domingo, 21 de maio de 2017

Na praia




Prezo muito a doce penitência dos pescadores solitários, fiéis, sempre, junto à sua cana, vigiando o dançar periclitante da linha, como pastores vigilantes de um rebanho de peixes, num prado eterno feito de mar. De quando em quando, desviam os olhos do horizonte e rodam o carreto de nylon verde, ensaiam um lançamento longo, mais junto às rochas negras forradas de algas, em águas mais afortunadas, onde os cardumes se alimentam.

As canas estão fincadas na areia, em suportes próprios. São artes antigas, instrumentos pontiagudos que vão adelgaçando à medida que se aproximam da extremidade. Do lugar donde as vejo, sempre que o vento clama mais forte os seus caprichos, curvam-se com graciosidade, como bicos de tucano. Ao seu lado, muito perto, baldes vulgares, repletos de água do mar, servem de depósito a peixes que já não nadam: jazem argênteos, no fundo, numa quietude de impressionante morte fresca, mas a vibração da água, por breves momentos, parece que os vivifica; mas é mentira.

Sigo sempre no sentido contrário à zona dos chapéus-de-sol, caminhando contra a luz. Fujo das áreas concessionadas, das barracas «Olá», laranja e escarlate; das cadeiras «Pepsi» azul noite. Raspo-me das areias movediças da mundanidade, pelejada de gentes, pauzinhos de gelado, caricas, beatas de cigarros e beatas da vida. Quero-me na praia onde não pontificam os vestígios humanos – não quero «ser-humano» – na língua da areia onde o mar suserano, em frenesim, sem parcimónia, traga despojos de presenças alienígenas (a mim).

Tenho a caneta bem fincada na areia, um pouco acima da linha da vazante, abrigada da rebentação. É uma caneta cinzenta, paper-mate, uma flexigrip ultra, chiquérrima, aborrachada, daquelas que não magoam os dedos, mas, por vezes, magoam a alma. Ela é muito mais pequena do que as canas que observo em meu redor.

Os pescadores distam a alguns metros de mim. Estão dispostos ao longo da praia, em espaços intervalados, cinquenta metros distantes uns dos outros. A minha flexigrip não verga na ponta quando a brisa entorna mais densa. As canas sim.

Aguardo a chegada dos advérbios frescos, de olhar esbugalhado; das frases coragem; dos parágrafos comestíveis, dispostos a disputar-me o domínio, mas eles não vêm. De tempos a tempos, olho para a ponta esférica e aguçada da minha flexgrip. Um raro movimento, um estremecer por breve que seja, enchem-me o coração de esperança e brilho azuláceo. Agora o silêncio. O som do mar. O piar absurdo de uma gaivota que se afasta. As franjas brancas das ondas, ao longe, que aparecem e desaparecem. Um navio a fingir, no horizonte.

[Sempre quis ter uns óculos de sol da cor da felicidade, pois já tenho um chapéu da cor do mar. O mar existe?]

Passaram por mim duas mulheres com os corpos densamente povoados de desejos. Os pescadores não pestanejaram. Permaneceram quedos, os olhos postos no horizonte brilhante. Esperam. Desenleiam as linhas das canas como quem desembaraça os escolhos da vida. Os chumbos estão pendurados no nylon verde como pêndulos de relógios de cuco antigos – O Pêndulo de Foucault não é de chumbo.

Cheira-me a abandono e sinto arrepios de luz pela espinha acima. A felicidade é um acontecimento. Dizem-me que não a devo procurar mas sim esperar. Às vezes canso-me.

A minha flexigrip continua hirta, espetada na areia como um soldado perfilado na parada, mas a borracha que a envolve parece ter amolecido. Começa a desfazer-se, pingando gotículas de talento derramado que o mar depressa engole. Os veraneantes, lá longe, parecem vultos pré-fabricados. Movem-se em constância: para lá, para cá, para lá, para cá.

Os pescadores são agora sombras recortadas na contraluz e, com o dedo indicador, acompanho o recorte da silhueta de cada um deles, que me cabe na palma da mão. Os peixes – ainda aguardam por eles – de quando em quando, deixam-se morrer para viverem, ainda que por instantes, dentro de nós. Nós vivemos. Eles não.

Coloco o meu estetoscópio de sonhos e ausculto o pulsar das emoções que me rodeiam. Tomo o pulso à vida, paciente, e peço-lhe com delicadeza que abra a boca e faça: «Ah!». Vi a língua da vida! Ena! Que sensação! De seguida, agarro na minha máquina de fotografar ilusões e proponho-me captar momentos genuínos – um completo desastre! Fico-me pela película da memória. Apetece-me fugir.

