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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O Síndrome de Estocolmo




(Stockholmssyndromet em sueco) é o nome comummente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida há um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor.
Apesar do termo ser vastamente utilizado por leigos, a Síndrome de Estocolmo não consta entre as patologias psiquiátricas listadas no DSM (catálogo das doenças psiquiátricas), havendo ainda poucas publicações científicas sobre o tema. Nesse cenário, alguns especialistas preferem tratar a pretendida síndrome como um "mito urbano", afirmando não haver base empírica suficiente e uniforme para classificá-la como um distúrbio da mente enquanto tal.
Acontece que, por mais do que evidente, conheço algumas pessoas sofrendo deste síndrome, parente bastante próximo do masoquismo...



sábado, 28 de maio de 2016

Consenso e Conflito

As lutas contínuas desgastam-nos, envelhecem-nos, separam-nos. Prefiro de longe o consenso ao conflito, a concórdia à guerra. E quando discordo em absoluto de alguém, inamovível e inconversável, regra geral, deixo-o falar sozinho. Evito pessoas inconciliáveis, que nunca dão o braço a torcer. Sempre que possível, evito o conflito, a escalada originada por uma discussão, que, não raro, descamba na irracionalidade e no débito de descargas emocionais absurdas, desajustadas e ocas, proferidas apenas com o fito de magoar.

Nessa fase, aquilo que parecia ser à partida uma saudável troca de argumentos, um desajuste que se queria ver ajustado, transforma-se numa espiral de agressividade. Naturalmente por defeito meu, que suspeito tenha a ver com a verbosidade enfática com que defendo certas teses, acontece que muitas pessoas sentem um prazer quase mórbido em me contrariar. Não que a atitude de contra argumentar, a clivagem, seja pouco salutar, ou construtivamente incorreta. Antes pelo contrário. E não foram raras as vezes em que, à conversa com pessoas muito mais sensatas e lúcidas do que eu, depois de alguma introspeção, me tenha forçado a mudar de pensamentos e atitudes. O cerne da questão é outro.

Refiro-me naturalmente à guerrilha em que rapidamente se pode transformar uma troca de argumentos contrários e inconciliáveis. E as tensões são sempre superiores quando as principais linhas de clivagem se situam no plano da moral, ou no âmago das formas primárias de subjetivar que respeitam a cada um de nós.

Quando a discussão tem por temáticas realidades mundanas, as tensões são indubitavelmente mais baixas, pois a capacidade negocial e conciliatória é maior. O que eu rejeito liminarmente é a querela fácil e brejeira e o transbordar agressivo de quem, por recusar ficar na 'mó de baixo', independentemente da justeza das ideias que contradita e apenas porque sente a sua estima maculada por um argumento que julga lhe está a ser imposto, reage com desproporcionalidade.

Todos queremos ser inovadores, donos da razão, seres únicos, dotados de uma armadura moral e de uma estrutura de pensamento assertiva. A natureza humana assim nos fez, dessa maneira formatada e irrevogável.

Eu sou, sobretudo, um homem de paz, de mimos e de amor, assumidamente lamechas, embora tenha um feitio assaz complicado. Sou temperamental e agridoce: tanto fervo em pouca água e descampo, como caio na lisura. Acho que vou envelhecer irremediavelmente assim.
Gosto do bom humor e da doçura. Detesto a contenda e a crispação; e muitas vezes as minhas atitudes de 'fuga', e uma certa não sociabilidade, são confundidas com cobardia.

Há justamente quem pense que para mantermos íntegra a nossa personalidade, para nos sentirmos valorizados como pessoas, devemos ter sempre pronta na ponta da língua, uma resposta implacável e demolidora, como fora uma espada apta a ser desembainhada, perante um argumento ou uma crítica que nos desagrade.

Deixo essa gloriosa tarefa para os fazedores de opinião que ganham a vida participando em debates e contendas. Tenho uma estrutura de pensamento, arquétipos morais, vícios, preconceitos, contradições, tiques, e não sei quantos mais defeitos, com mais de meio século de sedimentação. Admito e agradeço que me mostrem o outro lado do espelho, me façam mudar de opinião, me coloquem num lugar onde a forma como perspetivo as coisas suporte um olhar diferente e me conduza a conclusões opostas. Não tenho é pachorra para corridinhas para ver quem chega em primeiro lugar, digladiações frustres, contendas onde a regra é ganhar o que berrar mais alto os seus argumentos e for capaz de colocar a voz duas oitavas acima.

Em troca desta consciente abdicação, aceito para a minha vida um acrescento de solidão, uma sociabilidade mitigada e uma seletividade cada vez maior na forma como escolho aqueles com quem interajo no tempo e no espaço - aquele que resta depois do trabalho, das minhas leituras, da minha escrita, da minha música, dos meus pensamentos. Depois dos meus tão queridos desertos de solidão, viro-me naturalmente para aqueles com quem tenho empatias, os que admiro e os que amo.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Em tua memória, Paula C.


Hoje, dez anos volvidos após a sua morte, recordo-me da Paula C., uma amiga de infância que escolheu abreviar a vida, porque ela há muito lhe parecia um fardo insuportável. Se fechar os olhos, consigo vê-la no pátio do Liceu de Almada, nos finais anos 70, princípio dos anos 80: o cabelo cortado à Malvina, aquela da novela «O Casarão», as mãos sempre enfiadas nos bolsos estreitos de umas Levis ruças, uma camisa justa com folhos nos punhos e o eterno cigarro aperrado no canto dos lábios.

Uma situação tremenda: um ser que, muitos anos antes de morrer – de facto suicidou-se – há muito decidira alhear-se da própria vida e começara a agir como se nada mais tivesse realmente importância. Vivia numa passividade extrema perante tudo e tendia para os excessos, sem cuidar de refletir nas consequências. Essas, pareciam-lhe indiferentes, risíveis até. Chegou a um estado em que cessou de se projetar no futuro e apenas o presente contava. A sua ligação à existência parecia-lhe tempo inútil, tempo a mais. A vida era para ser vivida à velocidade de um foguete. E as frustrações da vida, com as quais ela nunca conseguiu lidar, sublimava-as sempre com excessos, compensações desnorteadas, inconsequentes, eternas fontes de sofrimento posterior.
Ainda hoje tenho uma certa dificuldade em incutir no pensamento, a certeza de que a Paula se precipitou para a morte, atirando-se de um oitavo andar e nunca mais a vou ver. Nós, os amigos, nem tivemos tempo para nos despedirmos dela, tal a pressa que ela teve em se despedir da vida.
Que tão fortes motivos pode ter um ser que renuncia propositadamente à vida, numa idade ainda relativamente jovem, antes de chegada a inevitável hora? É um mistério total que encerra razões que a minha razão desconhece.
Não lhe conhecia doenças crónicas, mortais, ou enfermidades que justificassem tal atitude. Apenas uma angústia profunda e uma inadaptação constante aos ritos sociais ditos "normais", faziam-na viver num drama interior que constantemente a sobressaltava. Foi doença mental, disseram os entendidos nestes assuntos. Eu digo que ela morreu de tristeza.
Muitas vezes encontrei-a, quer durante os tempos do Liceu, quer mais tarde na Universidade, afundada em desesperos (fomos colegas desde o liceu até à licenciatura). Nem o seu casamento recente, a atual estabilidade laboral (era chefe de divisão num Ministério - quadro superior da função pública - e gozava de alguma folga económica), pelos vistos, lhe trouxeram paz ao seu conturbado espírito.
A braços com os meus próprios dramas e problemas pessoais, hoje assumo que a ameaça do ódio à vida, bem como a ancilose da capacidade de nos amarmos, são conjuras que se podem urdir em qualquer momento e virar-se contra nós. E para além da obscuridade de histórias fragmentadas que me alcançaram, sobre os motivos que a levaram a tomar essa irrevogável atitude, ainda me custa aceitá-las como razões suficientes.
Que lhe diria eu se tivesse podido? Eu que também conheço os silêncios do vazio e a eterna espera da luz? Que poderia eu dizer-lhe, caso fosse a tempo de lhe segurar um braço? Que poderia eu dizer-lhe sem a magoar, sem lhe dar a impressão que não a queria compreender? Sem os ares de quem quer pregar a moral da verdade e é o arauto da felicidade? Dir-lhe-ia, talvez, para tentar manter a esperança e descortinar novos rumos para a felicidade, pois eles efetivamente existem. Mas a obstinação doentia dos suicidas, cedo, ou tarde, acaba por prevalecer. O mal é a fixação apoderar-se deles. A ideação toldar-lhes a mente. Depois só há uma questão: o tempo e o modo.
O desaparecimento da Paula, sempre que o recordo, transformou por completo a minha consciência acerca da morte. Revelou-me tudo o que havia de falso na relação com a minha própria existência e com a minha própria morte. Mudei definitivamente de ideias no que diz respeito a considerar que a morte não tem nada a ver com a vida, que não nos diz nada, que não existe ligação possível entre uma e outra, a menos que nos iludamos. Conseguiu libertar-me dessa absurda convicção de que a morte não tinha nada a ver com a vida, que não representava nada para mim. Pela primeira vez, senti com extrema agudeza, quão ténue, frágil e efémero é o sopro de vida, que toca cada um de nós em cada dia que passa.
RIP, Paula C., hoje que passaram dez anos sobre o dia da tua morte, relembro o fim que tu própria escolheste para ti: um salto em forma de anjo, às primeiras luzências da manhã, da varanda do oitavo andar onde moravas, na direção da calçada. És, desde há algum tempo, mais uma estrela no céu.




