Por vezes temos uma ideia na cabeça que queremos desenvolver através da escrita. Pode ser um pensamento que surgiu à hora do almoço, depois da jornada de trabalho, ou algo que anda a ruminar há algum tempo na nossa mente; mas chegada a hora de escrever, outra coisa diferente, ambígua, até, jorra-nos dos dedos. Começamos a escrever e a nossa mente divaga, já que a nossa existência é feita de um contínuo de pequenos acontecimentos, a maioria sem grande importância nem impacto. De vez em quando, muito de vez em quando, o fluir dos dias agiganta-se, abrilhanta-se e, então, dizemos que aconteceu algo de especial e guardamos datas na memória, sentimentos quentes e ternos ou assustados e infelizes algures dentro de nós. Alguns encaram com leveza os dias que correm. Lembram-se dos tempos da infância e sorriem condescendentes com o que foram. Partilham com os amigos histórias improváveis, exageradas, cheias de feitos e de graças e divertem-se com isso. Olham para sonhos que não se cumpriram e objectivos que não se alcançaram e o coração não se aperta nem descem véus de angústia ou derrota. Para outros, o passado, o futuro e, sobretudo, o presente desgastam. Há uma queixa fina e virulenta, uma espécie de lamuria, que se torna numa inquietação permanente e sem objecto que corrói, que transforma todos os momentos em tempo perdido, como se a felicidade e a vida estivessem sempre noutro lugar. Viver pachorrento ou inquieto, tranquilo ou perturbado, não é bem uma opção. Em cima de um temperamento que nos calha em sina, acumulam-se experiências e formas de lidar com o que nos acontece, que nos transforma exactamente no que somos: nós mesmos, únicos, diferentes, extraordinários por isso. Somos quem somos, por acaso e sem escolha, já que não nos soubemos fazer de outra maneira. O que nos afirma como únicos é, no entanto, a nossa forma particular de dizer não e, a partir daí, reconstruir-mos o (nosso) mundo - se é que ainda vamos a tempo. Temos de fazer um esforço, sermos pro-activos, e não estarmos sempre à espera de uma melhoria das contingências exteriores para fazermos algo por nós. Mas tudo isto, depois de escrito, soa a receita fácil, já que é impossível fazer a nossa vida retornar à pureza dúctil de uma página em branco. E, uma vez mais, como se vê, para o escritor é mais fácil prescrever soluções generalistas (para os outros) do que as considerar para si mesmo.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Da página em branco
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Pensamentos
Liberdade de escrita
Por vezes, quando compramos uma revista, ou lemos determinados blogues mais intimistas, é por vontade de saber da vida de pessoas que julgamos interessantes, dos seus pormenores, sejam eles brejeiros ou sórdidos, não porque nos achemos necessariamente pessoas desinteressantes e indignas de qualquer registo, mas porque faz parte da nossa essência termos uma certa curiosidade. Há blogues com inegável valor literário, outros com representações fotográficas, cinematográficas e de arte espantosos, ou com belíssimas selecções musicais. Outros há que afloram as clivagens, o consenso e o conflito social, com nítida vocação política, sem esquecer os blogues onde o bom humor impera. Enfim, há blogues com temáticas para todos os gostos. Mas são inegavelmente os blogues com vocação intimista que atraem mais a atenção do leitor comum. Felizmente, ainda há quem aprecie uma "boa conversa", ainda que em forma de monólogo, que seja uma partilha de ideias, ou uma exposição mais ou menos reservada de universos pessoais que, num dado momento, se partilham com gosto. Nestes tempos vorazes, tomados pelo pragmatismo, em que falar se vai espartilhando à necessidade de dar e receber informações, parece quase um exercício de infantilidade perdermos tempo lendo, ou escrevendo, coisas que fujam à lógica feroz desse ditame. E esta é a atitude de muita gente perante a leitura e a escrita: não perder tempo com "textos minimalistas" onde a subjectividade impere, pois somente interessa o texto formativo. Com a democratização da possibilidade de publicar textos, proporcionada pelas novas tecnologias, a blogosfera tornou-se um espaço onde todos os que escrevem, ou querem ter algum tipo de intervenção diferente, tal como publicitar vídeos ou textos alheios, encontram o seu lugar. E ainda bem que assim é, em prol de todas as idiossincrasias.
