domingo, 18 de setembro de 2011

Limpópó, Jorge!

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http://picaretaescrevente.blogspot.com/2011/04/em-busca-de-uma-empregada-domestica.html.

* Texto que, de algum modo, já abordara semelhante temática, prova das recidivas desta minha minha lassidão.

Não sou capaz de precisar o momento em que a preguiça, ignominiosa, se apoderou de mim. Certo é que não há dia que não olhe para o aspirador, para o pó que se vai acumulando no chão, nos móveis, e um pouco por todo o lado, para as formações montanhosas de roupa por passar a ferro, com os seus graciosos picos nevados de roupa branca, para os livros e as revistas, espalhados por todas as divisões, e não sinta uma culpabilidade aguda pela proporção que deixei que as coisas tomassem. Provavelmente foi daqueles deslizares suaves que vão acontecendo sub-reptíciamente, que se vão instalando e ganhando espaço até acabarem tão naturalizados, tão integrados, que quase poderia jurar que a minha casa esteve sempre assim. O que não é verdade. Falta-lhe aqui uma 'mão feminina', é certo, mas também é seguro que eu tenho duas 'mãos masculinas', tão ou mais capazes de desencadear uma clean revolution, como quaisquer mãos de mulher. Na verdade, tenho guardado o meu tempo livre para actividades prazenteiras - 'as pessoas como deve ser' devem estar sempre ocupadas a cuidar da sua realização e da sua felicidade -, e faço por esquecer, relegando para plano secundário, as tarefas chatas mas inevitáveis. Sem querer abdicar da gloriosa volúpia de sentir, no rosto e nos braços, os tímidos raios de sol desta tarde quase outonal, enquanto escuto o trinado dos pássaros nos ramos das árvores, e vejo a relva a crescer no prado que observo da janela do escritório, receio que a hora seja mais do aspirador. Não vale a pena procurar as falhas e os interstícios desta verdade, que, por tão factual, nem admite contradita: a minha casa precisa urgentemente de ser limpa. Quem dera, por vezes, que estivesse anunciada uma visita papal ao meu refúgio, ou de alguém cuja solenidade e olhar crítico me causasse tamanho embaraço, que me fizesse andar uma semana antes a limpar meticulosamente o apartamento. Parece que a esperança é o antídoto natural para o desespero e que o desespero é o sentimento derradeiro que inunda a alma e escurece e obnibula qualquer hipótese de futuro. Mas eu agarro-me poeticamente à esperança que uma vontade irreprimível de arrumar, limpar, organizar, e puxar o lustro aos móveis, se apodere em breve de mim. Assim como já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer e já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais, tenho a certeza absoluta que, brevemente, a minha casa vai ficar tão limpa e arrumada como a Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes. Resta-me acrescentar, por natural descargo de consciência, que emprego o advérbio 'brevemente' no sentido literal do mesmo e não como um vã mensagem programática. Em tempo de manchetes vazias, no que à temática e imaginação da  minha escrita respeita, é licito, é justo, é imperioso mesmo que eu descubra o fio de Ariana que me abra uma janela por onde entre esta iluminada esperança. Mais do que guitarradas, acordes, escalas pentatótinas, escalas gregas, em Dó Maior, passeios de mota e navegação intensiva no Facebook, ou leituras inusitadas, o que me faz mesmo falta neste momento é segurar nas mãos uma esfregona, um cabo de aspirador e um pano do pó. Limpópó, Jorge!

domingo, 11 de setembro de 2011

Limpópó em silêncio!


