domingo, 20 de novembro de 2011

Um hiato nas palavras

Fecho os olhos, deitado sobre a cama, e escrevo dentro da cabeça. As frases ligam-se por suspiros, uma respiração ofegante, sem pausas. Daí a pouco deixo-me adormecer de novo. Nos confins da casa, fica a cozinha. Oiço o barulho constante do motor do frigorífico e alguns ruídos difusos que chegam da rua de forma indecifrável. Quando acordo de novo, quero recordar as frases que houvera escrito na cabeça, mas tudo se esvaiu. Levanto-me, olho-me no espelho, ponho a água a correr e tomo um duche. Gosto de sentir a água quente cair-me sobre a cabeça, na pele, a escorrer-me por todo o corpo. Ao voltar para o quarto, reparo que a porta está entreaberta e, sustendo a respiração, entro. Vejo-a a dormir. A cabeça sobre a almofada, um emaranhado de cabelos loiros escondem-lhe o rosto. O corpo está enroscado num lençol púrpura debruado a ocre. Deixo-me encantar pela delicadeza das suas formas, pela profundeza serena do seu sono. Destapo-lhe o corpo devagarinho, meticulosamente, milímetro a milímetro, como quem conta os poros de um braço, procurando as palavras que se foram. E nada, não encontro nada. Tudo não passou de uma imagem, de uma fantasia. A cama continua desfeita e as formas que eu divisei mais não eram do que uma ilusão de óptica do meu amor por ela.

Do segredo e da felicidade


'Penso que podia modificar-me e viver com os animais, eles são tão serenos e reservados. Quando me detenho a contemplá-los demoradamente, alheios, por condição, a queixas e fadigas, não estão acordados de noite a chorar os seus pecados, não me incomodam a discutir os seus deveres para com Deus. Nenhum está descontente, nenhum endoideceu com a mania de possuir bens. Nenhum se ajoelha perante outro, nem perante antepassados que viveram milhares de anos antes dele. Nenhum é respeitável ou infeliz para o Universo inteiro.'

Walt Whitman



Atrevo-me a dizer que toda a gente, alguma vez na vida, já foi amada. Na infância, na adolescência, na idade adulta, no liceu, na Universidade, ou até mesmo no envelhecimento, uma mãe, um pai, uma avó, um filho, uma filha, um homem, uma mulher, alguém se cruzou ou se manteve por perto, provavelmente, e amou-nos bem. É, no mínimo, uma atitude de presunção agastada querer receitar a felicidade como quem desfolha as páginas do Pantagruel, e nele encontra mil e uma formas de fazer bolinhos de felicidade e alegria esfuziante.

O segredo da felicidade é um segredo de Polichinelo – aquela personagem clássica da comédia dell’arte, das farsas napolitanas e dos teatros de marionetas. Corcunda, barulhento e quezilento, é a figura do bobo da corte, sempre desbocado, dizendo o que deve e o que não deve num tom jovial e folgazão. Os segredos de Polichinelo são por isso a fingir. São farsas dos verdadeiros segredos, que, para que o sejam, devem permanecer ocultos, escondidos, indecifráveis. Qualquer segredo partilhado, ainda que não transborde uma geografia restrita e nunca chegue à praça pública, perde o essencial da sua razão de ser. Quando se partilha um segredo, alivia-se a carga, descarrega-se o peso de se ser, ou de se julgar ser, o único que sabe ou conhece aquela coisa, que é sempre terrível e oprimente, que delata alguém ou repõe uma verdade escamoteada. Entre o peso dos que contêm e se contêm de mais e a leveza dos que deixam escorrer palavras que despem a alma, deve haver uma justa medida para o que se mostra e para o que se esconde.

