quarta-feira, 7 de março de 2012

Retrato-me


§ Imberbe, sem chapéu na cabeça, com o cabelo mais comprido, pareço hoje, erradamente, mais novo do que ontem.

§ Metamorfoseamo-nos, recauchutamo-nos, compomo-nos, enfim, inovamos, pois queremos parecer tudo menos aquilo que nos desagrada; e todos, sem excepção, tentamos suster a roda imparável do tempo com a leveza das nossas mãos, num gesto frustre, inútil, que não dispensamos.

Pela manhã...

Esta clivagem infernal entre criaturas que vivem eternamente nas luzes da ribalta e os condenados a viver na sombra, sempre me incomodou. Visceralmente, por razões do coração, onde cabem opções politicas e morais, entre outras, sempre me insurgi contra os poderosos e me senti mais próximo daqueles que nada têm, e cuja importância é tão diminuta que grande parte da sociedade acha-se no direito de os desprezar. Esta minha forma de sentir afirma-se com clareza sempre que me deparo com pessoas deste calibre. Os meus heróis pouco ou nada têm a ver com gente que dribla bem com uma bola nos pés ou nasceu em piscinas repletas de dinheiro. No amor em fazer bem ao próximo, na cultura, nas artes em geral, na poesia e na literatura, fermentam-se os meus heróis - aqueles que, porventura, não me importava de imitar, caso tivesse a sua verve. Infelizmente, vivemos numa época de imediatismos que atribui maior valoração a capacidades imprestáveis e à posse de bens materiais. A sede insaciável do Ter, a ânsia de subjugar o próximo, a vertigem do poder, são os paradigmas que guiam o tempo que vivemos e no qual não me sinto integrado. Talvez eu seja um romântico, um idealista, um fantasioso, como já me chamaram, com um modo de sentir consentâneo com modelos sociais hoje considerados retro, mas, mesmo assim, não abdico daquilo que me constitui e integra. Não fora isso o que seria de mim?    

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sonhos e pesadelos

 
Há os sonhos e os pesadelos, assim como existe o doce e o amargo, o belo e o feio, o bom e o mau, neste mundo de antíteses em que nascemos, vivemos e morremos. Dos sonhos, muitas vezes, a nossa recordação é frágil e quando se trata de recordar como foram, os pormenores insólitos multiplicam-se e deslizam na nossa memória quase sempre na margem da bizarria. Quando os sonhos se transformam em pesadelos, estes por vezes nem têm enredo, nem formas distintas para contar, apenas uma sensação de sufoco, de perigo eminente e inexprimível. Às vezes fica só o medo informe, a sensação de que dormir é mau, que algures na noite nos aguarda um terror qualquer. Dormimos embrulhados num manto, por vezes doce, outras vezes maléfico, e o contínuo dos dias vai tecendo no nosso subconsciente a matéria-prima de que os sonhos e os pesadelos se forram.