Guardo a minha flexigrip, ou o que resta dela. Torno a casa com o mesmo peso com que cheguei. Concentro-me no regresso ao trivial, que é onde a maior parte das coisas se movem e estão à vista de todos. Basta-me sacudir toda esta areia de perseverança, que me incomoda, colocar a pequena mochila às costas e pôr no semblante o sorriso que sempre guardo para os momentos em que me quero parecer com os outros.

Não me despeço dos pescadores, nem do mar, nem do céu, ou da areia. Parto sem olhar para trás, pois sei que as despedidas deixam-me sempre angustiado. Um dia voltarei e, dessa vez, trarei uma cana a sério, muito isco, balde, e tudo o que é necessário para pescar. Por ora, só quero tornar a casa com os pés calçados de subtilezas, antes que cheguem as parábolas da noite e me perguntem o que é feito da minha farta pescaria.



Leiria - escrito no verão de 2006

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Olhar de menina



Gostava de saber chorar como tu choras encostada ao ombro de alguém, com um olhar de menina que não chega a ser um olhar de desculpas pelo que fez, mas um olhar de certezas e de direito por chorar. Gostava de me comportar contigo como fazes comigo. Com uma ternura austera que me prende mas nem sequer desafia.

Por vezes empreendes um espírito distante que me deixa completamente impotente. Nunca serei capaz de te dizer que não, se quiseres que seja sim, nem vice-versa.

Às vezes rio-me do que dizes. Pareces-me ingénua e irracional e pergunto-me, por quanto tempo serei capaz ou poderei continuar a sentir-me apertado, como se toda a atmosfera me comprimisse contra mim mesmo pela tua imagem.

Olho para ti e penso que te conheço tão bem, como se existisses desde sempre comigo. Que nunca poderás ter uma reação que eu não possa prever.

Apetece-me dizer-te tudo o que sei e não sei sobre ti...

Porém, só posso ter a certeza de que te conheci e que os momentos passados estão assegurados. Já tinha desejado conhecer-te. Que passasses por mim e soubesses que eu não era igual aos outros. Que existia.

A ideia de que te atraio e conheço é cimentada cada dia que passa. Como se fosse uma parede que lentamente se vai erguendo a cada tijolo que é posto e um dia me condicionará a vista. Temo este muro apesar de continuar a construí-lo. Sei nitidamente que sou eu quem o constrói.

Sei o teu nome, vigio-te os gestos, os olhares, tudo. Quando não estás faço suposições acerca do que dirias, do que farias. Reconheço-te a voz, o andar, o toque macio da pele, a respiração, o olhar calmo, o espírito inquieto que ninguém pode adivinhar. Pergunto-me se valerá a pena aproximar-me ainda mais desta miragem.

Por vezes imagino que nas ruas da cidade há uma pessoa perigosa escondida atrás de uma esquina para me fazer mal. É assim que te imagino. És tu a pessoa perigosa.

Em cada paixão há frascos de veneno que são postos em copos com água, que nos é dada a beber quando menos esperamos. E depois perguntamos, porque é que não segurámos um pouco mais a sede? Porque existem erros de sincronização entre o racional e o prático?

Eu queria ser uma criatura inteligente, criada a partir do e para o cérebro. Para a idealização e celebrização das ideias. Lamento não o poder ser. Queria ser envolvido pelo teu olhar cúmplice, pelos teus braços, sentir-te o hálito quente e ficar assim pacientemente para a eternidade. Sacrificar tudo. Nunca mais sentir a humidade do inverno nem o calor excessivo do verão.

És sobretudo, penso agora, a minha maior dúvida, tudo aquilo que gostaria de resolver. Procurar-te naquilo que me mostras e acabar por te descobrir naquilo que inventei.

Consideras que o pior defeito que tens é suportar a solidão. A enorme capacidade de não teres pessoas contigo. Orgulhas-te de ser humilde. Eu orgulho-me de me fazer e conseguir rodear de pessoas, quando preciso disso.

Gostaria de ficar a noite toda a escrever acerca de ti e para ti. Venerar-te mais. E fico triste pela incapacidade de o fazer, de o poder fazer, ainda que parcialmente nestas folhas. Só queria que antes de fechar o caderno batesses na porta - entra, diria eu - e me abraçasses como se abraça um menino, com a maior ternura que possa existir.

Mas as ilusões são comédias demasiado duras. É angustiante sentir-se que uma pessoa apenas nos dá a caridade de mantermos um sonho, perpetuá-lo, até que chegue a altura de o desfrutar.