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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A deceção



Dececionar é um verbo transitivo e pronominal e significa, grosso modo, a acção de causar, ou sentir, frustração ou tristeza quando algo esperado não acontece, ou quando alguém não corresponde ao que (dele/a) se idealizava. Por isso dizemos amiúde que certa pessoa nos dececionou, ou nos desapontou.

Eu sou uma vítima perene das deceções, seja por esperar demasiado dos outros, ou por ser naturalmente exigente com a solidez do caráter. Aceito, nos outros, mas muito menos em mim, os erros e as fraquezas, pois as considero irremediavelmente humanas. Mas a cobardia, a falta de frontalidade, o desvaloro do compromisso e da palavra dada, bem como a mentira viscosa, causam-me repulsas quase impossíveis de digerir.

Não acredito em santidades e julgo, inclusive, que quem almeja tais virtudes vindas dos outros, padece de uma vasta ingenuidade. Muito menos me vejo como um ser integralmente moral, isento de comportamentos censuráveis ou com doses de tolerância próximas de um beato. Mas, por muitas que sejam as imperfeições que me forram, em cada dia que passa, sei que tenho feito um esforço genuíno para melhorar como pessoa. E tenho a feliz certeza de que sou uma pessoa com mais qualidades intrínsecas, mormente, verticalidade e bondade, do que há uns anos atrás.

No entanto, a intolerância próxima do absoluto com falhas graves de caráter, continuam fora do alcance da minha ascese no caminho do melhoramento possível. O motivo para que eu não consiga mudar esta intransigência quase absurda, é o de simplesmente continuar a achar que estou correto.

E quando esse estado de não subsistência de dúvidas, no que ao comportamento dos outros respeita, perdura em mim, torno-me um "donno imobile", muito próximo da tolerância zero.



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Flash noturno




Nós tornamo-nos naquilo que pensamos, por isso, pensamentos negativos devem ser completamente banidos do nosso vocabulário mental, uma vez que funcionam com uma barreira e prejudicam a prossecução e alcance dos nossos objetivos...
Vou dormir, já agora, com pensamentos positivos.

Mata-se e esfola-se, assunto resolvido.


A propósito da noticia da mãe que, presumivelmente, terá cometido o crime de homicídio das suas duas filhas e que acusa o marido de violência doméstica e violação das meninas - uma já foi encontrada sem vida, a outra encontra-se desaparecida mas, provavelmente, terá sofrido o mesmo destino - já se levantam as vozes dos fazedores de opinião, arautos da vindicta privada e do julgamento e condenação antecipadas, "just because".
É incrível como o senso ético do nosso dia-a-dia se deixa condicionar fortemente pela presunção, ainda que forte, ignorando por completo a prova que, só depois de produzida, conduz ao julgamento por um tribunal e à aplicação da sanção adequada.
Ainda a verdade dos factos não foi apurada - até prova em contrário, a mulher goza da presunção de inocência "in dubio pro reu" (pode perfeitamente estar a mentir sobre muitos dos factos que alega e, face ao seu estado de saúde mental, não é de colocar de lado essa hipótese; ou ser declarada inimputável), já se acusa alguém como se tivesse havido um julgamento formal e feita a prova de factos, quando o que existem são apenas presunções fortes, indícios que carecem de prova a ser produzida em tribunal.
A decisão técnica aplicada, inteiramente correta, foi a da constituição da mãe como arguida, tendo-lhe sido aplicada a medida de coação de privação da liberdade ( a mais grave entre as previstas na lei penal), a mais adequada, aliás, para prevenir o perigo de fuga ou destruição de elementos de prova.
Não quero com isto dizer que, face aos fortes indícios, não venha a dar-se como provado o homicídio voluntário das meninas, bem como eventuais crimes cometidos pelo progenitor, mas tudo isso não basta para formular juízos sancionatórios.
A presunção de inocência é das garantias constitucionais mais fortes, e haverá poucas coisas menos censuráveis do que condenar um inocente ou manchar irremediavelmente a sua vida.
É da natureza dos "juristas de café" julgarem toda a gente na praça pública, com base em leituras de jornais, fazedores de opinião e manipuladores de mentes, e isso é algo que jamais irá mudar.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Geração do não desenrasca

Jamais empregaria a expressão "geração rasca", usada pelo jornalista Vicente Jorge Silva em 1994, num editorial do jornal Público, aquando das manifestações estudantis, para caracterizar a passividade de alguns jovens dos nossos dias, em relação às dificuldades da vida, pois acho-a ofensiva, manifestamente exagerada e, sobretudo, redutora. Eu próprio lido frequentemente, com jovens bastante empreendedores e responsáveis, gente que tem projetos e luta por eles.

No entanto, não há dúvidas de que, na sociedade portuguesa, uma fatia considerável dos adolescentes e recém adultos, cultivam a dependência em relação aos pais, o gosto pela futilidade e pelo facilitismo, os ténis e a roupa de marca, os smart phones, Ipads e restante parafrenália. Escolhem sem hesitações os "consumíveis, que não precisam ser mastigados pelo cérebro e pelo senso crítico, com que a selvajaria do marketing, sabendo antemão das suas vulnerabilidades, os bombardeia.

É comum os jovens de hoje em dia dizerem: "não tenho nenhum trabalho, pois não consigo encontrar um que me satisfaça".

Nos meus tempos de juventude, o sonho de qualquer jovem adulto era o de ter uma ocupação profissional, fosse ela qual fosse, tornar-se independente dos pais, viajar, comprar um automóvel usado, frequentar o ensino superior, se necessário fosse, na qualidade de estudante-trabalhador, encontrar rapidamente o seu espaço, fosse arrendando uma casa a meias com amigos/as, ou, nalguns casos, comprando.

