Uma das perturbantes circunstâncias das metrópoles e do nosso quotidiano é a solidão, que parece descer sobre as vidas de muitos de nós: os sem família, ou apartados dela, ou que viram as sua uniões afetivas um dia desfeitas; nuns casos, ambas as coisas. A voracidade dos dias, o trânsito caótico, o trabalho desgastante, que nos consome recursos em demasia; o corre-corre de um lado para o outro, as discotecas com filas à porta e as noites a acabarem ao meio-dia; os relacionamentos fugazes, as seduções que, terminadas, reencontram o eterno vazio de que se forraram; parece que tudo isto amplia o sentido de isolamento, ao invés de conceder a esperável esperança de companhia e agradabilidade. São demasiados os que se queixam de um enorme sentimento de estarem sozinhos no meio da multidão e afirmam que é difícil encontrar alguém disponível para uma conversa amena; do quão complicado é chegar à fala com pessoas interessantes e da quase impossibilidade de desenvolver relações fortes com conhecimentos recentes. Mas a maior parte das vezes, por mais que façamos de conta que os motivos são outros, e são dos outros, basta olhar à nossa volta para ver com atenção o muro de isolamento e ostracismo que construímos no que às relações sociais respeita. E às vezes são anos e anos de deliberados distanciamentos ou de focagens excessivas, quando não obsessivas, não permitindo que alguém partilhe o bunker do relacionamento bilateral em que nos metemos. É verdade, sim, que há pessoas mais propensas a socializarem do que outras; é verdade, sim, que muitos de nós não gostamos dos conhecimentos em multidão e da possibilidade de nos podermos gabar: "tenho uma montanha de amigos". É verdade, sim, que as necessidades de isolamento e de interação divergem consoante a personalidade de cada um, mas não podemos ficar perenemente instalados nos nossos maniqueísmos do costume, querendo respostas simples e fáceis que expliquem tudo isto de uma forma linear. A personalidade de cada um de nós é o resultado estrutural de uma construção que durou quase metade da nossa vida, daí ser quase impossível operar mudanças radicais; e a medida do que está correto, aplicada a tudo, é a dose certa de harmonia e temperança nas decisões, e na consequente acção, salvaguardado o consenso e o conflito da nossa identificação, que desejamos seja ímpar.
terça-feira, 20 de março de 2012
Solitude
Uma das perturbantes circunstâncias das metrópoles e do nosso quotidiano é a solidão, que parece descer sobre as vidas de muitos de nós: os sem família, ou apartados dela, ou que viram as sua uniões afetivas um dia desfeitas; nuns casos, ambas as coisas. A voracidade dos dias, o trânsito caótico, o trabalho desgastante, que nos consome recursos em demasia; o corre-corre de um lado para o outro, as discotecas com filas à porta e as noites a acabarem ao meio-dia; os relacionamentos fugazes, as seduções que, terminadas, reencontram o eterno vazio de que se forraram; parece que tudo isto amplia o sentido de isolamento, ao invés de conceder a esperável esperança de companhia e agradabilidade. São demasiados os que se queixam de um enorme sentimento de estarem sozinhos no meio da multidão e afirmam que é difícil encontrar alguém disponível para uma conversa amena; do quão complicado é chegar à fala com pessoas interessantes e da quase impossibilidade de desenvolver relações fortes com conhecimentos recentes. Mas a maior parte das vezes, por mais que façamos de conta que os motivos são outros, e são dos outros, basta olhar à nossa volta para ver com atenção o muro de isolamento e ostracismo que construímos no que às relações sociais respeita. E às vezes são anos e anos de deliberados distanciamentos ou de focagens excessivas, quando não obsessivas, não permitindo que alguém partilhe o bunker do relacionamento bilateral em que nos metemos. É verdade, sim, que há pessoas mais propensas a socializarem do que outras; é verdade, sim, que muitos de nós não gostamos dos conhecimentos em multidão e da possibilidade de nos podermos gabar: "tenho uma montanha de amigos". É verdade, sim, que as necessidades de isolamento e de interação divergem consoante a personalidade de cada um, mas não podemos ficar perenemente instalados nos nossos maniqueísmos do costume, querendo respostas simples e fáceis que expliquem tudo isto de uma forma linear. A personalidade de cada um de nós é o resultado estrutural de uma construção que durou quase metade da nossa vida, daí ser quase impossível operar mudanças radicais; e a medida do que está correto, aplicada a tudo, é a dose certa de harmonia e temperança nas decisões, e na consequente acção, salvaguardado o consenso e o conflito da nossa identificação, que desejamos seja ímpar.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Eclipse
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| Foto extraída da Internet |
Chama-se "Eclipse" e é tão-somente o maior e mais luxuoso iate do mundo. Foi construído no estaleiro Blohm + Voss em Hamburgo o mais recente brinquedo do multimilionário russo Ramon Abramovitch. Dono do Chelsea, o 53º na lista de bilionários da "Forbes", é oriundo da vaga de novos ricos surgidos com a Perestroika, e, como tantos outros, foi burilado na escola das leis do mercado, às quais juntou práticas, por ele bem conhecidas - endémicas nos países do leste europeu -, tais como a corrupção e o tráfico de influências.
