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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Da página em branco

Por vezes temos uma ideia na cabeça que queremos desenvolver através da escrita. Pode ser um pensamento que surgiu à hora do almoço, depois da jornada de trabalho, ou algo que anda a ruminar há algum tempo na nossa mente; mas chegada a hora de escrever, outra coisa diferente, ambígua, até, jorra-nos dos dedos. Começamos a escrever e a nossa mente divaga, já que a nossa existência é feita de um contínuo de pequenos acontecimentos, a maioria sem grande importância nem impacto. De vez em quando, muito de vez em quando, o fluir dos dias agiganta-se, abrilhanta-se e, então, dizemos que aconteceu algo de especial e guardamos datas na memória, sentimentos quentes e ternos ou assustados e infelizes algures dentro de nós. Alguns encaram com leveza os dias que correm. Lembram-se dos tempos da infância e sorriem condescendentes com o que foram. Partilham com os amigos histórias improváveis, exageradas, cheias de feitos e de graças e divertem-se com isso. Olham para sonhos que não se cumpriram e objectivos que não se alcançaram e o coração não se aperta nem descem véus de angústia ou derrota. Para outros, o passado, o futuro e, sobretudo, o presente desgastam. Há uma queixa fina e virulenta, uma espécie de lamuria, que se torna numa inquietação permanente e sem objecto que corrói, que transforma todos os momentos em tempo perdido, como se a felicidade e a vida estivessem sempre noutro lugar. Viver pachorrento ou inquieto, tranquilo ou perturbado, não é bem uma opção. Em cima de um temperamento que nos calha em sina, acumulam-se experiências e formas de lidar com o que nos acontece, que nos transforma exactamente no que somos: nós mesmos, únicos, diferentes, extraordinários por isso. Somos quem somos, por acaso e sem escolha, já que não nos soubemos fazer de outra maneira. O que nos afirma como únicos é, no entanto, a nossa forma particular de dizer não e, a partir daí, reconstruir-mos o (nosso) mundo - se é que ainda vamos a tempo. Temos de fazer um esforço, sermos pro-activos, e não estarmos sempre à espera de uma melhoria das contingências exteriores para fazermos algo por nós. Mas tudo isto, depois de escrito, soa a receita fácil,  já que é impossível fazer a nossa vida retornar à pureza dúctil de uma página em branco. E, uma vez mais, como se vê, para o escritor é mais fácil prescrever soluções generalistas (para os outros) do que as considerar para si mesmo.

Liberdade de escrita

Por vezes, quando compramos uma revista, ou lemos determinados blogues mais intimistas, é por vontade de saber da vida de pessoas que julgamos interessantes, dos seus pormenores, sejam eles brejeiros ou sórdidos, não porque nos achemos necessariamente pessoas desinteressantes e indignas de qualquer registo, mas porque faz parte da nossa essência termos uma certa curiosidade. Há blogues com inegável valor literário, outros com representações fotográficas, cinematográficas e de arte espantosos, ou com belíssimas selecções musicais. Outros há que afloram as clivagens, o consenso e o conflito social, com nítida vocação política, sem esquecer  os blogues onde o bom humor impera. Enfim, há blogues com temáticas para todos os gostos. Mas são inegavelmente os blogues com vocação intimista que atraem mais a atenção do leitor comum. Felizmente, ainda há quem aprecie uma "boa conversa",  ainda que em forma de monólogo, que seja uma partilha de ideias, ou uma exposição mais ou menos reservada de universos pessoais que, num dado momento, se partilham com gosto. Nestes tempos vorazes, tomados pelo pragmatismo, em que falar se vai espartilhando à necessidade de dar e receber informações, parece quase um exercício de infantilidade perdermos tempo lendo, ou escrevendo, coisas que fujam à lógica feroz desse ditame. E esta é a  atitude de muita gente perante a leitura e a escrita: não perder tempo com  "textos minimalistas" onde a subjectividade impere, pois somente interessa o texto formativo. Com a democratização da possibilidade de publicar textos, proporcionada pelas novas tecnologias, a blogosfera tornou-se um espaço onde todos os que escrevem, ou querem ter algum tipo de intervenção diferente, tal como publicitar vídeos ou textos alheios, encontram o seu lugar. E ainda bem que assim é, em prol de todas as idiossincrasias.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Assim de repente

Na busca filosófica do sentido das coisas, creio que tenho aprendido muito mais com quem não estou de acordo do que com aqueles em quem o consentimento é fácil de mais, apesar de não enjeitar possuir uma propensão natural para o polemismo, para a contra-corrente. Um dos grandes desafios da vida é, sem dúvida, conseguir a tal capacidade de dialogar com sensibilidades díspares, com pessoas que têm formas de ver as coisas diametralmente opostas a mim. A aproximação fraternal dos aspectos irredutíveis do outro e, em simultâneo, o não abandono das convicções mais profundas sobre a forma como encaro o viver, é um estágio de maturidade e bondade que, confesso, ainda não consegui de todo alcançar. Quando lá chegar, se tal algum dia acontecer, sei que serei uma pessoa bastante melhor, mas até lá terei de me contentar com a miséria da minha mais que banal imperfeição.*

*(Publicado no 'Madrigal', há uns tempos atrás, um pensamento que mantenho e que achei por bem republicar, mas não seja por auto-pedagogia)

domingo, 20 de novembro de 2011

Do segredo e da felicidade


'Penso que podia modificar-me e viver com os animais, eles são tão serenos e reservados. Quando me detenho a contemplá-los demoradamente, alheios, por condição, a queixas e fadigas, não estão acordados de noite a chorar os seus pecados, não me incomodam a discutir os seus deveres para com Deus. Nenhum está descontente, nenhum endoideceu com a mania de possuir bens. Nenhum se ajoelha perante outro, nem perante antepassados que viveram milhares de anos antes dele. Nenhum é respeitável ou infeliz para o Universo inteiro.'

Walt Whitman



Atrevo-me a dizer que toda a gente, alguma vez na vida, já foi amada. Na infância, na adolescência, na idade adulta, no liceu, na Universidade, ou até mesmo no envelhecimento, uma mãe, um pai, uma avó, um filho, uma filha, um homem, uma mulher, alguém se cruzou ou se manteve por perto, provavelmente, e amou-nos bem. É, no mínimo, uma atitude de presunção agastada querer receitar a felicidade como quem desfolha as páginas do Pantagruel, e nele encontra mil e uma formas de fazer bolinhos de felicidade e alegria esfuziante.

