segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Túlipas



TULIPAS


As túlipas são demasiado sensíveis; é Inverno aqui.
Vê como tudo está branco, silencioso e calmo.
Deitada, isolada e calma vou apreendendo a quietude
enquanto a luz incide naquelas paredes brancas, nesta cama,
nestas mãos.
Não sou ninguém; nada tenho a ver com sobressaltos.
Entreguei o meu nome, as minhas roupas de sair às
enfermeiras,
a minha história ao anestesista e o meu corpo ao cirurgiões. (…)
Não queria flores, apenas queria

estar prostrada com as palmas das mãos para cima e ficar
toda vazia.
Como me sinto livre sem que ninguém faça ideia da
libertação…
A paz é tão intensa que nos entorpece
e nada exige em troca, uma etiqueta com o nome, algumas
bugigangas.
Aquilo a que finalmente os mortos se agarram: imagino-os
introduzindo-as na boca, como se fosse hóstias.
Mais do que tudo o vermelho intenso das túlipas fere-me.
Mesmo através do papel de celofane as ouvia respirar
suavemente, por entre as suas faixas brancas, como um
bebé medonho.
A minha ferida corresponde à sua cor rubra.
São subtis: parecem pairar, embora me esmaguem,perturbando-me com as suas línguas súbitas e a sua cor,
uma dúzia de vermelhos pesos de chumbo em volta do
meu corpo.

Nunca alguém me vigiara, vigiam-me agora.
As túlipas voltam-se para mim, assim com a janela
donde, uma vez por dia, a luz se espraia e esvai
lentamente,
e vejo-me, estendida, ridícula, uma sombra de papel
recortado
entre o olhar do sol e o olhar das túlipas,
e, sem rosto, quis apagar-me.
As túlipas plenas de vida comem-me o oxigénio.

Antes de elas virem todo o ar era calmo,
entrando e saindo, sopro a sopro, sem alvoroço.
Então as túlipas encheram-no com um forte ruído.
O ar agora embate nelas e redemoinha como um rio
embate e redemoinha num engenho imerso e vermelho de
ferrugem.
Chamam a minha atenção, que era feliz
quando se entretinha e descansava despreocupadamente.

Também as paredes parecem animar-se.
As túlipas deviam estar atrás de grades como animais
perigosos;
abrem-se como a boca de um animal africano,
e é ao meu coração que estou atenta: ele abre e fecha
o seu vaso de florescências vermelhas pelo puro amor que
me tem.
A água que saboreio é quente e salgada como o mar,
e vem de país tão longínquo como a saúde.


Poema de Sylvia Plath

domingo, 28 de outubro de 2012

Ainda o concerto na Biblioteca Municipal de Leiria


















Algumas imagens dos momentos de poesia e música, que proporcionámos no final de uma tarde de sábado, no auditório da Biblioteca Municipal de Leiria. Foi para mim um privilégio tocar com o meu professor, Luís Emanuel, bem como com o Ricardo, ambos músicos maduros, perto de mim, ave emplume nestas andanças, bem como escutar poesia da minha lavra, dita pela Leonor Lourenço e os sonantes poemas de Luís Silva, recitados pelo próprio. O espetáculo foi um momento agradável,  fruto da colaboração de todos, músicos, diseurs de poesia, autores e um público generoso que aplaudiu calorosamente cada momento. À Drª Teresa, responsável pelos eventos culturais da Biblioteca, seguem especiais agradecimentos pelo seu empenho e disponibilidade, com a certeza de que eventos congéneres terão novamente lugar.  O meu muito obrigado pelos momentos de felicidade que me dispensaram. O meu bem haja a todos!

Biblioteca Municipal de Leiria - 2012 - Poesia e música



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O finar do dia


O morrer da tarde, algures entre Santarém e Leiria - julho de 2012



Absoluto





Há muitas caixas
de muitos tamanhos
e muitas cores.
Estão fechadas
contêm mistérios.
 

Estão sobre a erva,
sobre os mares e rios,
sobre a terra,
sobre as areias.

Fui em busca
daquelas caixas
que contêm mistérios.
Tive uma e outra
nas mãos,
porém, nunca pude abri-las.

No final, senti a morte
recostei-me sobre a erva
vi muitas caixas
que continham mistérios.
Estavam fechadas.

Vi o céu, os mares
os rios
e toquei a erva.
Era verde e húmida
e senti-me terra
erva, mar e céu.

Vi espaços de luz
ouvi a música
da claridade,
senti os amanheceres
a paz do brilho da manhã,
a vida palpitando.

E fui uma luz clara
uma nova luz.

E senti o meu amor
por ti!
E converti-me em água
transbordada.

A terra abria-se
à minha passagem,
banhei infinitos amanheceres
e não me detive.

E a luz sempre brilhou
e houve um novo amanhecer,
todo envolto
por aquela cortina de veludo anil
de onde eu te enviava beijos
num adeus de tules.

Enquanto a morte dormia...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"Praia das Rocas" - Castanheira de Pêra


A"Praia das Rocas", em Castanheira de Pêra, no rescaldo de mais uma tarde de verão - agosto de 2012

Mosteiro - concelho de Figueiró dos Vinhos











A localidade do Mosteiro, no concelho de Figueiró dos Vinhos, entre Ansião e Castanheira de Pêra, integra-se no conjunto pitoresco das "Aldeias do Xisto", que abundam na Região Centro de Portugal. Em mais um passeio moto-turístico, captei algumas imagens que, creio, ilustram bem a beleza quase idílica da paisagem envolvente - Setembro 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012