Esperas pacientemente pela velhice. Eu gostaria de ser eternamente jovem. Poder cá estar quando tudo for diferente e fascinante. O passado é isso mesmo, só passado, só fascina os incapazes. Esses terão sempre medo do futuro porque não gostam de incertezas. Eu estou sempre à espera do futuro, sempre com os olhos postos naquilo que há-de vir. Eu queria viver no futuro porque nada me fascina daquilo que conheço. Estou sempre a querer andar depressa, de tal modo que às vezes me sinto obrigado a recuar para não sair do contexto.

Acaba por ser uma necessidade saber que não se está só. E que ainda avistamos os outros ao longe, mesmo que sejam apenas pequenos pontos quase a confundir-se com a linha do horizonte.

Queria falar contigo. Dizer-te como gosto de ti e como é tão fácil gostar. Seria tão difícil magoar-te. Mas não digo nada. Não o faço. Todas as palavras pareceriam fazer parte de um discurso ensaiado à entrada de um palco. E és tu quem prepara todo o processo da representação, com olhos e gestos cúmplices que parecem enlevar a sedução ou fascínio que me reservas. E eu confio-me a esse espetáculo quase exuberante que me preparas. Assumo o meu papel de ator que nunca representa, nem sequer conhece o papel que lhe cabe, que inventa a cena e o cenário. Crio e destruo situações efémeras, como um arrepio que passa. Depois, em silêncio, dedico-te tudo: cartas, poemas, desenhos. É quase uma vingança que guardo no lado mais obscuro e ao mesmo tempo mais nobre do génio. Por pouco que eu o seja.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Doce fantasia


O teu rosto era imaterial como o de uma virgem de Frei Angélico. De joelhos, em frente do altar do teu leito, oferecer-te-ia o sacrifício do meu amor. Nua do peso da carne, minha alma beberia delicadamente o néctar das tuas escondidas lágrimas. Não te assustes, querida. Aonde nos conduziria o vendaval do medo? Lembro-me do tempo em que o nosso amor arrulhava melodias azuis e róseas no silêncio dos nossos corações, ainda maravilhados do nosso encontro. Agora, a tua face, como a dos anjos e das virgens, reflete a ausência de carne. Não te assustes, querida, com as pequenas aves que andam sempre aos pulinhos na minha varanda. Elas gostam da minha casa, não sei porquê. Juro-te que, um dia, os teus olhos serão novamente iluminados pela jóia da vida e na ramagem azul-pérola do nosso amor florescerão, mais puros ainda, os nossos beijos. Quanto mais desenganos vejo no mundo das realidades, mais sublimes sinto as tuas mãos, a tua cara e o teu pensamento. Parece que do mundo que tinha imaginado, ficaste só tu; como se fosses tu este mundo e o resto somente quimeras. E este mundo que sobeja para mim, e que és tu, tornou-se superior ao que eu poderia imaginar. Somos duas malvas-rosas num jarro, adormecidos num estranho torpor, como agonizantes silêncios de cor. Já só sinto, cada vez mais ténue, a tua respiração ofegando dentro de mim. Sei que a tua pessoa está algures no cetim do firmamento e, por vezes, brinda-me com a sua presença através dos raios da lua prateada que odoram o beiral da minha janela. E, na minha varanda perfumada da tua luz, o meu olhar, de um salto, pousa em ti, beijando-te o rosto e as mãos. Parece que ainda sinto os lábios húmidos da delícia dos teus beijos. Doce fantasia!

Memórias de um puto xarila




Às vezes penso em Almada, a cidade da minha infância e juventude, a urbe onde saboreei os primeiros gostos e desgostos da vida, o Frei Luís de Sousa, o afamado externato onde frequentei o infantário e a primeira classe; e, mais tarde, o ano propedêutico, logo substituído pelo 12º ano, numa das maiores reformas do ensino do meu tempo.

Se fechar os olhos e me concentrar, consigo razoavelmente viajar no tempo e vislumbrar um puto vestido com uma bata azul, com um monograma com as letras RJ bordadas no bolso direito, um remoinho teimoso aprestado no cabelo, magrinho, baixote, enfezado, trajando calções justos e com uns caricatos sapatos de atacadores vermelhos nos pés. Esse puto xarila sou eu. Sempre a piscar os olhos, um tique que ainda hoje me habita, e a pestanejar por causa da luz insuportável do sol.