O segredo da felicidade é um segredo de Polichinelo – aquela personagem clássica da comédia dell’arte, das farsas napolitanas e dos teatros de marionetas. Corcunda, barulhento e quezilento, é a figura do bobo da corte, sempre desbocado, dizendo o que deve e o que não deve num tom jovial e folgazão. Os segredos de Polichinelo são por isso a fingir. São farsas dos verdadeiros segredos, que, para que o sejam, devem permanecer ocultos, escondidos, indecifráveis. Qualquer segredo partilhado, ainda que não transborde uma geografia restrita e nunca chegue à praça pública, perde o essencial da sua razão de ser. Quando se partilha um segredo, alivia-se a carga, descarrega-se o peso de se ser, ou de se julgar ser, o único que sabe ou conhece aquela coisa, que é sempre terrível e oprimente, que delata alguém ou repõe uma verdade escamoteada. Entre o peso dos que contêm e se contêm de mais e a leveza dos que deixam escorrer palavras que despem a alma, deve haver uma justa medida para o que se mostra e para o que se esconde.

A felicidade depende, em parte, de condições interiores e, em parte, de condições exteriores. Todas as pessoas que gozam de boa saúde e podem satisfazer plenamente as suas necessidades julgadas elementares, à partida, deveriam ser felizes. Acontece que as coisas não se passam bem assim. A felicidade, nos humanos, é uma coisa muito rara, ao menos como estado permanente. Os animais são felizes desde que tenham boa saúde e bastante comida. Tem-se a impressão que os seres humanos deveriam sê-lo em iguais circunstâncias, mas tal não sucede.

Creio que a maior fonte da infelicidade reside no desamor, nas ideias erradas que se tem sobre o mundo, erradas éticas, errados hábitos de vida que provocam a destruição desse gosto natural e desse apetite pelas coisas realizáveis de que depende afinal toda a felicidade. Uma das principais causas da falta de gosto pela vida é o sentimento de não ser amado, ao passo que, inversamente, o sentimento de ser amado encoraja mais do que qualquer outra coisa. Por variadas razões, um homem pode, por exemplo, considerar-se uma criatura tão horrível que julgue inadmissível alguém amá-lo; pode também ter-se acostumado na infância a receber menos afecto do que as outras crianças; e pode na realidade ser uma pessoa de que ninguém goste. Mas neste último caso a origem do mal reside provavelmente numa falta de confiança em si próprio motivada por precoces infortúnios. O homem que não se sente amado pode tomar, em consequência disso, várias atitudes. Nalguns casos, faz esforços desesperados para conquistar a afeição dos outros, às vezes até por meio de actos excepcionais de bondade. Procedendo assim, no entanto, tem poucas probabilidades de êxito, pois a razão da sua bondade facilmente será compreendida pelos que dela beneficiam e a natureza humana é de tal maneira constituída que testemunha afeição com maior felicidade àqueles que parecem pedi-la menos.

Portanto, o homem que se esforça por conquistar afeição por meio de acções generosas torna-se um desiludido com a experiência da ingratidão humana. Nunca lhe ocorre que a afeição que procura comprar tem muito mais valor do que os benefícios materiais que oferece em troca e, no entanto, é a consciência dessa verdade que inspira todas as suas acções. Outros homens, ao verem que não são amados, tentam vingar-se do mundo, instigando guerras e revoluções ou escrevendo com a pena molhada em fel.. A grande maioria, homens como mulheres, quando sentem que não são estimados, afundam-se num tímido desespero, aliviado somente por fulgores momentâneos

O mundo é este lugar confuso onde eu vivo, contendo coisas agradáveis e desagradáveis, em desordenada sequência. É-me, contudo, irreprimível esta conta-corrente de pensamento e reflexão, sobre os fluxos que julgo serem os mais importantes nesta curta experiência de viver; este percurso aleatório – viagem de ida – onde ditados tais como: «A palavra é de prata, o silêncio é de oiro», não colhem em mim o santuário devido. Já se sabe que muito mais difícil do que abrir a boca e soltar o verbo para largar frases feitas, impressões ambivalentes, palavras entre o muito e o nenhum conteúdo é guardar silêncio. Eu encaro o silêncio como uma mera pausa comunicacional, uma forma de pontuar o discurso, de terminar um assunto e partir para outro. Perdoem-me, pois, aqueles que me lêem por ainda não ter terminado este fiar de tomadas de consciência sobre os méritos e deméritos da infelicidade mas, mais do que qualquer descoberta alquímica, um dos enigmas mais felizes da vida, reside no facto de encontrarmos todos os dias pessoas a quem tudo o que há de mal parece ter acontecido e, ainda assim, mais do que sobreviventes, são alegres viventes, sôfregos de vida, de bem com ela, e, de caminho, com os outros com quem se cruzam, criaturas de histórias muito banais e acontecimentos quase casuais. São pessoas para quem o caminho do Bem é uma opção consciente. Para quem não entendeu, falo-vos dos meus heróis.

domingo, 13 de novembro de 2011

Minímo

Parei de escrever. Há muito tempo que não escrevo e não passa um dia em que não me lembre da importância que essa forma de expressão tem na minha vida. Actualmente tenho ocupado o meu tempo livre com outros afazeres. Dedico-me à música, mais precisamente à prática da guitarra, ao ginásio e a uma pessoa especial. Os desertos de solidão que até há pouco tempo acrescentavam múltiplas razões à existência da minha escrita, têm sido ocupados por beatíficos oásis, que não me proporcionam menos prazer, mas que jamais poderão substituir-se a esta minha actividade, encarada como necessidade fundamental. A escrita, desde há muito, é o meu forro, a minha forma primária de catarse e de auto-entendimento; daí quase todos os meus escritos pecarem por um excesso de convencionalismo intimista, a deslizar para o diário, apesar de serem inúmeras as vezes em que os factos se confundem com a ficção. Gonzalo Torrente Ballester, autor galego das minhas referências, falecido há poucos anos atrás, escreveu algures num dos seus muitos textos de intervenção, que a pior solidão que existe é darmos conta de que as pessoas são idiotas. Obviamente que o autor se tinha em grandessíssima conta e os idiotas a que se referia seriam sempre e necessariamente os outros. Não é no entanto o meu caso. Quantas vezes, nesses desertos de solidão que atravesso, ausentes de sombras acolhedoras, me interrogo se a suposta singularidade, que já julguei possuir, não será ela senão uma vulgar forma de idiotice.


