quinta-feira, 29 de março de 2012

A apologia do Mototurismo

Honda Pan European ST 1100 em "ambiente hostil" - Fonte: Internet
O moto-turista é no geral uma pessoa de espírito aberto, aventureiro e adaptável a todas as situações. Entre o viajante solitário ou aqueles que viajam em grupo, o objetivo é sempre percorrer quilómetros para conhecer profundamente todos os lugares e gentes por onde passamos. Atualmente existem no mercado várias marcas e modelos de motociclos denominadas de "Grandes Turísticas", que tornam possível cada vez mais e melhores viagens, permitindo percorrer grandes distâncias com conforto. Seja qual for o modelo ou marca tenhamos, viajar de mota é sem dúvida uma experiência única e inesquecível, que nos leva por caminhos que de outra forma nunca os conheceríamos. A grande vantagem de viajar de moto em comparação com um automóvel, é que de carro podemos apreciar a paisagem, mas de mota sentimo-nos como fazendo parte dela. Por isso, pelo menos uma vez na vida, qualquer um de nós devia experimentar fazer uma viagem de mota, nem que fosse pequena. Mas eu, claro, sou demasiado suspeito para falar destas coisas.

"O Plano de Exterminío" - Foi o frio

Fonte: Internet
"Está a correr muito bem. 3000 idosos mortos em 5 dias...é obra que se veja, 3000 idosos x 350€ (ou menos) de pensões poupa-se 1.050.000€...nada mau. Foi o frio. Não tem nada a ver com os baixos rendimentos destes idosos, nada a ver com o custos da energia com a qual se deveriam aquecer, nada a ver com a crescente inacessibilidade aos cuidados médicos, nada a ver com o alto custo dos medicamentos. Foi o frio. Matam-se 10 manhosos nas estradas por via de manobras perigosas e excessos de velocidade, saem as televisões em direto e os jornais em diferido a dar conta de tamanha catástrofe. Legisla-se a favor dos vendedores de pneus, aumentam-se as coimas, investe-se em viaturas e radares para as polícias. Morrem 3000 portugueses vítimas das condições terceiro-mundistas em que viviam, abusados por garotagem sem escrúpulos que os roubou de tudo o que tinham... e nem um pio.  
Foi o frio..."*

* Recebido por e-mail, de autoria desconhecida.


quarta-feira, 28 de março de 2012

Espelho meu


A partir de uma certa idade, parece que o processo que dita o nosso envelhecimento multiplica-se de forma geométrica; e, em cada dia que passa, quando nos olhamos no espelho, achamo-nos mais envelhecidos. Dando por adquirida a verdade de que a fonte da eterna juventude nunca passou de uma efabulação literária, temos de aceitar que o encarquilhar da face, o branquear dos cabelos, a proeminência do ventre e a perda gradual da energia, são realidades com as quais temos de lidar; e, sobretudo, encará-las como fazendo parte de um processo gradual ao qual nenhum de nós consegue escapar.

Dizem, talvez para amortecer o desânimo que nos toca, que envelhecer tem os seus encantos e que os ganhos de maturidade e experiência de vida, de certo modo, contrabalançam o que se perde em  vivacidade. O ideal seria, sim, conservarmos a juventude e a experiência, entretanto adquirida. É por isso que existem os ginásios, que se têm multiplicado como cogumelos, muito frequentados por cinquentões e cinquentonas, obstinados em não aceitar as sequelas naturais causadas pelo processo de envelhecimento.

Nada tenho contra os ginastas cinquentenários e saúdo todas as práticas em prol da saúde. Que isso fique bem claro. Acho, sim, patética, a atitude de certos figurões e figuronas, alguns bem conhecidos na nossa praça, que se pintalgam de loiro platinado, colocam perucas e capachinhos, fazem enxertos capilares, usam jeans rasgados e, acima de tudo, adoram serem edulcorados pela magia do photoshop. São pessoas que renegam infantilmente a idade que têm e nem se apercebem o quão ridículas ficam ao fazê-lo. Há várias formas de encararmos a chegada da “idade da razão”, umas mais positivas do que outras, mas ficamos quase todos com uma tremenda necessidade de nos sentirmos seguros.

A perda da beleza é, mais do que nos homens, o maior pavor das mulheres. E o que é belo, como todos os conceitos difíceis, está muitas vezes para lá do que se vê. Há quem ache que o belo tem um caráter essencial que se presume, tão indefetivelmente como tudo o que é importante, e que, por isso mesmo, diz muito mais sobre aquele que contempla do que sobre o objeto de admiração. Daí a afirmação de que a beleza está nos olhos daquele que ama. Se for assim, quer dizer, se a beleza for o sintoma de uma rendição afetiva, então entramos num outro registo valorativo em que o sensorial manda.

