quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O que é ser amado?



Ser amado pode ser considerado um desejo universal, pois é algo que praticamente ninguém rejeita; e, antes pelo contrário, muitas das atitudes e comportamentos que adotamos nos nossos quotidianos, têm em vista a satisfação da necessidade de sermos amados.

Todos nós temos interiorizada a certeza de que é preciso dar para receber e, muitas vezes, oferecemos amor, atenção e carinho, com a expetativa legítima de sermos correspondidos em igual proporção.

A demonstração do amor requer mais do que beijos, sexo, palavras, riso e companheirismo. Sentir-se amado é saber que existe uma pessoa que tem interesse real na nossa vida, que zela pela nossa felicidade e se preocupa genuinamente connosco. É, no fundo, sentirmos que somos aceites tal qual somos, sem termos de inventar uma personagem para apimentar a relação, e vivermos seguros de que as nossas qualidades são admiradas e os nossos defeitos tolerados, tudo graças à força maior que representa o amor.

Ser amado, seja por via de um relacionamento amoroso, por alguém que nos é muito próximo em termos de parentesco, ou por pessoas amigas, é condição absoluta para a felicidade de qualquer pessoa. Ninguém, com exceção de pessoas com graves distorções de personalidade ou afasias emocionais sérias, consegue sentir-se estável, equilibrado e feliz, se viver em estado de carência absoluta de amor.

Grande parte dos comportamentos violentos, da intolerância e, de um modo geral, das perturbações de caráter a que assistimos, com exceção de doenças psíquicas graves, é fruto de uma grande falta de amor. Trata-se de pessoas que são, ou sempre foram, seres mal-amados.

Com maior ou menor consciência desta necessidade, que não é exclusivamente humana, já que também existem animais capazes de expressar emoções e sofrer com a carência de afeto, de um modo geral, orientamos o nosso comportamento com vista a receber afeto - ainda que existam pessoas que, erroneamente, insistem em pensar o amor como algo transacionável, capaz de ser conquistado através da oferta de bens materiais.

Mas, mais fundamental do que ser amado, é o amor que conseguimos ter por nós mesmos. Quando gostamos de nós, sempre que conseguimos ter uma dose de amor-próprio razoável, fruto de termos atingido a paz interior e a aceitação necessária das nossas qualidades e defeitos, somos mais capazes de dar amor; e, sobretudo, não depender emocionalmente de outrem, ou nos dispormos a qualquer preço por uma réstia de afeto.

A carência é, no entanto, uma fonte pródiga de enganos e, não raro, entregamos o nosso maior afeto a quem não está de boa-fé connosco, nem sente por nós qualquer tipo de amor.

E, na eterna cruzada da busca do amor, para se ser amado é necessário vontade de entrega, sentimentos genuínos, bem como capacidade de análise do outro, e também uma boa dose de realismo.

Nem tudo o que reluz é oiro, pois, nas partidas da vida, há muitas pessoas que coletam lucros à custa da carência que os outros têm de amor. Regra geral, essas criaturas integram a fasquia marginal daqueles para quem o afeto não existe como necessidade. São seres doentios, parasitas da dor alheia, espectros a evitar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Falar do futuro



Falar com alguém que está no passado em relação ao momento presente (que para essa pessoa ainda é um futuro desconhecido) – sendo que essa pessoa posso ser eu mesmo - é ter ciência daquilo que aconteceu, ou, noutra perspetiva, vai acontecer com essa pessoa, e possuir a possibilidade fantasiosa de avisar a pessoa em questão acerca das escolhas e das consequências que a esperam. E a isso chama-se futurologia.

A futurologia só é considerada ciência se nos ativermos ao sufixo do vocábulo. Se alguém possuísse a capacidade de prever o futuro com precisão, tal possibilidade provocaria uma revolução integral na forma como tomamos decisões e nas escolhas que fazemos.

Acredito piamente que a vida, como a conhecemos, seria impossível de ser concebida se em cada momento soubéssemos o que iria suceder no momento seguinte. O ato de viver com racionalidade seria insustentável e não é difícil, como situação hipotética, imaginar um cenário assim.

Mas se nos satisfizermos com a certeza de que estamos a navegar em águas de impossibilidade e precisamos de fantasiar um cenário para darmos ordem de marcha ao nosso exercício, a questão fica ultrapassada.