Acordei estremunhado, depois de umas escassas quatro horas de sono, com o barulho do arrastar de móveis. Os meus vizinhos do andar de cima, todas as manhãs de domingo, arrastam móveis de um lado para o outro. Não querendo acreditar tratar-se de um ritual dominical, ou de uma prática de sortilégios de feitiçaria, penso que será um excesso de zelo na limpeza, que faz com que a Dona não sei das quantas, se lembre de que pode haver pó atrás dos móveis. É evidente que existe toda a probabilidade de eu encontrar pó atrás dos móveis e das estantes. Mas limpá-lo todos os domingos? E às 07h00 da manhã? Domingo, para a prática cristã, é um dia santo e, por fundamentação bíblica e etimológica, é considerado o primeiro dia da semana, seguindo o sábado e precedendo a segunda-feira. Mas, na minha sentimentalidade, é somente aquele dia horroroso que antecede a odiosa segunda-feira. É ao domingo que tenho de fazer o exercício mental doloroso de tentar esquecer o meu Eu. Segunda-feira, é o meu heterónimo mais desinteressante quem vai ter de se levantar às 08h00 da manhã, fazer a higiene diária, tomar o pequeno-almoço useiro, no café do costume. E, depois, atirar-se às escrituras. Não sou Eu, como resulta evidente. Mas o chato da questão é que Eu vou ter de ir com ele - o que hei-de fazer? 

Limpar o pó em silêncio, mais do que um exercício de estilo, devia ser um aprendizado que todos dominássemos. Eu, por exemplo, limpo pouco o pó, e, quando o faço, sou tão silencioso e ineficaz que quase ninguém dá por isso. O silêncio vale oiro, mas infelizmente pouca gente lhe confere o devido valor. É no silêncio que melhor reflectimos, tomamos decisões, estudamos, descansamos ou conseguimos a verve suficiente para escrever algo de importante que tenhamos na cabeça. Às vezes sabia-me bem ter uma casa no interior do país, completamente isolada e rodeada de árvores sussurrantes, afastada da estrada principal e da aldeia, onde só se chegasse por azinhagas que mal permitissem a passagem de um automóvel. Instalar-me-ia lá com os meus livros, a minha música, as minhas guitarras, as minhas motas, um acesso à Internet, um gato, e creio que bastava. Mas a reforma ainda vem longe, ou não, e, depois da tomada de consciência da efemeridade da vida, dos acidentes de percurso, e da unnplanned travel experience,  há muito tempo que só sonho a curto-médio prazo. 

Entretanto, o guerreiro barbudo e hirsuto,  sempre de sobrolho franzido, que é o meu vizinho do andar de cima, já anda na rua a passear o cão. O barulho cessou. A mulher, coitada, não tem forças para dominar a coleira do doberman, quanto mais para arrastar móveis sozinha. Um extenso manto de nevoeiro,  cobrindo totalmente o bosque a tardoz da minha casa, foi o primeiro retrato que divisei esta manhã. Mas, pouco a pouco, já se conseguia destrinçar, ao longe, a estrada para Coimbra e a A1, ambas recortadas pela luz tímida do sol da manhã. Dois meninos corriam em direcção ao bosque e fiquei a mirá-los vagamente. Recordei a minha primeira caçada aos gambozinos. Não teria eu mais do que a idade daquelas crianças. Uns seis aninhos. Aconteceu, num bosque parecido com este das traseiras da minha casa, nos tempos em que ainda andava nos escuteiros. Convidaram-me e explicaram-me. Até me ofereceram o saco conveniente  e necessário para depois os colocar lá dentro. E, na noite da caçada, lá fomos nós, os Lobitos, acompanhados dos Exploradores e dos Caminheiros. Fiquei de plantão, junto a um morro escondido por umas altas silvas, mais um amiguinho Lobito. Entretanto já anoitecera. E, com uma lanterna na mão e o saco a jeito, lá ficámos nós à espera da chegada dos gambozinos, enquanto tiritávamos de frio. Era o início do outono e as noites depressa se tornavam frias. 

