sábado, 9 de abril de 2011

Do amor de um velho por uma nova

Há pouco tempo, com uma pessoa amiga, trocava eu impressões sobre um assunto melindroso, mas bastante interessante. Tratava-se de saber se um homem de cinquenta anos pode, ou não, interessar-se por mulheres substancialmente mais novas; e se, porventura, o mesmo pode suceder a uma mulher também próxima dessa idade. A minha amiga, peremptoriamente, defendia a tese de que, no seu caso, isso seria de todo impossível de acontecer, uma vez que não se dignava, sequer, olhar para homens de uma faixa etária muito inferior à sua; nem acreditava que pudesse haver sentimentos e desejos sinceros por parte de um homem mais novo em relação a uma mulher mais velha. Intrigado com o fundamentalismo da sua posição, até porque são conhecidos bastantes exemplos de casais onde ela é mais velha do que ele, concordámos no entanto que é bastante mais comum nos homens o relacionamento com mulheres substancialmente mais novas. Existem, inclusive, homens que, pelos motivos mais variados, querem e desejam mulheres mais jovens do que eles. Todas as sociedades, provavelmente à imagem e semelhança dos indivíduos, vão sobrevivendo num movimento perpétuo de regras e interditos. Convencionou-se que a uma mulher não fica bem juntar-se com um 'puto', mas o contrário não é verdade. Um homem que tenha por companheira uma mulher muito mais nova do que ele, passa para os outros uma imagem de virilidade - é cinquentão mas ainda dá cartas! - e espalha a inveja e a cobiça nos outros homens da sua faixa etária. Existe, também, o facto indesmentível de que as mulheres atingem a maturidade plena muito mais cedo do que os homens - que são bebés até muito mais tarde - e, por via disso, um relacionamento em que ele seja mais velho do que ela, tende a gerar maiores equilíbrios. Fala-se de que as novas procuram nos homens mais velhos os bens materiais que eles lhes possam proporcionar; e então trata-se um relacionamento mercantil que nada tem de indecoroso se ambos estiverem cientes do facto. Diz-se, igualmente, que uma certa franja de mulheres, por terem tido pais pouco afectuosos ou ausentes, sentem desejo por homens mais velhos, na sua efabulação, capazes de as proteger e transmitir o afecto paternal que não conheceram. Mas a objectividade das análises mais expeditas empena sempre em detalhes de somenos e em preconceitos arcaicos. E todos os códigos de conduta, toda a etiquetagem, todas as leis universais, as tendências e as estatísticas, juntas com definições intemporais, esgotam-se, desfazem-se ou diluem-se em novas verdades perante o mistério da paixão. Acreditamos, nesse estado, que não há barreiras, diferenças de idade ou preconceitos, que possam fazer algo contra essa química irreprimível. Acreditamos que esse nosso amor é redentor e o sentido último de todas as coisas e nele encontramos um refúgio e abrigo, tranquilidade e emoção. Queremos acreditar que o nosso amor é perene, intenso para sempre, grandioso e incondicional; e a razão - a execrável racionalidade-, conjuntamente com o pífio preconceito (as diferenças de idade, o que os outros dizem ou pensam, os nossos medos e preconceitos), são simplesmente corridos a pontapé, quais personas non gratas da nossa intensidade  De uma paixão assim, assolapada, por parte de um homem, ou de uma mulher, mais velhos, por alguém substancialmente mais novo, espera-se o mesmo que das outras paixões: um estado de graça que nos conduz a uma loucura privada, muitas vezes consequente, mas que nos guinda a estados de felicidade imensos. Vale sempre a pena pagar o preço. 

Reza o ditado popular: 'homem velho e mulher nova é filhos até à cova'. Será verdade ou mais um mito urbano?