Mas para lá da subjetivação do que seja ou não belo, existe certamente um conceito objetivo do que seja a beleza e a fealdade; ou seja: ninguém pode, sem usar de má fé, dizer que determinada atriz, eleita popularmente como uma sex simbol, é objetivamente feia. E é no retorno da (nossa) imagem, que o espelho nos dá todos os dias pela manhã, que reside o grosso de todos os nossos pavores: “espelho meu, há alguém  mais feio do que eu?”


"Coaching" - The ultimate brain wash for public service

As ações de formação a que tenho assistido, para além de serem uma forma expedita de darem a ganhar mais uns patacos em ajudas de custo, entre outras alcavalas, aos formadores, pouco ou nada formam. São antes longos bocejos de caráter obrigatório, em forma de visitas guiadas a tópicos, com apresentação de power points cheios de setinhas e bonecada. Mas como a maioria das americanices tende a ser adoptada pelos restantes países que se arrogam de pertencer à "vanguarda da civilização", a palavra de ordem das nossas estruturas organizacionais, onde a função pública  moderna se pretende incluir,  é a adopção plena  dos últimos gritos yankee em métodos de gestão de recursos humanos. E é aqui que entra o Coaching.

O Coaching, que numa tradução mais ou menos livre quer dizer "treinamento", é um processo de ajuda que, supostamente, pretende promover o desenvolvimento das pessoas através do auto-conhecimento, conceitos, valores positivos e motivadores, em direcção a objetivos pré-estabelecidos. Assume-se como  uma filosofia baseada nas capacidades, transformações e desenvolvimento na comunicação, liderança e postura, como processos contínuos e de ações por excelência. A lógica do Coaching tende a ser privilegiada nas organizações e nas performances, pois trabalha com metas e obtenção de resultados positivos, permitindo o crescimento, mais valias, satisfação pessoal e individual, bem como de grupo, e organizacional. Segundo os seus cultores, este tipo de formação está voltada para quem quer desenvolver-se e auto conhecer-se em relação ao seu estilo e aos potenciais recursos, que ainda não conhece ou não fortaleceu.

A grande mestre em Coaching, vox populis, é uma tal Dr.ª Vânia Weissberg, de nome vagamente abrasileirado e com  reminiscências judaicas, que exibe um currículo impressionante onde se incluem valências e títulos que, julgo eu, nunca ninguém ouviu falar. Se não, veja-se: Trainer de Coaching e Programação Neurolinguística; (um título pomposo e misterioso...); Psicóloga e Coach (psicóloga e treinadora?); Master Coach pela ICI (se fosse UCI, ainda se poderia dar por adquirido que tivesse obtido um Mestrado numa Unidade de Cuidados Intensivos); Master em Programação Neurolinguística com Certificação Internacional ( alguém me diz o que isto significa?!).

A Doutora Vânia, qual pavona emplumada, exibe um tal historial de aptidões, que é capaz de esmagar qualquer iniciático formando. Não sei se a terei alguma vez pela frente, mas, se assim for, espero que ela me consiga incutir capacidades técnicas, capazes de melhorar as minhas performances profissionais, ou, porque não, pessoais, organizando o desalinho de alguns dos meus pensamentos - que, na sua  grande maioria, prendem-se com uma ideação excessiva com a contagem do tempo de serviço para a  aposentação e eventuais penalizações por antecipação da idade da reforma.

Por este andar, há-de chegar o tempo em que nós, serviçais do Estado, teremos de  marrar livros de auto-ajuda, para não falar da repescagem do velho "Método Silva", aquele bruxo do mind control, como livro de cabeceira obrigatório. Vade retro formações!


Gandhi

Fonte: Internet

Numa certa ocasião perguntaram a Mahatma Gandhi quais eram os factores que destruíam o ser humano e ele terá respondido assim: 

"A Política sem Princípios; o Prazer sem Responsabilidade; a Riqueza sem Trabalho; a Sabedoria sem Caráter; os Negócios sem Moral; a Ciência sem Humanidade e a Oração sem Caridade. A vida tem-me ensinado que as pessoas são amáveis, se eu for amável; que as pessoas são tristes, se eu estiver triste; que todos me querem bem, se eu quiser o bem deles; que todos são maus, se eu os odiar; que há rostos sorridentes, se eu lhes sorrir; que há rostos amargurados, se eu estiver amargurado; que o mundo é feliz, se eu for feliz; que as pessoas têm nojo, se eu sentir nojo; que as pessoas são gratas, se eu tiver gratidão. A vida é como um espelho: Se sorrio, o espelho devolve-me o sorriso. A atitude que tomo na vida, é a mesma que a vida tomará ante mim." *