A felicidade depende, em parte, de condições interiores e, em parte, de condições exteriores. Todas as pessoas que gozam de boa saúde e podem satisfazer plenamente as suas necessidades julgadas elementares, à partida, deveriam ser felizes. Acontece que as coisas não se passam bem assim. A felicidade, nos humanos, é uma coisa muito rara, ao menos como estado permanente. Os animais são felizes desde que tenham boa saúde e bastante comida. Tem-se a impressão que os seres humanos deveriam sê-lo em iguais circunstâncias, mas tal não sucede.

Creio que a maior fonte da infelicidade reside no desamor, nas ideias erradas que se tem sobre o mundo, erradas éticas, errados hábitos de vida que provocam a destruição desse gosto natural e desse apetite pelas coisas realizáveis de que depende afinal toda a felicidade. Uma das principais causas da falta de gosto pela vida é o sentimento de não ser amado, ao passo que, inversamente, o sentimento de ser amado encoraja mais do que qualquer outra coisa. Por variadas razões, um homem pode, por exemplo, considerar-se uma criatura tão horrível que julgue inadmissível alguém amá-lo; pode também ter-se acostumado na infância a receber menos afecto do que as outras crianças; e pode na realidade ser uma pessoa de que ninguém goste. Mas neste último caso a origem do mal reside provavelmente numa falta de confiança em si próprio motivada por precoces infortúnios. O homem que não se sente amado pode tomar, em consequência disso, várias atitudes. Nalguns casos, faz esforços desesperados para conquistar a afeição dos outros, às vezes até por meio de actos excepcionais de bondade. Procedendo assim, no entanto, tem poucas probabilidades de êxito, pois a razão da sua bondade facilmente será compreendida pelos que dela beneficiam e a natureza humana é de tal maneira constituída que testemunha afeição com maior felicidade àqueles que parecem pedi-la menos.

Portanto, o homem que se esforça por conquistar afeição por meio de acções generosas torna-se um desiludido com a experiência da ingratidão humana. Nunca lhe ocorre que a afeição que procura comprar tem muito mais valor do que os benefícios materiais que oferece em troca e, no entanto, é a consciência dessa verdade que inspira todas as suas acções. Outros homens, ao verem que não são amados, tentam vingar-se do mundo, instigando guerras e revoluções ou escrevendo com a pena molhada em fel.. A grande maioria, homens como mulheres, quando sentem que não são estimados, afundam-se num tímido desespero, aliviado somente por fulgores momentâneos

O mundo é este lugar confuso onde eu vivo, contendo coisas agradáveis e desagradáveis, em desordenada sequência. É-me, contudo, irreprimível esta conta-corrente de pensamento e reflexão, sobre os fluxos que julgo serem os mais importantes nesta curta experiência de viver; este percurso aleatório – viagem de ida – onde ditados tais como: «A palavra é de prata, o silêncio é de oiro», não colhem em mim o santuário devido. Já se sabe que muito mais difícil do que abrir a boca e soltar o verbo para largar frases feitas, impressões ambivalentes, palavras entre o muito e o nenhum conteúdo é guardar silêncio. Eu encaro o silêncio como uma mera pausa comunicacional, uma forma de pontuar o discurso, de terminar um assunto e partir para outro. Perdoem-me, pois, aqueles que me lêem por ainda não ter terminado este fiar de tomadas de consciência sobre os méritos e deméritos da infelicidade mas, mais do que qualquer descoberta alquímica, um dos enigmas mais felizes da vida, reside no facto de encontrarmos todos os dias pessoas a quem tudo o que há de mal parece ter acontecido e, ainda assim, mais do que sobreviventes, são alegres viventes, sôfregos de vida, de bem com ela, e, de caminho, com os outros com quem se cruzam, criaturas de histórias muito banais e acontecimentos quase casuais. São pessoas para quem o caminho do Bem é uma opção consciente. Para quem não entendeu, falo-vos dos meus heróis.