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Partimos juntos

Deixa-me agarrar as tuas mãos e escuta. Não digas nada, limita-te a ouvir-me. Se nada tens a opor, mal anoiteça, seguiremos juntos pela floresta encantada dos alámos e das heras. Não quero que tenhas medo. Prometo que cuidarei sempre de ti. Viajaremos pelas veredas e evitaremos os trilhos principais. Conheço caminhos que, para além do sol e dos animais da floresta, mais ninguém deles tem ciência. Caminharemos devagar, sob as estrelas, em cima do manto de folhas amarelas e cor de fogo que nesta altura do ano forram a charneca. Desse modo evitaremos deixar os rastos da nossa passagem. Vais ver que ninguém nos seguirá. Trás roupa quente e alguma comida. Eu levarei um farnel, agasalhos e uma arma que nos possa defender perante alguma adversidade. Só preciso de ouvir uma vez mais dizeres que me amas. O resto do mundo já pouco me importa. O nosso futuro jaz nas mãos do destino e é a força do amor que nos guindará ao boreal da felicidade. Quero amar-te como ninguém te amou. Em toda a parte, quero ter-te sem fim, como se fosses tu uma parcela de mim. Quero, um dia, longe de tudo isto, passear contigo entre as flores do jardim e para ti colher as mais perfumadas. Posso beijar-te agora? Diz-me que vens. Diz! Eu fico à tua espera junto ao velho carvalho, na volta da estrada, onde dorme o casal de cucos. Mal anoiteça, partiremos juntos. Se não podes amar-me por receio, seremos amantes em segredo, mas este nosso amor ninguém nos tirará. Juro-te!

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Despedida

Fecho os olhos e vejo-te. Vens a mim quando te não quero. Há coisas que não se devem querer. Tu és uma delas, doce veneno. Agora já não há segredos. Corremos sem saber se vamos a tempo de saltar. Se queremos. Nesta existência precipitada, imprevisível de noites e pequenos nadas, acabei por não te dizer uma coisa, que nunca te disse, pois nunca veio a propósito. Uma vez, uma única vez, resolvi voltar aos locais por onde andámos juntos e chamei pelo teu nome, na esperança que surgisses ao virar de uma esquina, vinda na minha direcção, com um sorriso nos lábios. Sempre te achei intrigante, talvez por te faltar aquela necessidade natural que têm as pessoas de falar de si, e se justificarem. Eu nunca soube nada de ti e era por isso obrigado a inventar tudo e depois obrigado a desfazer o que tinha inventado e  recomeçar de novo. Era uma forma de amor em que eu fazia de Penélope e tu de Ulisses. De qualquer modo, cada um de nós deve parar com a brusquidão inútil da saudade e partir para não mais voltar. Qualquer um de nós deve estar preparado para uma travessia sem fim. E tudo voltar a ser o que era, antes de tu e eu sermos um do outro.*




* Texto escrito por mim, por volta do ano 2004 ou 2005, e 'surripiado' do 'Madrigal' 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Um sussurro na madrugada

Nessa noite, passei-lhe a mão pela face, com receio. Ela sorriu-me. Timidamente. Por entre as árvores intrometia-se a lua, lá em cima, enorme e quase vermelha. Coisa que, apesar de tudo, continua a ser um acontecimento excitante para muita gente. Não lhe envolvi os ombros e mal lhe toquei. Aproximei ao de leve os meus lábios dos dela e beijei-a suavemente. Quase imperceptível, recortada como um destino esquecido entre a luz, foi a minha partida. Meneie a cabeça, até ficar com a lucidez exacta de ter acordado, e dirigi-me para casa. A recordação manteve-se algum tempo na memória. Deitei-me mas não dormi logo. Quando estamos cansados deitamos o corpo e adormecemos. Mas às vezes não. Procuramos outra mão, outros olhos, que nos limitem a fadiga e evitem o sono que nos vem antigo. Mas, tacteando, tocamos o silêncio e o vazio.
O que existe dentro de mim, por vezes, não sei se é amor, se é saudade, carinho, felicidade, ternura, tristeza ou paixão. Não quero rotular o que sinto. Sempre que o faço, limito os meus sentimentos. E desejo que eles sejam sempre intensos e inomináveis. Não acredito em  fórmulas certas com vista a resultados, porque não espero acertar sempre. Nem tão pouco consigo ser o que não sou, fingir o que não sinto. Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sou capaz de grandes 'normalidades' e não sei voar com os pés no chão. Mas, com o rodar dos anos e o sangrar da vida, aceito-me cada vez mais, e isso pacifica-me.

domingo, 18 de setembro de 2011

Limpópó, Jorge!

*
http://picaretaescrevente.blogspot.com/2011/04/em-busca-de-uma-empregada-domestica.html.

* Texto que, de algum modo, já abordara semelhante temática, prova das recidivas desta minha minha lassidão.