Hoje, há uma franja, felizmente marginal, de jovens que se escudam na "crise", nas "dificuldades da vida", na preguiça eterna, esquecendo que a vida é uma luta constante que começa na base da pirâmide social e jamais termina. E, com a crueldade que lhe está associada, os que ficam parados na corrente ascendente, os que nada fazem, são rapidamente ultrapassados e cilindrados pelos que vêm atrás.

É aos pais super protetores, eles mesmos maus exemplos, ou negligentes com o comodismo galopante dos filhos, que deve ser assacada a maior responsabilidade por esta faixa marginal de jovens inertes, sem hábitos de luta ou sacrifício, que julgam que o mero facto de terem tirado um curso superior lhes garante o acesso imediato a um patamar profissional superior.

Todo o trabalho é honrado e em bastantes países por esse mundo fora, é comum os "doutores" trabalharem em ocupações menos qualificadas, isto até conseguirem, sempre com a sua luta e engenho, uma ocupação adequada às suas qualificações.

Nunca mais me esqueço da frase premonitória proferida por um professor que tive no ensino secundário, em relação às graçolas dos "engraçadinhos de serviço" da sala de aula: " Não gozes com os «caixas de óculos»" a quem chamas «marrões» e ocupam sempre os lugares na fila da frente, pois muito provavelmente vais encontrá-los como teus chefes na vida profissional futura".

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O que é ser amado?



Ser amado pode ser considerado um desejo universal, pois é algo que praticamente ninguém rejeita; e, antes pelo contrário, muitas das atitudes e comportamentos que adotamos nos nossos quotidianos, têm em vista a satisfação da necessidade de sermos amados.

Todos nós temos interiorizada a certeza de que é preciso dar para receber e, muitas vezes, oferecemos amor, atenção e carinho, com a expetativa legítima de sermos correspondidos em igual proporção.

A demonstração do amor requer mais do que beijos, sexo, palavras, riso e companheirismo. Sentir-se amado é saber que existe uma pessoa que tem interesse real na nossa vida, que zela pela nossa felicidade e se preocupa genuinamente connosco. É, no fundo, sentirmos que somos aceites tal qual somos, sem termos de inventar uma personagem para apimentar a relação, e vivermos seguros de que as nossas qualidades são admiradas e os nossos defeitos tolerados, tudo graças à força maior que representa o amor.

Ser amado, seja por via de um relacionamento amoroso, por alguém que nos é muito próximo em termos de parentesco, ou por pessoas amigas, é condição absoluta para a felicidade de qualquer pessoa. Ninguém, com exceção de pessoas com graves distorções de personalidade ou afasias emocionais sérias, consegue sentir-se estável, equilibrado e feliz, se viver em estado de carência absoluta de amor.

Grande parte dos comportamentos violentos, da intolerância e, de um modo geral, das perturbações de caráter a que assistimos, com exceção de doenças psíquicas graves, é fruto de uma grande falta de amor. Trata-se de pessoas que são, ou sempre foram, seres mal-amados.

Com maior ou menor consciência desta necessidade, que não é exclusivamente humana, já que também existem animais capazes de expressar emoções e sofrer com a carência de afeto, de um modo geral, orientamos o nosso comportamento com vista a receber afeto - ainda que existam pessoas que, erroneamente, insistem em pensar o amor como algo transacionável, capaz de ser conquistado através da oferta de bens materiais.

Mas, mais fundamental do que ser amado, é o amor que conseguimos ter por nós mesmos. Quando gostamos de nós, sempre que conseguimos ter uma dose de amor-próprio razoável, fruto de termos atingido a paz interior e a aceitação necessária das nossas qualidades e defeitos, somos mais capazes de dar amor; e, sobretudo, não depender emocionalmente de outrem, ou nos dispormos a qualquer preço por uma réstia de afeto.

A carência é, no entanto, uma fonte pródiga de enganos e, não raro, entregamos o nosso maior afeto a quem não está de boa-fé connosco, nem sente por nós qualquer tipo de amor.

E, na eterna cruzada da busca do amor, para se ser amado é necessário vontade de entrega, sentimentos genuínos, bem como capacidade de análise do outro, e também uma boa dose de realismo.

Nem tudo o que reluz é oiro, pois, nas partidas da vida, há muitas pessoas que coletam lucros à custa da carência que os outros têm de amor. Regra geral, essas criaturas integram a fasquia marginal daqueles para quem o afeto não existe como necessidade. São seres doentios, parasitas da dor alheia, espectros a evitar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Falar do futuro



Falar com alguém que está no passado em relação ao momento presente (que para essa pessoa ainda é um futuro desconhecido) – sendo que essa pessoa posso ser eu mesmo - é ter ciência daquilo que aconteceu, ou, noutra perspetiva, vai acontecer com essa pessoa, e possuir a possibilidade fantasiosa de avisar a pessoa em questão acerca das escolhas e das consequências que a esperam. E a isso chama-se futurologia.

A futurologia só é considerada ciência se nos ativermos ao sufixo do vocábulo. Se alguém possuísse a capacidade de prever o futuro com precisão, tal possibilidade provocaria uma revolução integral na forma como tomamos decisões e nas escolhas que fazemos.

Acredito piamente que a vida, como a conhecemos, seria impossível de ser concebida se em cada momento soubéssemos o que iria suceder no momento seguinte. O ato de viver com racionalidade seria insustentável e não é difícil, como situação hipotética, imaginar um cenário assim.

Mas se nos satisfizermos com a certeza de que estamos a navegar em águas de impossibilidade e precisamos de fantasiar um cenário para darmos ordem de marcha ao nosso exercício, a questão fica ultrapassada.


Não raro dizemos que adorávamos ter a juventude dos 20 anos e a experiência dos 50 anos e, inclusive, alguém escreveu que quando finalmente aprendemos alguma coisa é chegada a hora de partir deste mundo físico – há quem acredite que existe algo para além da matéria e da biologia.

Falar no futuro com alguém que está no passado em relação a nós, ou, mais compreensivelmente, falar, neste momento, com alguém que vai atingir o momento espácio-temporal em que nos encontramos agora - tendo em consideração que o presente, como medida de tempo não existe, pois o tempo é imparável “tempus fugit” e torna-se passado em frações de segundo – é o exercício que me proponho.

Se tal fosse possível, o que diria eu a mim mesmo, caso pudesse desdobrar-me em relação a dois momentos espácio-temporais? É sobre isto que hoje reflito.




terça-feira, 18 de agosto de 2015

Sobre a gratidão



Se a gratidão é pacificamente entendida como uma emoção que envolve um sentimento de dívida em relação a outra pessoa, frequentemente acompanhado por um desejo de agradecer, ou tornar recíproco um favor que nos fizeram, tanto quanto recordo, são poucas as pessoas pelas quais, na vida, senti verdadeira gratidão. No entanto, consigo nomear casos esporádicos de pessoas que, desinteressadamente, foram genuinamente boas para mim.

Ainda há bem pouco tempo, no âmbito de uma diversão, que podia ter tido consequências bem piores, cai e ofendi com gravidade o tornozelo e o gémeo da perna direita; e não fosse o pronto auxílio de duas pessoas, que acabara de conhecer nesse mesmo dia, tinha ficado no chão sem me conseguir levantar. Levaram-me praticamente ao colo até ao automóvel e prontificaram-se para me ajudar em tudo o que fosse preciso, inclusive para me transportar ao hospital.

A gratidão é esse sentimento de reconhecimento por alguém que, desinteressadamente, nos fez bem e que nos faz sentir vontade de agradecer e fazer algo de semelhante em prol de quem foi bom para nós. E, contrariamente à gratidão, a falta de gratidão transporta-nos para o sentimento de culpa, que nos gera mal-estar e é algo que queremos evitar, ou aplacar.