domingo, 13 de novembro de 2011

Minímo

Parei de escrever. Há muito tempo que não escrevo e não passa um dia em que não me lembre da importância que essa forma de expressão tem na minha vida. Actualmente tenho ocupado o meu tempo livre com outros afazeres. Dedico-me à música, mais precisamente à prática da guitarra, ao ginásio e a uma pessoa especial. Os desertos de solidão que até há pouco tempo acrescentavam múltiplas razões à existência da minha escrita, têm sido ocupados por beatíficos oásis, que não me proporcionam menos prazer, mas que jamais poderão substituir-se a esta minha actividade, encarada como necessidade fundamental. A escrita, desde há muito, é o meu forro, a minha forma primária de catarse e de auto-entendimento; daí quase todos os meus escritos pecarem por um excesso de convencionalismo intimista, a deslizar para o diário, apesar de serem inúmeras as vezes em que os factos se confundem com a ficção. Gonzalo Torrente Ballester, autor galego das minhas referências, falecido há poucos anos atrás, escreveu algures num dos seus muitos textos de intervenção, que a pior solidão que existe é darmos conta de que as pessoas são idiotas. Obviamente que o autor se tinha em grandessíssima conta e os idiotas a que se referia seriam sempre e necessariamente os outros. Não é no entanto o meu caso. Quantas vezes, nesses desertos de solidão que atravesso, ausentes de sombras acolhedoras, me interrogo se a suposta singularidade, que já julguei possuir, não será ela senão uma vulgar forma de idiotice.


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Partimos juntos

Deixa-me agarrar as tuas mãos e escuta. Não digas nada, limita-te a ouvir-me. Se nada tens a opor, mal anoiteça, seguiremos juntos pela floresta encantada dos alámos e das heras. Não quero que tenhas medo. Prometo que cuidarei sempre de ti. Viajaremos pelas veredas e evitaremos os trilhos principais. Conheço caminhos que, para além do sol e dos animais da floresta, mais ninguém deles tem ciência. Caminharemos devagar, sob as estrelas, em cima do manto de folhas amarelas e cor de fogo que nesta altura do ano forram a charneca. Desse modo evitaremos deixar os rastos da nossa passagem. Vais ver que ninguém nos seguirá. Trás roupa quente e alguma comida. Eu levarei um farnel, agasalhos e uma arma que nos possa defender perante alguma adversidade. Só preciso de ouvir uma vez mais dizeres que me amas. O resto do mundo já pouco me importa. O nosso futuro jaz nas mãos do destino e é a força do amor que nos guindará ao boreal da felicidade. Quero amar-te como ninguém te amou. Em toda a parte, quero ter-te sem fim, como se fosses tu uma parcela de mim. Quero, um dia, longe de tudo isto, passear contigo entre as flores do jardim e para ti colher as mais perfumadas. Posso beijar-te agora? Diz-me que vens. Diz! Eu fico à tua espera junto ao velho carvalho, na volta da estrada, onde dorme o casal de cucos. Mal anoiteça, partiremos juntos. Se não podes amar-me por receio, seremos amantes em segredo, mas este nosso amor ninguém nos tirará. Juro-te!

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Libreto de amor


Há palavras que têm sabor, palavras que se deixam degustar enquanto as sentimos rolar por sobre a língua, antes de abrirmos ao de leve os lábios para as deixarmos sair. Enquanto existem em mim, sabem a sonhos, a esperança, mas quando mas calas com um beijo e fogem para a tua boca, sabem-me a amor e a paixão; quando mais tarde as exalas inesperadamente, sabem-me a destino; quando mas sussurras ao ouvido; quando mas gravas com os dedos sobre a pele; quando mergulho os meus olhos nos teus e as vejo navegar na tua alma; quando vislumbro uma sílaba perdida no canto da tua boca e provo uma letra apressada no gosto do teu sorriso...