Ramon, ao que consta, fez fortuna graças a manobras de agiotagem, extorsão, tráfico de mulheres, prostituição, armas e droga, entre outras formas menos recomendáveis de fazer fortuna. Em tempos de crise e desespero, já diz o povo: enquanto uns choram, os outros fabricam os lenços.
Ramon, ao que consta, fez fortuna graças a manobras de agiotagem, extorsão, tráfico de mulheres, prostituição, armas e droga, entre outras formas menos recomendáveis de fazer fortuna. Em tempos de crise e desespero, já diz o povo: enquanto uns choram, os outros fabricam os lenços.
Num planeta repleto de miséria, doença, fome e guerra, onde (ainda) existem milhões de seres-humanos sem acesso à satisfação das necessidades primárias, constroem-se estas impúdicas opulências, num tributo ao desnível social, permissivo de que a lei do mais forte se eternize e seja a única norma que, ao longo dos tempos, nunca conheceu revogações. Se há imutabilidades científicas, também as há no campo social: a desigualdade o egoísmo e a injustiça, creio, sempre farão parte do glossário da natureza humana.
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sexta-feira, 16 de março de 2012
Maturidade
Contra tudo o que se possa esperar, por vezes vindo de mentes iluminadas, arautos das correntes libertárias da educação, impregnadas pelas leituras de Freud, Charcot e Piaget, não acho que as crianças devam ser deixadas à rédea solta, à bolina da sua criatividade e auto-orientação. Ainda que condescenda com alguma critíca ao conservadorismo das minhas opiniões, julgo que a disciplina, as regras imperativas, o não patuar com certos caprichos das crianças e dos jovens, pode ser temperado com montanhas de afecto. E é sempre esta a receita que molda um bom carácter. A questiuncula é anosa, mas sempre actual: cada macaco no seu galho. Os pais não devem demitir-se da sua autoridade e aos filhos exige-se, sempre dentro dos limites do razoável, entenda-se, respeito e obediência, As crianças irão um dia mais tarde agradecer aos adultos o facto de estes lhes terem mostrado «quem manda», quem indica os caminhos a seguir, numa altura em que ainda possuem uma maturidade nascente. Isso fá-las sentir-se seguras, equilibradas, diminui-lhes os estados de ansiedade, e prepara-as de um modo saudável para a vida adulta. Não há capital melhor para a vida de um adulto, do que ter tido uma educação repleta de bons exemplos e pais que os encham de orgulho e sejam modelos a seguir. Cada coisa a seu tempo. Sob o guarda-chuva da maturidade, estão competências como o controlo das emoções, a segurança, a responsabilidade sobre os próprios atos e capacidade de engajar pessoas. As empresas precisam de gente preparada para lidar com cenários incertos sem vacilar. E ter maturidade é uma condição fundamental para quem pretenda evoluir de forma consistente numa carreira. Os ganhos de maturidade devem ser semelhantes aos que se verificam numa maçã que frutifica numa árvore, daí a metáfora «amadurecer» constituir a imagem perfeita para exemplificar a passagem da idade juvenil para a idade adulta. Por vezes é preciso ter ultrapassado meio século de existência para que estas verdades resultem cristalinas na nossa mente, e faz parte da condição juvenil dar pouca atenção às palavras maçadoras dos mais velhos. Julgo que sempre assim será.