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Praia ao final da tarde

Uma varanda sobre o oceano - São Pedro de Moel - 1
Se fosse botânico saberia o nome desta linda flor - 2
Não sei o nome destas flores, mas eram coloridas e viçosas - 3
As cadeiras amarelo canário já estavam arrumadinhas - 4
Pormenor do gradeamento da calçada fronteiriça à praia - Praia da Vieira - 5
A calçada semi-deserta - Praia da Vieira-  6
Pôr-do-sol - São Pedro de Moel - 7
O sol desmaia sobre as águas de  São Pedro de Moel - 8
Hoje esteve um dia estival e eu, depois do trabalho, montado na minha azulinha, decidi ir ver o cair do dia na praia. Ficam aqui algumas fotos dos momentos.

PS. Agora tenho a mania que sou fotógrafo. Já não bastava a mania que sou escritor. Que mais manias virão a seguir?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Milt Jackson - Isn't She Lovely (Jazz Version)

Os meus sonhos lindos!

Ultimamente, apesar de andar a dormir bem e não acordar a meio da noite, como dantes me acontecia com alguma frequência, tenho tido sonhos, ou melhor, pesadelos, cuja temática é recorrente. Sonho que o FMI já se instalou em Portugal e nós, os funcionários públicos, deixámos de receber o subsidio de férias e o subsidio de natal; posteriormente, por exigências draconianas do organismo internacional, começámos a receber o vencimento mensal em tranches, até, que por último, o Governo anuncia que já não há verba para pagar os ordenados aos cerca de 700.000 funcionários públicos. O resto da populaça regozija de alegria - há muito tempo verdes de inveja por não terem conseguido entrar para o Estado nos diversos concursos (bastante exigentes e sempre com vagas apertadas, atendendo ao número dos candidatos aos lugares) para a função pública - exige a nossa decapitação. A arraia miúda quer nivelar por baixo: se estamos mal, vamos todos para o fundo. O caos instala-se. Os tribunais deixam de julgar; as policias desistem de investigar os crimes e prender os criminosos; os guardas prisionais não cuidam mais dos presos; os militares deixam de garantir a defesa do Estado e demitem-se das suas obrigações internacionais; os professores nem querem ouvir falar da obrigação de ensinar; as escolas, as universidades e todos os estabelecimentos públicos ligados à educação, fecham as portas; os médicos, os enfermeiros e todos os profissionais de saúde, deixam os doentes padecer e morrer nos hospitais; os funcionários das finanças deixam de cobrar impostos; os funcionários dos registos e do notariado deixam de dar fé pública aos contratos e aos registos; os funcionários dos mais diversos ministérios deixam de se importar com o que quer que seja; e, por último, já nem sequer existem funcionários nos Centros de Emprego e na Segurança Social para dar resposta aos pedidos de subsídio de desemprego, nem quem se preocupe com o exército de desempregados. Por exigência do FMI, privatizam-se 90 % dos organismos do Estado e entregam-se as suas funções a pessoas sem quaisquer conhecimentos ou aptidões O Governo aproveita para aferir como critério de nomeação o serem seus parentes ou estarem filiados no partido reinante. Entretanto, os funcionários públicos, sem ordenados nem subsídios, deixam de cumprir com as suas prestações de crédito à habitação - e outros empréstimos contraídos, na legítima expectativa de ter um vencimento mensal, e, assim, poder honrar os compromissos firmados. O agregado familiar dos 700.000 funcionários públicos, rodando em média três pessoas por família, o que perfaz um universo de 2.100.000 pessoas, de um momento para o outro, torna-se insolvente, incapaz de pagar os créditos contraídos, e deixa de consumir bens de terceira, segunda e até de primeira necessidade - já não têm ordenados nem subsídios! Os Bancos, por sua vez, incapazes de sobreviver com tanto crédito mal-parado, abrem falência e despedem os seus empregados; as empresas fecham as portas e despedem todos os seus funcionários, pois perderam a maioria dos seus bons clientes - os funcionários públicos; os criminosos, sem ninguém que os guarde, fogem das prisões e tomam conta das ruas, estuprando e violando todas as mulheres que lhes apareçam pela frente, assaltando casas e estabelecimentos comerciais, matando indiscriminadamente. Como também não há ninguém que controle a entrada de estrangeiros - os funcionários públicos do SEF há muito que não recebem ordenado - assiste-se à invasão de hordas dos novos 'bárbaros', oriundos de países onde isto já sucedeu, sedentos por aceder ao consumo dos bens que ainda nos restam. As trevas instalam-se em Portugal. Finalmente, o país tem de ser, misericordiosamente, ocupado pela Espanha, que entretanto havia desenterrado a velha questiúncula da União Ibérica. A Lusitânia, recuperando um epíteto anoso, torna-se uma província autónoma da nação espanhola, com um estatuto idêntico ao das Ilhas Canárias; os portugueses, os que ainda restam, aplaudem de pé. É nomeada uma Junta Militar para pôr ordem no país e os políticos profissionais, qualquer que seja o seu partido ou ideologia, e respectivas famílias, são, por decreto, deportados para o Haiti e para a Líbia, a fim de ajudarem na reconstrução dos respectivos países. A Democracia é suspensa até novas ordens.

