tinha estado o tempo todo nessa linda manhã  primaveril de Lisboa, responderia que tinha andado a explorar as margens da vida, entretido nas caves de mim, cada vez mais convencido que a vida não é para ser vivida dentro dos limites. Quem sonha a dormir sabe que, de manhã, ao acordar, tudo era uma ilusão, mas os que sonham de olhos abertos acham que o estofo do futuro será feito desses sonhos. Eu quero acreditar nisso, assim como estou convencido que o Paraíso, a existir, deve ser parecido com um alfarrábio.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Papadoc - ou o tempo da má língua

Nos meus tempos de universitário, à data que a conheci, ainda estudante do 3º ano da licenciatura em Direito, na FDLisboa, era uma rapariga a quem chamavam malevolamente a 'Papadoc'. Os crimes alegadamente cometidos pela Papadoc universitária, a jurista do amor, nada têm a ver com as barbaridades perpetuadas pelo médico ditador, que governou nos anos 60 do século passado o Haiti e a quem chamavam carinhosamente Papa Doc. Reza a história que, enquanto clínico, o João Semana haitiano assistia gratuitamente as populações pobres; mas, mal chegado ao poder, revelou-se um ditador sanguinário, capaz de esmagar todos os que ousaram fazer-lhe oposição. Mas esta senhora, que hoje me inspira a prosa, talvez por a ter encontrado recentemente num Centro Comercial, cujo nome verdadeiro não vou divulgar, é hoje uma distinta cinquentenária, mãe de filhos, titular do cargo de promotora do Ministério Público, algures numa comarca deste país. Dizem as más línguas, facto por ela nunca desmentido, que alegadamente terá feito as cadeiras mais difíceis do curso na 'horizontal' - muitas vezes também na 'vertical' e em outras posições indizíveis, honra lhe seja feita. Essa postura assumida de jurista do amor, concubina de mestres e doutores, presenciada por inúmeros alunos, entre os quais eu me incluo, uma vez que a distinta foi minha colega de turma em dois anos consecutivos, valeu-lhe o epíteto de ‘Papadoc’. Tanto quanto se sabe, por gosto ou necessidade, a estudante só 'papava' doutores, daí o epíteto, mas também alguns mestres, diga-se em abonos destes, mercando o seu cobiçado corpo em troca de uma licenciatura feita à velocidade da luz. A autonomia universitária, uma bela desculpa para impedir sindicâncias, mas, sobretudo, a cumplicidade no silêncio de alunos, professores e funcionários da Faculdade, fez com que nunca ninguém fosse responsabilizado. Os seus deméritos eram comentados à boca cheia nos corredores, nas bibliotecas e nas salas de convívio, mas a maioria das vezes era um coro de vozes de inveja - de um lado a brigada masculina, a que se juntava, do outro, o ressabiamento e a indignação das fêmeas universitárias.

Cada vez que a deusa do amor entrava na biblioteca principal, geralmente ao fim da tarde, àquela hora cheia como um ovo de estudanteca, um sussurro discreto espalhava-se pela sala ampla, acompanhando a sua entrada triunfal no templo do saber livreiro. Sempre de cabeça levantada, os seios fartos mal contidos num corpete de decote generoso e um sorriso luminoso e triunfal a pairar-lhe na face, a ‘Papadoc’, Veni in tempore, anunciava-se e impunha a sua presença.

Penso que tudo o que se passava a divertia imenso. Estou certo, aliás, que endoidecia de prazer ao aperceber-se do quanto era odiada, desejada e invejada. Esse misto de sentimentos aumentava a sua popularidade, alimentava o ego extraordinário que possuía e tudo isso fez dela um mito. Dos actos em privado, entre a jurista do amor e as pessoas que lhe aprouvesse, ninguém é visto nem achado; o mesmo não se diga das inúmeras vezes em que foi apanhada em flagrantes, a horas tardias, pelas gordas funcionárias de bata cinzento-rato, nas catacumbas da Faculdade – as salas mais recônditas e escabrosas, reservadas aos juristas dos anos pioneiros, segundo a lógica feroz, à época vigente na Faculdade, que só ganhavam o merecimento de discentes de primeira categoria a partir do 4º ano; altura em que podiam ocupar as salas dos pisos cimeiros, com janelas amplas para a rua.