Neste mundo eivado de egoísmo, em que, na maioria das vezes, a prática do bem tem sempre como expetativa o reconhecimento por parte do outro, torna-se uma pérola rara encontrar alguém que pratique o bem em estado puro, isto é, sem ter alguma expetativa em vista, mais não seja a satisfação pessoal pelo ato de gratidão do outro, que, segundo as regras socialmente convencionadas, normalmente se segue. Comportamento gera expetativa, e todos sabemos isso.

Mas a gratidão também nos pode tornar reféns de outrem e levar a condicionamentos do nosso próprio comportamento. Quantas vezes não toleramos uma situação que não nos faz integralmente felizes, apenas porque o peso da ingratidão, ou o sentimento de culpa, que advirá caso tomemos certas atitudes, é mais forte do que tudo?

Não gosto de sentir a gratidão em dívida e penso que o mais correto é liquidar rapidamente esse débito, nomeadamente fazendo algo de bom em prol de quem me quis bem, e também mostrar a minha inteira disponibilidade para continuar a fazê-lo.

O mais normal é praticarmos o bem em relação aos nossos semelhantes e a reciprocidade surge, quase sempre, como algo de natural e expetável.

Ninguém que viva semanticamente, observando com um cuidado desmesurado a forma do seu umbigo, pode esperar que haja muita gente disponível para lhe querer bem. A reciprocidade, ou o comportamento sinalagmático, é pois a regra convencionada no tecido social.

Quando me perguntam se recordo alguém que queira o meu bem, pratique o bem em relação a mim, me ame incondicionalmente, sem jamais expetar uma reciprocidade ou, outrossim, fazer depender as suas atitudes do cumprimento do expetado, afirmo sem sombra de dúvidas que é a minha mãe. Ela é a minha maior amiga, a pessoa que mais me ama e, estou certo, jamais alguém gostará de mim como ela.

Se a gratidão é pacificamente entendida como uma emoção que envolve um sentimento de dívida em relação a outra pessoa, frequentemente acompanhado por um desejo de agradecer, ou tornar recíproco um favor que nos fizeram, tanto quanto recordo, são poucas as pessoas pelas quais, na vida, senti verdadeira gratidão. No entanto, consigo nomear casos esporádicos de pessoas que, desinteressadamente, foram genuinamente boas para mim.

Ainda há bem pouco tempo, no âmbito de uma diversão, que podia ter tido consequências bem piores, cai e ofendi com gravidade o tornozelo e o gémeo da perna direita; e não fosse o pronto auxílio de duas pessoas, que acabara de conhecer nesse mesmo dia, tinha ficado no chão sem me conseguir levantar. Levaram-me praticamente ao colo até ao automóvel e prontificaram-se para me ajudar em tudo o que fosse preciso, inclusive para me transportar ao hospital.

A gratidão é esse sentimento de reconhecimento por alguém que, desinteressadamente, nos fez bem e que nos faz sentir vontade de agradecer e fazer algo de semelhante em prol de quem foi bom para nós. E, contrariamente à gratidão, a falta de gratidão transporta-nos para o sentimento de culpa, que nos gera mal-estar e é algo que queremos evitar, ou aplacar.

Neste mundo eivado de egoísmo, em que, na maioria das vezes, a prática do bem tem sempre como expetativa o reconhecimento por parte do outro - a gratidão, torna-se uma pérola rara encontrar alguém que pratica o bem em estado puro, isto é, sem ter alguma expetativa em vista, mais não seja a satisfação pessoal pelo ato de gratidão do outro, que, segundo as regras socialmente convencionadas, normalmente se segue. Comportamento gera expetativa, e todos sabemos isso.

Mas a gratidão também nos pode tornar reféns de outrem e levar a condicionamentos do nosso próprio comportamento. Quantas vezes não toleramos uma situação que não nos faz integralmente felizes, apenas porque o peso da ingratidão, ou o sentimento de culpa, que advirá caso tomemos certas atitudes, é mais forte do que tudo?

Não gosto de sentir a gratidão em dívida e penso que o mais correto é liquidar rapidamente esse débito, nomeadamente fazendo algo de bom em prol de quem me quis bem, e também mostrar a minha inteira disponibilidade para continuar a fazê-lo.

O mais normal é praticarmos o bem em relação aos nossos semelhantes e a reciprocidade surge, quase sempre, como algo de natural e expetável. Ninguém que viva egoisticamente, observando com um cuidado desmesurado a forma do seu umbigo, pode esperar que haja muita gente disponível para lhe querer bem. A reciprocidade, ou o comportamento sinalagmático, é pois a regra convencionada no tecido social.

Quando me perguntam se recordo alguém que queira o meu bem, pratique o bem em relação a mim, me ame incondicionalmente, sem jamais expetar uma reciprocidade ou, outrossim, fazer depender as suas atitudes do cumprimento do expetado, afirmo sem sombra de dúvidas que é a minha mãe. Ela é a minha maior amiga, a pessoa que mais me ama e, estou certo, jamais alguém gostará de mim como ela.






Elegia de um funcionário



A Elegia de um funcionário

É necessária uma dose de imaginação reforçada - como aquelas vitaminas, ou remédios, que o melhor é tomar logo duas colheres, ou duas pílulas, para o efeito ser eficaz e duradouro – para fazer com que o dia-a-dia de um vulgar funcionário forneça algo de interessante à mente e apele à escrita. Como nada disso, regra geral, acontece, resta a adulteração dos factos, a efabulação de episódios triviais e o endeusamento do banal, travestindo de irrealidades episódios do quotidiano, para mitigar a pobreza do relatável.

Assim, vejamos: um funcionário que, logo pela manhã, troca a gravata e a fatiota cinza por um cesto de frutas à cabeça e canta nos corredores da repartição como a Carmen Miranda; outro, sozinho, ao fim da tarde, que se crucifixa numa secretária pregando-se com pioneses e tachas; uma funcionária que, todos os dias, se agrafa, nas orelhas e nos lábios, dizendo que usa «piercings du bureau»; uma colega, de longos cabelos loiros, que acumula vários teclados de computador diante de si e toca/escreve neles em simultâneo, o cabelo liso escorrido para diante, imaginando-se o Rick Wakeman dos Yes, rodeado de sintetizadores e teclados; um jovem estagiário que pinta quadros abstratos com a tinta dos carimbos e das impressões digitais, servindo-se de bases de copos de plástico como formas; um subchefe que utiliza o balcão para ensaiar passos de equilibrista, com o selo branco em cima da cabeça e os braços esticados; ou um chefe da repartição que dá reprimendas aos funcionários, com um nariz vermelho de palhaço sempre posto, sem admitir réplicas ou risinhos de escárnio da parte dos seus subordinados.
O que viria a ser isto?

Seria diferente, subvertido, não convencional? Um manicómio? Uma repartição disfuncional?

Subscreve-se, por momentos, aquela teoria subversiva de que o «Miguel Bombarda» tem muros altos em volta para ninguém se sentir tentado a saltar lá para dentro. Uma vez mais tudo se consuma no modo como se perspetivam as coisas: A loucura é como uma bolha com alguém lá dentro, aprisionado, incapaz de se libertar e, em simultâneo, crente de que realidade é outra. E não é?

O que pode acontecer de interessante numa repartição, no meio de um emaranhado de papéis, formulários, regras apertadas de escrita, minutas, técnicas áridas, colegas apostados em competir, minuto a minuto, acotovelando-se para dar graxa ao chefe, lambendo-o sofregamente de cima a baixo, tudo isto num espaço apertado e enfadonho? Que pode, nesse planeta de marmelada burocrática, pelejado de tédios, alimentar uma mente ávida por escrever? Nada! Talvez só mesmo a deturpação da realidade circundante, dando-lhe um desvio de génese patológica, esquizoide – sair, custe o que custar do real terrífico! - possa fazer com que o mofo da banalidade se esvaia, pois de outra forma não estou a ver como. É tudo uma questão de adaptação: se não gostas do que te rodeia, imagina-o ridiculamente diferente, dessacralizado das marcas mais duras que o compõem, despojado dos seus ritos mais absurdos. Surrealiza o que te circunda. Sê Breton, à vontade; Dali, e por aí fora. Sobretudo, não pares!