Foi das primeiras experiências choque da minha vida. Tomei consciência de que não podíamos confiar totalmente nos 'adultos' e, confesso, foi doloroso. Um colo precioso que, de alguma forma, se desmoronou. Hoje, já com a 'idade da razão', tudo me leva a crer que a experiência iniciática da caça aos gambozinos é realmente importante. Temos de apanhá-los. Temos mesmo. Seja lá como for. Pois, mais importante do que fazer limpópó todos os domingos, arrastar móveis e macular o silêncio, é prudente usar o tempo para  imaginar e sonhar. Por exemplo, estive mesmo agora a fazer um limpópó à minha mente, a exercitar as falanges, e a divertir-me um nadinha com estas singelezas que acabei de escrever. E agora vou passear de mota. As minhas vrumms vrumms vrumms, ao menos, nunca ganham pó.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Quimíca

A sedução tem muito que se lhe diga. Isto de alguém ser capaz de se fazer amar, desejar, querer, sem mais nem porquê, não é de todo um dado fácil de digerir. A capacidade de uns tantos, poucos, se fazerem amar é uma imensa mais-valia. Quem possuir o dom de exercer fascínio sobre os outros, capaz de os amaciar o suficiente para ficarem vulneráveis a influências e alterações de comportamento, é definitivamente um sedutor. Mas a relação entre o sedutor e o seduzido (atrais-me, mas não tens força para me prender) não é tão eficaz como quando está presente a 'quimíca'. E, mais importante do que a 'arte da sedução', que alguns prosaicos se gabam dominar, é sobretudo a 'quimíca mútua', como correntemente agora se apelida a chama da paixão, que aproxima verdadeiramente duas pessoas. Sem 'quimíca', sem aquela atracção mútua inexplicável, aquele bater mais forte do coração quando se pensa em determinada pessoa, aquele gostar inexplicável, ilógico - um gostar com o coração, esvaecida que ficou toda a racionalidade -, o que parece que espanta pela raridade e fascina pela perfeição, torna-se, no momento seguinte ao deslumbramento, uma enorme trivialidade. A cultura do amor tornou-se, na nossa sociedade, um ingrediente fundamental para a nossa felicidade. Grande parte da nossa vida afectiva, enquanto adultos, é dedicada à relação amorosa. Rompemos relações estáveis, porque deixamos de amar, para, passado algum tempo, voltarmos a amar. Mesmo as pessoas com necessidade de lutos maiores, mesmo os mais desiludidos, que juram a pés juntos não querer mais ninguém e que se bastam com o culto narciso da sua pessoa, um dia sucumbem à lógica da 'quimíca'. Uma vez tocados pela 'quimíca', a menos que sejamos seres abjectos, patologicamente insensíveis, todos sucumbimos. O amor é o que sentimos pelo outro, mas também o que o outro sente que nós sentimos. Não há muitas racionalidades que consigam explicar o porquê de gostarmos de alguém. E a prova disso é, não raro, acontecer gostarmos de pessoas que 'racionalmente' não seriam as mais indicadas para entregarmos as chaves do nosso coração. Não admira que os grandes sedutores sejam habitualmente tão infelizes. Seduzir, essa capacidade fantástica, pode resultar no imediato, mas sem a poção mágica da 'quimíca', capaz de aliar corações, tudo pode não passar de um fogo fátuo de sentimentos. E o que todos almejamos é chegar ao cume, ao vibrátil: o amor, como referente universal de todos os sentidos. Tudo o resto são sucedâneos, vertigens de quem espera pelo fundamental.

sábado, 3 de setembro de 2011

Aleivosidades na minha caixa de comentários - a grande novidade do blogue.