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Pensamentos
O Macedo da Travessa da Glória
Não há dia que me desloque à Baixa lisboeta, com algum algum tempo livre, que não visite o Macedo da Travessa da Glória. Tanto quanto recordo, há quase quarenta anos que frequento os principais alfarrabistas da cidade, desde os mais finórios, da Rua do Alecrim - e, nesses, era só mesmo para ver os livros e admirar as suas lombadas gravadas a oiro, bem como as gravuras antigas, os mapas e as fotografias de época, pois os preços praticados eram-me interditos -, onde, não raro, encontrava escritores de vulto e nomes sonantes da nossa cultura, passando pelos alfarrábios do Bairro Alto, do Chiado, da Trindade e do Príncipe Real. E se no início o que me movia era a impossibilidade económica de comprar livros novos, restando-me como única opção o livro usado, ou manuseado, como eufemisticamente alguns prosaicos os gostam de apelidar, aquilo que começou como uma falta de alternativa, foi-se paulatinamente transformando num gosto e mais tarde num vício. Mas foram sempre os alfarrabistas modestos, aqueles cujo comércio são os livros manuseados, e não as preciosidades literárias, ou as edições raras e de luxo, que recolheram as minhas preferências. E ainda hoje assim é, pois, mais do que a eventual beleza da capa e da contracapa do livro, que não desprezo, o que me mais me importa é mesmo o conteúdo da obra.
Apesar de ter perdido grande parte das minhas capacidades olfactivas e, com isso, algum do espólio desse repositório de memórias formidável, cada vez que entro na tabanca pombalina do Macedo, reconheço de imediato odores que sempre me foram familiares: a humidade entranhada nas paredes, o bafio mesclado com os cheiros indescritíveis que se desprendem das estantes esconsas, onde livros, que há mais de um século não vêem a luz do sol, jazem amontoados uns sobre os outros. Um ambiente deveras impróprio para quem sofre de algum tipo de alergia ou renite, onde uma amálgama de odores, que se mesclam generosamente com os cheiros das frituras e dos vinhos, das casas de pasto que convivem paredes meias com o sebo do Macedo, entram sem parcimónia pela livraria, criando uma atmosfera olfactiva de tal ordem que, ainda que me vendassem os olhos, quase podia jurar conseguir adivinhar que me encontrava dentro do estabelecimento do alfarrabista da Travessa da Glória.
O Macedo, tripeiro de gema, há muito radicado em Lisboa, vivendo para os lados da Almirante Reis, mas conservando uma inconfundível pronúncia do norte, é um homem esguio, seco, de rosto encovado e varicoso, chupado por uma vida de cigarros e tacinhas, de cuja boca sobressaem dentes escassos, de um amarelo acastanhado. Não raro, quando se emociona, pois está sempre a opinar sobre tudo e o que era antigo é que era bom, espicha perdigotos, que se lhe depositam no canto da boca, mas dos quais rapidamente se livra, passando a manga da camisola pela boca. O livreiro ainda mantém aquele ar de 'pintas dos anos 50': desafiador, irónico, fadista, amante de ditoches, falador incansável e armado com a sempiterna unharra multiusos do dedo mindinho, com que amiúde coça o interior dos ouvidos, adereço que sempre lhe conheci. Cada vez que me vê, todo ele é uma festa. Mima-me com o epíteto de "doutor" no começo de cada frase. Oiço-lhe as histórias de sempre, que aliás conheço de cor. A viagem ao Brasil, nos anos 60, e as peripécias no Rio de Janeiro com as brasileiras; a sua infância na Ribeira; os banhos no Douro, como os meninos do Anikibobó do Manoel de Oliveira; a vida boa que já teve; as inúmeras amantes que passaram pelo seu leito; a mulher, que é uma santa e tudo lhe tem aturado e desculpado. Julga-se, acima de tudo, um literato, porque vende livros há muitos anos e conhece títulos como ninguém. Faz questão em discutir comigo algumas leituras - diz que já não lê há uns anos porque as cataratas, entretanto, comeram-lhe os olhos - e fica radiante quando se apercebe que eu conheço alguns dos muito livros de que fala. A mulher tem uma venda de peixe no Mercado do Rego, mas só quer saber de telenovelas. O primitivo arrendatário do estabelecimento está cego, internado num lar, e agora é ele que tem de continuar sozinho à frente do negócio. A renda, antiquíssima, felizmente, é simbólica, pois o dinheiro que actualmente ganha mal dá para o tabaco, para umas quantas tacitas e para comer qualquer coisinha. E o prédio, com cerca de trezentos anos, estala de podre. Mas que fazer? Os herdeiros do senhorio recusam-se a fazer obras e já lhe fizeram saber que até iam a Fátima a pé se ele algum dia resolvesse sair dali.