Não raro dizemos que adorávamos ter a juventude dos 20 anos e a experiência dos 50 anos e, inclusive, alguém escreveu que quando finalmente aprendemos alguma coisa é chegada a hora de partir deste mundo físico – há quem acredite que existe algo para além da matéria e da biologia.

Falar no futuro com alguém que está no passado em relação a nós, ou, mais compreensivelmente, falar, neste momento, com alguém que vai atingir o momento espácio-temporal em que nos encontramos agora - tendo em consideração que o presente, como medida de tempo não existe, pois o tempo é imparável “tempus fugit” e torna-se passado em frações de segundo – é o exercício que me proponho.

Se tal fosse possível, o que diria eu a mim mesmo, caso pudesse desdobrar-me em relação a dois momentos espácio-temporais? É sobre isto que hoje reflito.




terça-feira, 18 de agosto de 2015

Sobre a gratidão



Se a gratidão é pacificamente entendida como uma emoção que envolve um sentimento de dívida em relação a outra pessoa, frequentemente acompanhado por um desejo de agradecer, ou tornar recíproco um favor que nos fizeram, tanto quanto recordo, são poucas as pessoas pelas quais, na vida, senti verdadeira gratidão. No entanto, consigo nomear casos esporádicos de pessoas que, desinteressadamente, foram genuinamente boas para mim.

Ainda há bem pouco tempo, no âmbito de uma diversão, que podia ter tido consequências bem piores, cai e ofendi com gravidade o tornozelo e o gémeo da perna direita; e não fosse o pronto auxílio de duas pessoas, que acabara de conhecer nesse mesmo dia, tinha ficado no chão sem me conseguir levantar. Levaram-me praticamente ao colo até ao automóvel e prontificaram-se para me ajudar em tudo o que fosse preciso, inclusive para me transportar ao hospital.

A gratidão é esse sentimento de reconhecimento por alguém que, desinteressadamente, nos fez bem e que nos faz sentir vontade de agradecer e fazer algo de semelhante em prol de quem foi bom para nós. E, contrariamente à gratidão, a falta de gratidão transporta-nos para o sentimento de culpa, que nos gera mal-estar e é algo que queremos evitar, ou aplacar.

Neste mundo eivado de egoísmo, em que, na maioria das vezes, a prática do bem tem sempre como expetativa o reconhecimento por parte do outro, torna-se uma pérola rara encontrar alguém que pratique o bem em estado puro, isto é, sem ter alguma expetativa em vista, mais não seja a satisfação pessoal pelo ato de gratidão do outro, que, segundo as regras socialmente convencionadas, normalmente se segue. Comportamento gera expetativa, e todos sabemos isso.

Mas a gratidão também nos pode tornar reféns de outrem e levar a condicionamentos do nosso próprio comportamento. Quantas vezes não toleramos uma situação que não nos faz integralmente felizes, apenas porque o peso da ingratidão, ou o sentimento de culpa, que advirá caso tomemos certas atitudes, é mais forte do que tudo?

Não gosto de sentir a gratidão em dívida e penso que o mais correto é liquidar rapidamente esse débito, nomeadamente fazendo algo de bom em prol de quem me quis bem, e também mostrar a minha inteira disponibilidade para continuar a fazê-lo.

O mais normal é praticarmos o bem em relação aos nossos semelhantes e a reciprocidade surge, quase sempre, como algo de natural e expetável.

Ninguém que viva semanticamente, observando com um cuidado desmesurado a forma do seu umbigo, pode esperar que haja muita gente disponível para lhe querer bem. A reciprocidade, ou o comportamento sinalagmático, é pois a regra convencionada no tecido social.

Quando me perguntam se recordo alguém que queira o meu bem, pratique o bem em relação a mim, me ame incondicionalmente, sem jamais expetar uma reciprocidade ou, outrossim, fazer depender as suas atitudes do cumprimento do expetado, afirmo sem sombra de dúvidas que é a minha mãe. Ela é a minha maior amiga, a pessoa que mais me ama e, estou certo, jamais alguém gostará de mim como ela.

Se a gratidão é pacificamente entendida como uma emoção que envolve um sentimento de dívida em relação a outra pessoa, frequentemente acompanhado por um desejo de agradecer, ou tornar recíproco um favor que nos fizeram, tanto quanto recordo, são poucas as pessoas pelas quais, na vida, senti verdadeira gratidão. No entanto, consigo nomear casos esporádicos de pessoas que, desinteressadamente, foram genuinamente boas para mim.