De manhã, acordo suado e em sobressalto, mas sei que, felizmente, tudo não passou de mais um pesadelo. Mas, na noite seguinte, por artes mágicas insidiosas, o mesmo pesadelo regressa para me atormentar. Será que devo ir ao médico... ou à bruxa? Serão premonições ou apenas suores nocturnos?

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Estudos fotográficos por terras do Oeste

Um 'ganda cromo' à entrada de uma loja em Lisboa -1
Um chalet no Bombarral - 2
Porta de entrada de uma quinta afidalgada - Bombarral - 3
Uma fonte do séc. XIX - Bombarral - 4
Uma típica casa campesina - Turcifal - 5
Santuário do Sr. da Pedra - Óbidos - 6
Santuário do Sr. da Pedra - Óbidos (vista do castelo) - 7
Porta do séc. XVII - Óbidos - 8
Santuário do Sr.da Pedra - Óbidos - 9
Janela curiosa - Santuário do Sr. da Pedra - Óbidos - 10
Acreditam que esta pandeireta ainda anda e está à venda? Reparem bem no pormenor do tijolo a segurar o quadro. - 11
'Pasteleiras' aos montes - Alcobaça - 12
'Pasteleiras' aos montes - Alcobaça - 13
Azulejaria a recriar o fabrico do tijolo - Aljubarrota - 14
O 'Passeio Público' da aldeia: a Feira - Aljubarrota - 15
Fontanário do séc. XIX - Aljubarrota - 16
Fábrica de tijolos desactivada - Batalha - 17
Fábrica de tijolos desactivada - Batalha - 18
Fábrica de tijolos desactivada - Batalha - 19
Fábrica de tijolos desactivada - Batalha - 20
Tijolos em pilha - 21
O interior da fábrica- 22
A estrutura do tecto - 23
A sala da cozedura - 24
De dentro para fora: apenas a natureza - 25
Uma casa humilde - Aljubarrota - 26
O pormenor do trapo na porta - Aljubarrota - 27
Uma janela gasta pelo tempo - Aljubarrota - 28
Casa campesina abandonada - Aljubarrota - 29
D. Nuno Álvares Pereira - Aljubarrota - 30
Hoje, à vinda de Lisboa para Leiria, estava uma tarde primaveril e decidi gastar algum tempo pelo caminho.  Escolhi a estrada nacional, que percorre a região oeste, em direcção às Caldas da Rainha. Passei pelo Murcifal, Torres Vedras, Bombarral e fiz um desvio até à Lourinhã, sempre acompanhado por um céu azul, como já não via há algumas semanas. Nos campos lindos e verdejantes, andavam tractores agrícolas no amanho da terra. Viam-se ao longe cavalos de crinas ao vento. Cheirava ao mesmo tempo a gado, a fumo de carvão e a estrume fresco. Parei em alguns locais para fotografar, não em tantos como gostaria, ou a viagem, que demorou mais de 3 horas, teria sido substancialmente mais longa. Fotografei casas campesinas, janelas que me chamaram mais a atenção, um chalet, um bebedouro de água do século XIX, um santuário. Visitei uma fábrica de tijolos abandonada, para os lados da Batalha, onde me demorei mais do que nos outros locais, decidido que estava a captar a magia do lugar. Finalmente, cheguei a casa, ao morrer da tarde, sabendo que a remoção do órgão, que tanto insistem em me tirar, vai ficar em lista de espera. Mais tarde serei avisado - na véspera da cirurgia, imagine-se! - e só terei tempo de fazer a malinha tipo 'Linda de Suza' e lá vai ele todo descontente rumo a Lisboa. Assinei dois papéis sinistros que, após demorada leitura, logo aproveitada pela médica para gracejar com os vícios da minha (de)formação académica, me deixaram com a  estranha sensação de estar a firmar a autorização da minha própria sentença de morte. Perguntei-lhe, algo temeroso: 'A operação tem riscos?' Resposta da simpática médica: 'Não há intervenções cirúrgicas sem riscos e o senhor não seria o primeiro a finar-se numa mesa de cirurgia'. Bastante mais esclarecido com a 'resposta reconfortante' da Drª Isabel Paixão (que de piedosa não tem nada!), saí a assobiar para a rua, para descontrair, e foi no que deu: vejam esta minha pequena incursão fotográfica.

