sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Absoluto





Há muitas caixas
de muitos tamanhos
e muitas cores.
Estão fechadas
contêm mistérios.
 

Estão sobre a erva,
sobre os mares e rios,
sobre a terra,
sobre as areias.

Fui em busca
daquelas caixas
que contêm mistérios.
Tive uma e outra
nas mãos,
porém, nunca pude abri-las.

No final, senti a morte
recostei-me sobre a erva
vi muitas caixas
que continham mistérios.
Estavam fechadas.

Vi o céu, os mares
os rios
e toquei a erva.
Era verde e húmida
e senti-me terra
erva, mar e céu.

Vi espaços de luz
ouvi a música
da claridade,
senti os amanheceres
a paz do brilho da manhã,
a vida palpitando.

E fui uma luz clara
uma nova luz.

E senti o meu amor
por ti!
E converti-me em água
transbordada.

A terra abria-se
à minha passagem,
banhei infinitos amanheceres
e não me detive.

E a luz sempre brilhou
e houve um novo amanhecer,
todo envolto
por aquela cortina de veludo anil
de onde eu te enviava beijos
num adeus de tules.

Enquanto a morte dormia...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"Praia das Rocas" - Castanheira de Pêra


A"Praia das Rocas", em Castanheira de Pêra, no rescaldo de mais uma tarde de verão - agosto de 2012

Mosteiro - concelho de Figueiró dos Vinhos











A localidade do Mosteiro, no concelho de Figueiró dos Vinhos, entre Ansião e Castanheira de Pêra, integra-se no conjunto pitoresco das "Aldeias do Xisto", que abundam na Região Centro de Portugal. Em mais um passeio moto-turístico, captei algumas imagens que, creio, ilustram bem a beleza quase idílica da paisagem envolvente - Setembro 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Viseu

Pormenor de um prédio centenário em Viseu - o barbeiro no rés-do-chão 
outubro de 2012

Ria de Aveiro

A Ria de Aveiro ao anoitecer - janeiro de 2011

A Mãe



Um mosaico de fotografias da minha mãe, que correm o curso do tempo, com o qual que pretendo homenagear a mãe, a artista multifacetada, a mulher eternamente apaixonada pela arte, pela criação, e, sobretudo, a minha melhor amiga. Bem hajas, mãe!


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Música & Poesia






27 de Outubro - SÁBADO - 18h00

*Música e poesia

Ensemble de música e declamação de poemas que conta com a participação dos professores e alunos de guitarra do Ateneu de Leiria.

Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Leiria

Público-alvo: público em geral


* Entre várias pessoas, serei um dos músicos presentes.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

The fabulous four


Almada - final dos anos 60



À época, um agregado familiar composto por um casal com quatro filhos, no seio da classe média-alta, com fortes práticas e convicções católicas, era considerado normalíssimo. As famílias numerosas começavam a ser consideradas como tal nos casais com seis e mais filhos. As polémicas que hoje se geram com as chamadas "famílias numerosas", que, na sua ideação obsessivo-compulsiva de fazer meninos, invocando o "feito patriótico" do repovoamento do país, para obterem benesses fiscais, são uma das muitas hipocrisias que medram no tecido social. Todos sabemos que no Portugal de hoje, famílias numerosas só existem no seio de dois tipos sociais: aqueles que, por ignorância, pobreza de espírito, indiferença, egoísmo, obtenção de mais-valias com o rendimento social de inserção, entre outras motivações menos nobres, se reproduzem como coelhos; e, naturalmente, nas famílias ricas, que podem pagar, por cada rebento que geram, propinas de mais de 1500 € em colégios particulares, na sua maioria de índole religiosa, que são sempre os mais bem abençoados e também os mais caros, estadias em campos de férias na Grã-Bretanha, ou na Suíça,  reservados às elites sociais, estudos superiores em universidades estrangeiras bem conceituadas, entre outras mordomias a que só os riquinhos têm acesso. Nascer rico ou nascer pobre, é um desígnio que nos calha em sorte, um fruto aleatório, semelhante ao resultado numérico dos dados que se lançam numa mesa de pano verde. Ninguém escolheu nascer, muito menos com um certa e determinada condição económico-social. A responsabilidade é sempre daqueles que, por uma razão ou outra, decidem trazer muitos filhos ao mundo. Não são poucos os que pensam que é à sociedade que se deve imputar o custo com a educação e a alimentação dos seus filhos e que os impostos, cobrados à população em geral, inclusive aos que decidiram não ter filhos, seja por não poderem, ou por não quererem, devem servir de almofada para as suas, quantas  vezes, imponderadas decisões. Mas o que mais custa é ver famílias milionárias, com rendimentos mensais de milhões, apresentarem-se na comunicação social, no papel de vitimas de uma pretensa discriminação a que se dizem sujeitas, desgostosas com a ingratidão com que são tratadas, apesar das mais-valias humanas que pugnam trazer ao mundo, tudo a bem da nação, constituindo associações para a exigência de benesses fiscais. E tudo isto por causa das suas pulsões, aparentadas com a apetência pela cunicultura, das quais são os únicos responsáveis. Se querem ter muitos filhos, que os sustentem e não me peçam a mim, pagador de impostos, que contribua para educar a sua prole. O que mais não faltam, neste mundo cruel e injusto, é crianças a morrer de fome. Adoptem-nos, minorem-lhes a dor, eduquem-nos, seus hipócritas! Não me façam é a mim pagar pelas vossas histéricas decisões! Benefícios fiscais para famílias numerosas? Homessa! Jamais! Se quiserem, juntem-se à Associação Portuguesa de Cunicultura e ... lutem como coelhos que são!


