segunda-feira, 8 de maio de 2017

Pensamento à lá minute


Se acreditássemos piamente em tudo que se diz na imprensa escrita, na rádio e nos canais televisivos, viveríamos hoje em abrigos nucleares, não saberíamos que o sol continua a brilhar no planeta, crentes que estávamos que o mundo que conhecemos já tinha acabado de vez. Por mais pessimistas que sejam as previsões macro-económicas, por piores que sejam as estatísticas de crescimento económico, os cenários de aumento das desigualdades, da precariedade e do desemprego, que significado terá tudo isso perante a eminência da morte? Se retirarmos os óculos de fantasiar e olharmos para as coisas como elas são, logo veremos que o outono é o prenúncio do inverno e este, por sua vez, é o prenúncio da primavera. E, tal como as estações, toda a natureza das coisas obedece a esta fatalidade cíclica. Normal é que passada a tempestade venha a bonança e que depois da vida venha a morte. Para quê tanta preocupação se a vida é uma vela ao vento que se apaga com um sopro menos suave? Creio que uma das nossas maiores fatalidades é a de julgarmos que somos eternos, daí não conseguirmos enxergar a relatividade das coisas. Seriamos muito mais solidários, com um coração mais piedoso, se alguém conseguisse incutir-nos na cabeça, de uma vez por todas, que esta coisa de viver é uma passagem só de ida, com duração aleatória e sem bis no final.

(escrito algures num tempo que já não recordo)

domingo, 7 de maio de 2017

Derrames




Esta noite reservou-me uma experiência inolvidável, não porque tenha acontecido algo espantoso ou memorável e muito menos pela originalidade da situação. Mas foi o simples facto de estar ciente de que nunca antes o fizera, que me levou a sorrir interiormente perante o cliché da situação: a sensação forte de estar a bisar cenas cinematográficas e o quão ridículo de toda a representação. 

Cada vez mais, adoro rir de mim mesmo e divertir-me, inclusive com os pequenos ridículos que me integram; descobrir as minhas mais do que demasiadas imperfeições e trazê-las à luz quente do dia, cumprimentando-as com elegância e deferência, como se pelo simples facto delas existirem nenhum mal pudesse daí advir. 

As minhas metas de vida, no presente, são mais modestas, mas seguramente mais precisas e próximas da realidade possível. Já que a maior parte do nosso sofrimento advém da frustração de expetativas que criámos, com vista ao alcance de determinados objetivos que, posteriormente, se revelaram impossíveis de ser atingidos, há que abandonar a inflexibilidade como matriz e encarar, de uma vez por todas, a necessidade de ter um plano B ou C, fazendo da regeneração e da mutação fontes inesgotáveis de energia vital – possuir uma espécie de exército de reserva, apto a entrar em ação se as contingências assim o exigirem.

Muito a propósito, recordo Alberto Morávia, um dos romancistas que mais doirou o meu alvorecer como leitor e em especial um dos seus mais emblemáticos romances: "Le Ambizione Sbagliati".

Sempre me senti fascinado pela densidade psicológica dos personagens moravianos, num conflito latente, transversal com a mesquinhez, a ambição desmedida, o sarcasmo e tudo o que de mais sórdido há na natureza humana.

Também se cresce com as leituras, embora hoje seja para mim evidente que a experiência pessoal, mais do que a livresca, é a grande mestra. Desde que aprendi quão salutar é aceitar-me com as minhas enormes limitações, confesso, atirei às sortes do vento mais de metade das minhas misérias, vergonhas e complexos e já não vivo, nem quero mais, no limbo de desejos insanos que estou ciente não os poder materializar. Hoje sei, de fonte segura, pela lucidez que jorra, cada vez mais forte da torneira da minha experiência, que, pior que tudo, uma vez alcançados os objetivos a que nos propusemos, guindados pelas fasquias elevadas da nossa refinada vontade, não tarda, tudo se reinicia e a insaciedade reapodera-se de nós. Porque não determo-nos um pouco para "jogarmos" com os brinquedos que já possuímos, explorando-lhes as capacidades e aproveitando ao máximo as áreas mais soalheiras do quintal da nossa vida? O contentamento por vezes reside em coisas tão singelas, tão ao nosso alcance, que gastamos energias preciosas na busca incessante de "outras coisas", quando afinal temos bem pertinho de nós tudo quanto precisamos. Apenas carecemos dar mais valor e atenção ao que nos rodeia, porque a vida é efémera, porque o dom de ser nela participante é um bónus diário que nos é ofertado.