domingo, 3 de abril de 2011

Em Fátima - O Altar do Mundo

A 'santa com a capa negra' a caminho dos sacrifícios. Foto com viragem a sépia.
Desde eras primitivas, tanto no Ocidente como no Oriente, a matança de animais e o sacrifício humano fazem parte da historia das religiões. De uma forma ou de outra, essa prática é encontrada, ainda hoje, em diversas partes do mundo. A mais impressionante característica do ser humano é sua inata religiosidade, elemento que aparece ao longo de toda a história da humanidade, tanto no Oriente como no Ocidente. O sacrifício é uma forma metafórica de descrever actos de altruísmo, abnegação e renúncia. Em Fátima, no culto mariano, e no culto católico em geral, o sacrifício destina-se essencialmente a agradecer preces recebidas ou a 'pagar antecipadamente o preço' dos pedidos endereçados a Deus. São milhões as pessoas que já visitaram o santuário mariano e satirizar a sua crença e o culto à Nossa Senhora de Fátima, para além de representar  um exercício de intolerância para com a fé dos outros, não dignifica quem o faz. Acreditar ou não acreditar no fenómeno de Fátima, depende da fé de cada um de nós, mas essencialmente da nossa vontade.

sábado, 2 de abril de 2011

Entre crónicas

E foi mais um sábado chuvoso, monocromático, sem graça, como se a Primavera teimasse em só existir nos dias úteis, em que estamos mergulhados em tarefas ligadas ao trabalho, e esperasse pelo fim-de-semana para nos estragar eventuais planos de actividades ao ar livre. Sem coragem para me afastar muito de casa, não fosse a intempérie tornar o meu giro demasiado desagradável, fui na parte da manhã até à catedral do consumo de Leiria, mais propriamente às lojas da Fnac e da Bertrand, onde sou consumidor habitual. Como é uso e costume nestes dias cinzentos e pardos, o fórum estava apinhado de gente, passeando o olhar pelas montras, sem nada comprar, reservando os euros para gastar na zona da restauração, àquela hora matinal, repleta dos adeptos do pastel de nata e da bola de berlim, a acompanhar o vital café. Aditivado há muitos anos na leitura e já com sintomas de abstinência motivados pela carência de novos livros, coscuvilhei de alto a baixo as novidades literárias, com enfoque na literatura portuguesa, a que mais me interessa, e lá acabei por comprar três livros que, penso, me vão deliciar. São eles, a última obra de José Eduardo Agualusa, 'O Lugar do Morto', uma psicografia sobre 24 escritores já falecidos, revelando as suas opiniões sobre assuntos importantes, ou não tão importantes, do nosso quotidiano - uma espécie de vozes do além sobre situações da actualidade. De Nuno Júdice, comprei 'O Complexo de Sagitário', uma homenagem peculiar à obra do Marquês de Sade, com ênfase na célebre 'Filosofia da Alcova', num cativante diálogo entre o ensaio e o poético, usando os mesmos jogos de linguagem que Sade popularizou. Finalmente, aquela que penso ter sido a melhor escolha, já o comecei a devorar com sofreguidão!, o livro de Alexandre O'Neill, 'Já cá não está quem falou', numa reedição da Assírio e Alvim, esgotada há algum tempo em quase todas as livrarias. Trata-se de um conjunto de textos originalíssimos, com o timbre inconfundível de O'Neill, em que o saudoso poeta, ao mesmo tempo que disserta sobre a poesia de outros poetas, tais como Manuel Bandeira, Teixeira de Pascoais e Mário Cesariny, revela-nos a sua prosa corrosiva, pejada de um fino humor sarcástico, através de crónicas, ensaios e entrevistas, simuladas ou não. 