Uma preguiça sem fim, uma dedicação maior à guitarra e uma centragem excessiva no Facebook, são as causas que aponto para um abandono tão longo e efectivo do blogue. Penso, no entanto, mudar este estado de coisas, pois já sinto alguma saudade de voltar a publicar textos mais longos. Não espreitava a caixa de mensagens há meses, uma vez que não publico nada há algum tempo, e não pensei que pudesse haver comentários por moderar. Mas equivoquei-me. Afinal havia, sim. Frases sem nexo, repletas de erros ortográficos, ressabiamento, calunias, agressividade gratuita dirigida contra mim, avisos à navegação, tudo emitido por um(a) sempiterno(a) cobarde anónimo(a), incapaz de me enfrentar, caso me conheça e tenha algo lúcido para dizer. Infelizmente, esta atitude não é inédita na blogosfera e, recentemente, três ou quatro blogues que visito com assiduidade encerraram as caixas de comentários ou instalaram sistemas de registo prévio para combater os insultos anónimos. No meu caso, a censura prévia dos comentários, é suficiente para me precaver das parvidades e das visitas medíocres, cuja entrada não posso evitar, a não ser que transforme de novo o blogue numa página, cuja entrada é feita por inscrição previamente por mim autorizada. Desde que estou na blogosfera, mudei de opinião em muitas coisas. Menos numa: sempre considerei os comentários um convite aos canalhas. Atacar-me, é algo a que já há muito me habituei, só é pena que o(a) miserável nunca saia do anonimato, o que só prova o medo de me enfrentar e o cariz, mais do que salivoso e falso, das acusações que me dirige. Toda a gente tem o direito de exprimir as suas concepções e de pugnar pelas suas convicções. O que me apoquenta é que algumas pessoas denunciem uma obsessão negativa por dizer mal de mim. Nos blogues, como nos livros, tudo é ficção, tudo é literatura; e, como na vida real, tudo pode ser ao mesmo tempo verdade e mentira, tudo não passa de uma encenação. Reduzir o autor do blogue ao 'seu blogue', porém, seria acreditar numa transparência e na fidelidade de uma transposição que não tem necessariamente de existir. A subjectividade e a explicitação do carácter ficcional de toda a escrita, são aspectos complementares mas não opostos. Se a preguiça não perdurasse, procurava no 'Madrigal', o meu outro blogue, um texto que publiquei há uns anos atrás, igualmente a propósito de uma reacção minha a atitudes canalhas semelhantes. No entanto, já perdi mais do que tempo suficiente com esta questiúncula; e, mais não fosse, as parvidades repletas de erros ortográficos e sem nexo que enlameavam a minha caixa de comentários, tiveram o mérito de me 'obrigar' a escrever no blogue. Caso o(a) autor dos mimos leia este post, como espero venha a acontecer - uma vez que o(a) criminoso(a) e o(a) demente sofrem ambos da patologia do comportamento auto-mimético - e, por hipótese, quase inviável, entenda o que escrevi, fique ciente que esgotou o meu tempo de atenção.

sábado, 6 de agosto de 2011

De madrugada...

O que somos nós? Amantes, amantes desesperados no seio do tempo? Na imensa confusão deste mundo? Pouco mais que nada. Arranhamos o que nos rodeia. Gozamos. Sofremos. E depois partimos cada um para seu lado, pensando na próxima fusão. Um dia virá em que não haverá mais nada. Apenas saudade. Desencanto. Amar não é simples. Espreita-nos a ferocidade dos abismos: a morte, o silêncio.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A antinomia do necessário

Numa das minhas deambulações pela cidade, congeminei que a fealdade mais grotesca é, imagine-se, um prédio em construção: um tosco de cimento nu, rodeado por andaimes, de cinza vestido, sem portas, nem janelas, como um naco morto que, à força, se quer afirmar vivo. Se a esse frémito de desolação lhe juntarmos tijolos quebrados, lama encardida, entulho mal arrumado, promiscuidade de tintas, resinas, fios ferruginosos, baldes cortados ao meio e grossas estacas de ferro aramado, tudo espalhado sem sorte, eis-nos perante um conjecturo que ainda é monstro. A ausência da estética é algo que me assusta e desconforta.