O Macedo cria em mim, esperava ainda ver o meu canudo de senhor doutor, dizia ser eu um jovem diferente dos outros e nunca o consegui convencer do seu erro. Falávamos de ópera e ele trauteava as árias, falávamos do Camilo e do Zola e da enorme fortuna que ele teria se os livros de sebo que tinha em stock fossem libras. E ele ria-se sempre e cofiava o bigode amarelecido, que entretanto estranhamente fez desaparecer, com a ponta da unharra do dedo mindinho.
«Um santo natal para si e para os seus, Sr. Macedo, e obrigado por me aconselhar sempre "boas leituras". "Apareça sempre, doutor, nem que não compre nada, nem que seja para me visitar, pois enquanto nos virmos um ao outro, ainda que poucas vezes por ano, é sinal de que ambos estamos vivos.»
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Crónica
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
O gosto do cheiro a póvora
As lutas continuas desgastam-nos, envelhecem-nos, separam-nos. Prefiro de longe o consenso ao conflito, a concórdia à guerra. E quando discordo em absoluto de alguém, inamovível e inconversável, regra geral, deixo-o falar sozinho. Sempre que possível, evito o conflito, a escalada originada por uma discussão, que, regra geral, conduz à irracionalidade e ao débito de descargas emocionais absurdas, desajustadas e ocas, proferidas apenas com o fito de magoar. Nessa fase, aquilo que parecia ser à partida uma saudável troca de argumentos, um desajuste que se queria ver ajustado, transforma-se numa espiral de agressividade. Não raro, naturalmente por defeito meu, que suspeito tenha a ver com a verbosidade enfática com que defendo certas teses, acontece muitas pessoas sentirem um prazer quase mórbido em me contrariar. Não que a atitude de contra argumentar, a clivagem, seja pouco salutar, ou construtivamente incorrecta. Antes pelo contrário. E não foram raras as vezes em que, à conversa com pessoas muito mais sensatas e lúcidas do que eu, depois de alguma introspecção, me tenha forçado a mudar de pensamentos e atitudes. O cerne da questão é outro. Refiro-me naturalmente à guerrilha em que rapidamente se pode transformar uma troca de argumentos contrários e inconciliáveis. E as tensões são sempre superiores quando as principais linhas de clivagem se situam no plano da moral, ou no âmago das formas primárias de subjectivar que respeitam a cada um de nós. Quando a discussão tem por temática realidades mundanas, as tensões são indubitavelmente mais baixas, pois a capacidade negocial e conciliatória é maior. O que eu rejeito liminarmente é a querela fácil e brejeira e o transbordar agressivo de quem, por recusar ficar na 'mó de baixo', independentemente da justeza das ideias que contradita e apenas porque sente a sua estima maculada por um argumento que julga lhe está a ser imposto, reage com desproporcionalidade. Todos queremos ser inovadores, donos da razão, seres únicos, dotados de uma armadura moral e de uma estrutura de pensamento assertiva. A natureza humana assim nos fez, dessa forma formatada e irrevogável.