Com algum dinheiro gasto e os livros dentro dos saquinhos de plástico minúsculos da Fnac e da Bertrand, dirigi-me à 'Sinfonia', na zona da Barosa, a mais recente loja de instrumentos musicais de Leiria, onde se podem comprar as guitarras, as baterias, os saxofones, os sintetizadores, os órgãos e os pianos mais caros do mercado. Arvorado em potencial comprador de guitarras, experimentei uma Takamine e uma Gibson Les Paul, ambas com preços a rondar os 2000 euros, e, mal-grado ainda ser um músico de implante, que nem calos decentes consolidou nas falanges, consegui sentir a diferença abissal em peso, brilho sonoro e qualidade de construção destas guitarras em relação à minha Daytona de 200 euros. Qualquer uma das guitarras que experimentei, são consideradas Ferraris no panorama dos instrumentos musicais, e apenas são usadas por virtuosos, com óbvio poder de compra. Disse-me o vendedor, que o Rui Veloso, que conhece pessoalmente, colecciona guitarras de todos os géneros e possui mais de 200 exemplares, muitas delas Gibsons topo de gama com a assinatura de músicos famosos. Fiquei a saber outra coisa referente ao meio musical. As marcas de maior prestigio, produzem modelos com nomes de guitarristas famosos e custam consideravelmente mais dinheiro. Por exemplo: uma Gibson semi-acústica, que normalmente custa na casa dos 2000 euros, se tiver a assinatura do BB King, pode facilmente atingir os 3000 euros.  Trata-se da mesma guitarra só que é uma Gibson Les Paul BB King. Lembrei-me logo dos blusões Dainese para motards que, só por terem escrito em letras garrafais o nome Rossi, o rei da velocidade, podem custar consideravelmente mais - Os totós dos motards pagam mais pelo blusão e ainda fazem publicidade gratuita ao enfant terrible do circuito de Jerez de La Frontera.

Como é típico de todos os tesos de enxerto, agradeci os 'test ride' e disse que ia 'pensar no assunto'. O vendedor, de uma simpatia inexcedível, disse-me que, ainda que não comprasse nada, estava à vontade para, sempre que quisesse, ir à loja para experimentar quaisquer guitarras - conheço este género de marketing e esta simpatia insidiosa que, quase sempre, mais cedo ou mais tarde, leva o potencial comprador a sucumbir à tentação da aquisição. O marketing, inventado pelos norte-americanos, já tem a maturação de muitos anos de estudos e estratégias, onde quase sempre os especialistas do comportamento humano dão uma mãozinha. Já conheço, pois, esta matreirice do mundo das motas, dos test drives, onde a inoculação do veneno, o 'bichinho', faz-se através deste tipo de atitudes. A adrelina que se segue, leva-nos, quase sem reflectir, a assinar quaisquer créditos, a fim de possuir o objecto do desejo. Para má sorte deles, vendedores, cultivei uma forte capacidade de resistência às tentações consumistas, que quase sempre potenciam ruínas económicas. Vou curtindo os 'test drives' de Gibsons e BMWs topo de gama, ficando-me pela água na boca e deixando-os obviamente frustrados, até ao dia que correrem comigo das lojas..