A maior loucura seria, talvez, começar a gostar dos quotidianos formulares como se de coisas admiráveis se tratassem. Essa, sim, seria uma atitude crepuscular, border-line, motivo de preocupação por demasiado conformada com os moldes da vida: olhar para a lombada de um dossier da Âmbar e compará-lo com um quadro de Veronese; achar que o texto de um ofício é profundo como um poema de Álvaro de Campos; ter êxtases consecutivos com a leitura de um despacho bem fundamentado; amar uma coletânea de legislação como se de romances bem escritos se tratasse... Ainda há almas assim, que veem beleza na crueza destas coisas; e isso é, para mim, deveras preocupante.

O funcionário inadaptado toma, logo pela manhã, colheres reforçadas de contenção e paciência. Veste o hábito conventual que lhe proporciona a subsistência e anestesia uma parte substancial da mente, da verve, e do espírito, para conseguir engolir os sapos verdetes, por vezes asquerosos, que o esperam num tabuleiro de penitências posto à entrada da repartição.

São os bons dias em dias maus; o sorriso de comissário-de-bordo, treinado às vezes na casa de banho, já dançando no rosto - não vá algum azedume que transpareça fazer com que o rotulem de antipático e lhe transformem a vida num inferno; é o tom de voz amistoso, cordato, por forma a não criar hostilidades, quantas vezes contragosto. É todo um mundo de contenção e cuidados pois, o mais das vezes, uma repartição não é muito diferente de um campo minado: o mais seguro é andar sempre por trilhos já picados e que se revelam seguros. Pisar solos inexplorados, tentar caminhos diferentes, para além de constituir um risco tremendo, é, geralmente, uma aventura solitária que não tem seguidores.

Há, no entanto, sempre, um certo sorriso sincero, algures guardado, pronto para ser ofertado, mesmo nos acertos e desacertos do quotidiano de uma repartição, sempre que se dão os tais «momentos de humanização» e a flagrante filha da putisse que carateriza o comportamento de muitos se ameniza. É nas alturas em que os competidores baixam um pouco as defesas – cansam-lhe os braços de tanto se elevarem – que se proporcionam os momentos, porventura, mais agradáveis. Parece que não, mas são essas lufadas de ar fresco, essas pausas no combate pela supremacia do: «ser o mais competente»; «ser o mais perspicaz»; «ser o mais sabedor»; «ser o mais bem informado», servem para retemperar as forças, para continuar a aguentar o embate constante.

O clima das repartições não se coaduna com peregrinações interiores e os estados de alma dos desatentos são notados pelos demais. É fácil dar com o tal funcionário desenquadrado no certame dos serventes diligentes. Geralmente é sempre aquele que menos vibra com "coisas supostamente vibráteis". Não alimenta longas conversas com assuntos de serviço; desatina com os modelos pré-oferendados e com a impossibilidade criativa; desconcentra-se com mais facilidade e tem um olhar vago, ausente, de quem está, e já não está. Presta mais atenção à janela, ao mundo exterior, do que os outros, ainda que esteja com a secretária transbordando de papéis soturnos, e não se acomoda ao redondo dos quotidianos banais.

É a esse burocrata moderno, culto, inconformado, não refém do atavismo dos carimbos e dos papéis, das formas de ação estandardizadas, capaz de superar a bitola estreita do «corretíssimo e insuperável procedimento administrativo», a quem me cumpre tirar o chapéu e desejar-lhe as boas vindas ao mundo do eternamente superável: um mundo onde não há impossíveis administrativos e a solução para os problemas das pessoas é uma coisa simples, passível de acontecer – não um milagre! - que não se esfrangalha nas muralhas ditatoriais de um funcionário marreta e aperuado.

Esse último, que tome as tais colherzinhas de pó da loucura, logo cedinho pela manhã, e o dia da gente vai correr muitíssimo melhor. E, já agora, que se cuide, pois tem os dias contados. Vem aí uma geração de funcionários com narizes vermelhos de palhaço, formados no Chapiteau, e um dia, não muito longínquo, uma repartição pública será um oásis de sorrisos na aridez dos quotidianos triviais.

Para que tal aconteça, prometo contribuir com a minha fatia de loucura. *


* Escrito em Lisboa



sexta-feira, 22 de março de 2013

Finar do dia nos muros exteriores de uma prisão


Há coisas que inesperadamente acontecem e nos conciliam com a vida nos maus dias, outras vezes nem por isso. É tudo um pouco assim: um pedaço de sorte, de acaso. Os finais de tarde em que os raios solares se mantêm com tal intensidade que a noite não se adivinha. O calor acumulado que se conserva na pele doirada. Os olhos que têm dificuldade em se manter abertos perante a intensidade da luminescência. O pôr-do-sol fulgurante que enche de tons rosáceos e laranja o horizonte. Os odores a primavera que invadem as ruas; o odor das plantas que denuncia a chuva recente. Os dias assim são redentores de algo menos bom que tenha decidido ocupar a nossa alma; e têm essa mágica divina de conseguir recompor os níveis da felicidade que carecemos, de um modo gracioso, harmónico, irrevogável.

As estações do ano são a longa metáfora dos estados de alma. Daí se poder dizer: aquele homem está outonal; aquele, mais adiante, parece primaveril; aquela rapariga é um sol! É nestas alturas que se discute com vigor a aplicação correta dos verbos Ser ou Estar, tomando como premissa que os estados mais votados à cronicidade possuem requisitos de «Ser», enquanto os estados passageiros, sazonais, mais dependentes dos ventos do humor, são melhores descritos pelo verbo «Estar».

A semântica da vida, creio, balança-se um pouco no fio condutor das nossas venturas e desventuras; e em todas as horas, em todos os momentos, fazemos os possíveis para que uma infelicidade seja anulada por uma felicidade; que as doses desta última estejam sempre em vantagem, não fora esse o desiderato essencial, o leit motiv que nos faz calcorrear as páginas deste mundo.

Vivemos de compensações - esta é a minha verdade. Não vivemos de eternidades, coisas adquiridas, imutáveis, mas antes num balancear constante, como uma nau navegando no mar aberto, compensando um movimento oscilatório para a esquerda, com um movimento contrário para a direita, tentando manter um rumo estável, que seja o garante da possível felicidade.

Viver é um pouco esta ginástica de cintura, que exige dispêndio de energias, cansa, e, por vezes dá vontade de desistir, apetecendo deixar-nos ir ao sabor da corrente, como a folha da árvore que segue inerte no curso de um regato. É preciso, quantas vezes, coragem para aguentarmos a vida e mantermos os repositórios de energia aptos a serem utilizados nos momentos de maior carência.

E é curioso falarmos com algum à vontade do conhecimento que temos dos outros quando, muitas vezes, nem a nós próprios nos conhecemos. Mas até essa postura é inescrutável em nós. Julgamos, apressadamente, que conhecemos as pessoas com quem interagimos no dia-a-dia, esquecendo que só se conhece de modo razoável alguém quando convivemos com essa pessoa em situações díspares, com relevo para as situações limite. São essas, porventura, as alturas em que a subjetividade se faz mais notar. É nesses momentos que a «natureza verdade», que vive adormecida nas caves esconsas da nossa alma, vem à tona com todo o vigor.