Eu sou, sobretudo, um homem de paz, de mimos e de amor, assumidamente lamechas. Acho que vou envelhecer irremediavelmente assim. Gosto do bom humor e da doçura, detesto a contenda e a crispação, e muitas vezes as minhas atitudes de 'fuga', e uma certa insociabilidade, são confundidas com cobardia. Há justamente quem pense que para mantermos íntegra a nossa personalidade, para nos sentirmos valorizados como pessoas, devemos ter sempre pronta na ponta da língua, uma resposta implacável e demolidora, como fora uma espada apta a ser desembainhada, perante um argumento ou uma crítica que nos desagrade. Deixo essa gloriosa tarefa para os fazedores de opinião que ganham a vida participando em debates e contendas. Tenho uma estrutura de pensamento, arquétipos morais, vícios, preconceitos, contradições, tiques, e não sei quantos mais defeitos, com mais de meio século de sedimentação. Admito e agradeço que me mostrem o outro lado do espelho, me façam mudar de opinião, me coloquem num lugar onde a forma como perspectivo as coisas possa ter um olhar diferente e me conduza a conclusões opostas. Não tenho é pachorra para corridinhas para ver quem chega em primeiro lugar, degladiações frustres, contendas onde a regra é ganhar o que berrar mais alto os seus argumentos e for capaz de colocar a voz duas oitavas acima. Em troca dessa consciente abdicação, aceito para a minha vida um acrescento de solidão, uma sociabilidade mitigada e uma maneira cada vez mais selectiva na forma como escolho aqueles com quem interajo no tempo e no espaço, aquele que sobra depois de o usufruir comigo e com aqueles que mais admiro e mais amo.
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Crónica
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
O outono do verão
Imagino que seja o outono do verão,
que se anuncia com decotes mais lúdicos,
nos seios destes dias que se recolhem estrábicos,
ao leito da ermida galdéria onde gozam,
Esta escrita néscia, quase hemorrágica,
expatriando pensamentos avulsos,
que me acompanha até o hino de soluços,
esfriar em mim a glosa infame e trágica,
Desta minha vida exposta em maqueta,
a miniatura tridimensional de uma obra
sempre adiada - um exército em manobra,
morto de perseverantes - irrequieta,
mãe de construções asneiras, de sobra,
Onde eu, o progenitor desta vetusta senda,
calcorreio, por teimosia, quase a contra-gosto,
estradas corta-fogo, na selva densa que é a adenda,
que bordeja os lugares onde me sorve o desgosto,
Que é gosto, de me perder neste halo de verduras,
com o sol a pino, entre as folhas faiscando,
e o vento seduzindo aves petizes, por desmando,
que ganham os céus no porvir das agruras,
E, tal como os pássaros da noite, finjo que durmo,
com uma pata alçada e olhos de pagode, soturno,
nos galhos entrelaçados do Estio da minha vida,
fazendo soar um piar absurdo na hora da partida
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Poesia
HSAC - Bloco de Cirurgia 6 - cama 11
Muito mais do que um mero gesto de cortesia que, desde pequenos, nos é apresentado como fazendo parte da 'boa educação', agradecer aquilo que a vida nos dá torna mais fluída a energia que existe no interior de nós mesmos. E este sentimento de apreciação grata relativamente aos benefícios recebidos é uma expressão da alma. Agradecer, sem ter de revestir necessariamente uma atitude de cariz religioso, é estar atento ao milagre que representa viver com saúde, energia e boa disposição. É dar graças à sorte, à felicidade que nos podem transmitir as pequenas coisas boas que nos vão sucedendo; e, sobretudo, consciencializar o quão relativa pode ser a nossa (pequena) dor face a sofrimentos alheios bastante mais significativos. Há frases, pensamentos recorrentes, que já nos parecem gastos, tanto o uso que lhes damos, mas que não perdem, ainda assim, actualidade. É verdade que não existe nada melhor do que a perda de algo valioso, que no dia-a-dia tomamos por trivial, para nos fazer percepcionar com humildade a importância que revestem para nós certas coisas. Faltando-nos a saúde, sentindo-nos invadidos pela dor, à mercê da ajuda dos outros para nos locomovermos, fica comprometida a nossa autonomia e a nossa liberdade - dois dos dos valores que mais prezo. E em virtude de certos dramas que vivi neste mais de meio século de existência - alguns deles, aliás, continuam, ainda hoje, a ser territórios de silêncio - compreendi finalmente que só a vida vivida no instante presente, sem desperdiçar uma gota que seja do seu precioso líquido, me pode confortar e fazer-me alhear da questão da morte. Quando ela chegar é a voragem da inevitabilidade que viajou até mim, mas até isso acontecer, quero-me feliz e fazer felizes os que me são queridos.