O momento peculiar do dia, que me fez regressar mais cedo a casa, aconteceu num restaurante onde sou relativamente assíduo. Tendo escolhido a ementa para a refeição, agarrei no 'Correio da Manhã' que estava abandonado em cima de uma mesa e comecei a lê-lo enquanto esperava pelo almoço. Café tomado e a conta paga, agarrei distraidamente no jornal e dirigi-me para a saída e qual não foi o meu espanto quando o dono do restaurante me interpelou para, caso não me importasse, devolver o jornal, pois o mesmo pertencia ao estabelecimento. Desfiz-me em desculpas, insisti que tinha sido uma distracção, um comportamento não intencional, desculpas que foram de imediato aceites pelo senhor em questão, que nem pareceu estar zangado. Reparei que toda a gente estava a olhar para mim, alguns ostensivamente, outros pelo canto do olho, e sai tão envergonhado que jurei nunca mais lá pôr os pés. Não critico os comensais, pois caso observasse noutra pessoa uma atitude semelhante à minha, dificilmente acreditaria numa desculpa assim. Por mais estranho que este pífio comportamento tenha sido, senti-me constrangido como um rapazola apanhado a roubar um chupa-chupa. Decidi não voltar mais àquele restaurante, pelo menos enquanto o dono se lembrar da minha cara. E o mais irónico em tudo isto é que, por causa de um jornal que custa pouco mais de 1 euro, o restaurante acabou por perder um cliente que, cada vez que lá ia, gastava no mínimo 10 euros em lautas refeições. Desta vez o marketing não funcionou.  

Israel Kamakawiwo'ole - uma voz inconfundível


Israel Kamakawiwo'ole, o nome quase indizível do obeso cantor e músico haitiano, cuja interpretação do 'mix', 'Somewhere Over The Rainbow' e 'What A Wonderful World', lhe valeu um disco de platina. Uma voz surpreendente e inconfundível. Israel faleceu em 1997 devido a problemas de saúde relacionados com a sua obesidade mórbida.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O que nos espera a nós serviçais do Estado?

Na repartição, Euzinho a tentar ouvir o Sr. Gervásio que quer marcar uma escritura, enquanto a Dona Arlete tenta desesperadamente ler uma certidão.Fonte da foto: Internet
Com o aumento da idade da reforma para os 67 anos que estes Filhos da Luta (enganei-me na letra) nos querem impor - como se não bastasse o congelamento e corte dos salários, nas progressões das carreiras, a diminuição de regalias conquistadas ainda no tempo do fascismo, a actualização anual dos objectivos (avaliações para classificação de serviço), com exigências cada vez maiores, muitas vezes impossíveis de atingir (aumentar o número de actos notariais: vou para a porta da repartição com uma caçadeira de canos serrados e quem não quiser entrar para realizar um acto notarial, paga com a vida), o quadro dos excedentários e dos disponíveis (a antecâmara dos despedimentos), o regime de incompatibilidades que impossibilita, por exemplo, um licenciado em Direito de fazer o estágio de advocacia - vamos com certeza trabalhar até morrer, pois os descontos que actualmente fazemos para a (nossa) aposentação, destinam-se a financiar as reformas daqueles que ainda vão gozar essa benesse. Que ninguém se iluda. Vamos trabalhar até morrer, caso, entretanto, não dermos em maluquinhos, e consigamos uma aposentação pela Junta Médica. Doenças do foro fisiológico, ainda que crónicas, cancerosas ou degenerativas, desde que não afectem a capacidade de discernimento, mas apenas a mobilidade, não são consideradas pelas juntas médicas como motivos para aposentação. Então, faço desde já um apelo a todos os serviçais públicos: comecem por chegar reiteradamente tarde ao serviço, deixem de ter cuidados de higiene, tais como: tomar banho, fazer a barba, cortar as unhas (devem estar grandes e sujas ), mudar a roupa (deve ser sempre a mesma, de preferência a mais coçada - aquelas camisas e meias que escolhemos para dar cera no chão). Entretanto, devemos falar e rir sozinhos, asneirar com o nosso superior hierárquico, mictar num canto da repartição, à vista de todos, enquanto atiramos os papéis pelo ar e repetimos até à exaustão palavras de ordem, tais como: 'Eu quero uma mulher, já! Eu quero um homem, já! Eu quero fazer amor com a fotocopiadora e óscular com o fax!' Se depois de tudo isto não aparecerem, nos quinze minutos seguintes, quatro homenzarrões vestidos de bata branca com um colete de forças nas mãos, é porque o Governo, mesmo em gestão, conseguiu alterar o regulamento das juntas médicas, por forma a manter os incapacitados mentais ao serviço. Se assim for, paciência para nós serviçais públicos, pois só nos resta a merda desta (des)concertação sem conserto.