Com uma mala de cabedal afivelada às costas, parece que o estou a ver a caminho da escola, acompanhado pelo batuque ritmado produzido pela caixa de madeira, onde guardava os lápis, as canetas, o compasso e as réguas, a soar contra o interior da mala. Usualmente, acertava o passo por essa batida familiar.

Vivia-se o glorioso tempo das borrachas de cheiro que, além de servirem para apagar os erros, também espalhavam odores e sabiam a frutos diversos, que se cheiravam e, não raro, também se degustavam. Era o tempo das batas obrigatórias e das fisgas fabricadas com elástico de avião, das criadas arregimentadas na província, imaculadamente fardadas, que iam levar os meninos ricos à escola; das crianças que não usavam sapatos, mas possuíam calosidades tão espessas, que faziam inveja aos cascos de muitos equídeos. Uma época em que os ciganos roubavam o lanche aos meninos ricos, os berlindes multicolores, as moedas que lhes conseguissem sacar dos bolsos e os piões com que se faziam habilidades impressionantes - tornei-me um especialista na arte do pião, mais do que no futebol, desporto que nunca dominei. Era essencialmente o protótipo do puto solitário, fechado no meu pequeno mundo onde, diferente do não voluntarismo de um autista, criava conscientemente espaços interditos aos outros.

Muito por culpa da Enid Blyton, montava casas no cimo da copa das árvores, levava para lá livros, bolachas, uma almofada, lápis e papel para escrever, tudo acessórios capazes de me entreter durante uma tarde inteira. Era o puto xarila voyeur que gostava de observar do alto dos ramos, na segurança da folhagem espessa, tudo o que se passava lá em baixo, com a granítica certeza de nunca ser visto. E a sensação de poder que isso dava! O puto xarila que se deleitava a desviar carreiros de formigas com um pauzinho e que observava, com um espanto continuado, a forma como elas conseguiam, em perfeita união de esforços e coordenação, transportar um gafanhoto morto, com várias dezenas de vezes o seu tamanho e peso.

Também me lembro de seguir pessoas, escolhidas ao acaso, sem critério, numa qualquer rua da cidade e anotar a sua descrição física, onde moravam, e, quantas vezes, ter de fugir a sete pés da sua fúria, sempre que era descoberto a armar-me em sombra; furtar smiles e rebuçados no Pão de Açúcar de Almada, até um dia ser apanhado em flagrante e passar pela vergonha de ser resgatado pelo pai, com um puxão de orelhas e uma séria advertência - o pai, que até era amigo pessoal do chefe da polícia!; levar um ou dois despertadores para as sessões de cinema da meia-noite, na saudosa Incrível Almadense, e a meio da cena mais intensa - geralmente um daqueles filmes de terror série B, mais que rodados, cheios de estalinhos, tipo batata-frita e cortes - pôr os despertadores a tocar em simultâneo, provocando o quase desmaio de algumas espetadoras e o riso inevitável dos restantes.

Não têm fim as memórias do puto xarila e elas surgem às camadas, umas vezes em catadupa, outras por efeito de associações fruto do momento. Acabei de contar apenas aquelas que hoje me vieram no imediato à mente, numa espécie de brainstorming, sem peias ou crivo, mas muitas outras, se não a maior parte, estão a marinar na minha mente, entorpecidas, até um dia conhecerem a luz do dia...Não é verdade, puto xarila?

sábado, 13 de maio de 2017

Nostalgia



Sempre que vejo retratos, quando sinto cheiros - embora eu já quase tenha perdido o odor de outrora - quando relembro uma ou outra voz peculiar, quando fecho os olhos e deixo o meu pensamento vaguear, tenho saudades de tudo o que de positivo marcou a minha vida.

Sinto saudades de amigos, que nunca mais vi; de pessoas que nunca mais encontrei; sinto saudades da minha infância; sinto saudades do presente que não aproveito de todo, do futuro que, se idealizado, provavelmente não será do modo que eu penso que irá ser. Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi, daqueles que não tiveram como me dizer adeus.

Sinto saudades de tantas coisas boas...

Sinto saudades de uma gata angorá, com quem convivi durante nove anos e que gostava de mim incondicionalmente, como só os animais são capazes; dos livros que li e me fizeram viajar por paragens longínquas sem sair do mesmo lugar; das músicas que ouvi e que me fizeram sonhar; das coisas que vivi e que deixei passar, sem as ter gozado na sua plenitude, por incúria, imaturidade desperdício puro.

Se sinto assim tantas saudades é sinal de que (ainda) me sinto integral e vivo. É porque esperanço reincidir em muitos momentos felizes, pese embora já não forrados com o imaginário próprio de uma idade nefelibata.