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(Maus) sinais dos tempos
Saiu uma notícia no Diário de Notícias referindo a influência do Facebook, não só no reencontro de velhas amizades e conhecidos, mas também na destruição de muitos casamentos e relações. Como se pode ler:
"Os advogados portugueses já recebem "provas" de infidelidade retiradas do Facebook para usar em processos de divórcio litigioso. Cerca de um terço dos processos de divórcio em Portugal já usa este tipo de provas.
Nos Estados Unidos, um estudo recente da Associação Norte-Americana de Advogados Matrimoniais indica que cerca de 20% dos divórcios naquele país tem como principal fonte de provas fotografias e mensagens publicadas no Facebook."
Parece que esta rede social se está a tornar cada vez mais num dos palcos de ação da sociedade - para o bem e para o mal.
Uma promessa
Um dia, prometo, vou sair mais cedo de casa,
e tornar aos
meus recreios de criança,
à certeza de que ainda é esse o mundo dos meus olhos.
E montado na
"Vilar" escarlate, de selim alado,
às primeiras aguadas da manhã,
seguirei estrada fora,
sentindo o
vento acariciar-me os olhos e os cabelos;
e tornarei ao colégio da minha infância,
para subir até à casa da árvore,
para subir até à casa da árvore,
onde, nas tardes estivais, me deleitava a observar
o mundo a
acontecer lá em baixo…
quinta-feira, 15 de março de 2012
Qual o pior inicío de um romance?
No blogue "Pó dos Livros", Aqui segue-se um interessantissímo questionário, que desaconselha alguns "maus começos" para os pretendentes a escritores que queiram iniciar-se na arte romanesca. Acho uma excelente ideia ler, escutar e, de um modo geral, tomar em consideração as palavras sábias de quem tem a escrita por oficío. Afinal, em todas as áreas do saber, é sempre preferível aprender com os melhores. Pessoalmente, sempre me dei bem com isso. E a humildade, a par da preserverança, mais do que qualquer outra virtude, é indispensável a todos quantos almejam evoluir em qualquer valência do saber. Há muito que tomo este conselho para mim próprio e não me tenho dado nada mal.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Hélio Isidoro Cassiano Marofas
Chamo-me Hélio Isidoro Cassiano Marofas. Hélios, como na mitologia grega, o olho do mundo - filho de Hipérion, neto de Urano e de Gaia, irmão de Eos, a Aurora, e de Selene, a Lua. Nunca gostei do meu nome. Quando me perguntam o que faço na vida nunca sei ao certo o que responder. Sou fazedor de códigos. Tirei uma licenciatura em jurisprudência há mais de trinta anos e, passados que foram mais de vinte anos de ensino público, dediquei-me a esta tarefa inglória. Actualmente é com isto que governo a minha vida: compilo legislação, recolho leis avulsas, reúno colectâneas, plagio códigos, limito-me a oferendar-lhes um preâmbulo, cujo título começa invariavelmente pelas mesmas palavras: nota do autor. O autor não pode ser a minha pessoa, como é evidente; e é aqui que começa a desonestidade intelectual e a trama da culpabilidade que se desenrola dentro de mim. Arrogo-me autor de leis arquitectadas por juristas cujas identidades se perderam no tempo, diplomas que foram mais tarde modificados por outros; gentes que labutam no anonimato de gabinetes esconsos dos ministérios e cujos nomes nunca vêm à ribalta. Tenho a ousadia de fazer editar códigos jurídicos com o meu nome impresso na capa, como se tratassem de realizações saídas da imaginação e labor de um autor de prosas. Sirvo-me indecentemente dos meus estafados pergaminhos académicos e das influências que granjeei junto das editoras da especialidade, para juntar umas patacoadas, a título de introdução, e dar a uma colectânea legislativa o privilégio de me ter como pretenso progenitor. Os meus colegas dizem-me para não me sentir assim. Eles defendem a ideia de que até um código carece de alguma humanidade e é um beneficio que concedo à aridez das regulas dar-lhes um nome, uma paternidade. Ganho bastante dinheiro com este mecanismo fraudulento e sei de antemão que é o meu nome que vende e não a qualidade da falácia do meu trabalho – que nem existe!