A experiência inolvidável que acima referi e que acabou por ficar por explicar, pois, uma vez mais, perdi-me na impudente tarefa de me arvorar o Deão da minha própria alma e enveredar por pensamentos sem regresso possível, não representa afinal nada de especial. Estava eu querendo dizer que levei o meu note book para cama – confesso que não foi muito difícil convencê-lo, pois acho, inclusive, que os computadores portáteis foram, de algum modo, concebidos para este tipo de licenciosidades –, abri-o sobre o cobertor mais grosso que me protege, o celebérrimo "Sogno Allegro" 200x240, 90% algodão - um agasalho transalpino que tem por logótipo um cartoon representando um casal com um ar demasiado intra-uterino, simultaneamente ensonado e feliz, trajando um pijama verde alface, chinelos no mesmo tom, a fazer pose frente a uma luazinha amarela em quarto minguante - e, umas vezes deitado de lado, outras de costas, com o computador sobre os joelhos; depois, já sentado na cama, apenas com dois almofadões a aliviarem-me as costas, lá consegui escrevinhar algumas coisas.

Já não sinto a atroz bigorna de uma tonelada e meia sobre a cabeça. Estou aqui para durar – e que seja a duração a escolher o tempo e o modo - mais intensamente do que muita gente que já se finou e ainda vagueia por aí como espetros ou representações do nada - quiçá não terão recebido a guia de marcha para outras paragens, mais aparentadas com o cinzentismo e conformismo biológico com que encaram a dádiva que é a vida.

Leiria - 2014

Amas-me porquê?



"Amo-te porque sim. Porque os teus olhos parecem dois favos de mel; porque as tuas mãos são ternas e quentes; porque os teus cabelos são macios como fios de seda; porque o teu sorriso é lindo e cativante; porque, na fímbria do teu olhar, e em ti em geral, descubro sempre coisas que me fascinam."

"E és sempre assim complicado a explicar o porquê de amares alguém, isto é, tens sempre que dar grandes explicações e não és capaz de dizer apenas: amo-te porque simplesmente gosto de ti?"

"Não, e acho que já faz parte da minha natureza, esta forma insurreta de complicar coisas convencionalmente simples e derramar palavras como se fossem jorros de água a brotarem de uma nascente.”

“És poeta?”

“Não. Porque perguntas?"

"É que a forma como te expressas…parece que tens muitas palavras dentro de ti que tens necessidade de as trazer cá para fora. Gostava de saber chorar como tu choras. Eu sou muito dominada do ponto de vista emocional. Acho que não choro desde criança."

"Mas, e se eu fosse poeta, tal mudaria alguma coisa? Gostavas que me comportasse contigo como fazes comigo. Com uma ternura austera que me prende mas nem sequer desafia? Às vezes rio-me do que dizes. Pareces-me ingénua e irracional e pergunto-me por quanto tempo serei capaz ou poderei continuar a sentir-me apertado, como se toda a atmosfera me comprimisse contra mim mesmo, pela tua imagem, pelo teu egocentrismo, pela forma como encaras o mundo: é ele que gira à tua volta e não tu que gravitas em torno dele."

"Cada pessoa é única e eu sou como sou, assim como tu és como és. O que interessa, ao cabo e ao resto, é que cada um de nós seja feliz na sua forma peculiar de ser.”

"Nisso tens razão. Fiquemos então por aqui..." 

sábado, 6 de maio de 2017

Edelweiss




Ontem, em Leiria, passou por mim uma mulher. Tinha os olhos perfeitamente azuis, como dois lagos profundos, os ossos da cara largos, os lábios desenhados e vivos, com um andar desengonçado e um indisfarçável ar germânico. Presumo que fosse alemã ou austríaca.

Recordei uma das minhas primeiras viagens feita há bastantes anos à Áustria. Em Salzburg, armado em saloio, fui visitar, entre outras maravilhas, o Palácio da família Von Trappen – um percurso lindíssimo pela montanha – e, tal como todos os camaradas turistas, engoli todas as historietas que a guia local, que falava um péssimo castelhano, entendeu contar – o meu alemão é deplorável e datado.

Edelweiss, sim é esse nome que tinha em mente, é uma flor que se pode encontrar no alto das montanhas e Alpes da Suíça, da França, da Áustria e da Itália. Desenvolve-se de modo espantoso nos cumes mais elevados da montanha e o seu nome significa "branco precioso", pois trata-se de uma linda flor em formato de estrela.