Mas há pessoas que nunca nos dececionam, pois resultam inertes nas nossas emoções as descobertas negativas que por vezes fazemos delas. Esquecemo-las depressa demais; outras, talvez por depositarmos nelas uma maior expetativa, ou porque nos merecem maior importância e admiração, perante atitudes diametralmente contrárias ao figurino que delas concebemos, reagimos adoecendo espiritualmente.

Deste modo, é possível concebermos que um conjunto de atitudes negativas, tidas por alguém que nos era muito próximo, possa fazer anoitecer de repente o nosso coração, como se alguém tivesse desenroscado a lâmpada que alumiava a confiança natural que nutríamos por essa criatura, que partilhava o nosso espaço, as nossas preocupações, sorvia o nosso ar.

Não vale citar nomes. É esse o propósito. Mas podíamos inventá-los, mais não fosse para colorir a ideia. Falamos do Dário, do Elias, ou, porque não, do Ildefonso ou da Hermengarda, todos eles epítetos saídos do correr de uma pena que escrevinhou um conto repleto de parágrafos inúteis e impossíveis, com personagens que usam chapéu de til, as mãos nos bolsos, as golas da camisa bordadas com pontos e vírgulas e calçados com sapatos feitos de verbos macios. Mas vamos, por ora, ignorar que essas pessoas têm uma identidade, que existem no tecido social, que respiram o nosso ar, que parasitam na nossa dor. Delas, apenas guardamos o sentir íntimo duma mágoa que é totalmente nossa.

(escrito algures num tempo e num espaço que a memória já não recorda)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Poetar - Um processo de intenções...



Tenho muita vontade de tornar a escrever poesia, mas, mais do que a prosa, a escrita poética exige desertos de solidão e um estado de espírito especialíssimo que não se arranja quando se quer. A poesia é sempre  um derrame da alma de quem escreve, um estado de exposição franca, um corpo esventrado, engalanado com laivos de estética. São palavras muito intímas, que se escrevem e se querem belas, e têm geralmente por destino, mal grado o poeta nem sempre o admitir, serem sentidas e apreendidas por quem as lê. Muito do que se escreve fica na gaveta, ou em rascunho, mas, tarde ou cedo, alguém certamente acaba por ler os nosso sobejos. Nunca destruímos completamente tudo o que escrevemos, ainda que imputemos falta de qualidade literária às nossas palavras, mas deixar rastos faz parte da natureza humana. Mesmo depois da nossa morte, há sempre quem rebusque o nosso espólio e fique surpreendido com o que encontra e acabe por ficar a conhecer mais do nosso âmago. Facetas da personalidade impensáveis, corações eternamente inquietos, seres mal-amados, infâncias marcantes, mentes distorcidas e tortuosas. Foi assim com Fernando Pessoa e com tantos outros génios da poesia e não há motivos para pensar que possa ser diferente com poetas menores. Em vida, mostramos as caves das nossas emoções, somente àqueles que reputamos merecedores de tomar a ciência sobre o nosso Eu - nós em carne viva. Pouco interessa que os destinatários dos (nossos) poemas os entendam e os recebam como  interpretações autênticas dos mesmos, pois, essas só o autor poderia desvendar; e, nalguns casos, nem mesmo ele conseguiria explicar cabalmente tudo o que quis dizer. Interessa, outrossim, que quem leia os poemas sinta as palavras e lhes atribua sentidos possíveis para além da estética que lhes está subjacente. Escrever poesia é um pouco como radiografar o nosso interior, a forma como a nossa sensibilidade se organiza, como subjetivamos o que nos rodeia, ou os sentires que povoam a nossa mente e depois expo-los a uma luz que permita o olhar dos outros. Não deixa de ser tudo um grande delírio, um universo metafórico onde as palavras vertidas aparentam, não raro, uma pálida correspondência com a realidade. Há verdades, mentiras, ficções, desejos, crenças, malformações, tudo num turbilhão. Há máscaras na poesia, tal como no teatro existem disfarces, trajes, artefactos, cenários e um palco onde se desenrola o processo teatral. Na poesia o palco é a nossa mente. As palavras fluem da nossa mente, entontecidas, em voragem, quase sempre perfumadas com odores agradáveis como os que se desprendem das acácias em flor. Mas o disfarce é constante. O poeta é um perito na arte do embuste através das imagens. Recusa conscientemente a linguagem denotativa. A poesia representa, de certa forma, a antítese do normal valor gramatical das palavras. O poeta prefere as praias da metáfora, da alegoria e, não raro, delicia-se com o perfeito exagero. É o encenador da trama criada pelas suas palavras, mas também pode ser um ou vários dos personagens do enredo que criou; pode ser uma forma anímica, ou não; ou, ainda, outra coisa qualquer. O limite não é o absurdo, mas a inestética e o desvalor das palavras é pecado. Tal como a prosa, também a poesia pode enfermar de prolixidade, abusar da adjetivação, das imagens, das tautologias e usar de franco mau gosto e vocábulos rebuscados. A tentação do facilitismo e o seguidismo de "modelos de sucesso" nunca nos abandonam por completo. E isso é mais visível nos poetas menores. Mas na poesia valora-se sempre a sinceridade de quem escreve e, mais do que o evitar dos lugares comuns, das rimas fáceis e das construções frásicas delicodoces, é a sua autenticidade que nos conquista e faz amá-la, mais do que outra coisa qualquer. 


domingo, 3 de junho de 2012

Assim de repente




"O segredo do demagogo é fingir ser tão estúpido quanto sua plateia, para que ela pense ser tão inteligente quanto ele."
Karl Kraus

Assim de repente e ainda antes do jantar, verto algumas palavras para dizer que me assusta verdadeiramente a possibilidade, que infelizmente não é uma fantasia, nem um romanceado tardio, de caminharmos a largos passos para a abolição da graça e da simplicidade, das manufaturas, de todas as formas de arte, ou do simples prazer tátil de segurar um livro nas mãos e desfolhá-lo, estendidos no meio da erva alta, ao cair de um final de tarde, ou simplesmente estendidos na cama. Hoje assiste-se ao reino da maquinação, da informatização, da formatação e ao fim das grandes narrativas sociais. A maior parte dos grandes sistemas ideológicos dissolveram-se: perdemos o comunismo, perdemos o socialismo - enquanto «variante humana» do mesmo. Resta-nos apenas o mercado selvagem, onde só o dinheiro e a multiplicação do mesmo conta. Apraz-me recordar a célebre frase de um autor americano consagrado, de origem nipónica - um tal Fukuyama -, que pôde com pompa e circunstância anunciar há uns anos atrás o fim da História. É óbvio que se enganou. O mundo em que vivemos tornou-se complexo, opaco, mergulhado num sistema capitalista pragmático, insensível à solidariedade, apenas concentrado numa política que valora a maximização do lucro e trata com desdém a arte, a música, a contemplação, o pensamento filosófico, a literatura e a poesia - que servem para nos engrandecer tornando-nos melhores pessoas. Tudo o que não seja imediatamente gerador de lucro, foi arredado para um plano sectário ou caiu na mera tolerância, como as antigas casas de putas. A corrupção medra no tecido social e nos mais altos dignitários da classe política, com o beneplácito da acostumada impunidade e total ineficácia da Justiça. Está na hora de dizer basta! Mas os revolucionários ou já morreram todos os estão demasiado velhos.