* É mais fácil dizer do que concretizar. Existem as palavras e os atos e a distância entre eles é muitas vezes considerável. Não deixa, porém, de ser pedagógico, (re)ler as palavras, consequentes com as suas atitudes, de uma das personagens mais fabulosas do século XX. Gandhy protagonizou a verdadeira "revolução de veludo", a resistência pacifica ao opressor e provou que, afinal, o Bem pode vencer o Mal. Basta tão-somente querermos. E o querer é quase tudo.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Sobre a violência doméstica



A violência doméstica é um problema universal que atinge milhares de pessoas, mas é muitas vezes silenciada e dissimulada, seja por vergonha ou simples medo, sem que ninguém, para além do agressor e da vítima, dela tenham conhecimento direto. Quantas vezes não escutamos gritos, choros e discussões violentas, vindas de apartamentos contíguos ao nosso, e pura e simplesmente nada fazemos? "Entre o marido e a mulher ninguém mete a colher", reza o ditado. Pretende-se perpetuar em absoluto o princípio da não ingerência em tudo o que respeite ao relacionamento de um casal. Esta é a regra de oiro que todos um dia intuímos e repetimos até à exaustão. Mas, não raro, os conviventes desavindos, no dia seguinte às agressões, passeiam de mãos dadas na rua ou no shopping, e sorriem um para o outro, para todos, como se nada tivesse acontecido. E quem arrisca meter-se onde não é chamado? Quem quer passar pela situação humilhante de ser convidado a meter-se nos seus assuntos, na sua própria vida? Quem quer fomentar  laços de inimizade com vizinhos com quem tem de lidar no dia-a-dia, mais não seja através de um lacónico "bom dia!", lançado no átrio das escadas, ou na garagem, e exponenciar a escalada  dos mimos e das trocas de galhardetes, comuns em quaisquer reuniões de condomínio?

Hoje, felizmente, graças à vulgarização de associações especialmente vocacionadas para lidarem com este tipo de problemas, é cada vez maior o número de vítimas que apresentam queixa por agressões em ambiente doméstico. Ainda existe um preconceito generalizado no que ao tema concerne e o agudizar da crise económica, com o flagelo do desemprego a subir em flecha, tem vindo a fazer aumentar os casos de alcoolismo e consequente violência no seio familiar. Cada vez são mais os conviventes numa relação conjugal que, face à situação de desemprego de um deles, passam a depender economicamente do outro; e são também em maior número as uniões que ainda subsistem por mera conveniência, seja devido a compromissos e dividas comuns, ou pela impossibilidade absoluta de um deles se conseguir libertar. Muitas vezes, ele ou ela, não tem para onde ir, não quer largar os filhos, a casa, ou não tem força para romper. E o problema não se confina a um universo sócio-cultural específico. Já ninguém consegue afirmar com seriedade que só os trolhas e os brutamontes, sem instrução e cultura, gente deserdada das regras da "boa educação" e, para mais, pobre, bate nas suas mulheres. Infelizmente, são bem conhecidas  histórias de Sr.(s) Dr.(s) importante (s), músicos famosos, empresários e gente do mundo das artes e da cultura, que espancavam as suas companheiras. Há uns anos atrás, falou-se do Tallon, do Pinto da Costa, do Artur Albarran, do namorado da Margarida Marante, entre outros crápulas, agora do Paco Bandeira, mas crê-se que as histórias conhecidas são a ponta do icebergue.

Desde muito novo, interiorizei que numa mulher nem com uma flor se bate. E espero que a divina providência sempre me guarde de ter um dia uma atitude diversa. Más disposições, todos as temos; dias menos bons, também. Mas para  tudo existem limites. Limites que jamais devem ser ultrapassados. Não se entendem, separem-se! Mas que raio, bater é que não vale!