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Fragmentos das memórias de um puto xarila


Às vezes penso em Almada, a cidade da minha infância e juventude, a urbe onde saboreei os primeiros gostos e desgostos da vida, o Frei Luís de Sousa, o afamado externato onde frequentei o infantário e a primeira classe; e, mais tarde, o ano propedêutico, logo substituído pelo 12º ano, numa das maiores reformas do ensino do meu tempo. Se fechar os olhos e me concentrar, consigo razoavelmente viajar no tempo e vislumbrar um puto vestido com uma bata azul, com um monograma com as letras RJ bordadas no bolso direito, um remoinho teimoso aprestado no cabelo, magrinho, baixote, enfezado, trajando calções justos e com uns caricatos sapatos de atacadores vermelhos nos pés. Esse puto xarila sou eu. Sempre a piscar os olhos, um tique que ainda hoje me habita, e a pestanejar por causa da luz insuportável do sol. Com uma mala de cabedal afivelada às costas, parece que o estou a ver a caminho da escola, acompanhado pelo batuque ritmado produzido pela caixa de madeira, onde guardava os lápis, as canetas, o compasso e as réguas, a bater contra o interior da mala. Usualmente, acertava o passo por essa batida familiar. Vivia-se o glorioso tempo das borrachas de cheiro que, além de servirem para apagar os erros, também espalhavam odores e sabiam a frutos diversos, que se cheiravam e, não raro, também se degustavam.. O tempo das batas obrigatórias e das fisgas fabricadas com elástico de avião, das criadas arregimentadas na província, imaculadamente fardadas, que iam levar os meninos ricos à escola; das crianças que não usavam sapatos, mas possuíam calosidades tão espessas, que faziam inveja aos cascos de muitos equídeos. Uma época em que os ciganos roubavam o lanche aos meninos ricos, os berlindes multicolores, as moedas que lhes conseguissem sacar dos bolsos e os piões com que se faziam habilidades impressionantes - tornei-me um especialista na arte do pião, mais do que no futebol, desporto que nunca dominei. Era essencialmente o protótipo do puto solitário. Fechado no meu pequeno mundo, diferente do não voluntarismo de um autista, criava conscientemente espaços interditos aos outros. Muito por culpa da Enid Blyton, montava casas no cimo da copa das árvores, levava para lá livros, bolachas, uma almofada, lápis e papel para escrever, tudo acessórios capazes de me entreter durante uma tarde inteira. Era o puto xarila voyeur que gostava de observar do alto dos ramos, na segurança da folhagem espessa, tudo o que se passava lá em baixo, com a granitíca certeza de nunca ser visto. E a sensação de poder que isso dava!  O puto xarila que se deleitava a desviar carreiros de formigas com um pauzinho e que observava, com um espanto continuado, a forma como elas conseguiam, em perfeita união de esforços e coordenação, transportar um gafanhoto morto, com várias dezenas de vezes o seu tamanho e peso. Também me lembro de seguir pessoas, escolhidas ao acaso, sem critério, numa qualquer rua da cidade, e anotar a sua descrição física, onde moravam, e, quantas vezes, ter de fugir a sete pés da sua fúria, sempre que era descoberto a armar-me em sombra; furtar smiles e rebuçados no Pão de Açúcar de Almada, até um dia ser apanhado em flagrante e passar pela vergonha de ser resgatado pelo pai, com um puxão de orelhas e uma séria advertência - o pai, que até era amigo pessoal do chefe da polícia!; levar um ou dois despertadores para as sessões de cinema da meia-noite, na saudosa Incrível Almadense, e, a meio da cena mais intensa - geralmente um daqueles filmes de terror série B, mais que rodados, cheios de estalinhos, tipo batata-frita, e cortes - pôr os despertadores a tocar em simultâneo,  provocando o quase desmaio de algumas espetadoras e o riso inevitável dos restantes.

Não têm fim as memórias do puto xarila e elas surgem às camadas, umas vezes em catadupa, outras por efeito de associações fruto do momento. Acabei de contar apenas aquelas que hoje me vieram no imediato à mente, numa espécie de brainstorming benigno, sem peias ou crivo, mas muitas outras, se não a maior parte, estão a marinar na minha mente, entorpecidas, até um dia...Não é verdade, puto xarila?