sábado, 18 de junho de 2011

O Alfarrabista

Entra-se por uma larga portada de madeira em tons verdete, cravada com rebites ferrugentos, mesclados de laranja e negro, que só abre com um veemente empurrão, que faz soar uma sineta doirada de um tinido frouxo; e por onde quer que a vista avance, divisam-se livros, montanhas deles, posterizados em estantes gigantescas, simetricamente dispostos, como velhas fragatas ancoradas no último porto, guardião de uma quietude de paz, imorredoura de silêncios. O odor carregado a acre que adeja o antro, torna-se mais intenso à medida que as narinas detectam as prateleiras mais esconsas, onde repousam os alfarrábios e as antigualhas que faz muito tempo perderam a afoiteza de se deixarem manusear. Os acordes de 'Claire de Lune' de Debussy, quase em surdina, conferem a sobriedade que o sacro lugar almeja. Por detrás de um balcão, que mais parece um féretro tisnado de negro azeviche, está o alfarrabista: a tez esquinada, a cabeça cabisbaixa, quase calva, luzindo intensamente por entre a escassa cã. Veste uma camisa de popelina esbranquiçada, que mais parece a vela de um navio; e, aperrado ao cesto da gávea do colarinho, uma gravata de nó eterno, arroxeada, acaba abruptamente, pouco abaixo da zona do umbigo. Nas suas longas mãos de esterlina, lídimas como um papiro, move-se com desenvoltura uma esferográfica comum que rabisca algo que me suscita invulgar curiosidade. O vendedor de alfarrábios, finalmente erguendo a cabeça, como um grande vaso que se retira de um poço, deixa cair uns óculos ovais embaciados, encavalitados no terminal de um nariz adunco; e, esboçando um sorriso quase glicérico, estende  um manual de ornitologia de lombada carmesim a uma jovem com ar de estudante afincada.

Os meus olhos, a principio ludibriados pela luz espúria, pousam numa estante dedicada aos temas de grave questiúncula: os intimoratos ensaios de Filosofia. Deixei para trás a 'Utopia' de Thomás Morus, o 'Elogio da Loucura' de Erasmo, o 'Organon' de Aristóteles, ou a 'A República' em três volumes de Platão, tudo obras que já lera por dever de estudante, para me debruçar nos ensaios do meu pensador preferido do século XX: Bertrand Russel. A clareza e utilidade imediata das suas ideias e, sobretudo, o incisivo poder de ortografar, de uma forma serena, sistemática e bem enquadrada, uma linha coerente de pensamento, sempre acolheram a minha dilecta atenção. Russel foi um pensador do mundo; que sempre encarou como um todo.

Sem pressas, escolhido o livro de Russel, paguei e saí para a rua com ele debaixo do braço. Lá fora esperava-me um sol flavo e um dia de esplendor; e, se por sortilégio do acaso, me perguntassem onde é que eu tinha estado o tempo todo nessa linda manhã  primaveril de Lisboa, responderia que tinha andado a explorar as margens da vida, entretido nas caves de mim, cada vez mais convencido que a vida não é para ser vivida dentro dos limites. Quem sonha a dormir sabe que, de manhã, ao acordar, tudo era uma ilusão, mas os que sonham de olhos abertos acham que o estofo do futuro será feito desses sonhos. Eu quero acreditar nisso, assim como estou convencido que o Paraíso, a existir, deve ser parecido com um alfarrábio.

Odeta


O teu nome tem por étimo a palavra Ode, aquela composição de poesia maior destinada ao canto? Não creio. A tua graça mais parece conotar-se com um género novo: A Ode menor. Se não existirem Odes menores, como, aliás, estou convicto ser verdade, arrogo-me autor deste neologismo: Odeta - com essa novíssima significação. Se te chamasses Odete, caberias no meu dicionário antroponímico, que vive, algures, obeso, em permanente estado de hibernação, refastelado em cima de livrinhos, magriços e resignados, esmagados pelo seu peso. O teu nome não consta lá. É mais uma daquelas aberrações vindas de um qualquer Conservador do Registo Civil, infestado de carepas, em estado de artrite dolorosa, virado para os francesismos tardios. Nem tens lugar no lupanar dos nomes mais feios que por lá existem: Odeberta, Odefrida, Odorica...És, sem mais mistérios, uma vogal truncada, pela mera infelicidade de um descuido ortográfico.