Não sou capaz de precisar o momento em que a preguiça, ignominiosa, se apoderou de mim. Certo é que não há dia que não olhe para o aspirador, para o pó que se vai acumulando no chão, nos móveis, e um pouco por todo o lado, para as formações montanhosas de roupa por passar a ferro, com os seus graciosos picos nevados de roupa branca, para os livros e as revistas, espalhados por todas as divisões, e não sinta uma culpabilidade aguda pela proporção que deixei que as coisas tomassem. Provavelmente foi daqueles deslizares suaves que vão acontecendo sub-reptíciamente, que se vão instalando e ganhando espaço até acabarem tão naturalizados, tão integrados, que quase poderia jurar que a minha casa esteve sempre assim. O que não é verdade. Falta-lhe aqui uma 'mão feminina', é certo, mas também é seguro que eu tenho duas 'mãos masculinas', tão ou mais capazes de desencadear uma clean revolution, como quaisquer mãos de mulher. Na verdade, tenho guardado o meu tempo livre para actividades prazenteiras - 'as pessoas como deve ser' devem estar sempre ocupadas a cuidar da sua realização e da sua felicidade -, e faço por esquecer, relegando para plano secundário, as tarefas chatas mas inevitáveis. Sem querer abdicar da gloriosa volúpia de sentir, no rosto e nos braços, os tímidos raios de sol desta tarde quase outonal, enquanto escuto o trinado dos pássaros nos ramos das árvores, e vejo a relva a crescer no prado que observo da janela do escritório, receio que a hora seja mais do aspirador. Não vale a pena procurar as falhas e os interstícios desta verdade, que, por tão factual, nem admite contradita: a minha casa precisa urgentemente de ser limpa. Quem dera, por vezes, que estivesse anunciada uma visita papal ao meu refúgio, ou de alguém cuja solenidade e olhar crítico me causasse tamanho embaraço, que me fizesse andar uma semana antes a limpar meticulosamente o apartamento. Parece que a esperança é o antídoto natural para o desespero e que o desespero é o sentimento derradeiro que inunda a alma e escurece e obnibula qualquer hipótese de futuro. Mas eu agarro-me poeticamente à esperança que uma vontade irreprimível de arrumar, limpar, organizar, e puxar o lustro aos móveis, se apodere em breve de mim. Assim como já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer e já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais, tenho a certeza absoluta que, brevemente, a minha casa vai ficar tão limpa e arrumada como a Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes. Resta-me acrescentar, por natural descargo de consciência, que emprego o advérbio 'brevemente' no sentido literal do mesmo e não como um vã mensagem programática. Em tempo de manchetes vazias, no que à temática e imaginação da  minha escrita respeita, é licito, é justo, é imperioso mesmo que eu descubra o fio de Ariana que me abra uma janela por onde entre esta iluminada esperança. Mais do que guitarradas, acordes, escalas pentatótinas, escalas gregas, em Dó Maior, passeios de mota e navegação intensiva no Facebook, ou leituras inusitadas, o que me faz mesmo falta neste momento é segurar nas mãos uma esfregona, um cabo de aspirador e um pano do pó. Limpópó, Jorge!

domingo, 11 de setembro de 2011

Limpópó em silêncio!


Acordei estremunhado, depois de umas escassas quatro horas de sono, com o barulho do arrastar de móveis. Os meus vizinhos do andar de cima, todas as manhãs de domingo, arrastam móveis de um lado para o outro. Não querendo acreditar tratar-se de um ritual dominical, ou de uma prática de sortilégios de feitiçaria, penso que será um excesso de zelo na limpeza, que faz com que a Dona não sei das quantas, se lembre de que pode haver pó atrás dos móveis. É evidente que existe toda a probabilidade de eu encontrar pó atrás dos móveis e das estantes. Mas limpá-lo todos os domingos? E às 07h00 da manhã? Domingo, para a prática cristã, é um dia santo e, por fundamentação bíblica e etimológica, é considerado o primeiro dia da semana, seguindo o sábado e precedendo a segunda-feira. Mas, na minha sentimentalidade, é somente aquele dia horroroso que antecede a odiosa segunda-feira. É ao domingo que tenho de fazer o exercício mental doloroso de tentar esquecer o meu Eu. Segunda-feira, é o meu heterónimo mais desinteressante quem vai ter de se levantar às 08h00 da manhã, fazer a higiene diária, tomar o pequeno-almoço useiro, no café do costume. E, depois, atirar-se às escrituras. Não sou Eu, como resulta evidente. Mas o chato da questão é que Eu vou ter de ir com ele - o que hei-de fazer? 

Limpar o pó em silêncio, mais do que um exercício de estilo, devia ser um aprendizado que todos dominássemos. Eu, por exemplo, limpo pouco o pó, e, quando o faço, sou tão silencioso e ineficaz que quase ninguém dá por isso. O silêncio vale oiro, mas infelizmente pouca gente lhe confere o devido valor. É no silêncio que melhor reflectimos, tomamos decisões, estudamos, descansamos ou conseguimos a verve suficiente para escrever algo de importante que tenhamos na cabeça. Às vezes sabia-me bem ter uma casa no interior do país, completamente isolada e rodeada de árvores sussurrantes, afastada da estrada principal e da aldeia, onde só se chegasse por azinhagas que mal permitissem a passagem de um automóvel. Instalar-me-ia lá com os meus livros, a minha música, as minhas guitarras, as minhas motas, um acesso à Internet, um gato, e creio que bastava. Mas a reforma ainda vem longe, ou não, e, depois da tomada de consciência da efemeridade da vida, dos acidentes de percurso, e da unnplanned travel experience,  há muito tempo que só sonho a curto-médio prazo. 

Entretanto, o guerreiro barbudo e hirsuto,  sempre de sobrolho franzido, que é o meu vizinho do andar de cima, já anda na rua a passear o cão. O barulho cessou. A mulher, coitada, não tem forças para dominar a coleira do doberman, quanto mais para arrastar móveis sozinha. Um extenso manto de nevoeiro,  cobrindo totalmente o bosque a tardoz da minha casa, foi o primeiro retrato que divisei esta manhã. Mas, pouco a pouco, já se conseguia destrinçar, ao longe, a estrada para Coimbra e a A1, ambas recortadas pela luz tímida do sol da manhã. Dois meninos corriam em direcção ao bosque e fiquei a mirá-los vagamente. Recordei a minha primeira caçada aos gambozinos. Não teria eu mais do que a idade daquelas crianças. Uns seis aninhos. Aconteceu, num bosque parecido com este das traseiras da minha casa, nos tempos em que ainda andava nos escuteiros. Convidaram-me e explicaram-me. Até me ofereceram o saco conveniente  e necessário para depois os colocar lá dentro. E, na noite da caçada, lá fomos nós, os Lobitos, acompanhados dos Exploradores e dos Caminheiros. Fiquei de plantão, junto a um morro escondido por umas altas silvas, mais um amiguinho Lobito. Entretanto já anoitecera. E, com uma lanterna na mão e o saco a jeito, lá ficámos nós à espera da chegada dos gambozinos, enquanto tiritávamos de frio. Era o início do outono e as noites depressa se tornavam frias. 