Moro só e tenho caspa abundante no cabelo. Já fiz setenta e dois anos e não tenho mulher, filhos, nem pretendentes. Sou aquilo que se pode chamar um homem desinteressante, credenciado pela mediocridade institucional de uma escola de propagadores de doutrinas alheias. Aprendi, como todos, a arte e o engenho da reformulação, de forma a dar a entender que aquilo que escrevo é algo original e não a redundância clássica do lente universitário que precisa granjear uma escola para sobreviver como tal. Actualmente estou de férias na Patagónia, planejando mentalmente um homicídio, ou talvez isso seja só um desejo insano que nunca terá concretização. Nem sempre o corpo docente de uma Universidade se anima de boas intenções. São conhecidas as rivalidades, os extremos da maledicência, a teia de intriga em que desenvolvem e encontram-se aí exemplos de baixeza sem par, mantidos sotto voce e, felizmente, ignorados pelos discentes e pelas gentes em geral. No entanto, os casos em que se resolvem por homicídio são, quero esperá-lo, bastante raros, constituindo uma excepção. Não gostava de ficar conhecido como o professor assassino mas, por outro lado, o que tenho eu a perder?
Um colega mais novo, cheio de mestrados e doutoramentos obtidos em universidades americanas, anda a arruinar-me o negócio próspero das edições. Será que ele não se apercebe que nestas coisas há monopólios, uma primazia tácita dos mais velhos face aos que ainda não chegaram às luzes da ribalta? A vingança não é uma modalidade criminosa simples. É muito subjectiva. Fundamental na vingança é que o objecto do ódio tenha a perspicácia de dar por ela. Se cremos que nos vingámos e o outro prossegue na sua vida bonançoso, indiferente, então não nos vingámos. Isto implica um conhecimento profundo do sujeito de quem pretendemos vingar-nos. Mas o que é o nosso conhecimento do outro senão um caos de interpretações, de pressupostos, de hipóteses, de mal-entendidos, pousados eles mesmos sobre uma série de omissões, máscaras, de silêncios, de vazios? É um estranho conhecimento, uma quase ignorância. Não é o medo da retaliação que me impede de me vingar dele. É antes este aspecto contingente.
Quando regressar destas férias auscultarei a minha real vontade. Para já, faltam quinze minutos para a meia-noite e não quero perder por nada deste mundo a abertura dos Jogos Pan-Americanos. Já pedi que me trouxessem uma garrafa de rum cá acima ao quarto. O reclamo luminoso do hotel está quase a fundir-se e receio que não passe desta noite. Agradeço à divina providência por isso, pois já não suporto mais a intermitência do néon abusando do interior do meu quarto noite dentro. *
*Jorge Rebelo - Barreiro19.07.2007
Um colega mais novo, cheio de mestrados e doutoramentos obtidos em universidades americanas, anda a arruinar-me o negócio próspero das edições. Será que ele não se apercebe que nestas coisas há monopólios, uma primazia tácita dos mais velhos face aos que ainda não chegaram às luzes da ribalta? A vingança não é uma modalidade criminosa simples. É muito subjectiva. Fundamental na vingança é que o objecto do ódio tenha a perspicácia de dar por ela. Se cremos que nos vingámos e o outro prossegue na sua vida bonançoso, indiferente, então não nos vingámos. Isto implica um conhecimento profundo do sujeito de quem pretendemos vingar-nos. Mas o que é o nosso conhecimento do outro senão um caos de interpretações, de pressupostos, de hipóteses, de mal-entendidos, pousados eles mesmos sobre uma série de omissões, máscaras, de silêncios, de vazios? É um estranho conhecimento, uma quase ignorância. Não é o medo da retaliação que me impede de me vingar dele. É antes este aspecto contingente.