Há palavras que têm cheiro a mil passeios de mãos dadas, no parque, na praia...; que soam como música perdida nas estrofes de vento que refrescam o verão…; que uivam na tempestade para que as lembremos para sempre…; que cantam para nós de manhã para que o nosso despertar seja suave e melodioso…; que nos imprimem vida, movimento, ritmo… Há palavras que nascem bem dentro de nós e que ficam lá mesmo depois de as gritarmos ao vento e de as levarmos pela mão a conhecer o mundo de outra pessoa. Palavras que embalamos sem mesmo nos darmos conta e das quais nos alimentamos com cada vez mais avidez. São palavras que um dia nos batem à porta de mansinho e nos pedem para entrar… e não encontramos forças para as mandar embora… e deixamos que fiquem e que, aos poucos, vão tomando conta de nós… exigindo ser o nosso centro… o âmago de tudo…

E, quando, enfim, derrubadas todas as barreiras, nos preenchem, querem mais, querem ser partilhadas, porque são especiais, porque querem colorir os dias daqueles que amamos e unir-nos ainda mais, sem pressas, porque têm todo o tempo do mundo para fazer-nos felizes…

São palavras assim como: Amo-te! Que me aproximam de ti a cada dia que passa, palavras que me preencheram os silêncios e me elevaram os sonhos e, em cada um deles, consigo entrever linhas de vida ainda inesperadas, acenando-me por entre os traços do teu sorriso, convidando-me a aproximar-me, a prová-las na tua boca para sentir que são iguais às minhas, e que também elas querem que fiquemos juntos para sempre.*


*Um texto que escrevi há uns anos e que reencontrei meio perdido entre outras coisas. Apeteceu-me trazê-lo hoje de novo à colação, talvez por ter gostado tanto dele na altura em que o escrevi.

Despedida

Fecho os olhos e vejo-te. Vens a mim quando te não quero. Há coisas que não se devem querer. Tu és uma delas, doce veneno. Agora já não há segredos. Corremos sem saber se vamos a tempo de saltar. Se queremos. Nesta existência precipitada, imprevisível de noites e pequenos nadas, acabei por não te dizer uma coisa, que nunca te disse, pois nunca veio a propósito. Uma vez, uma única vez, resolvi voltar aos locais por onde andámos juntos e chamei pelo teu nome, na esperança que surgisses ao virar de uma esquina, vinda na minha direcção, com um sorriso nos lábios. Sempre te achei intrigante, talvez por te faltar aquela necessidade natural que têm as pessoas de falar de si, e se justificarem. Eu nunca soube nada de ti e era por isso obrigado a inventar tudo e depois obrigado a desfazer o que tinha inventado e  recomeçar de novo. Era uma forma de amor em que eu fazia de Penélope e tu de Ulisses. De qualquer modo, cada um de nós deve parar com a brusquidão inútil da saudade e partir para não mais voltar. Qualquer um de nós deve estar preparado para uma travessia sem fim. E tudo voltar a ser o que era, antes de tu e eu sermos um do outro.*




* Texto escrito por mim, por volta do ano 2004 ou 2005, e 'surripiado' do 'Madrigal' 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Um sussurro na madrugada

Nessa noite, passei-lhe a mão pela face, com receio. Ela sorriu-me. Timidamente. Por entre as árvores intrometia-se a lua, lá em cima, enorme e quase vermelha. Coisa que, apesar de tudo, continua a ser um acontecimento excitante para muita gente. Não lhe envolvi os ombros e mal lhe toquei. Aproximei ao de leve os meus lábios dos dela e beijei-a suavemente. Quase imperceptível, recortada como um destino esquecido entre a luz, foi a minha partida. Meneie a cabeça, até ficar com a lucidez exacta de ter acordado, e dirigi-me para casa. A recordação manteve-se algum tempo na memória. Deitei-me mas não dormi logo. Quando estamos cansados deitamos o corpo e adormecemos. Mas às vezes não. Procuramos outra mão, outros olhos, que nos limitem a fadiga e evitem o sono que nos vem antigo. Mas, tacteando, tocamos o silêncio e o vazio.
O que existe dentro de mim, por vezes, não sei se é amor, se é saudade, carinho, felicidade, ternura, tristeza ou paixão. Não quero rotular o que sinto. Sempre que o faço, limito os meus sentimentos. E desejo que eles sejam sempre intensos e inomináveis. Não acredito em  fórmulas certas com vista a resultados, porque não espero acertar sempre. Nem tão pouco consigo ser o que não sou, fingir o que não sinto. Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sou capaz de grandes 'normalidades' e não sei voar com os pés no chão. Mas, com o rodar dos anos e o sangrar da vida, aceito-me cada vez mais, e isso pacifica-me.