Ainda há bem pouco tempo, no âmbito de uma diversão, que podia ter tido consequências bem piores, cai e ofendi com gravidade o tornozelo e o gémeo da perna direita; e não fosse o pronto auxílio de duas pessoas, que acabara de conhecer nesse mesmo dia, tinha ficado no chão sem me conseguir levantar. Levaram-me praticamente ao colo até ao automóvel e prontificaram-se para me ajudar em tudo o que fosse preciso, inclusive para me transportar ao hospital.

A gratidão é esse sentimento de reconhecimento por alguém que, desinteressadamente, nos fez bem e que nos faz sentir vontade de agradecer e fazer algo de semelhante em prol de quem foi bom para nós. E, contrariamente à gratidão, a falta de gratidão transporta-nos para o sentimento de culpa, que nos gera mal-estar e é algo que queremos evitar, ou aplacar.

Neste mundo eivado de egoísmo, em que, na maioria das vezes, a prática do bem tem sempre como expetativa o reconhecimento por parte do outro - a gratidão, torna-se uma pérola rara encontrar alguém que pratica o bem em estado puro, isto é, sem ter alguma expetativa em vista, mais não seja a satisfação pessoal pelo ato de gratidão do outro, que, segundo as regras socialmente convencionadas, normalmente se segue. Comportamento gera expetativa, e todos sabemos isso.

Mas a gratidão também nos pode tornar reféns de outrem e levar a condicionamentos do nosso próprio comportamento. Quantas vezes não toleramos uma situação que não nos faz integralmente felizes, apenas porque o peso da ingratidão, ou o sentimento de culpa, que advirá caso tomemos certas atitudes, é mais forte do que tudo?

Não gosto de sentir a gratidão em dívida e penso que o mais correto é liquidar rapidamente esse débito, nomeadamente fazendo algo de bom em prol de quem me quis bem, e também mostrar a minha inteira disponibilidade para continuar a fazê-lo.

O mais normal é praticarmos o bem em relação aos nossos semelhantes e a reciprocidade surge, quase sempre, como algo de natural e expetável. Ninguém que viva egoisticamente, observando com um cuidado desmesurado a forma do seu umbigo, pode esperar que haja muita gente disponível para lhe querer bem. A reciprocidade, ou o comportamento sinalagmático, é pois a regra convencionada no tecido social.

Quando me perguntam se recordo alguém que queira o meu bem, pratique o bem em relação a mim, me ame incondicionalmente, sem jamais expetar uma reciprocidade ou, outrossim, fazer depender as suas atitudes do cumprimento do expetado, afirmo sem sombra de dúvidas que é a minha mãe. Ela é a minha maior amiga, a pessoa que mais me ama e, estou certo, jamais alguém gostará de mim como ela.






Elegia de um funcionário



A Elegia de um funcionário

É necessária uma dose de imaginação reforçada - como aquelas vitaminas, ou remédios, que o melhor é tomar logo duas colheres, ou duas pílulas, para o efeito ser eficaz e duradouro – para fazer com que o dia-a-dia de um vulgar funcionário forneça algo de interessante à mente e apele à escrita. Como nada disso, regra geral, acontece, resta a adulteração dos factos, a efabulação de episódios triviais e o endeusamento do banal, travestindo de irrealidades episódios do quotidiano, para mitigar a pobreza do relatável.

Assim, vejamos: um funcionário que, logo pela manhã, troca a gravata e a fatiota cinza por um cesto de frutas à cabeça e canta nos corredores da repartição como a Carmen Miranda; outro, sozinho, ao fim da tarde, que se crucifixa numa secretária pregando-se com pioneses e tachas; uma funcionária que, todos os dias, se agrafa, nas orelhas e nos lábios, dizendo que usa «piercings du bureau»; uma colega, de longos cabelos loiros, que acumula vários teclados de computador diante de si e toca/escreve neles em simultâneo, o cabelo liso escorrido para diante, imaginando-se o Rick Wakeman dos Yes, rodeado de sintetizadores e teclados; um jovem estagiário que pinta quadros abstratos com a tinta dos carimbos e das impressões digitais, servindo-se de bases de copos de plástico como formas; um subchefe que utiliza o balcão para ensaiar passos de equilibrista, com o selo branco em cima da cabeça e os braços esticados; ou um chefe da repartição que dá reprimendas aos funcionários, com um nariz vermelho de palhaço sempre posto, sem admitir réplicas ou risinhos de escárnio da parte dos seus subordinados.
O que viria a ser isto?