Quando regressar destas férias auscultarei a minha real vontade. Para já, faltam quinze minutos para a meia-noite e não quero perder por nada deste mundo a abertura dos Jogos Pan-Americanos. Já pedi que me trouxessem uma garrafa de rum cá acima ao quarto. O reclamo luminoso do hotel está quase a fundir-se e receio que não passe desta noite. Agradeço à divina providência por isso, pois já não suporto mais a intermitência do néon abusando do interior do meu quarto noite dentro. *
*Jorge Rebelo - Barreiro19.07.2007
Fiapos de palavras ou o spleen do amor

§ Gostava de saber chorar como tu choras. Encostada ao ombro de alguém, com um olhar de menina que não chega a ser um olhar de desculpas pelo que fez, mas um olhar de certezas e de direito por chorar. Gostava de me comportar contigo como fazes comigo. Com uma ternura austera que me prende mas nem sequer desafia. Por vezes empreendes um espírito distante que me deixa completamente impotente. Nunca serei capaz de te dizer que não, se quiseres que seja sim, nem vice-versa.
§ Às vezes rio-me do que dizes. Pareces-me ingénua e irracional e pergunto-me: por quanto tempo serei capaz ou poderei continuar a sentir-me apertado, como se toda a atmosfera me comprimisse contra mim mesmo, pela tua imagem. Olho para ti e penso que te conheço tão bem, como se existisses desde sempre comigo. Que nunca poderás ter uma reacção que eu não possa prever. Apetece-me dizer-te tudo o que sei e não sei sobre ti. Porém, só posso ter a certeza de que te conheci e que os momentos passados estão assegurados. Já tinha desejado conhecer-te. Que passasses por mim e soubesses que eu não era igual aos outros. Que existia.
§ A ideia de que te atraio e conheço é cimentada cada dia que passa. Como se fosse uma parede que lentamente se vai erguendo a cada tijolo que é posto e um dia me condicionará a vista. Temo este muro apesar de continuar a construí-lo. Sei nitidamente que sou eu quem o constrói. Sei o teu nome, vigio-te os gestos, os olhares, tudo. Quando não estás, faço suposições acerca do que dirias, do que farias. Reconheço-te a voz, o andar, o toque macio da pele, a respiração, o olhar calmo, o espírito inquieto que ninguém pode adivinhar. Pergunto-me se valerá a pena aproximar-me ainda mais desta miragem. Por vezes, imagino que nas ruas da cidade há uma pessoa perigosa escondida atrás de uma esquina para me fazer mal. É assim que te imagino. És tu a pessoa perigosa.
§ Hoje, peço à luz que me guarde e mantenha fora do alcance das
sombras, pois sempre que me entrego às memórias das nossas imagens juntos, a
minha pulsação abranda. Já quase não escuto o bater do coração. Talvez que
um dia tudo se desmorone, mas se eu for capaz de continuar a contemplar a
beleza não sucumbirei, pois ela é a única justificação irrefutável do ser. Gostaria de acelerar o decorrer do tempo, mas consigo apenas
eternizar o presente. Evado-me de tudo o que este me mostra, desinteresso-me. E
o presente, vazio de qualquer encanto, parece-me aborrecido. O verdadeiro amor
exige intrinsecamente situar-se numa dimensão que ultrapassa os limites do
tempo. E amar não é mais do que a expressão desse desejo de eternidade.
§ E, sabes, ainda que o nosso espírito se desvaneça no dia da nossa morte
como uma faúlha que se liberta do fogo, teremos conhecido a
eternidade durante o tempo em que sentimos o amor dentro de nós. E a eternidade
de que falo, consiste tão simplesmente em aproximar-me dessa luz de vida que é a
inextinguível presença do amor. Do amor por ti.*
* Escrito de um fôlego e tendo por destinatária uma figura imaginária.
Dia Internacional das Damas
Hoje quero parabenizar todas as mulheres que eu conheço, que elas tenham consciência da importância deste dia e do motivo dele e que se sintam felizes por terem um dia próprio.