Num hospital público central, na enfermaria de um bloco cirúrgico, ganhamos todos um estatuto de igualdade. É uma espécie de democracia imposta por um desígnio comum. Não há doentes com primazia face aos demais, nem relevam os títulos académicos ou os meios de fortuna de cada um. Todos somos pacientes a aguardar uma cirurgia ou a recuperar de uma cirurgia. E, com excepção dos poucos que não abdicam de usar o seu pijama pessoal, a maioria usa o tradicional pijama às riscas azul claro, one size fits all, com a sigla do hospital bordada no bolso direito da camisa. Uma vez que a lavandaria não consegue dar vazão à quantidade de pijamas que a todo o instante são trocados, já que a maioria dos doentes estão entubados para receberem soros e medicamentos, e com drenos que os sujam de sangue e outros fluidos corporais, não existe uma grande preocupação em atribuir aos internados uma roupa interior à medida da sua estatura, o que é de algum modo compreensível. As trocas por números mais concordantes fazem-se de seguida, a pedido dos interessados, caso existam medidas disponíveis. Somos todos, como na célebre canção do Zappa, 'pijama people'; e, como tal, sentimos esse espécie de estigma pairar sobre nós. Mesmo em época de crise económica e fortíssimas restrições orçamentais, felizmente não encontrei menos amor e dedicação por parte do pessoal auxiliar e das equipas de enfermagem. Os médicos, uma classe profissional endeusada ao longo dos tempos, face à condição de eterno elo fraco, nessa relação desajustada, que representa o doente - por vezes, o paciente quase sente a obrigação de mendigar ajuda para a sua enfermidade - vão cumprindo com zelo as suas tarefas técnicas, mas longe de se envolverem emocionalmente com os pacientes. Faz parte da imagem de 'superioridade natural' que fazem jus denotar, essa postura algo distante, por vezes, até, com laivos de arrogância [mas, diga-se com justiça, nem todos são assim e as generalizações são sempre perigosas]. No entanto, a minha apreciação geral é francamente positiva no que concerne ao acolhimento que me foi ofertado no HSAC. Daí a minha extensa reflexão no parágrafo inicial e a certeza de que, ainda assim, considero-me um privilegiado face a tanta dor que presenciei. Que a boa sorte guarde todos os doentes com quem convivi, durante este curto internamento, e que deixei para trás, alguns já sem esperança alguma no olhar; outros, tal como eu, menos mal. Bem hajam todos.
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Crónica
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Assim de repente
Na busca filosófica do sentido das coisas, creio que tenho aprendido muito mais com quem não estou de acordo do que com aqueles em quem o consentimento é fácil de mais, apesar de não enjeitar possuir uma propensão natural para o polemismo, para a contra-corrente. Um dos grandes desafios da vida é, sem dúvida, conseguir a tal capacidade de dialogar com sensibilidades díspares, com pessoas que têm formas de ver as coisas diametralmente opostas a mim. A aproximação fraternal dos aspectos irredutíveis do outro e, em simultâneo, o não abandono das convicções mais profundas sobre a forma como encaro o viver, é um estágio de maturidade e bondade que, confesso, ainda não consegui de todo alcançar. Quando lá chegar, se tal algum dia acontecer, sei que serei uma pessoa bastante melhor, mas até lá terei de me contentar com a miséria da minha mais que banal imperfeição.*
*(Publicado no 'Madrigal', há uns tempos atrás, um pensamento que mantenho e que achei por bem republicar, mas não seja por auto-pedagogia)
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Pensamentos
domingo, 20 de novembro de 2011
Um hiato nas palavras
Fecho os olhos, deitado sobre a cama, e escrevo dentro da cabeça. As frases ligam-se por suspiros, uma respiração ofegante, sem pausas. Daí a pouco deixo-me adormecer de novo. Nos confins da casa, fica a cozinha. Oiço o barulho constante do motor do frigorífico e alguns ruídos difusos que chegam da rua de forma indecifrável. Quando acordo de novo, quero recordar as frases que houvera escrito na cabeça, mas tudo se esvaiu. Levanto-me, olho-me no espelho, ponho a água a correr e tomo um duche. Gosto de sentir a água quente cair-me sobre a cabeça, na pele, a escorrer-me por todo o corpo. Ao voltar para o quarto, reparo que a porta está entreaberta e, sustendo a respiração, entro. Vejo-a a dormir. A cabeça sobre a almofada, um emaranhado de cabelos loiros escondem-lhe o rosto. O corpo está enroscado num lençol púrpura debruado a ocre. Deixo-me encantar pela delicadeza das suas formas, pela profundeza serena do seu sono. Destapo-lhe o corpo devagarinho, meticulosamente, milímetro a milímetro, como quem conta os poros de um braço, procurando as palavras que se foram. E nada, não encontro nada. Tudo não passou de uma imagem, de uma fantasia. A cama continua desfeita e as formas que eu divisei mais não eram do que uma ilusão de óptica do meu amor por ela.