Algumas das minhas palavras tornaram-se redondas, tantas as vezes que as repito, mas estas incontinências abeiram-se de mim, inevitáveis, irrecusáveis, emergentes. Quem jura que só com uma revolução a sério as coisas se endireitam, é apelidado de agitador, louco, desmoralizador, extremista, demagogo. Internem-me, asilem-me, prendam-me. Eu sou um deles. Fico à vossa espera.





sexta-feira, 18 de maio de 2012

Da essência do amor



Fazer pensar é um intuito mediato de qualquer escritor, porque quando se escreve outra coisa não se faz no imediato que não seja pensar em voz alta. Procurar leituras amenas, filmes cor-de-rosa, finais doces e felizes que nos libertam das preocupações, das realizações complexas, desprendidas do temor, mostra a natureza das pessoas que tendem mais para a passividade do sonho, do devaneio, do que para a vida atuante e corajosa. Imaginar também é pensar, mas concretizar um pensamento e um desejo é um ato de integralidade e coragem. O problema do amor apresenta-se singularmente a cada ser humano, com a nudez estrutural que nenhum enunciado reveste ou disfarça suficientemente: não pode ser evitado nem pode ser resolvido por mandato. Há, porém, outro estádio, ou outra instância a considerar. Quando pareça resolvido negativamente, seja pela renúncia ou pela sublimação; ou quando pareça resolvido positivamente, pela aceitação, o problema do amor reaparece sempre a exigir mais perfeitos termos de satisfação, sossego e tranquilidade. O amor inquieta, perturba, atormenta durante a vida inteira o ser humano que, com tal dor, vai pagando o preço do seu ideal de perfeição. Ninguém se encontra satisfeito com a situação prática por que optou e aqueles que sinceramente se dizem felizes com as consequências da solução que adoptaram, mais não fazem do que proclamar o vencimento da ausência do amor que verdadeiramente desejavam em prol da vitória de uma virtude superior – virtude essa que não lhes basta, apenas os sustenta e confere uma aparência de sentido a algo sem viabilidade de ter sentido algum que não esse.

sábado, 12 de maio de 2012

Resulta evidente


Por vezes temos uma ideia na cabeça que queremos desenvolver através da escrita. Pode ser um pensamento que surgiu à hora do almoço, depois da jornada de trabalho, ou algo que anda a ruminar há algum tempo na nossa mente; mas chegada a hora de escrever, outra coisa diferente, ambígua, até, jorra-nos dos dedos. Começamos a escrever e a nossa mente divaga, já que a nossa existência é feita de um contínuo de pequenos acontecimentos, a maioria sem grande importância nem impacto. De vez em quando, muito de vez em quando, o fluir dos dias agiganta-se, abrilhanta-se e, então, dizemos que aconteceu algo de especial e guardamos datas na memória, sentimentos quentes e ternos ou assustados e infelizes algures dentro de nós. Alguns encaram com leveza os dias que correm. Lembram-se dos tempos da infância e sorriem condescendentes com o que foram. Partilham com os amigos histórias improváveis, exageradas, cheias de feitos e de graças e divertem-se com isso. Olham para sonhos que não se cumpriram e objetivos que não se alcançaram e o coração não se aperta nem descem véus de angústia ou derrota. Para outros, o passado, o futuro e, sobretudo, o presente desgastam. Há uma queixa fina e virulenta, uma espécie de lamuria, que se torna numa inquietação permanente e sem objecto que corrói, que transforma todos os momentos em tempo perdido, como se a felicidade e a vida estivessem sempre noutro lugar. Viver pachorrento ou inquieto, tranquilo ou perturbado, não é bem uma opção. Em cima de um temperamento que nos calha em sina, acumulam-se experiências e formas de lidar com o que nos acontece, que nos transforma exatamente no que somos: nós mesmos, únicos, diferentes, extraordinários por isso. Somos quem somos, por acaso e sem escolha, já que não nos soubemos fazer de outra maneira. O que nos afirma como únicos é, no entanto, a nossa forma particular de dizer não e, a partir daí, reconstruirmos o (nosso) mundo - se é que ainda vamos a tempo. Temos de fazer um esforço, sermos pró-activos, e não estarmos sempre à espera de uma melhoria das contingências exteriores para fazermos algo por nós. Mas tudo isto, depois de escrito, soa a receita fácil,  já que é impossível fazer a nossa vida retornar à pureza dúctil de uma página em branco. E, uma vez mais, como se vê, para o escritor é mais fácil prescrever soluções generalistas (para os outros) do que as considerar para si mesmo.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Fazer o que se gosta






As pessoas "como deve ser" querem-se ocupadas, sempre ocupadas com coisas gloriosas. Devem fazer coisas, de preferência úteis. Devem ser diligentes, atentas e interessadas, acordar cedo e ter um toquezinho histérico ou hiperativo logo pela manhã, para demonstrar, para exibir o tempo todo, atitudes de voluntarismo, vitalidade e energia. Pessoas lentas e desmotivadas como eu, pouco expeditas no que às tarefas que lhe desagradam respeita, arriscam-se a passar por madrionas, que é o epíteto com que geralmente se mimam essas atitudes nefastas. Confesso-me um daqueles "profissionais" que trabuca para a manduca. Sou competente quanto baste, mas não obtenho êxtases com o meu trabalho nem me motivam comportamentos de excelência. Para isso era preciso que eu amasse aquilo que faço durante as cerca de sete horas que dura a minha jornada de trabalho. Prefiro, de longe, ler, escrever, viajar, tocar guitarra, ouvir música, conduzir motas, fotografar o entardecer, ou, simplesmente, concentrar-me no zunido que as cigarras provocam numa tarde de verão, do que ter de desempenhar tarefas que pouca alegria me proporcionam. Faço-as bem feitas porque tenho de as fazer, porque me pagam para ser competente, porque é a moeda de troca, o contrato a que me propus, para poder usufruir do privilégio de ter um ordenado confortável no final de cada mês. Sei que o meu emprego, a minha atual posição, advém única exclusivamente do meu mérito e da carreira que eu mesmo promovi. Sei, igualmente, que hoje em dia já não existem empregos para a vida e que estar empregado e, no instante seguinte, ficar desempregado é um mal que pode atingir qualquer um. Isso, de alguma forma, aplaca a minha (má?) consciência. Mas onde mora a gloriosa opção de ver a relva a crescer? Ou a doce volúpia de não fazer nada? Porque será que, tendo uma única vida para vivermos, só um nicho de privilegiados consegue, no decurso da sua passagem pela vida, fazer somente aquilo que gosta e lhe transmite prazer? O dinheiro liberta-nos. Aliás, é a única coisa nele que me fascina: a liberdade de podermos escolher - sermos aquilo que realmente somos. Iguais a nós mesmos. Fazedores do (nosso) prazer. Num outro modelo societário, necessariamente mais evoluído, capaz de satisfazer as necessidades básicas de cada um de nós e, ainda, promover a satisfação plena de todos os seus membros, creio que esse horrendo meio de troca podia muito bem desaparecer. 

domingo, 6 de maio de 2012

O mundo dos segredos



Uma deliciosa ocupação é deixar amadurecer um segredo e sentir o prazer inebriante de saboreá-lo a sós. Mas quantas vezes a degustação desse prazer me entristece e me atira para o devaneio. O esquecimento é a melhor cortina de seda que me ocorre diante de um segredo, mas traz sempre consigo a dolorosa responsabilidade de não o poder esquecer. É verdade que guardo alguns segredos. Às vezes sinto-me uma espécie de repositório de segredos: uns meus, outros de pessoas que me são, ou, em algum momento, foram chegadas. Não me refiro naturalmente à informação que está por detrás das passwords, essa hipérbole criada por esta nova geração de polichinelos burocratas, caídos na absoluta tentação do proselitismo pragmático.


Nasci com o eclodir da guerra colonial e pertenço à insigne geração dos iniciados nos primeiros cadernos de caligrafia e amestrados nos alfabetos por ditados, cópias e redações. Leio páginas de livros melhor do que comandos eletrónicos e senti algumas dificuldades em acompanhar o galopante avanço das novíssimas tecnologias. Fui treinado para descobrir sinónimos em dicionários, definições em enciclopédias, ensaios de erudição em almanaques. Sou de um tempo em que todas essas coisas se julgavam ferramentas de sobrevivência para o futuro que pudesse acontecer.