Foi das primeiras experiências choque da minha vida. Tomei consciência de que não podíamos confiar totalmente nos 'adultos' e, confesso, foi doloroso. Um colo precioso que, de alguma forma, se desmoronou. Hoje, já com a 'idade da razão', tudo me leva a crer que a experiência iniciática da caça aos gambozinos é realmente importante. Temos de apanhá-los. Temos mesmo. Seja lá como for. Pois, mais importante do que fazer limpópó todos os domingos, arrastar móveis e macular o silêncio, é prudente usar o tempo para  imaginar e sonhar. Por exemplo, estive mesmo agora a fazer um limpópó à minha mente, a exercitar as falanges, e a divertir-me um nadinha com estas singelezas que acabei de escrever. E agora vou passear de mota. As minhas vrumms vrumms vrumms, ao menos, nunca ganham pó.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Quimíca

A sedução tem muito que se lhe diga. Isto de alguém ser capaz de se fazer amar, desejar, querer, sem mais nem porquê, não é de todo um dado fácil de digerir. A capacidade de uns tantos, poucos, se fazerem amar é uma imensa mais-valia. Quem possuir o dom de exercer fascínio sobre os outros, capaz de os amaciar o suficiente para ficarem vulneráveis a influências e alterações de comportamento, é definitivamente um sedutor. Mas a relação entre o sedutor e o seduzido (atrais-me, mas não tens força para me prender) não é tão eficaz como quando está presente a 'quimíca'. E, mais importante do que a 'arte da sedução', que alguns prosaicos se gabam dominar, é sobretudo a 'quimíca mútua', como correntemente agora se apelida a chama da paixão, que aproxima verdadeiramente duas pessoas. Sem 'quimíca', sem aquela atracção mútua inexplicável, aquele bater mais forte do coração quando se pensa em determinada pessoa, aquele gostar inexplicável, ilógico - um gostar com o coração, esvaecida que ficou toda a racionalidade -, o que parece que espanta pela raridade e fascina pela perfeição, torna-se, no momento seguinte ao deslumbramento, uma enorme trivialidade. A cultura do amor tornou-se, na nossa sociedade, um ingrediente fundamental para a nossa felicidade. Grande parte da nossa vida afectiva, enquanto adultos, é dedicada à relação amorosa. Rompemos relações estáveis, porque deixamos de amar, para, passado algum tempo, voltarmos a amar. Mesmo as pessoas com necessidade de lutos maiores, mesmo os mais desiludidos, que juram a pés juntos não querer mais ninguém e que se bastam com o culto narciso da sua pessoa, um dia sucumbem à lógica da 'quimíca'. Uma vez tocados pela 'quimíca', a menos que sejamos seres abjectos, patologicamente insensíveis, todos sucumbimos. O amor é o que sentimos pelo outro, mas também o que o outro sente que nós sentimos. Não há muitas racionalidades que consigam explicar o porquê de gostarmos de alguém. E a prova disso é, não raro, acontecer gostarmos de pessoas que 'racionalmente' não seriam as mais indicadas para entregarmos as chaves do nosso coração. Não admira que os grandes sedutores sejam habitualmente tão infelizes. Seduzir, essa capacidade fantástica, pode resultar no imediato, mas sem a poção mágica da 'quimíca', capaz de aliar corações, tudo pode não passar de um fogo fátuo de sentimentos. E o que todos almejamos é chegar ao cume, ao vibrátil: o amor, como referente universal de todos os sentidos. Tudo o resto são sucedâneos, vertigens de quem espera pelo fundamental.

sábado, 6 de agosto de 2011

De madrugada...

O que somos nós? Amantes, amantes desesperados no seio do tempo? Na imensa confusão deste mundo? Pouco mais que nada. Arranhamos o que nos rodeia. Gozamos. Sofremos. E depois partimos cada um para seu lado, pensando na próxima fusão. Um dia virá em que não haverá mais nada. Apenas saudade. Desencanto. Amar não é simples. Espreita-nos a ferocidade dos abismos: a morte, o silêncio.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A antinomia do necessário

Numa das minhas deambulações pela cidade, congeminei que a fealdade mais grotesca é, imagine-se, um prédio em construção: um tosco de cimento nu, rodeado por andaimes, de cinza vestido, sem portas, nem janelas, como um naco morto que, à força, se quer afirmar vivo. Se a esse frémito de desolação lhe juntarmos tijolos quebrados, lama encardida, entulho mal arrumado, promiscuidade de tintas, resinas, fios ferruginosos, baldes cortados ao meio e grossas estacas de ferro aramado, tudo espalhado sem sorte, eis-nos perante um conjecturo que ainda é monstro. A ausência da estética é algo que me assusta e desconforta.

sábado, 18 de junho de 2011

Odeta


O teu nome tem por étimo a palavra Ode, aquela composição de poesia maior destinada ao canto? Não creio. A tua graça mais parece conotar-se com um género novo: A Ode menor. Se não existirem Odes menores, como, aliás, estou convicto ser verdade, arrogo-me autor deste neologismo: Odeta - com essa novíssima significação. Se te chamasses Odete, caberias no meu dicionário antroponímico, que vive, algures, obeso, em permanente estado de hibernação, refastelado em cima de livrinhos, magriços e resignados, esmagados pelo seu peso. O teu nome não consta lá. É mais uma daquelas aberrações vindas de um qualquer Conservador do Registo Civil, infestado de carepas, em estado de artrite dolorosa, virado para os francesismos tardios. Nem tens lugar no lupanar dos nomes mais feios que por lá existem: Odeberta, Odefrida, Odorica...És, sem mais mistérios, uma vogal truncada, pela mera infelicidade de um descuido ortográfico.

Odeta. É estranho ter de chamar-te assim. Apetece-me rebaptizar-te: Odete, mas não posso, não posso mesmo. Tenho de chamar as pessoas pelos seus nomes correctos. É apenas por uma questão de coerência, nada mais. Não me interpretes mal. Sabes onde eu estava da primeira vez que falei contigo? Estava junto a uma gaiola enorme, cilíndrica e esguia, que afunilava até formar uma espécie de campânula, repleta de pássaros de bico de lacre, a assistir a uma chilreada tão grande que quase tinha de gritar para me conseguires ouvir. O dia estava lindo. Um sol esplendoroso flamejava ao de leve os pêlos dos meus braços, criando em mim uma sensação de energia tão agradável, que um estremecimento percorria em constante todo o meu corpo. Era o alvor de uma estação neófita, parida nas faldas esconsas das olheiras cavas e depressivas de um Inverno venéreo: estação escura, medieva, sempre acocorada com um medo inexplicável do poetar do sol. Eu a assistir a tudo isto e tu metida em casa. Francamente, Odeta, com um dia assim!