Recordo com saudade os tempos da Faculdade e já sei que quem ler esta mini crónica vai achar que o prosador virou língua de trapos, escolhendo por temática assuntos de alcova e lapa caprina, mas o relato revelou-se um apelo irresistível.

A Papadoc, que eu vi e cumprimentei, mal-grado os seus cinquenta e alguns anos, bem casada e mãe de filhos já crescidos, ainda conservava a beleza de outrora, a áurea de cristal, os mesmos olhos azuis profundos a comporem-lhe um sorriso malicioso e  um corpo invejável. Não me admira nada que, onde quer que passe, ainda que continue a despoletar o ódio do corpo feminino e o desfraldado de línguas do corpo masculino. Se me dissessem que, no tribunal, todos os criminosos colocados perante a insigne magistrada gritam: 'prenda-me!' 'prenda-me', tal não me colheria de surpresa.

Longa vida à ‘Papadoc’, que é o que eu mais lhe desejo e que continue a arrasar por muitos e bons anos.

domingo, 1 de maio de 2011

O 1º de Maio em Leiria

Manfestação organizada pela CGTP

Todos os anos, no dia 1 de Maio, comemora-se, em todo o mundo democrático, o Dia do Trabalhador. As origens do Dia do Trabalhador não são muito recentes. A história deste dia remonta ao séc. XIX. Nessa época, os operários e os trabalhadores em geral, chegavam a trabalhar entre 12 e 18 horas por dia, com prejuízo da sua saúde e do tempo dedicado ao lazer e à família; e as crianças pobres não tinham quaisquer direitos ou protecção, trabalhando por igual ao lado dos adultos. Já há algum tempo que os reformadores sociais defendiam que o ideal era dividir o dia em três períodos: 8 horas para trabalhar, 8 horas para dormir e 8 horas para o resto. Em Portugal, devido ao facto de ter havido uma ditadura durante muito tempo, só a partir de Maio de 1974 é que se passou a comemorar publicamente o Primeiro de Maio. E só a partir de Maio de 1996 é que os trabalhadores portugueses passaram a trabalhar 8 horas por dia. Hoje em dia, com o retorno dos infames ideais keynesianos e o modelo de sociedade capitalista, no que ela tem de mais selvático, desumano e anti-social, a ganhar terreno, receio que as conquistas paulatinamente conseguidas desde o século XIX até ao presente, venham a conhecer uma regressão sem precedentes. Se a História se move por ciclos, como eu a entendo, chegará o momento em que só uma nova revolução porá cobro a este estado de coisas. Pena é que a dita já não seja no meu tempo.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sexual Exploited Children: a Solução Final

Serra da Arrábida, Abril de 2011



 Rhymes of  Lost Innocense

Rock a bye baby
in your own room,
you live in a house
that feels like a tomb,
 you cower in the corner
 you stare at your bed,
 tears on your teddy,
 you wish you were dead.
Dead.

 Hush litle baby,
don't say a word,
Does Momma know what's going on?
Maybe she's not sure.
 Pappa plays his little games
 and leaves you there confused.
You love him and you hate him
as you go on feeling used.
Abused.

Georgie Porgie
Pudding and pie
kissed the girls an made them cry,
 touched the girls
 I don't know why.
 Why?

 Jack be nimble,
 Jack be quick
 how it makes your stomach sick.
Not a woman
but a child,
simple innocent defiled.
Child defiled.

 Ring a ring of roses,
 a pocket full of fears,
 wounded bruised emotions
 through the countless years.
 Silence is not golden,
 tell your story well.
 Share it to defeat it
 and journey back from hell.
 Tell.