domingo, 18 de setembro de 2011

Limpópó, Jorge!

*
http://picaretaescrevente.blogspot.com/2011/04/em-busca-de-uma-empregada-domestica.html.

* Texto que, de algum modo, já abordara semelhante temática, prova das recidivas desta minha minha lassidão.

Não sou capaz de precisar o momento em que a preguiça, ignominiosa, se apoderou de mim. Certo é que não há dia que não olhe para o aspirador, para o pó que se vai acumulando no chão, nos móveis, e um pouco por todo o lado, para as formações montanhosas de roupa por passar a ferro, com os seus graciosos picos nevados de roupa branca, para os livros e as revistas, espalhados por todas as divisões, e não sinta uma culpabilidade aguda pela proporção que deixei que as coisas tomassem. Provavelmente foi daqueles deslizares suaves que vão acontecendo sub-reptíciamente, que se vão instalando e ganhando espaço até acabarem tão naturalizados, tão integrados, que quase poderia jurar que a minha casa esteve sempre assim. O que não é verdade. Falta-lhe aqui uma 'mão feminina', é certo, mas também é seguro que eu tenho duas 'mãos masculinas', tão ou mais capazes de desencadear uma clean revolution, como quaisquer mãos de mulher. Na verdade, tenho guardado o meu tempo livre para actividades prazenteiras - 'as pessoas como deve ser' devem estar sempre ocupadas a cuidar da sua realização e da sua felicidade -, e faço por esquecer, relegando para plano secundário, as tarefas chatas mas inevitáveis. Sem querer abdicar da gloriosa volúpia de sentir, no rosto e nos braços, os tímidos raios de sol desta tarde quase outonal, enquanto escuto o trinado dos pássaros nos ramos das árvores, e vejo a relva a crescer no prado que observo da janela do escritório, receio que a hora seja mais do aspirador. Não vale a pena procurar as falhas e os interstícios desta verdade, que, por tão factual, nem admite contradita: a minha casa precisa urgentemente de ser limpa. Quem dera, por vezes, que estivesse anunciada uma visita papal ao meu refúgio, ou de alguém cuja solenidade e olhar crítico me causasse tamanho embaraço, que me fizesse andar uma semana antes a limpar meticulosamente o apartamento. Parece que a esperança é o antídoto natural para o desespero e que o desespero é o sentimento derradeiro que inunda a alma e escurece e obnibula qualquer hipótese de futuro. Mas eu agarro-me poeticamente à esperança que uma vontade irreprimível de arrumar, limpar, organizar, e puxar o lustro aos móveis, se apodere em breve de mim. Assim como já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer e já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais, tenho a certeza absoluta que, brevemente, a minha casa vai ficar tão limpa e arrumada como a Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes. Resta-me acrescentar, por natural descargo de consciência, que emprego o advérbio 'brevemente' no sentido literal do mesmo e não como um vã mensagem programática. Em tempo de manchetes vazias, no que à temática e imaginação da  minha escrita respeita, é licito, é justo, é imperioso mesmo que eu descubra o fio de Ariana que me abra uma janela por onde entre esta iluminada esperança. Mais do que guitarradas, acordes, escalas pentatótinas, escalas gregas, em Dó Maior, passeios de mota e navegação intensiva no Facebook, ou leituras inusitadas, o que me faz mesmo falta neste momento é segurar nas mãos uma esfregona, um cabo de aspirador e um pano do pó. Limpópó, Jorge!

domingo, 11 de setembro de 2011

Limpópó em silêncio!