Odeta. Eu sei que ambos comungamos do mesmo padecimento, desbotado e feio, que habita dentro de nós, como uma vontade férrea, aclimatando-se ao nosso organismo, tal como o parasita vive à custa do seu hospedeiro. É isso, Odeta. É essa empatia que nos une, o íman que nos magnetiza para o alvoroço de um conhecimento mútuo. Receio não conseguir resistir ao teu apelo, enquanto me enleio neste solilóquio, passeio de adágio, que percorre estradas bordejadas por enormidades a que chamamos árvores: formas excêntricas, nodosas, com raízes que há muito se apoderaram do asfalto, à outrance, apelidadas com nomes hoje indisponíveis. Não me admiraria se, uns metros mais adiante, encontrasse refastelado num destes bancos de pedra esculpida, um dos meus parágrafos, aqueles que há muito lhes perdi o rasto, de perna traçada, a dar, a dar, com um chapéu de til enfiado na cabeça, a cumprimentar de forma circunflexa damas imaginárias. Tudo se me assemelha possível neste jardim onde trouxe a passeio a minha fantasia.

Não imagino, sequer, um coup-de-foudre, uma atracção por ti, que não seja um galanteio confortável, já vestido de robe e embrulhado num edredão, o estritamente necessário aos propósitos que ambos comungamos como tácitos. É talvez essa frontalidade, esse sentimento em carne viva, um querer adulto, sem hiatos, que me atrai em ti. Imagino-te sem toilette, sem artefactos ditados pelos supetões imperiais da moda. Faço ideia que sejas uma mulher simples, pragmática, não derrotada pela fealdade do teu próprio nome e tocada pela interioridade. Será que me engano assim tanto, Odeta? Continuas a achar que eu tenho um conhecimento privilegiado e intuitivo da alma humana? Quando me disseste isso, por escassos momentos, imaginei-me Rasputine: uma apócrifa reencarnação daquele curandeiro e visionário russo que, no início do século XIX, conquistou grande influência sobre o Czar e a Czarina, tendo acabado assassinado pelos seus detractores, movidos pela inveja e pelo ciume. Nem sei porque pensei tudo isto, sinceramente não sei. Acho que tenho de comutar os faróis de halogéneo da clarividência, para conseguir encontrar o cancelo de saída deste jardim de deambulações. Nem mesmo quando o sol se agacha à sombra das nuvens o jardim ganha um halo verossímil. Estes sons estridentes que cruzam o ar, como o grito do tucano quando faz soar o bico comprido; esta aragem fresca que murmura no chapéu das árvores; os raios de luz que trespassam a folhagem, tudo isto incita em demasia a minha tubular imaginação.

Cruzei os pórticos de um verde solífugo, sem olhar para trás, e achei-me diante de mim. Já era o entardecer. Junto aos muros, aglomeravam-se mulheres da aldeia, estridentes, buço bucólico, navalha em riste, sentadas em pose de excursão finda. Uma em especial tinha a idade no olhar. Penso em quanto choveu sobre a minha infância desde que estas silabas tropeçam agora no lusco-fusco. Desde então, o trigo já cresceu sobre o meu rosto; e, quanto mais envelheço, mais pueril é a luz, mas essa vai comigo. Também já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer que o meu comércio não é o da alma. Há igrejas de sobra e ninguém nos impede de lá entrar. Não me peçam a mim, que só conheço os caminhos da sede, que mostre a direcção das nascentes. Hoje, quero apenas adormecer sobre uma profusão de girassóis, e várias já foram as negligências do meu olhar. Sabes, Odeta. Só o desejo e a imaginação impedem a perversão da alegria. Pensa nisso.

O nexo

Rio Lis - Leiria - Junho 2011
Quando ontem ao cair da noite mirei o Lis, apeteceu-me ficar ali até ser pedra, extasiado que fiquei com a luz da lua, difusa, alvejante, que estremecia  ao tocar na água. E nas horas em que um tédio assim improbo me tolhe, recordo que faz muito tempo não convido a lua para meu holofote de companhia. Por vezes são execráveis as náuseas dos diurnos, os momentos, os dias alvoraçados pela fartura do silêncio. Hoje, com a manhã, voltou o anónimo respirar do mundo e decidi-me sair deste mar morto de vida, acompanhado por um espelho argênteo que me segue com um espectro. Crente que as palavras imploram de mim uma expulsão,  há dias que me sinto um clandestino: vivo às ocultas, não consto em quaisquer registos dignos de merecimento, nem estou autorizado, pela burocracia vigente, a existir como pessoa. Privado do Direito de Ser, que não se me aplica, por não constar dos catálogos oficiais, estigmatiza-me a condição de estrangeiro. Que se lixe! Sou diferente. Sobreviverei numa garagem, num contentor; ou, já melhor acondicionado, na promiscuidade de um espaço demasiado pequeno com outras almas, tal como eu, rotuladas de 'inviáveis'. Mudar é para mim sinónimo de morrer.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Regressando...

Sempre achei que todas as feridas podem ser material de poemas. Portanto não devem ser evitadas. Por isso, penso em frágeis pétalas de magnólias sopradas pelo vento, em súbitas cataratas caindo do céu. Penso em poemas perfeitos como refúgio de almas como as nossas. Penso no desenho dos teus lábios, na tua graça de menina. Trago o teu nome na minha boca. Quero-te como a terra que anseia pela água que bebe. Só tu, de novo tu, sempre tu, a ocupares-me a cabeça, o tronco e os dedos. Eu sou também o chão que pisas, o ar que voltou. Olha para mim. Não tenhas medo. Ninguém nos vê. Somos só nós dois. O mundo ficou todo fechado lá fora. É certo que a beleza recusa-se a um qualquer enredo, mas a vontade de poetar de novo está voltando e vem cobrindo paulatinamente os meus ramos. Ramos anosos, mas sólidos, ainda capazes de arcar com a sua função primeva: encherem-se de rebentos primaveris e florirem; tão somente isso...