Pela boa disposição

Já reparei que ultimamente ando mais simpático, mais bem disposto, e que essa minha novel atitude tem um efeito positivo nas pessoas em geral, conhecidas ou não, que me devolvem sorrisos e doçuras, atitudes que dantes não aconteciam com esta frequência. Será que, aos poucos, ando a recuperar a minha capacidade de sorrir? Por vezes, surpreendo-me a mim mesmo e tenho quase a certeza que tudo se deve ao efeito de umas pílulas mágicas que recentemente comecei a tomar. Não vou dizer o nome das mesmas, porque não sou pago para fazer publicidade a laboratórios farmacêuticos, nem quero correr o risco de haver muita gente a querer que lhe prescrevam a mesma medicação. Para além de criar a possibilidade de o stock vir a esgotar no mercado e inflacionar o preço do produto, também não tinha graça nenhuma se andássemos todos bem dispostos. Depois, como é que eu me podia sentir diferente? A questão da felicidade é redonda como todas as questões pejadas da subjectividade própria dos mortais, inundada das expectativas que conseguimos, arvorada em lanterna que nos guia e conduz numa certa direcção. Há uma certa ideia de felicidade que nos alimenta e nos dirige, que nos serve de escudo protector às contrariedades quotidianas, que nos amortece o impacto das frustrações que nos atingem, que nos conduz para alvos, ainda que discretos, onde julgamos ficar o encontro que merecemos. Curiosamente o facto de alguém 'ter tudo para ser feliz' e não o ser, informa-nos que ser feliz é muitas vezes uma questão de capacidade e de atitude, mesmo que alguns insistam que dá Deus nozes a quem não tem dentes e se irritem com tanto desperdício e estragação. Há certos tipos de patologias que precisam da ajuda de químicos e, como se sabe, a serotonina é um neurotransmissor que existe naturalmente no nosso cérebro, responsável pela comunicação entre os neurónios. Esta comunicação é fundamental para a percepção e avaliação do meio que nos rodeia, e para a capacidade de resposta aos estímulos. E quantas vezes a infelicidade não é senão uma insuficiente presença dessa substância "mágica", que nos concede calma e bem-estar, melhora o nosso humor e inibe a depressão? Dizem os adeptos das 'medicinas alternativas', avessos aos químicos, que alguns alimentos como a banana, o tomate e o tão desejado chocolate nos fornecem o precursor da serotonina. E algumas acções como beijar, fazer sexo ou apanhar sol, são igualmente anti-depressivos naturais. Na ausência de algum destes componentes, ou na impossibilidade de os termos à mão, ficamos pelo possível, ainda que o ideal fosse tê-los todos juntos, para uma mais eficiente terapia. Se uma colher de xaropada faz bem, então é tomar o frasco inteiro.