Dizem que quando se quer presentear alguém com algo que signifique amor ou amizade eterna, oferece-se uma flor de Edelweiss a essa pessoa, a flor eterna. Diz-se, também, que a sua duração, depois de seca, é superior a cem anos.

Tenho uma Edelweiss, dentro de uma caixa de vidro, adquirida há cerca de 18 anos numa loja de lembranças, em Salzburg, na Áustria, e, realmente, não noto que tenha ocorrido qualquer mudança na sua morfologia desde então. Hoje, mesmo, li – facto que desconhecia em absoluto – que a dita flor já é considerada Património da Humanidade, pela sua raridade e carga simbólica que encerra. Sei que a Edelweiss inspirou poetas um pouco por todo o mundo e uma das composições mais lindas e intemporais é essa que leva o nome da flor: "Edelweiss" - tão bela e emocionante quanto a flor. A música é da autoria de Richard Rodgers e Oscar Hammestein, e é realmente maravilhosa. Pertence ao musical The Sound of Music, de 1959, interpretada por Christopher Plummer, que todos quantos pertencem à minha geração recordam - " Música no Coração" e em "brasileiro", o nome mais foleiro com se podia batizar um dos filmes mais premiados de sempre: "A Noviça Rebelde".

Nem sei porque me saiu este lampejo de escrita às 06h00 da manhã...

Terapias - a alternativa




Se há algo que me conforta sempre que estou debruçado no varandim que dá para o interior de mim, são os momentos em que fecho os olhos e deixo-me invadir pela música. Os temas imemoriais de Mozart, Bach, Vivaldi, Puccini, Gershwin, Tchaikovsky, entre vários autores que tanto admiro, têm esse especial condão de transformar em leveza as máculas mais pesadas que infernizam a minha tranquilidade. A música clássica tem essa mágica: azula os negrumes que por vezes me assombram, com rasgos de felicidade que invadem e restauram a frescura e o esplendor vital que careço sentir.

O choro clamoroso dos violinos, os violoncelos, os cravos, as harpas, conseguem, ainda que por momentos, transportar-me até perto da amostragem do ideal de “mais belo” – a estética elevada à excelência – que há muito persigo como a meta daquilo que julgo ser a felicidade suprema: uma espécie de concórdia harmoniosa, de convergência universal, onde a mediocridade cede lugar à qualidade e o aperfeiçoamento é exemplo a seguir.

Esta musicoterapia, que augura boas sensações, pouco tem de inovador. Há muito que se apontam as propriedades benéficas da audição de certas músicas no espírito humano e também no comportamento animal. Basta relembrar-nos das experiências obtidas em vacarias no que respeita à qualidade e aumento do leite produzidos. A diminuição do stress faz com que as vacas produzam mais e melhor leite e já há explorações pecuárias, em certos países da União Europeia, onde é comum entrar numa vacaria ao som de uma Rapsódia de Rachmaninov ou da Ave Maria de Schubert.

Já se fala da hipoterapia, ou da capacidade dos equídeos favorecerem a cura de certas maleitas do espírito e de doenças do foro cognitivo em crianças, a par talassoterapia e da oftalmoterapia, entre tantas outras técnicas inovadoras e revolucionárias.

Mas todas têm um objetivo comum: o coadjuvarem os tratamentos conducentes ao bem-estar e à descompressão, provocados pela violência antinatural da sociedade moderna, perfeita na criação de criaturas autómatos, monstros desprovidos de criatividade ou capacidade de autodeterminação.

Nós, ou alguns de nós, onde eu me incluo, não estamos impermeabilizados contra a violência extrema que representa a obrigação de desempenhos quotidianos que pouco ou nada tenham a ver com as nossas formas naturais de expressão. E é por vezes esse choque de contrários, esse dilacerar de vontades – ato de violência reiterada que nos obriga a fazer algo completamente desajustado da nossa vocação natural - a fonte mais ignóbil dos nossos maiores padecimentos.

[Nunca fazer cedências totais às provações (incontornáveis) impostas ao EU, mas, pelo contrário, preservar intata, custe o que custar, a capacidade de expressão do «ser genuíno» - aquilo que vale!]

É esta, porventura, a condição de coerência que julgo ser necessária para a sobrevivência nesta sociedade poluta, que esmaga com regras ditosas que não escolhemos, mas que, para o bem e para o mal, é nela que habitamos e é a ela que temos de nos adaptar ou... ensandecer.