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Prosa poética
Do segredo e da felicidade
'Penso que podia modificar-me e viver com os animais, eles são tão serenos e reservados. Quando me detenho a contemplá-los demoradamente, alheios, por condição, a queixas e fadigas, não estão acordados de noite a chorar os seus pecados, não me incomodam a discutir os seus deveres para com Deus. Nenhum está descontente, nenhum endoideceu com a mania de possuir bens. Nenhum se ajoelha perante outro, nem perante antepassados que viveram milhares de anos antes dele. Nenhum é respeitável ou infeliz para o Universo inteiro.'
Walt Whitman
Atrevo-me a dizer que toda a gente, alguma vez na vida, já foi amada. Na infância, na adolescência, na idade adulta, no liceu, na Universidade, ou até mesmo no envelhecimento, uma mãe, um pai, uma avó, um filho, uma filha, um homem, uma mulher, alguém se cruzou ou se manteve por perto, provavelmente, e amou-nos bem. É, no mínimo, uma atitude de presunção agastada querer receitar a felicidade como quem desfolha as páginas do Pantagruel, e nele encontra mil e uma formas de fazer bolinhos de felicidade e alegria esfuziante.
O segredo da felicidade é um segredo de Polichinelo – aquela personagem clássica da comédia dell’arte, das farsas napolitanas e dos teatros de marionetas. Corcunda, barulhento e quezilento, é a figura do bobo da corte, sempre desbocado, dizendo o que deve e o que não deve num tom jovial e folgazão. Os segredos de Polichinelo são por isso a fingir. São farsas dos verdadeiros segredos, que, para que o sejam, devem permanecer ocultos, escondidos, indecifráveis. Qualquer segredo partilhado, ainda que não transborde uma geografia restrita e nunca chegue à praça pública, perde o essencial da sua razão de ser. Quando se partilha um segredo, alivia-se a carga, descarrega-se o peso de se ser, ou de se julgar ser, o único que sabe ou conhece aquela coisa, que é sempre terrível e oprimente, que delata alguém ou repõe uma verdade escamoteada. Entre o peso dos que contêm e se contêm de mais e a leveza dos que deixam escorrer palavras que despem a alma, deve haver uma justa medida para o que se mostra e para o que se esconde.
A felicidade depende, em parte, de condições interiores e, em parte, de condições exteriores. Todas as pessoas que gozam de boa saúde e podem satisfazer plenamente as suas necessidades julgadas elementares, à partida, deveriam ser felizes. Acontece que as coisas não se passam bem assim. A felicidade, nos humanos, é uma coisa muito rara, ao menos como estado permanente. Os animais são felizes desde que tenham boa saúde e bastante comida. Tem-se a impressão que os seres humanos deveriam sê-lo em iguais circunstâncias, mas tal não sucede.
Creio que a maior fonte da infelicidade reside no desamor, nas ideias erradas que se tem sobre o mundo, erradas éticas, errados hábitos de vida que provocam a destruição desse gosto natural e desse apetite pelas coisas realizáveis de que depende afinal toda a felicidade. Uma das principais causas da falta de gosto pela vida é o sentimento de não ser amado, ao passo que, inversamente, o sentimento de ser amado encoraja mais do que qualquer outra coisa. Por variadas razões, um homem pode, por exemplo, considerar-se uma criatura tão horrível que julgue inadmissível alguém amá-lo; pode também ter-se acostumado na infância a receber menos afecto do que as outras crianças; e pode na realidade ser uma pessoa de que ninguém goste. Mas neste último caso a origem do mal reside provavelmente numa falta de confiança em si próprio motivada por precoces infortúnios. O homem que não se sente amado pode tomar, em consequência disso, várias atitudes. Nalguns casos, faz esforços desesperados para conquistar a afeição dos outros, às vezes até por meio de actos excepcionais de bondade. Procedendo assim, no entanto, tem poucas probabilidades de êxito, pois a razão da sua bondade facilmente será compreendida pelos que dela beneficiam e a natureza humana é de tal maneira constituída que testemunha afeição com maior felicidade àqueles que parecem pedi-la menos.