Seria diferente, subvertido, não convencional? Um manicómio? Uma repartição disfuncional?

Subscreve-se, por momentos, aquela teoria subversiva de que o «Miguel Bombarda» tem muros altos em volta para ninguém se sentir tentado a saltar lá para dentro. Uma vez mais tudo se consuma no modo como se perspetivam as coisas: A loucura é como uma bolha com alguém lá dentro, aprisionado, incapaz de se libertar e, em simultâneo, crente de que realidade é outra. E não é?

O que pode acontecer de interessante numa repartição, no meio de um emaranhado de papéis, formulários, regras apertadas de escrita, minutas, técnicas áridas, colegas apostados em competir, minuto a minuto, acotovelando-se para dar graxa ao chefe, lambendo-o sofregamente de cima a baixo, tudo isto num espaço apertado e enfadonho? Que pode, nesse planeta de marmelada burocrática, pelejado de tédios, alimentar uma mente ávida por escrever? Nada! Talvez só mesmo a deturpação da realidade circundante, dando-lhe um desvio de génese patológica, esquizoide – sair, custe o que custar do real terrífico! - possa fazer com que o mofo da banalidade se esvaia, pois de outra forma não estou a ver como. É tudo uma questão de adaptação: se não gostas do que te rodeia, imagina-o ridiculamente diferente, dessacralizado das marcas mais duras que o compõem, despojado dos seus ritos mais absurdos. Surrealiza o que te circunda. Sê Breton, à vontade; Dali, e por aí fora. Sobretudo, não pares!

A maior loucura seria, talvez, começar a gostar dos quotidianos formulares como se de coisas admiráveis se tratassem. Essa, sim, seria uma atitude crepuscular, border-line, motivo de preocupação por demasiado conformada com os moldes da vida: olhar para a lombada de um dossier da Âmbar e compará-lo com um quadro de Veronese; achar que o texto de um ofício é profundo como um poema de Álvaro de Campos; ter êxtases consecutivos com a leitura de um despacho bem fundamentado; amar uma coletânea de legislação como se de romances bem escritos se tratasse... Ainda há almas assim, que veem beleza na crueza destas coisas; e isso é, para mim, deveras preocupante.

O funcionário inadaptado toma, logo pela manhã, colheres reforçadas de contenção e paciência. Veste o hábito conventual que lhe proporciona a subsistência e anestesia uma parte substancial da mente, da verve, e do espírito, para conseguir engolir os sapos verdetes, por vezes asquerosos, que o esperam num tabuleiro de penitências posto à entrada da repartição.

São os bons dias em dias maus; o sorriso de comissário-de-bordo, treinado às vezes na casa de banho, já dançando no rosto - não vá algum azedume que transpareça fazer com que o rotulem de antipático e lhe transformem a vida num inferno; é o tom de voz amistoso, cordato, por forma a não criar hostilidades, quantas vezes contragosto. É todo um mundo de contenção e cuidados pois, o mais das vezes, uma repartição não é muito diferente de um campo minado: o mais seguro é andar sempre por trilhos já picados e que se revelam seguros. Pisar solos inexplorados, tentar caminhos diferentes, para além de constituir um risco tremendo, é, geralmente, uma aventura solitária que não tem seguidores.

Há, no entanto, sempre, um certo sorriso sincero, algures guardado, pronto para ser ofertado, mesmo nos acertos e desacertos do quotidiano de uma repartição, sempre que se dão os tais «momentos de humanização» e a flagrante filha da putisse que carateriza o comportamento de muitos se ameniza. É nas alturas em que os competidores baixam um pouco as defesas – cansam-lhe os braços de tanto se elevarem – que se proporcionam os momentos, porventura, mais agradáveis. Parece que não, mas são essas lufadas de ar fresco, essas pausas no combate pela supremacia do: «ser o mais competente»; «ser o mais perspicaz»; «ser o mais sabedor»; «ser o mais bem informado», servem para retemperar as forças, para continuar a aguentar o embate constante.