Hoje, descubro-me ensardinhado entre aptidões, que me diziam ser obrigatórias e indispensáveis, e este novo mundo de instrumentos visionários, que apenas as histórias de ficção científica me permitiam imaginar. De repente, depois de pequenas e imperceptíveis metamorfoses, encontro-me dentro dessa ficção. Passa-me muitas vezes pela cabeça o tempo que perdi a decorar tabuadas, nomes de rios, serras, linhas de caminho-de-ferro, declinações e fórmulas químicas. Mal eu sabia que havia de chegar a altura em que tudo isso seria absolutamente desnecessário para a prática comum da civilidade. Hoje em dia quase tudo se resume ao preenchimento de campos e ao domínio de  aplicações informáticas, que tendem a estender a sua fervorosa ditadura a toda a atividade humana. O neologismo «info-excluídos» há muito que entrou no léxico da competição laboral e quem não dominar com desenvoltura os ficheiros zipados, os scanners, os downloads e toda a panóplia de novas ferramentas, resta-lhe deixar-se ultrapassar pela voragem dos mais novos que, sequiosos de vencer e conquistar, vêm aos tropeções, ansiosos por provar que podem destronar os mais velhos das suas ciências rotineiras e caídas em desuso.


A minha capacidade para arrecadar passwords está perto de atingir o limite do suportável: é o código do alarme da repartição; são as palavras-chave para ter acesso às diferentes aplicações informáticas; a senha para iniciar o computador no ambiente de trabalho; o código do cofre; a senha para ter acesso ao telefone! Se a isto somarem as senhas que tenho para uso pessoal, desde o multibanco, ao blogue onde escrevo, passando pelas diversas caixas de correio eletrónico, verifico facilmente que vivo num mundo de segredos onde se, porventura, me esquecer de alguma das palavras mágicas – os diversos abracadabras que se me colam como sanguessugas indispensáveis – fico ao relento de quase todas as dinâmicas que atualmente compõem as facetas da minha vida.


Apetecia-me ensaiar um regresso às origens, no sentido mais real da expressão, e tornar a um tempo em que imperava a rotina dos momentos singelos. Quantas vezes não sinto vontade de me estender numa cama, acompanhado de uma sanduíche de marmelada e um copo de leite com Nesquick, e reler todos os livros da Enid Blyton, a começar pelas aventuras dos Sete. Deixar-me de segredos para sempre, que não fosse as maravilhas que esses tempos deambularam na minha mente. Esses, sim, eram os verdadeiros segredos; o néctar que fermentava os rasgos da  imaginação que transportavam ao sonho e à felicidade.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

A dádiva do perdão




 
 
A dádiva que anula o mal traduz-se concretamente no perdão, na capacidade de perdoar a alguém, desfazer as mágoas que nos roem cá por dentro e libertar o espírito de ressentimentos.  Lembra-me sempre a oração: «Perdoa-nos, Pai, como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». Esta frase parece mentirosa vinda de nós humanos, pecaminosos: perdoamos como se, nesse instante de oração, o perdão acontecesse no nosso coração. O perdão é dos gestos mais nobres que conheço, embora nem tudo possa ser perdoado. É a reação mais elevada da parte de alguém que foi vítima de um ato mau e opera, de algum modo, a anulação desse mal. Por certo que a ação é dupla: perdoar é pedir perdão. Porém, o que é prioritário é «perdoar», porque não é concebível que eu possa pedir perdão quando no meu íntimo subsiste a recusa de perdoar. Se me recuso a perdoar, continuo a viver no rancor, no ódio e, na minha relação com os outros, considero-os meus devedores. Para eles eu sou alguém que recusa esse dom. Quando me recuso perdoar aos outros, que tipo de pessoa sou? Sou alguém que toma o outro como a causa do mal que me vitimou. Por vezes esse mal é uma realidade. Mas quando me recuso a admitir uma atitude de perdão, torno-me cúmplice desse mal, aumento-o. O perdão desarma o mal, aniquila-o, a começar por aquele que é vítima dele. Por vezes o mal é mais obscuro. Sofro, por exemplo, com uma ação, uma palavra, com a qual o outro exprimiu a sua intenção de me prejudicar. Mas o perdão, como virtude maior, situa-se ao lado do amor. É uma palavra cheia de sentido: designa o que há de mais vital em todo o verdadeiro amor. Primeiro vem o amor. Depois o perdão. Depois as palavras. Depois o perdão. Depois o intervalo. Depois de novo o perdão. Diz-se que ninguém escapa à tristeza. E à felicidade? Escapamos? A nossa memória não consegue secar como as folhas deste outono que já passou e a chuva torna a saudade mais nítida. Lutamos com o silêncio e tentamos acordar da força dele. Inutilmente. Eu já quase perdoei tudo a todos: a quem me fez mal, a quem não me quis bem, a quem me prejudicou de alguma forma. Ao menos, vivo com o coração limpo de rancores, vazio de ódios, néscio dessas coisas. Só não me consigo libertar da indiferença. E essa é, porventura, a condição maior da minha felicidade.

terça-feira, 24 de abril de 2012

E que tal um novo 25 de Abril?


A Associação 25 de Abril, Mário Soares, Manuel Alegre e, de uma forma geral, os participantes diretos na Revolução dos Cravos, numa atitude inédita, decidiram este ano não participar nas comemorações oficiais da efeméride. Sem querer tecer considerações de ordem partidária, mas necessariamente de afirmação política, concordo em absoluto com a sua posição. Afinal, os valores que nortearam a Revolução de Abril estão hoje em dia completamente desvirtuados. Duvido, aliás, que tenha merecido a pena que tantos homens e mulheres tivessem dado o melhor de si a causas tão nobres. Gente houve que abdicou da sua felicidade pessoal em prol do bem comum, de uma sociedade mais justa e igualitária, do fim de uma guerra colonial - que só aproveitava a uns poucos e onde grande parte da nossa juventude ficou mutilada, física e psicologicamente, ou perdeu a vida -, dos valores da liberdade de expressão e criação. Foram muitos os homens e mulheres que estiveram presos, foram torturados, estigmatizados, viram os seus bens confiscados, perderam a família, o emprego, a carreira, o nome, a dignidade, a saúde, e, nalguns casos, a vida, tudo por nós. O 25 de Abril não valeu a pena - um "sol de pouca dura". Foi uma brisa passageira na modorra das desigualdades gritantes que, em poucos anos, face aos sucessivos governos que Portugal tem conhecido, à ditadura dos mercados, ao modelo societário em que cada vez mais nos afundamos e do qual aparentemente não consigamos sair, tem paulatinamente mandado às urtigas as conquistas dos trabalhadores e as liberdades com tanto sacrifício conquistadas. Cada vez que me falam em comemorar o 25 de Abril, pergunto-me: qual 25 de Abril? O que há para comemorar? Passados trinta e oito anos, que réstias sobraram das conquistas sociais? Onde está a democracia e a sociedade mais justa? O que faz todo o sentido é,  isso sim, falar-se num novo 25 de Abril, mas desta vez numa versão menos poética, menos light, capaz de alterar com caráter de permanência o estado das coisas. Quem estudou História sabe bem que os podres de um tecido social, a injustiça crónica, o poderio exploratório dos mais fortes sobre os mais fracos, só se consegue extirpar através de uma revolução. O seu surgimento numa versão mais musculada, é coisa que já não será do meu tempo, mas é impossível conceber que a nossa paciência bovina dure eternamente. Um povo não é feito de pau.