Odeta. É estranho ter de chamar-te assim. Apetece-me rebaptizar-te: Odete, mas não posso, não posso mesmo. Tenho de chamar as pessoas pelos seus nomes correctos. É apenas por uma questão de coerência, nada mais. Não me interpretes mal. Sabes onde eu estava da primeira vez que falei contigo? Estava junto a uma gaiola enorme, cilíndrica e esguia, que afunilava até formar uma espécie de campânula, repleta de pássaros de bico de lacre, a assistir a uma chilreada tão grande que quase tinha de gritar para me conseguires ouvir. O dia estava lindo. Um sol esplendoroso flamejava ao de leve os pêlos dos meus braços, criando em mim uma sensação de energia tão agradável, que um estremecimento percorria em constante todo o meu corpo. Era o alvor de uma estação neófita, parida nas faldas esconsas das olheiras cavas e depressivas de um Inverno venéreo: estação escura, medieva, sempre acocorada com um medo inexplicável do poetar do sol. Eu a assistir a tudo isto e tu metida em casa. Francamente, Odeta, com um dia assim!

Odeta. Eu sei que ambos comungamos do mesmo padecimento, desbotado e feio, que habita dentro de nós, como uma vontade férrea, aclimatando-se ao nosso organismo, tal como o parasita vive à custa do seu hospedeiro. É isso, Odeta. É essa empatia que nos une, o íman que nos magnetiza para o alvoroço de um conhecimento mútuo. Receio não conseguir resistir ao teu apelo, enquanto me enleio neste solilóquio, passeio de adágio, que percorre estradas bordejadas por enormidades a que chamamos árvores: formas excêntricas, nodosas, com raízes que há muito se apoderaram do asfalto, à outrance, apelidadas com nomes hoje indisponíveis. Não me admiraria se, uns metros mais adiante, encontrasse refastelado num destes bancos de pedra esculpida, um dos meus parágrafos, aqueles que há muito lhes perdi o rasto, de perna traçada, a dar, a dar, com um chapéu de til enfiado na cabeça, a cumprimentar de forma circunflexa damas imaginárias. Tudo se me assemelha possível neste jardim onde trouxe a passeio a minha fantasia.

Não imagino, sequer, um coup-de-foudre, uma atracção por ti, que não seja um galanteio confortável, já vestido de robe e embrulhado num edredão, o estritamente necessário aos propósitos que ambos comungamos como tácitos. É talvez essa frontalidade, esse sentimento em carne viva, um querer adulto, sem hiatos, que me atrai em ti. Imagino-te sem toilette, sem artefactos ditados pelos supetões imperiais da moda. Faço ideia que sejas uma mulher simples, pragmática, não derrotada pela fealdade do teu próprio nome e tocada pela interioridade. Será que me engano assim tanto, Odeta? Continuas a achar que eu tenho um conhecimento privilegiado e intuitivo da alma humana? Quando me disseste isso, por escassos momentos, imaginei-me Rasputine: uma apócrifa reencarnação daquele curandeiro e visionário russo que, no início do século XIX, conquistou grande influência sobre o Czar e a Czarina, tendo acabado assassinado pelos seus detractores, movidos pela inveja e pelo ciume. Nem sei porque pensei tudo isto, sinceramente não sei. Acho que tenho de comutar os faróis de halogéneo da clarividência, para conseguir encontrar o cancelo de saída deste jardim de deambulações. Nem mesmo quando o sol se agacha à sombra das nuvens o jardim ganha um halo verossímil. Estes sons estridentes que cruzam o ar, como o grito do tucano quando faz soar o bico comprido; esta aragem fresca que murmura no chapéu das árvores; os raios de luz que trespassam a folhagem, tudo isto incita em demasia a minha tubular imaginação.