O clima das repartições não se coaduna com peregrinações interiores e os estados de alma dos desatentos são notados pelos demais. É fácil dar com o tal funcionário desenquadrado no certame dos serventes diligentes. Geralmente é sempre aquele que menos vibra com "coisas supostamente vibráteis". Não alimenta longas conversas com assuntos de serviço; desatina com os modelos pré-oferendados e com a impossibilidade criativa; desconcentra-se com mais facilidade e tem um olhar vago, ausente, de quem está, e já não está. Presta mais atenção à janela, ao mundo exterior, do que os outros, ainda que esteja com a secretária transbordando de papéis soturnos, e não se acomoda ao redondo dos quotidianos banais.

É a esse burocrata moderno, culto, inconformado, não refém do atavismo dos carimbos e dos papéis, das formas de ação estandardizadas, capaz de superar a bitola estreita do «corretíssimo e insuperável procedimento administrativo», a quem me cumpre tirar o chapéu e desejar-lhe as boas vindas ao mundo do eternamente superável: um mundo onde não há impossíveis administrativos e a solução para os problemas das pessoas é uma coisa simples, passível de acontecer – não um milagre! - que não se esfrangalha nas muralhas ditatoriais de um funcionário marreta e aperuado.

Esse último, que tome as tais colherzinhas de pó da loucura, logo cedinho pela manhã, e o dia da gente vai correr muitíssimo melhor. E, já agora, que se cuide, pois tem os dias contados. Vem aí uma geração de funcionários com narizes vermelhos de palhaço, formados no Chapiteau, e um dia, não muito longínquo, uma repartição pública será um oásis de sorrisos na aridez dos quotidianos triviais.

Para que tal aconteça, prometo contribuir com a minha fatia de loucura. *


* Escrito em Lisboa



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Há mais de um ano que não publico um único texto

Há mais de um ano que não publico um único texto neste espaço de escrita. Voltar a um blogue abandonado é como regressar ao pátio da nossa infância. Será que vou conseguir retomar uma atividade que já foi para mim um exercício com regularidade diária: escrever?

sexta-feira, 22 de março de 2013

Finar do dia nos muros exteriores de uma prisão


Há coisas que inesperadamente acontecem e nos conciliam com a vida nos maus dias, outras vezes nem por isso. É tudo um pouco assim: um pedaço de sorte, de acaso. Os finais de tarde em que os raios solares se mantêm com tal intensidade que a noite não se adivinha. O calor acumulado que se conserva na pele doirada. Os olhos que têm dificuldade em se manter abertos perante a intensidade da luminescência. O pôr-do-sol fulgurante que enche de tons rosáceos e laranja o horizonte. Os odores a primavera que invadem as ruas; o odor das plantas que denuncia a chuva recente. Os dias assim são redentores de algo menos bom que tenha decidido ocupar a nossa alma; e têm essa mágica divina de conseguir recompor os níveis da felicidade que carecemos, de um modo gracioso, harmónico, irrevogável.

As estações do ano são a longa metáfora dos estados de alma. Daí se poder dizer: aquele homem está outonal; aquele, mais adiante, parece primaveril; aquela rapariga é um sol! É nestas alturas que se discute com vigor a aplicação correta dos verbos Ser ou Estar, tomando como premissa que os estados mais votados à cronicidade possuem requisitos de «Ser», enquanto os estados passageiros, sazonais, mais dependentes dos ventos do humor, são melhores descritos pelo verbo «Estar».

A semântica da vida, creio, balança-se um pouco no fio condutor das nossas venturas e desventuras; e em todas as horas, em todos os momentos, fazemos os possíveis para que uma infelicidade seja anulada por uma felicidade; que as doses desta última estejam sempre em vantagem, não fora esse o desiderato essencial, o leit motiv que nos faz calcorrear as páginas deste mundo.

Vivemos de compensações - esta é a minha verdade. Não vivemos de eternidades, coisas adquiridas, imutáveis, mas antes num balancear constante, como uma nau navegando no mar aberto, compensando um movimento oscilatório para a esquerda, com um movimento contrário para a direita, tentando manter um rumo estável, que seja o garante da possível felicidade.

Viver é um pouco esta ginástica de cintura, que exige dispêndio de energias, cansa, e, por vezes dá vontade de desistir, apetecendo deixar-nos ir ao sabor da corrente, como a folha da árvore que segue inerte no curso de um regato. É preciso, quantas vezes, coragem para aguentarmos a vida e mantermos os repositórios de energia aptos a serem utilizados nos momentos de maior carência.