NB. Escrito pela madrugada, a propósito de mim, a propósito de nada, talvez somente um delírio  decorrente da insónia que me sussurrou aos ouvidos; hoje, porventura, cedo de mais.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Banalidades

1. Desde há quase uma semana que ando a navegar à bolina com responsabilidades acrescidas em virtude do meu chefe se encontrar em acções de formação. Quase estouro, tanta é a carga em cima dos ombros; e, sem estar a ganhar o ordenado que ao cargo corresponde, a motivação é escassa, para não dizer nula. Felizmente que para a semana que vem o boss está de volta e tudo regressa à normalidade. Guardo a concentração e as energias para as minhas leituras e para a prática da guitarra. Tudo o resto é um enfado de cumprimento obrigatório.

Desabafos à parte, nos menos de dois quilómetros que separam o meu local de trabalho da minha casa, apesar da rotina diária do trajecto, hoje deu-me para estar mais atento ao que me rodeia. Todas as quintas-feiras é dia de jardinagem nos canteiros que verdejam o logradouro do prédio onde se situa o meu emprego. O serviço é prestado por utentes da CERCILEI (Cooperativa de Ensino e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados de Leiria),  todos eles com algum grau, maior ou menor, de atraso mental. Há um rapaz em especial, não terá mais de vinte e poucos anos, de estatura gigantesca, sempre com um bornal militar a tiracolo e uma sanduíche na mão, que é o primeiro a chegar. De manhã, cumprimenta-me efusivamente, como se me conhecesse de algum lado, e ajuda-me a estacionar o automóvel, correndo ora para a dianteira, ora para a traseira da viatura, sugerindo manobras, como se o minúsculo Peugeot 106 carecesse de grandes viragens para se encolher entre os carrões sumptuosos que usualmente estão estacionados no parque automóvel. Ao final do dia lá está ele de novo. A eterna sanduíche na mão - tem de ser outra, pois custa a crer que o rapaz segure na mão o mesmo pão o dia inteiro -, os mesmos gestos efusivos, e lá vem ele numa corrida  desengonçada, a única que a sua deficiência permite, 'ajudar-me' a fazer marcha atrás com o carro. De seguida, como se fosse um policia de trânsito, ergue ambas as mãos e enxota-me, manda-me seguir viagem. Fica a acenar-me energicamente sem nunca parar: numa mão agarra firmemente o impreterível  pão, enquanto a outra se agita numa alegria desmesurada. Aceno-lhe também com igual vigor e fico a observar pelo espelho retrovisor a sua silhueta de bom gigante, até que o deixo de ver à primeira curva da estrada. Não sei como se chama nem tão pouco alguma vez falei com ele para além do trivial 'bom dia' e 'boa tarde'. Fiquei, no entanto, com a sensação de que o seu atraso mental também interfere com a dicção, uma vez que tem uma fala entre-cortada e alguma dificuldade em manter a língua dentro da boca.

O que mais me comove é a bondade e a pureza integral deste género de pessoas, qualidades que dificilmente se encontram nos indivíduos ditos 'normais', mas que são tão frequentes em gente com algum retardamento mental. Deus retirou-lhes a consciência padronizada, o suporte vital para serem independentes na nossa implacável sociedade - onde somos capazes de nos devorar uns aos outros sem dó nem piedade - mas obsequiou-os com qualidades dulcíssimas que confrangem e apetece relatar.

2. Ontem à noite, quando vinha das aulas de guitarra, observei que na rotunda onde sempre passo no trajecto para casa, os carros que seguiam à minha frente abrandavam ou paravam. Sem perceber o que se passava, uma vez que não conseguia avistar nada que justificasse tal atitude, chegado à rotunda,  vi uma pata e três patinhos no meio da estrada, o andar bambaleante, hesitando entre subir para o redondel, onde ficariam a salvo dos automóveis, ou deixarem-se ficar no meio da estrada. Fiquei agradado com a atitude dos automobilistas que, carinhosamente, pacientes, esperavam o tempo que fosse preciso até que os patos se decidissem a atravessar a estrada. Pensei para com os meus botões: as pessoas, afinal, têm sentimentos, bom coração, derretem-se com a visão enternecedora de uma pata-real, com os filhotes perfilados atrás de si, em  passeio nocturno numa das artérias mais movimentadas da cidade. Que coisa! As pessoas têm coração!

Hoje, ao final da tarde, logo depois de ter deixado o meu Gulliver arrumador de carros, com a sua  eterna sanduíche na mão, entrei na mesma rotunda e qual não foi o meu espanto quando vi, esmagados no alcatrão, numa massa informe, os três patinhos do dia anterior. Percebia-se que eram eles porque ainda se conseguia divisar o verde da penugem misturado numa amalgama de sangue seco, tudo completamente espezinhado pelo rodado dos inúmeros automóveis que passam por ali. Fiquei triste mas ao mesmo tempo conformado com a sua sorte. A menos que alguém, onde eu me incluo, se tivesse dado ao trabalho de parar o carro para os recolher e devolver ao seu habitat natural, as margens do Lis, o seu destino fatal estava traçado. Num outro tempo, num outro espaço, numa outra sociedade, menos apressada, menos egoísta, mais preocupada com a preservação da vida (dos outros), isto não era suposto acontecer.  Mas as coisas, infelizmente, não se passam assim.

Neste momento, já a noite escureceu o céu, a dor na garganta - custa-me a engolir a saliva - que me atormenta há alguns dias, parece que se acentuou. Já só a caixa de Ananase aviada na farmácia local me pode valer. A menos que eu não saiba, ainda não existem pílulas para o egotismo, para a insensibilidade e para a indiferença, 'virtudes' que abundam no mundo em que vivemos. Assim, que morram os patinhos sob o rodado dos carros, já que a sua vida pouco importa a quem quer que seja. O que importa mesmo é o nosso real umbigo, ainda que com algum cotão, que até isso lhe perdoamos.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Solitude

Praia Norte - Nazaré - Janeiro de 2011
Os dias felizes são azuis. Claro que isto não passa de uma opinião. Haverá quem defenda o encanto dos dias plúmbeos, com maciços de nuvens baixas a ameaçar que o céu nos vai mesmo cair em cima da cabeça. E haverá, seguramente, quem se renda aos dias chuvosos e escorregadios que transformam as casas aquecidas em portos de abrigo seguros e tranquilizantes. Há dias de todas as cores e noites sem cor. Há gostos que valorizam o sol, os espaços fechados, o campo ou o mar. Para mim, os dias felizes são azuis. A vantagem, se é que se trata de uma vantagem, de dar cor aos dias é saber que no ciclo do tempo, na rota lenta mas contínua do que se passa, os dias assinalados como os nossos chegarão. Ainda que tardem, ainda que se atrasem, ainda que não cheguem quando são devidos e esperados, há sempre um amanhã em que o dia nasce azul. E esse dia quando chegar é meu.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Consciência sazonal