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Não há Dia Internacional do Homem. Existe, sim, o Dia Internacional da Criança, do Idoso, dos Avós, dos Animais, da Árvore, do Livro, do Teatro, entre uma série de outros dias nacionais e internacionais que, intencionalmente, deixam de fora a comemoração da existência do macho. Os criadores destas efemérides julgaram, com uma certeza que lhes provém de fontes tidas como seguras, que o homem, por ter gozado uma existência demasiado privilegiada ao longo da História, não carece de ser enaltecido. A única ocasião em que se engalana a existência do macho é quando ele é pai. Somente os varonis que, pelo menos uma vez na vida, cometeram a proeza de procriar, são dignos de terem um dia inteiramente dedicado a si. Os outros são vistos como meros peões, sombras desfocadas das ilhargas da vida, desmerecedores de sentirem o calor das luzes da ribalta. E esta atitude revisionista, que faz do homem eterno pagador de males que provocou, tem o efeito perverso de sedimentar a ideia de que a mulher é um ser inferior, frágil, desmerecido, que necessita de ter um dia inteiramente dedicado a si, por forma a ver as suas pretensas qualidades reconhecidas por todos. Se a mulher foi tratada ao longo da História como um ser diminuto, sempre subjugada à vontade do homem e com direitos cortados, hoje em dia, felizmente, nas sociedades ditas "civilizadas", já não é assim. No mundo ocidental a maioria dos quadros superiores são mulheres e a percentagem de universitárias, a julgar pelas estatísticas, é manifestamente superior à dos universitários. Sem desvalorizar a comemoração do Dia da Mulher - os seres mais importantes da minha vida sempre pertenceram ao género feminino -, julgo que seria mais acertado celebrar um Dia da Humanidade, onde coubessem homens e mulheres, e parar com as ideias estapafúrdias de quotas obrigatórias em lugares nos parlamentos, ou comemorações exclusivistas e sexistas, que só reavivam uma "guerra de sexos" a todos os títulos indesejável. Afinal a mulher, graças à sua ars inveniendi, sempre levou a água ao seu moinho e o ao homem coube o papel do eterno bobo que não sabe que o é.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Da importância dos nomes que damos às coisas
Li algures que no século XIX, não raro, da leitura de alguns títulos de escritos em prosa ou em poesia, podia-se depreender todo o conteúdo - e muitas vezes a restante leitura mais não era do que um exercicío de desalento, sem surpresas assinaláveis. Em boa verdade, nunca me tinha apercebido verdadeiramente do quão ridículo era o epíteto com que eu havia batizado este blogue - "Picarenta Escrevente" - até ao momento em que decidi tornar a este espaço há muito abandonado. Sinto-me um pouco como o filho pródigo das paisagens da Biblía, que torna à casa paterna, com uma nuance que faz toda a diferença: sempre soube que regressaria. Voltei, sim, e, por minha vontade, para ficar. Estou de regresso das guerras púnicas do facilitismo, da fogueira de vaidades que é o Facebook, da escrita mecânica, singela, sem maturação ou verve, mas que possibilita a interação à la minute. Deixei-me preguiçar. Afinal é tão mais fácil escrever meia dúzia de patacoadas sonantes, ou publicar adágios, frases e escritos de outros que mereçam o nosso apreço. Dificíl é escrever, desenvolver, ligar a mente a uma torrente de palavras, que vão fiando aos poucos a explanação do nosso pensamento num curso coerente. Mas é reconfortante voltar a mim mesmo. Sentir que não careço - nunca careci - de plateias, nem do respaldamento das minhas ideias, para escrever o que me dá na real gana. Não tenho praticamente leitores. Escrevo num espaço pouquissímo divulgado, contrariamente ao Madrigal, nem me apetece publicitar a minha escrita. Sinto-me confortável na posição que a palavra aglófona melhor designa: low profile. Baixo perfil, numa tradução literal. Discreto, pouco divulgado, como um gentio que só convida para sua casa pessoas com quem deseja ter intimidade. É nesta linha que continua a escrita neste blogue. Uma Conta Corrente com a (minha) vida, que é, em muitos aspectos, assumidamente Contra a Corrente instituída e os modelos societários a que somos obrigados a aderir, sem nada poder estipular. Se pouco ou nada faço para mudar o estado das coisas, seja por impossibilidade absoluta, seja por inércia, ao menos que a escrita continue a ser para mim a melhor forma de catarse. E por esta via ainda me vou sentindo liberto; inclusive para, caso isso me agrade, dar uma maior importância aos nomes das coisas.
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