E é curioso falarmos com algum à vontade do conhecimento que temos dos outros quando, muitas vezes, nem a nós próprios nos conhecemos. Mas até essa postura é inescrutável em nós. Julgamos, apressadamente, que conhecemos as pessoas com quem interagimos no dia-a-dia, esquecendo que só se conhece de modo razoável alguém quando convivemos com essa pessoa em situações díspares, com relevo para as situações limite. São essas, porventura, as alturas em que a subjetividade se faz mais notar. É nesses momentos que a «natureza verdade», que vive adormecida nas caves esconsas da nossa alma, vem à tona com todo o vigor.

Mas há pessoas que nunca nos dececionam, pois resultam inertes nas nossas emoções as descobertas negativas que por vezes fazemos delas. Esquecemo-las depressa demais; outras, talvez por depositarmos nelas uma maior expetativa, ou porque nos merecem maior importância e admiração, perante atitudes diametralmente contrárias ao figurino que delas concebemos, reagimos adoecendo espiritualmente.

Deste modo, é possível concebermos que um conjunto de atitudes negativas, tidas por alguém que nos era muito próximo, possa fazer anoitecer de repente o nosso coração, como se alguém tivesse desenroscado a lâmpada que alumiava a confiança natural que nutríamos por essa criatura, que partilhava o nosso espaço, as nossas preocupações, sorvia o nosso ar.

Não vale citar nomes. É esse o propósito. Mas podíamos inventá-los, mais não fosse para colorir a ideia. Falamos do Dário, do Elias, ou, porque não, do Ildefonso ou da Hermengarda, todos eles epítetos saídos do correr de uma pena que escrevinhou um conto repleto de parágrafos inúteis e impossíveis, com personagens que usam chapéu de til, as mãos nos bolsos, as golas da camisa bordadas com pontos e vírgulas e calçados com sapatos feitos de verbos macios. Mas vamos, por ora, ignorar que essas pessoas têm uma identidade, que existem no tecido social, que respiram o nosso ar, que parasitam na nossa dor. Delas, apenas guardamos o sentir íntimo duma mágoa que é totalmente nossa.

(escrito algures num tempo e num espaço que a memória já não recorda)

quinta-feira, 21 de março de 2013

A Primavera em flor - Barreiro - 2005

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
... E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ainda o concerto na Biblioteca Municipal de Leiria



Por cortesia do Jaime, Presidente do Ateneu de Leiria, chegou à minha posse um outro vídeo, gravado com telemóvel, da nossa apresentação na Biblioteca  Municipal  onde decorreram agradáveis momentos de poesia declamada e música. Brevemente, no Salão Nobre do Ateneu de Leiria, haverá lugar a um outro momento congénere, com mais música e mais poesia e, quem sabe, melhores músicos e melhores poetas.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Palavras do Luís





O meu irmão Luís Filipe
Um dia, o meu irmão, num tímido apelo, convidou-me a dar uma vista de olhos sobre os conteúdos do seu blogue. A esta modesta apresentação com que se fez anunciar -  a sua obra "minúscula" como lhe chama -, respondi-lhe eu que arte maior ou menor não existe sem impulso criativo. É o desígnio do homem, seja ele fotógrafo, burocrata, motociclista, aventureiro, seja ele aquilo que quiser ser... mesmo que o dom não lhe bata à porta. 

Abraços
Luís Rebelo

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Morte de um companheiro do MTC - Coimbra


O António Silva, junto à sua Honda Pan European 1300, com quem fiz tantos passeios



Vítima de morte súbita, deixou-nos hoje, quinta-feira, o nosso companheiro e amigo António Silva, para a sua última viagem. O seu funeral será realizado sábado, dia 17, pelas 09h30. Sairá da Igreja de São José em Coimbra para o cemitério da Conchada. Estará em câmara ardente, a partir da tarde de amanhã, sexta-feira. Iremos acompanhá-lo de moto, como ele gostaria e como sempre o conhecemos: a andar de mota. Prestamos-lhe esta singela e sentida homenagem. Até um dia, António... *


* Fonte informativa: site do MTC de Coimbra

Eu lá estarei, no sábado, de mota, para, junto com os restantes sócios e amigos do MTC, lhe prestarmos a devida homenagem. RIP, António. Que a terra te seja leve.