É à música, que amiúde oiço e me diviniza, como um astro luminoso grafado com a maiúscula de Sol, que devo esta homenagem: uma núbil estrela da beleza, esmaltando de oiro e calor de aconchego o fiar dos dias menos azuis, que teimam, por vezes, anuviar os momentos em que a contrariedade em mim prevalece.*



* Uma janela com vista para o mundo - Leiria- 2013

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Tempus fugit


Ocupamos de tal maneira o tempo que passamos na vida, que ficamos com a sensação de que ele não chega para nada. Nunca temos tempo suficiente para fazer tudo aquilo que queremos. No entanto, quando ousamos parar um pouco, talvez, no fundo de nós, algo nos pergunte: Para quê esta pressa, esta necessidade de fazer tantas coisas? O que é que, afinal, isso me traz de importante?; e, sobretudo, onde é que acaba por me levar? 

Uma das grandes preocupações do nosso "estilo de vida moderno" é não perder tempo. Aproveitar ao máximo todos os minutos. Chegar a tempo, ganhar tempo, mesmo sem saber de quê nem para quê. Quando não havia eletricidade, aquilo que fazíamos era mais comandado pela luz do sol do que por outras pressões exteriores ou obrigações a cumprir - embora muitas das criações mais geniais da literatura universal tenham sido escritas à luz de candelabros de velas ou de lamparinas de azeite. Mas é um facto que o dia era mais vivido enquanto tal, e a noite mais sentida como noite. E pela existência dessa dicotomia recortada, desses tempos opostos e complementares, tal permitia-nos descansar e ganhar um maior equilíbrio.

Acontece que o tempo não se perde nem se ganha, ele simplesmente passa e a única coisa que nos convida é que o aproveitemos, não no sentido de fazer o maior número de coisas possíveis, mas de o gozar nas atividades que maior prazer nos proporcionem.

Deleitar-nos com detalhe numa atividade, fica muitas vezes prejudicado pelo afã de querermos fazer muitas coisas. E às vezes esta necessidade frenética de nos mantermos sempre ocupados, mais não é do que uma forma sub-consciente de anestesiarmos pensamentos, infelicidades, ausências, e/ou colmatarmos carências de outra ordem. O melhor que temos a fazer é aproveitarmos para dar um novo rumo à nossa vida, esquecendo, ainda que por instantes, que ela é finita, e concebendo os nossos sonhos como concretizações ainda capazes de ter lugar na réstia do tempo. Mas para tal é necessário apelar à coragem, à incomodidade, pois sem estes atributos a funcionarem em pleno não conseguimos mudar seja o que for.






quinta-feira, 4 de maio de 2017

O que é o amor?




Quantas vezes já alguém terá tentado definir o que seja o amor? Acho que não devem ter conta os ensaios escritos para a definição correta do vocábulo, e muito menos as tentativas para explicar o conceito. Por isso, perante reflexões bem mais aprofundadas que já foram proferidas sobre o assunto, não tenho a veleidade de me achar capaz de ser o arauto de uma interpretação mágica, finalistica, nem tão pouco pretendo com estas palavras inovar no que já foi dito por tantos ao longo dos tempos. Trata-se tão-somente das minhas preleções sobre o tema - um assunto que me é muito caro - e talvez seja isso o que me importa.

Amar uma mulher é um dos sentires que me faz mais feliz. Não tenho dúvidas sobre isso e, se algum dia as tive, com o avanço da idade, da experiência que tenho acumulado com o rolar dos anos, cada vez me convenço mais da certeza desta afirmação. É, porventura, das poucas certezas que nesta idade ventruda alicercei como uma certeza inabalável: o amor é redentor.

Ainda há pouco tempo - uma afirmação que me era muito grata e que creio ser da minha lavra genuína, escrita em algum dos muitos textos que por aí vou deixando espalhados, pois não recordo de a ter lido onde quer que fosse - dizia eu a algumas pessoas com quem entabulava conversas mais profundas, que não sabia ao certo o que queria da vida, mas de uma coisa estava sempre certo: sabia sempre com clareza enunciar aquilo que não queria fazer, que não queria que me sucedesse, os caminhos que não queria trilhar.

Acabava por ser uma postura algo redutora, pois há coisas que não queremos, por julgarmos que elas são fonte de infelicidade e acabamos por descobrir que, afinal, elas são potenciadoras de alegrias que nem suspeitávamos vir a poder sentir.