Acordei estremunhado, depois de umas escassas quatro horas de sono, com o barulho do arrastar de móveis. Os meus vizinhos do andar de cima, todas as manhãs de domingo, arrastam móveis de um lado para o outro. Não querendo acreditar tratar-se de um ritual dominical, ou de uma prática de sortilégios de feitiçaria, penso que será um excesso de zelo na limpeza, que faz com que a Dona não sei das quantas, se lembre de que pode haver pó atrás dos móveis. É evidente que existe toda a probabilidade de eu encontrar pó atrás dos móveis e das estantes. Mas limpá-lo todos os domingos? E às 07h00 da manhã? Domingo, para a prática cristã, é um dia santo e, por fundamentação bíblica e etimológica, é considerado o primeiro dia da semana, seguindo o sábado e precedendo a segunda-feira. Mas, na minha sentimentalidade, é somente aquele dia horroroso que antecede a odiosa segunda-feira. É ao domingo que tenho de fazer o exercício mental doloroso de tentar esquecer o meu Eu. Segunda-feira, é o meu heterónimo mais desinteressante quem vai ter de se levantar às 08h00 da manhã, fazer a higiene diária, tomar o pequeno-almoço useiro, no café do costume. E, depois, atirar-se às escrituras. Não sou Eu, como resulta evidente. Mas o chato da questão é que Eu vou ter de ir com ele - o que hei-de fazer? 

Limpar o pó em silêncio, mais do que um exercício de estilo, devia ser um aprendizado que todos dominássemos. Eu, por exemplo, limpo pouco o pó, e, quando o faço, sou tão silencioso e ineficaz que quase ninguém dá por isso. O silêncio vale oiro, mas infelizmente pouca gente lhe confere o devido valor. É no silêncio que melhor reflectimos, tomamos decisões, estudamos, descansamos ou conseguimos a verve suficiente para escrever algo de importante que tenhamos na cabeça. Às vezes sabia-me bem ter uma casa no interior do país, completamente isolada e rodeada de árvores sussurrantes, afastada da estrada principal e da aldeia, onde só se chegasse por azinhagas que mal permitissem a passagem de um automóvel. Instalar-me-ia lá com os meus livros, a minha música, as minhas guitarras, as minhas motas, um acesso à Internet, um gato, e creio que bastava. Mas a reforma ainda vem longe, ou não, e, depois da tomada de consciência da efemeridade da vida, dos acidentes de percurso, e da unnplanned travel experience,  há muito tempo que só sonho a curto-médio prazo. 

Entretanto, o guerreiro barbudo e hirsuto,  sempre de sobrolho franzido, que é o meu vizinho do andar de cima, já anda na rua a passear o cão. O barulho cessou. A mulher, coitada, não tem forças para dominar a coleira do doberman, quanto mais para arrastar móveis sozinha. Um extenso manto de nevoeiro,  cobrindo totalmente o bosque a tardoz da minha casa, foi o primeiro retrato que divisei esta manhã. Mas, pouco a pouco, já se conseguia destrinçar, ao longe, a estrada para Coimbra e a A1, ambas recortadas pela luz tímida do sol da manhã. Dois meninos corriam em direcção ao bosque e fiquei a mirá-los vagamente. Recordei a minha primeira caçada aos gambozinos. Não teria eu mais do que a idade daquelas crianças. Uns seis aninhos. Aconteceu, num bosque parecido com este das traseiras da minha casa, nos tempos em que ainda andava nos escuteiros. Convidaram-me e explicaram-me. Até me ofereceram o saco conveniente  e necessário para depois os colocar lá dentro. E, na noite da caçada, lá fomos nós, os Lobitos, acompanhados dos Exploradores e dos Caminheiros. Fiquei de plantão, junto a um morro escondido por umas altas silvas, mais um amiguinho Lobito. Entretanto já anoitecera. E, com uma lanterna na mão e o saco a jeito, lá ficámos nós à espera da chegada dos gambozinos, enquanto tiritávamos de frio. Era o início do outono e as noites depressa se tornavam frias. 