Cruzei os pórticos de um verde solífugo, sem olhar para trás, e achei-me diante de mim. Já era o entardecer. Junto aos muros, aglomeravam-se mulheres da aldeia, estridentes, buço bucólico, navalha em riste, sentadas em pose de excursão finda. Uma em especial tinha a idade no olhar. Penso em quanto choveu sobre a minha infância desde que estas silabas tropeçam agora no lusco-fusco. Desde então, o trigo já cresceu sobre o meu rosto; e, quanto mais envelheço, mais pueril é a luz, mas essa vai comigo. Também já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer que o meu comércio não é o da alma. Há igrejas de sobra e ninguém nos impede de lá entrar. Não me peçam a mim, que só conheço os caminhos da sede, que mostre a direcção das nascentes. Hoje, quero apenas adormecer sobre uma profusão de girassóis, e várias já foram as negligências do meu olhar. Sabes, Odeta. Só o desejo e a imaginação impedem a perversão da alegria. Pensa nisso.

O nexo

Rio Lis - Leiria - Junho 2011
Quando ontem ao cair da noite mirei o Lis, apeteceu-me ficar ali até ser pedra, extasiado que fiquei com a luz da lua, difusa, alvejante, que estremecia  ao tocar na água. E nas horas em que um tédio assim improbo me tolhe, recordo que faz muito tempo não convido a lua para meu holofote de companhia. Por vezes são execráveis as náuseas dos diurnos, os momentos, os dias alvoraçados pela fartura do silêncio. Hoje, com a manhã, voltou o anónimo respirar do mundo e decidi-me sair deste mar morto de vida, acompanhado por um espelho argênteo que me segue com um espectro. Crente que as palavras imploram de mim uma expulsão,  há dias que me sinto um clandestino: vivo às ocultas, não consto em quaisquer registos dignos de merecimento, nem estou autorizado, pela burocracia vigente, a existir como pessoa. Privado do Direito de Ser, que não se me aplica, por não constar dos catálogos oficiais, estigmatiza-me a condição de estrangeiro. Que se lixe! Sou diferente. Sobreviverei numa garagem, num contentor; ou, já melhor acondicionado, na promiscuidade de um espaço demasiado pequeno com outras almas, tal como eu, rotuladas de 'inviáveis'. Mudar é para mim sinónimo de morrer.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Regressando...

Sempre achei que todas as feridas podem ser material de poemas. Portanto não devem ser evitadas. Por isso, penso em frágeis pétalas de magnólias sopradas pelo vento, em súbitas cataratas caindo do céu. Penso em poemas perfeitos como refúgio de almas como as nossas. Penso no desenho dos teus lábios, na tua graça de menina. Trago o teu nome na minha boca. Quero-te como a terra que anseia pela água que bebe. Só tu, de novo tu, sempre tu, a ocupares-me a cabeça, o tronco e os dedos. Eu sou também o chão que pisas, o ar que voltou. Olha para mim. Não tenhas medo. Ninguém nos vê. Somos só nós dois. O mundo ficou todo fechado lá fora. É certo que a beleza recusa-se a um qualquer enredo, mas a vontade de poetar de novo está voltando e vem cobrindo paulatinamente os meus ramos. Ramos anosos, mas sólidos, ainda capazes de arcar com a sua função primeva: encherem-se de rebentos primaveris e florirem; tão somente isso...


NB. Escrito pela madrugada, a propósito de mim, a propósito de nada, talvez somente um delírio  decorrente da insónia que me sussurrou aos ouvidos; hoje, porventura, cedo de mais.