A certeza da relatividade das coisas, o abandono de posições demasiado extremadas, uma tolerância maior que nos surge sem ser anunciada, tudo são sinais de sapiência e maturidade, ganhos com o rolar da idade.

Hoje, acho que estou em condições de poder afirmar, com segurança e convição, que quero dar e receber amor e que essa permuta é a permissa irrevogável da minha condição de homem feliz e criatura maiúscula. Mais do que tudo, sem descurar a boa saúde, a satisfação das necessidades que considero essenciais, sei que sem amor - amar e ser amado, entenda-se - sou um ser amputado, uma espécie de planta sem nutrientes, que vai murchando de dia para dia e sobrevive por mero desígnio do acaso, à sorte da misericórdia de umas gotas de água que mal lhe chegam ao caule.

Para mim, os dias felizes são azuis. Claro que isto não passa de uma opinião. Haverá quem defenda os dias plúmbeos, com maciços de núvens baixas a ameaçar que o céu nos vai mesmo cair em cima da cabeça. E haverá, seguramente, quem se renda aos dias chuvosos e escorregadios que transformam as casas aquecidas em portos de abrigo seguros e tranquilizantes. Para mim, insisto, os dias felizes são os dias azuis; e espero por eles, choro por eles, ou vou à procura deles onde quer que eles estejam, às vezes bem longe de mim...

Há muitos géneros de amor. Acho que nisso todos estamos de acordo e, de uma forma geral, sabemos distingui-los. Mas, referindo-me mais em concreto ao clássico amor entre dois seres humanos, quando será possível termos a certeza de que o sentimento que nos assola é de amor e não de outra coisa qualquer, partindo do pressuposto que já sabemos o que ele é e, em consequência, conseguimos reconhecê-lo? A dúvida corróis-nos e ensaiamos definições de amor, paixão, química, deslumbre, com a mesma necessidade do rótulo que o analista tem de conferir aos seus pacientes.

O amor é um sentimento muito forte. Talvez seja o sentir mais intenso de que somos capazes, embora haja quem diga que o ódio ainda consegue reverberações maiores. Sobre este último não me pronuncio, pois acho que nunca odiei alguém, ou se tal aconteceu não durou mais que instantes. Quando me magoam imenso, é sempre a indiferença que se encarrega de me apaziguar, pois tenho o condão de «liquidar» as pessoas que me são hostis, ignorando-as e fazendo com que se mantenham longe ou desapareçam do meu horizonte visual e do meu pensamento. Desprezo, afasia, indiferença, são estados de alma que aprendi a gerir com mestria e sei que o tempo encarra-se de transformar a minha dor presente nalgum destes sentires, ou em todos em simultâneo.

Querer muito uma pessoa, desejá-la sexualmente, sentir uma ternura e uma vontade irreprimíveis de estar perto dela; ter vontade de lhe fazer bem; preocupar-se com o seu bem-estar; com tudo quanto lhe diga respeito; admirá-la; possuir uma vontade de partilha quase integral; gostar das suas virtudes - e até dos defeitos - é, quem sabe, um estado muito próximo daquilo que entendemos ser o amor; e muitos de nós, felizmente, já o experienciaram.

Sem querer, ensaiei uma definição, embora algo tosca, daquilo que é suposto ser o sentimento de amor entre um homem e uma mulher, ou entre dois homens e duas mulheres, que a diferença não existe, e confessei a importância que esse preenchimento tem para mim.

Amar é sublime. É, talvez, o sentido da vida que muitos procuram no lugar errado e, por vezes, está tão ao alcance de cada um de nós. Basta ser bom.

sábado, 29 de abril de 2017



Tempos houve em que a verdade era mais que o antónimo da mentira. Já se acreditou, inclusive, que a verdade era uma espécie de quinta essência, um âmago de sentido, que justificava uma busca grandiosa, que tornava o caminho da vida num percurso de aperfeiçoamento e crescimento em direção a uma qualquer transcendência que faria de todos nós seres maiores e melhores. Acontece que, nesta época feérica em que vivemos, o desgaste do conceito atinge tais proporções que uma mentira, se dita vezes sem conta, acaba por se tornar verdade.