Foi das primeiras experiências choque da minha vida. Tomei consciência de que não podíamos confiar totalmente nos 'adultos' e, confesso, foi doloroso. Um colo precioso que, de alguma forma, se desmoronou. Hoje, já com a 'idade da razão', tudo me leva a crer que a experiência iniciática da caça aos gambozinos é realmente importante. Temos de apanhá-los. Temos mesmo. Seja lá como for. Pois, mais importante do que fazer limpópó todos os domingos, arrastar móveis e macular o silêncio, é prudente usar o tempo para  imaginar e sonhar. Por exemplo, estive mesmo agora a fazer um limpópó à minha mente, a exercitar as falanges, e a divertir-me um nadinha com estas singelezas que acabei de escrever. E agora vou passear de mota. As minhas vrumms vrumms vrumms, ao menos, nunca ganham pó.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Quimíca

A sedução tem muito que se lhe diga. Isto de alguém ser capaz de se fazer amar, desejar, querer, sem mais nem porquê, não é de todo um dado fácil de digerir. A capacidade de uns tantos, poucos, se fazerem amar é uma imensa mais-valia. Quem possuir o dom de exercer fascínio sobre os outros, capaz de os amaciar o suficiente para ficarem vulneráveis a influências e alterações de comportamento, é definitivamente um sedutor. Mas a relação entre o sedutor e o seduzido (atrais-me, mas não tens força para me prender) não é tão eficaz como quando está presente a 'quimíca'. E, mais importante do que a 'arte da sedução', que alguns prosaicos se gabam dominar, é sobretudo a 'quimíca mútua', como correntemente agora se apelida a chama da paixão, que aproxima verdadeiramente duas pessoas. Sem 'quimíca', sem aquela atracção mútua inexplicável, aquele bater mais forte do coração quando se pensa em determinada pessoa, aquele gostar inexplicável, ilógico - um gostar com o coração, esvaecida que ficou toda a racionalidade -, o que parece que espanta pela raridade e fascina pela perfeição, torna-se, no momento seguinte ao deslumbramento, uma enorme trivialidade. A cultura do amor tornou-se, na nossa sociedade, um ingrediente fundamental para a nossa felicidade. Grande parte da nossa vida afectiva, enquanto adultos, é dedicada à relação amorosa. Rompemos relações estáveis, porque deixamos de amar, para, passado algum tempo, voltarmos a amar. Mesmo as pessoas com necessidade de lutos maiores, mesmo os mais desiludidos, que juram a pés juntos não querer mais ninguém e que se bastam com o culto narciso da sua pessoa, um dia sucumbem à lógica da 'quimíca'. Uma vez tocados pela 'quimíca', a menos que sejamos seres abjectos, patologicamente insensíveis, todos sucumbimos. O amor é o que sentimos pelo outro, mas também o que o outro sente que nós sentimos. Não há muitas racionalidades que consigam explicar o porquê de gostarmos de alguém. E a prova disso é, não raro, acontecer gostarmos de pessoas que 'racionalmente' não seriam as mais indicadas para entregarmos as chaves do nosso coração. Não admira que os grandes sedutores sejam habitualmente tão infelizes. Seduzir, essa capacidade fantástica, pode resultar no imediato, mas sem a poção mágica da 'quimíca', capaz de aliar corações, tudo pode não passar de um fogo fátuo de sentimentos. E o que todos almejamos é chegar ao cume, ao vibrátil: o amor, como referente universal de todos os sentidos. Tudo o resto são sucedâneos, vertigens de quem espera pelo fundamental.