Já se sabe que viver em sociedade é uma canseira. Estamos sempre a começar de novo a fazer os mesmos gestos, a repetir, como se tivesse graça, ou fosse engraçado, uns tantos chavões, umas tantas frases batidas, as queixas do costume e, já agora, porque não, a esperança idiota a que nos agarramos para sobreviver, os pequenos e grandes afectos que vamos sentindo e, querendo sentir, no reconhecimento da dificuldade da estranheza e também do privilégio da existência. Devemos ter quase todos vocação para ser chatos e insensíveis. De certeza. Repetimos automaticamente tantos gestos, lugares comuns, brejeirices, que já nem é inquietante dizermos que os emigrantes romenos de etnia cigana são todos ladrões, preguiçosos, mal-educados, exalam pestilências e não há nada de mau que não se lhes aponte. Olvidamos, convenientemente, que são seres-humanos, tal como nós, e que o primitivismo e a miséria total que gravita em seu redor, podia, por má sorte, ser a rotina do nosso quotidiano.  Não nascemos numa aldeia dos Cárpatos, nem morámos dentro de grutas, nem tampouco tivémos de vender algum dos nossos filhos para que os outros tivessem que comer. Habituámo-nos de tal modo à maledicência (e eu não fico impoluto no ror desses juízes de tribunal de plenário!), que conseguimos esquecer que a mulher sentada na entrada do supermercado com uma criança ao colo, é uma pessoa em estado de grande carência, sofrimento e desespero, tal como os jovens que vasculham os contentores do lixo em busca de roupas jogadas fora e restos de comida para a refeição do dia.

[Esta é a realidade que se passa na cidade de Leiria no ano de 2011]

Como sempre ouvimos falar da crise de valores, colocamo-nos um pouco como os vizinhos, na história da menina e do lobo. Ainda que seja verdade, tardamos em acreditar, ou assobiamos para o ar. Mas, mais do que isso, ou diferente disso, a questão que me ocorre é a de saber quais são os valores que temos tanto medo de perder? Que desgraça maior poderá ocorrer se não tivermos, em cada momento da nossa vida, cada gesto, cada comportamento, a omnipresença desses imperiais valores que não devem ser perdidos? Tenho para mim que o único e difícil valor que é condição necessária e suficiente de humanidade é o amor. Os outros vão e vêm, ao sabor do tempo e das modas. O amor, esse, esvai-se ou floresce, mas vai persistindo e resistindo, às vezes como sentimento, outras como valor, outras ainda como desejo escondido, mas, ainda assim, presente no coração dos homens. Por isso, hoje, quando paguei uma singela refeição - gesto que não fez de mim um homem nem mais rico, nem mais pobre - no restaurante onde todos os dias almoço, a uma jovem mãe romena e ao seu bebé de colo, senti-me envergonhado. Envergonhado com o olhar de desprezo com que todos os comensais os olhavam, visivelmente incomodados com a sua presença; envergonhado com o 'muito obrigado senhor' que a pobre mulher, no seu rudimentar português, não parava de me dizer; envergonhado com o meu sazonal  gesto, que não serviu senão para aplacar a minha 'má consciência' e poder desfrutar uma refeição em paz; envergonhado, sobretudo, com uma sociedade que, em pleno século XXI, não se compadece com pessoas que têm necessidade de remexer nos caixotes do lixo para procurem agasalhos e comida.  Olhamos para o lado e seguimos em frente. Essa é a forma convencional que todos encontrámos para não torturar a nossa consciência - antes eles do que eu!

Senti uma certa resistência por parte dos donos do restaurante quando entrei com  os 'pedintes' e solicitei que lhes servissem comida, pois era eu quem pagava. Franziram o sobrolho, argumentando que no dia seguinte, com toda a certeza,  ia aparecer a família inteira, alertada pela novidade de que havia um restaurante onde os clientes pagavam almoços. Até pode ser verdade que tal aconteça, não digo que não, mas a condição era inegociável: ou serviam a senhora e o bebé, ou o dr ia embora, não almoçava naquele dia nem punha lá mais os cotos. 

Sei que amanhã tudo será igual. Mas atrevo-me a dizer que toda a gente, alguma vez na vida, foi amada. Eu hoje, seguramente, amei aqueles dois seres. Só não sei o que lhes reserva o futuro. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Mais para a esquerda


A clivagem irremediável entre criaturas que vivem eternamente nas luzes da ribalta e os condenados a viver na sombra sempre me incomodou. Sacramentalmente, por razões do coração, onde cabem opções politicas e morais, entre outras, sempre me insurgi contra os poderosos e me senti mais próximo daqueles que nada têm, e cuja importância é tão diminuta que grande parte da sociedade acha-se no direito de os desprezar. Esta minha forma de sentir afirma-se com clareza sempre que me deparo com pessoas de um certo calibre. Os meus heróis pouco ou nada têm a ver com gente que dribla bem com uma bola nos pés ou nasceu para os lados da Quinta da Marinha em piscinas repletas de dinheiro. No amor em fazer bem ao próximo, na cultura, nas artes em geral, na poesia e na literatura, fermenta-se a matéria de que são feitos os meus heróis - aqueles que não me importava de imitar,  fosse o caso de possuir a sua verve. Infelizmente vivemos numa época de imediatismos que atribui majoração a capacidades pouco prestáveis e à posse de bens materiais. A ânsia insaciável de subjugar o próximo, a vertigem do poder, o estar acima do outro, são os valores-paradigma que guiam o tempo em que vivemos e no qual, confesso, não me sinto de todo integrado. Talvez eu seja um romântico, no sentido mais lato da expressão, um idealista, um fantasioso, como já me chamaram, com um modo de pensar mais consentâneo com modelos  societários hoje considerados retro, ou pertencentes ao jurássico das ideias; mas, ainda assim, não abdico daquilo que me constitui e integra. Não fora isso, o que seria feito de mim?