Nos nossos dias, deixou de ser preciso dizer a verdade e as elites que nos governam, aqueles que têm nas suas mãos o poder de escolher os desígnios e as políticas que nos vão reger, são os que em primeiro lugar nunca dizem a verdade. Passámos a encarar as mentiras de um alto governante, de um deputado, de alguém com responsabilidades sociais intensas, como algo natural, normalíssimo até. Já não acreditamos em intenções vitalícias e é (quase) lícito prometer uma coisa agora e no dia seguinte quebrar o compromisso assumido.

E esta falência da verdade é correlativa à emergência da disfuncão aflitiva dos órgãos de cúpula que nos regem, que toleramos e com os quais nos habituámos a viver, não desperdiçando mais do que um simples encolher de ombros quando alguém nos pergunta se, ao menos, nos questionamos: "O que hei-de eu fazer?".

Lírico eu? Talvez, mas a História prova-nos que só as revoluções conseguem operar as ruturas necessárias para extirpar os cancros do tecido social. Se assim é, venham elas!

Vitória ou muerte! (onde é que eu já li isto?)


Nunca deixes de ser a água doce,
desnuda a tua franqueza cristalina
ri quando te apetecer rir,
e chora por dor,
não deixes presentes por desembrulhar,
rasga o papel dos teus sonhos,
deixa-te levar pelo amor,
sê o teu "Deus Super Omnia",
amabile contigo mesmo,
pois tu és o teu improviso,
o farol que ilumina o voo da ave,
o vencer ou morrer por ser,
o propósito de toda a expressão,
a carne feita da tua carne,
aquele que se permite mais do que é justo


(escrito em 2009 . Barreiro)

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Espelho meu...


partir de uma certa idade, parece que o processo que dita o nosso envelhecimento multiplica-se de forma geométrica; e, em cada dia que passa, quando nos olhamos no espelho, achamo-nos mais envelhecidos. Dando por adquirida a verdade de que a fonte da eterna juventude nunca passou de uma efabulação literária, temos de aceitar que o encarquilhar da face, o branquear dos cabelos, a proeminência do ventre e a perda gradual da energia, são realidades com as quais temos de lidar; e, sobretudo, encará-las como fazendo parte de um processo gradual ao qual nenhum de nós consegue escapar.

Dizem, talvez para amortecer o desânimo que nos toca, que envelhecer tem os seus encantos e que os ganhos de maturidade e experiência de vida, de certo modo, contrabalançam o que se perde em vivacidade. O ideal seria, sim, conservarmos a juventude e a experiência, entretanto adquirida. É por isso que existem os ginásios, que se têm multiplicado como cogumelos, muito frequentados por cinquentões e cinquentonas, obstinados em não aceitar as sequelas naturais causadas pelo processo de envelhecimento.

Nada tenho contra os ginastas cinquentenários e saúdo todas as práticas em prol da saúde. Que isso fique bem claro. Acho, sim, patética, a atitude de certos figurões e figuronas, alguns bem conhecidos na nossa praça, que se pintalgam de loiro platinado, colocam perucas e capachinhos, fazem enxertos capilares, usam jeans rasgados e, acima de tudo, adoram serem descorados pela magia do photoshop. São pessoas que renegam infantilmente a idade que têm e nem se apercebem o quão ridículas ficam ao fazê-lo.

Há várias formas de encararmos a chegada da “idade da razão”, umas mais positivas do que outras, mas ficamos quase todos com uma tremenda necessidade de nos sentirmos seguros.

A perda da beleza é, mais do que nos homens, o maior pavor das mulheres. E o que é belo, como todos os conceitos difíceis, está muitas vezes para lá do que se vê. Há quem ache que o belo tem um caráter essencial, que se presume, tão indefetivelmente como tudo o que é importante e que, por isso mesmo, diz muito mais sobre aquele que contempla do que sobre o objeto de admiração. Daí a afirmação de que a beleza está nos olhos daquele que ama. Se for assim, quer dizer, se a beleza for o sintoma de uma rendição afetiva, então entramos num outro registo valorativo em que o sensorial manda.

Mas para lá da subjetivação do que seja ou não belo, existe certamente um conceito objetivo do que seja a beleza e a fealdade; ou seja: ninguém pode, sem usar de má fé, dizer que determinada atriz, eleita popularmente como uma sex simbol, é objetivamente feia. E é no retorno da (nossa) imagem, que o espelho nos dá todos os dias pela manhã, que reside o grosso de todos os nossos pavores: “Espelho meu, há alguém (ainda) mais feio do que eu?”

(escrito algures no ano passado)