sexta-feira, 23 de março de 2012

O princípio do Eu




É um lugar comum dizermos constantemente que todas as pessoas nos decepcionam e não são poucas as vezes que caimos na brejeirisse dessa terrível generalização. Há pessoas que nos decepcionam, outras que nos surpreendem pela positiva e outras, ainda, que confirmam tudo quanto já pensávamos delas. Dizem que os amigos são para as ocasiões e eu diria que cada vez menos sei quais são as ocasiões em que se deve apelar aos amigos e quais os amigos que se prestam e têm disponibilidade para nos acudir em dadas situações. As amizades, com excepção daquelas mais antigas, que nos vêm da infância e nos acompanham ao longo da vida, acontecem-nos por zonas de interesse e ocupação, por empatias, por circunstancialismos, muitas vezes fruto dos acasos que nos surgem nos trilhos da vida. Tendemos a sentir empatia por pessoas que, julgamos, sentem o nosso pulsar, compreendem o nosso estilo de vida, as nossas percepções, possuem gostos semelhantes e objetivos que nos merecem sentido. Por vezes, até os amigos vão sendo mais conjunturais, mais fruto das circunstâncias e das necessidades práticas de alianças, consequência de tumultos comuns que fazem com que duas vidas se cruzem no amparo de uma amizade recíproca. Quando a nossa vida dá para o torto, quando os empregos falham, quando a solidão nos bate à porta, quando os divórcios ou o fim das relações amorosas acontecem e tudo se baralha dentro de nós, temos saudades dos amigos de outros tempos. É aí que escolhemos criteriosamente com quem podemos contar, de que modo e com que limites precisos e descobrimos que nem todos os amigos são para todas as ocasiões. Sem dúvida que é bom fazer amigos e faz algum tempo que não concebo novos amigos. Talvez isso seja para mim cada vez mais complicado, ou porque não tenho tempo, ou simplesmente porque não tenho vontade. Mas cada vez mais me convenço que o dia-a-dia deve forrar-se de um contínuo de pequenos acontecimentos: coisas que por vezes parecem não ter importância ou impacto, mas que vão dando cor e sentido ao fluir da nossa vida e me fazem adivinhar que ainda há afetos a precisar de partilha, pessoas que «gostam de gostar de pessoas» e que esse é, talvez, o maior desiderato da vida. Não sou constitutivamente uma pessoa sociável lato sensu, embora não me considere um ermitão, incapaz de socializar e estar em grupo. Digamos que o (meu) tempo livre é uma preciosidade rara, uma demasia que não pode ser desperdiçada com quem  eu não partilhe afetos, interesses, empatias. E, curiosamente, são as atividades passíveis de serem degustadas a solo, como a escrita, a leitura, a música, as que sempre me proporcionaram maiores prazeres. Contra estes factos, restam poucos argumentos possíveis.


quinta-feira, 22 de março de 2012

Amigos da Caneta

Houve um período da minha vida, andaria eu pelos meus catorze ou quinze anos, em que escrevia muitas cartas. Eram sobretudo cartas escritas em língua inglesa, feitas de frases simples e standartizadas. Há muitos anos atrás, muito antes da Internet ser inventada, ou sequer sonhada, existia uma organização internacional chamada "Pen Friends" que oferecia aos seus aderentes a possibilidade de se corresponderem com pessoas de todo o mundo. Creio que ainda hoje, algures lá em casa, numa caixa de sapatos, dentro de uma gaveta, terei guardada a maioria da correspondência que à época troquei com jovens de todos os cantos do mundo. Satisfaziamos as mesmas curiosidades que hoje os novos meios de comunicação nos possibilitam, com a diferença que na altura ansiávamos pela chegada do correio que trazia as almejadas cartas, em envelopes "air mail", vindas dos lugares mais díspares do planeta. Recordo que, para além de ter mantido correspondência com Pen Friends da Europa, também me correspondi com gente do Brasil, da Coreia do Sul, do Japão e do Chile. Trocávamos postais, fotos e, por vezes, "juras de amor" - soube de casos esporádicos de jovens que chegaram inclusive a conhecer-se presencialmente - tudo dentro do enquadramento caracteristíco do florescimento da adolescência. Nunca conheci em carne e osso nenhuma dessas pessoas, apesar das "juras" que por vezes se faziam e dos "apaixonamentos" long distance. A Internet com as suas salas de chat, os blogues e todas as novíssimas formas de comunicação de que actualmente dispomos, plantará um esgar de sorriso na face dos mais novos - se porventura lerem este texto -, gente que não viveu estas realidades dos anos setenta do século passado. Mas uma coisa é certa: não há nada nos dias de hoje, por maior sofisticação que possua, capaz de substituir a alegria de abrir a caixa do correio e vislumbrar uma carta vinda do outro lado do mundo. Uma carta especialmente endereçada a nós.

(escrito em meados do ano 2007)

Dia da Poesia


Ontem foi um dia dedicado à Poesia. Há tempos atrás, quando (ainda) poetava com alguma regularidade, não deixaria passar em branco esta comemoração. Deixo pois aqui, de Luís Miguel Nava, um poema das minhas  preferências, que dedico ao Dia Mundial da Poesia.