Portanto, o homem que se esforça por conquistar afeição por meio de acções generosas torna-se um desiludido com a experiência da ingratidão humana. Nunca lhe ocorre que a afeição que procura comprar tem muito mais valor do que os benefícios materiais que oferece em troca e, no entanto, é a consciência dessa verdade que inspira todas as suas acções. Outros homens, ao verem que não são amados, tentam vingar-se do mundo, instigando guerras e revoluções ou escrevendo com a pena molhada em fel.. A grande maioria, homens como mulheres, quando sentem que não são estimados, afundam-se num tímido desespero, aliviado somente por fulgores momentâneos
O mundo é este lugar confuso onde eu vivo, contendo coisas agradáveis e desagradáveis, em desordenada sequência. É-me, contudo, irreprimível esta conta-corrente de pensamento e reflexão, sobre os fluxos que julgo serem os mais importantes nesta curta experiência de viver; este percurso aleatório – viagem de ida – onde ditados tais como: «A palavra é de prata, o silêncio é de oiro», não colhem em mim o santuário devido. Já se sabe que muito mais difícil do que abrir a boca e soltar o verbo para largar frases feitas, impressões ambivalentes, palavras entre o muito e o nenhum conteúdo é guardar silêncio. Eu encaro o silêncio como uma mera pausa comunicacional, uma forma de pontuar o discurso, de terminar um assunto e partir para outro. Perdoem-me, pois, aqueles que me lêem por ainda não ter terminado este fiar de tomadas de consciência sobre os méritos e deméritos da infelicidade mas, mais do que qualquer descoberta alquímica, um dos enigmas mais felizes da vida, reside no facto de encontrarmos todos os dias pessoas a quem tudo o que há de mal parece ter acontecido e, ainda assim, mais do que sobreviventes, são alegres viventes, sôfregos de vida, de bem com ela, e, de caminho, com os outros com quem se cruzam, criaturas de histórias muito banais e acontecimentos quase casuais. São pessoas para quem o caminho do Bem é uma opção consciente. Para quem não entendeu, falo-vos dos meus heróis.
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domingo, 13 de novembro de 2011
Minímo
Parei de escrever. Há muito tempo que não escrevo e não passa um dia em que não me lembre da importância que essa forma de expressão tem na minha vida. Actualmente tenho ocupado o meu tempo livre com outros afazeres. Dedico-me à música, mais precisamente à prática da guitarra, ao ginásio e a uma pessoa especial. Os desertos de solidão que até há pouco tempo acrescentavam múltiplas razões à existência da minha escrita, têm sido ocupados por beatíficos oásis, que não me proporcionam menos prazer, mas que jamais poderão substituir-se a esta minha actividade, encarada como necessidade fundamental. A escrita, desde há muito, é o meu forro, a minha forma primária de catarse e de auto-entendimento; daí quase todos os meus escritos pecarem por um excesso de convencionalismo intimista, a deslizar para o diário, apesar de serem inúmeras as vezes em que os factos se confundem com a ficção. Gonzalo Torrente Ballester, autor galego das minhas referências, falecido há poucos anos atrás, escreveu algures num dos seus muitos textos de intervenção, que a pior solidão que existe é darmos conta de que as pessoas são idiotas. Obviamente que o autor se tinha em grandessíssima conta e os idiotas a que se referia seriam sempre e necessariamente os outros. Não é no entanto o meu caso. Quantas vezes, nesses desertos de solidão que atravesso, ausentes de sombras acolhedoras, me interrogo se a suposta singularidade, que já julguei possuir, não será ela senão uma vulgar forma de idiotice.
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