 Renita Boyle


Uma das minhas leituras do momento é um livro impressionante, na sua versão original em inglês, 'Sexually Exploited Children' - desconheço se existe alguma tradução para a nossa língua -, escrito por Phyllis Kilbourn e Marjorie McDermid, duas pessoas intimamente ligadas ao fenómeno, pertencentes à Associação de matiz católica, 'Rainbows Hope', que se dedica maioritariamente à denúncia e ajuda de crianças vítimas de abusos sexuais. O livro, como o próprio nome indica, trata da tragédia de mais de um milhão de crianças forçadas todos os anos à prostituição, estimando-se que mais de dez milhões de crianças em todo o mundo sejam vítimas da indústria do sexo. Desde o incesto, ao rapto, ao tráfico, à venda das chamadas 'crianças noivas', à mutilação genital, à pornografia, à escravatura e à sujeição a doenças infecto-contagiosas, de tudo as crianças inocentes são vítimas. E este negócio, apesar do incremento dos esforços das Nações Unidas e das ONGs, tem vindo a aumentar em cada ano que passa. A Tailândia, a Índia, o Bangladesh, as Filipinas, o Laos, o Cambodja, o Vietname, o Sri Lanka e a China, situados no sudoeste asiático, bem como a Colômbia e o Brasil, na América do sul, são os principais países fornecedores da matéria prima para este chorudo negócio. Pelos motivos mais variados, estejam eles ligados a factores de pobreza extrema, tradições culturais, corrupção, ou desrespeito absoluto pelos Direitos Fundamentais das Crianças, é facto que, sobretudo nestes países, a proporção de crianças abusadas, vendidas e obrigadas a prostituírem-se em bordéis, é assustadora.

Hoje, o turismo sexual - sem procura não existe oferta - é, talvez, o principal instigador do fenómeno. Calcula-se que cerca de 700 mil ocidentais, sobretudo homens, viajem todos os anos para um destes países para terem sexo com crianças, uma vez que nos seus países de origem as leis são muito mais duras, as autoridades mais atentas e o estigmatismo social para com os pedófilos extremamente severo. A Pedofilia, cujo étimo vem do grego e quer dizer literalmente 'amor pelas crianças', tem hoje um significado totalmente diferente. Trata-se de uma perversão sexual na qual a atracção sexual de um indivíduo adulto ou adolescente está dirigida primariamente para crianças pré-púberes. É encarada pela psiquiatria como uma patologia, um desvio sexual e classificada como uma desordem mental e de personalidade do adulto; mas face à consciência da ilicitude do acto e à possibilidade de escolher entre o praticar ou não, é severamente punida pela lei penal da maioria dos países, onde é igualmente considerada um crime público - que não carece de queixa, ou independente de queixa. Nos países acima descritos, onde a corrupção é transversal a toda a sociedade e em que na maioria das vezes os governantes têm lucros chorudos provenientes da exploração sexual, é fácil a impunidade. 

Há na actualidade um debate aceso sobre o fenómeno da pedofilia e a hipótese da castração química dos prevaricadores tem sido aventada nos debates parlamentares de alguns países. A tese pacificamente acolhida tem sido a de que a concordância do pedófilo é sempre necessária e fundamental. Uma vez mais, mal-grado a minha formação jurídica e as injecções maciças de Direitos Fundamentais e da Personalidade que tive de estudar e engolir, não concordo com a desproporcionada protecção e garantia dada aos condenados, face aos direitos das vítimas, a que se assiste na maioria das legislações penais das sociedades ocidentais. Se a maioria dos cidadãos trabalha, paga os seus impostos, vive segundo as margens e os balizamentos sociais e obedece aos códigos de ética social e legal aceites, de forma pacífica, tem o legítimo direito de ver a protecção da sua vida e dos seus bens primariamente reconhecidos. O prémio justo para com aqueles que vivem dentro das margens da lei, que não cometem crimes e que pagam o seu tributo social através dos impostos e das taxas, seria a existência de uma legislação penal pouco branda para com os criminosos e verdadeiramente desencorajadora da prática de crimes. No caso dos pedófilos reincidentes, a castração química deveria ser sempre uma medida penal acessória do cumprimento de uma pena de prisão efectiva, sem carecer do consentimento prévio do prevaricador. Enquanto não tratarmos os criminosos como criminosos, enquanto não nos decidirmos a premiar os cumpridores e punir eficazmente os faltosos, caminharemos paulatinamente, mas de forma eficaz, para uma sociedade laça, decadente, fraca, que soçobrará inevitavelmente face à sua própria inércia.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Dia do Motociclista

BMW 1600 6 cilindros - Não a comprei porque só tinham em cinza metalizado, é que eu com as cores sou bué de esquisito