Este garoto é fácil compará-lo a um campo de relâmpagos
encarcerando um touro. Através da nudez vêem-se os
astros.
É onde o poema interioriza
a sua própria hipérbole, a paisagem.

Movem-se os tigres como câmaras na areia, prontos eles
também a deflagrarem. A manhã
espanca a praia, é impossível descrevê-la sem falar
dos fios deste poema
que a cosem com a paisagem.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Que eu (não) deambule - pelas ruas de Leiria


Na rua estava um frio glaciar. Ainda agora passara junto ao decadente Café Colonial, na Rua da Arquivo, e, contra tudo o que é costume, entrei. Trata-se de um pequeno café de bairro, velho ícone da cidade, uma reminiscência dos idos anos cinquenta, frequentado por clientes useiros, sobretudo homens.  Constatei que quase todos tinham os olhos pregados no televisor para assistir a uma partida de futebol e a vozearia era tão grande que mal conseguia fazer-me ouvir junto da empregada do balcão. Lá dentro, um fumo pesado e plúmbeo empestava o ar e provocava náuseas. De súbito, uma das equipas em campo marcou golo. O clima do estádio transbordou do televisor e veio derramar-se sobre as mesas. Os presentes, como se um reflexo condicionado se tivesse apossado deles, levantaram-se todos, enquanto ecos das explosões de alegria se soltavam no espaço  incaracteristíco do pequeno café. Um homem de semblante rude e barba de vários dias, transpirava de entusiasmo e também dos "finos", a julgar pela meia dúzia de copos vazios sobre a mesa que repartia com dois amigos. Puxou do isqueiro para acender mais um cigarro e encomendou uma rodada final para festejar a goleada recente. Nessa altura os meus olhos já lacrimejavam de dor.

Fiz um esforço para não inalar o ar rarefeito e cianidríco, paguei a embalagem de "Trident Fruit" e saí. Na rua esperava-me o mesmo frio insuportável que parecia querer entranhar-se nos ossos. Antes de me dirigir ao Mercado de Sant'Ana para jantar, detive-me numa igreja. Lá dentro as luzes bruxuleantes das velas desenhavam sombras grotescas nas paredes altas e um  cheiro intenso a incenso impregnava o ar. O contraste da sucessão de ambientes resultava fantástico. Apesar de agnóstico, nunca havia perdido o hábito de entrar em igrejas. Tudo tinha vindo paulatinamente a mudar na minha vida e o profano conquistava espaços que há muito a educação religiosa havia ocupado - mais por imposição familiar e enquadramento social do que pelo rigor de um convencimento assumido. No entanto, sentia que ainda conservava viva a matriz íntima da minha formação católica; isso não se perde facilmente. E sempre que entrava em templos, fazia-o à procura dos silêncios, do repouso e da sensibilidade que me proporcionavam a visão das talhas douradas, das madeiras ancestrais e dos cheiros a mofo e a incenso. Adorava o misticismo do lugar. Nunca possuira profundos conhecimentos de História de Arte, nem me considerava apto a discorrer sobre qualquer tipo de arte, no entanto admirava a talha barroca, sobretudo os trabalhos em folha de ouro e a cor e os reflexos da nobreza do metal, envelhecido e deteriorado pelo tempo.

Finalmente jantei. Uma refeição tudo menos ligeira para o adiantado da hora: sopa de nabiças seguida de uma omelete gigante recheada de camarões. Com o estômago tão cheio, receava que tão cedo não conseguisse deitar-me. Tinha vontade que Morfeu me visitasse e beijasse sem deixar marcas. Nessa noite queria ter sonhos de ouro como há muito não tinha, fortes e capazes de escorraçar os fantasmas das preocupações da vida e enfunar as velas da memória das coisas mais belas com que se pudesse sonhar. Cada vez mais me convencia de que tudo acontecia dentro da minha cabeça e o segredo estava no correcto manejo dos "botões". Talvez eu há muito andasse carecido de uma "afinação", por testemunhar em demasia "diálogos de silêncios" - monólogos?! - fiel depositário do registo de factos a que, no geral, os outros não davam demasiada importância.

Nessa noite, já não me importava, sequer, resignar-me à sorte que cismava em me quer traçar um destino menos benéfico. Sabia que, quando o momento  chegasse, partiria sem gritos; e até com isso seria condescendente. Tivesse eu ainda tempo para poder olhar os sitíos, interpretar a dimensão da luz, sentir o amor, sentir-me, e ensaiar poéticas possíveis para expatriar alguns dos meus pensamentos.

(escrito em Leiria, no ano de 2007, numa solitária noite de inverno)