À entrada do recinto, uma máquina emblemática
Os motociclistas começam a chegar. Daqui a nada serão mais de 35000
Durante toda a manhã e até ao início da tarde, chegavam motas aos milhares!
A vespinha da Barbie
Entretanto chegou o Ken na sua vespa branca
Uma mota transformada em carro funerário?
Minha mãe, tantas motas juntas!
Aos poucos, a Praça da Canção, onde cabem vários campos de futebol, ia enchendo
Os meus colegas arrumadores de motas
Tínhamos de arranjar lugar para todos os que iam chegando
A Yamaha Diversion 900 ( ao centro) do padre Zé Manel era a rainha da festa
Eu tenho mais de cinquenta anos, sou uma BMW 650 e estou aqui para as curvas.
Desculpem, tenho de ir para casa mais cedo. Alguém me diz como posso sair com a minha mota? Olha, chama um helicóptero.
Fónix! Mesmo com uma mini espada espetada na testa e cheio de dores de cabeça, obrigam-me a fazer exibições para estes insanos motards!
Ainda não percebi porque é que toda a gente diz que  me acha parecido com o branquinho...
Vá lá, porta-te bem se não não comes as favecas
Olha. Vamos carregar sobre estes motards todos? Que saudades de uma boa carga! Aí, Alentejo, Catarina Eufémia! São tempos que não voltam mais.
Toca a acordar que já é de dia! Abre a pestana, ó motard!
Mãe. Quando eu for grande posso ser motard?
Ai, um bicho!
A iguana motard
Ó meu. Vê lá se ainda cabe aí mais algum emblema.
Montar para viver, seu ordinário?!

Bem, vou mesmo comer a cobra.
O padre Zé Manel ao centro
O padre Zé Manel ao centro, ladeado por outros sacerdotes
Um GNR vaidosão
Ó motard que passas , existe algum (G)rande (N)inhada de (R)atos mais belo do que eu?
Os gloriosos malucos das máquinas voadoras não faltaram
Que loira motard mais boazona!
Fónix! Afinal...havia outra!
Eu escolho o da Aprilia, claro!
Ó fitinhas, já tinhas visto alguma vez tantas motas juntas?
O padre Zé Manuel a montar na garupa da sua Yamaha, pronto a abençoar toda a gente
Padre Zé Manel, uma lenda viva
E, finalmente, o amor acontece
Coube este ano ao Mototurismo do Centro, do qual orgulhosamente faço parte, a organização do Dia do Motociclista, evento que decorreu no terreiro da Praça da Canção, em Coimbra. O culto religioso, como já vem sucedendo há alguns anos, presidido, pelo Padre Zé Fernando, motard convicto e já uma lenda nos meandros do motociclismo nacional, culminou com a bênção das motas, dos capacetes e dos motociclistas, no que foi o clímax da celebração do culto. O Padre Zé Fernando, apesar de bastante debilitado face ao tumor maligno que lhe tem consumido as energias e a vida, lançou sábado, dia 16 de Abril, a sua autobiografia; e, no Domingo, após a celebração da Eucaristia, ainda arranjou forças para, de pé, na sua Yamaha 900 Diversion, conduzida por um companheiro, benzer os motociclistas presentes, que erguiam as mãos ao alto numa quase histeria colectiva. O Padre Fernando, constitui um exemplo para todos nós e as suas palavras uma fonte de inspiração.

À parte o falecimento de um companheiro, que se dirigia para Coimbra (estava no local errado, à hora errada), oriundo de Sesimbra, na zona de Pombal, devido à queda repentina de um cabo de alta tensão, que o fez cair da mota e perder a vida, o evento decorreu sem outros incidentes dignos de registo. Uma vez mais, saliento uma especificidade única, difícil de encontrar noutro género de agremiações, que é o companheirismo inigualável, a cumplicidade e a sensação de pertença a uma 'tribo' que nos diferencia dos demais. Gostamos de andar de mota, gostamos de motas, e, mais não fora por isso, gostamos mais uns dos outros. Que os sortilégios da sorte nos abençoem e nos garantam prazer e boas curvas. E como diria alguém, numa frase gasta pelo uso, cuja origem se perdeu na noite dos tempos... - : 'Andar de mota é uma arte. Cair, faz parte'.