Mas a vida pulsa-me nas veias, porque, se nós quisermos, ela é um permanente acontecer, traga-nos ela o que nos trouxer. Depreciamos o mau e superlativamos o bom; e viver torna-se o máximo! Chama-se a isto equilíbrio, 'keep the balance', como dizem os psis.

Até que me provem o contrário, não conheço coisa melhor do que viver!

(excerto de um longo texto escrito há cerca de 10 anos, algures no Barreiro)

O apanágio do escrevente sobrevivo




Durante imenso tempo ficou incapaz de escrever uma linha que fosse. Começava a escrevinhar e logo parava. Tentou pensar em algo que lhe desse prazer contar, resolver-se por um tema que o aliciasse, agarrar uma trivialidade do quotidiano, um mexerico que fosse, e explorá-lo como se tratasse de um filão inesgotável, mas parecia não haver nada que lhe despertasse a vontade de acender um texto. Sentia, com uma intensidade nunca antes experimentada, o horror da lauda em branco e as ideias não lhe fluíam. Eram mais as frases que apagava do que aquelas que conseguia manter; e, mesmo essas, não duravam muito, pois começava a modificá-las a tal ponto que acabava também por as erradicar, sem que chegassem a ser luz duradoura com consistência suficiente para alumiar um escrito.

Via-se como o pianista que se lhe entorpeceram os dedos e já não consegue fazer soar notas nas teclas, teimando deitar culpas ao piano que não presta, ao assento que é desconfortável, a um ruído exterior que lhe abala a concentração. Então, abandonava-se durante minutos, que lhe pareciam laivos de eternidade, vagueando o olhar no ecrã em branco, até que a luminosidade sem matizes lhe fazia perder as forças para continuar.

Depois, apagava tudo o que luzisse em seu redor, despia-se, metia-se na cama, envolto num cordame de lençóis de sonhos, e tentava dormir embalado por músicas que escolhia por soltarem halos de inocência e serenidade.

A tristeza surgia-lhe logo pela manhã, pontual, incontornável. A princípio era uma coisa tímida, sorrateira, ensonada, mas de seguida, já mais afoita, entrava com à vontade e pujança triunfal nas caves da sua alma, agora exausta por excesso de vacuidades. Escrever em público sobre o sofrimento que o assolava afigurava-se-lhe um pecado de exibicionismo moral e hesitava entre fazê-lo ou quedar-se para sempre no silêncio.

Pensou mudar de vida, dedicar-se à especulação imobiliária, ao comércio de antiguidades, ao negócio livreiro; enfim, a qualquer coisa que servisse para o convencer de que o néctar da sua imaginação se tinha esgotado. Porém, não consegui e voltou a escrever. E desta vez escreveu sobre a lua, personificação de muitos dos seus caprichos, astro que amiúde o olhava através da janela, depois de descer sem ruído da escadaria de nuvens e sussurrava-lhe: «Gosto de ti, criança!»

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Hélio Isidoro Catalão Marofas




Chamo-me Hélio Isidoro Cassiano Marofas. Nunca gostei do meu nome. Quando me perguntam o que faço na vida nunca sei ao certo o que responder. Sou fazedor de códigos. Tirei uma licenciatura em jurisprudência há mais de trinta anos e, passados que foram mais de vinte anos de ensino público, dediquei-me a esta tarefa inglória. Atualmente é com isto que governo a minha vida: compilo legislação, recolho leis avulsas, reúno coletâneas, plagio códigos e limito-me a oferendar-lhes um preâmbulo cujo título começa invariavelmente pelas mesmas palavras: nota do autor. O autor não pode ser a minha pessoa, como é evidente; e é aqui que começa a desonestidade inteletual e a trama da culpabilidade que se desenrola dentro de mim.

Arrogo-me autor de leis arquitetadas por juristas cujas identidades se perdem no tempo, diplomas que foram mais tarde modificados por outros; gentes que labutam no anonimato nos gabinetes esconsos dos ministérios e cujos nomes nunca vêm à ribalta. Tenho a ousadia de fazer editar códigos jurídicos com o meu nome impresso na capa, como se tratassem de realizações saídas da imaginação e labor de um autor de prosas. Sirvo-me indecentemente dos meus estafados pergaminhos académicos e das influências que granjeei junto das editoras da especialidade, para juntar umas patacoadas, a título de intróito, e dar a uma coletânea legislativa o privilégio de me ter como seu pretenso progenitor.

Os meus colegas dizem-me para não me sentir assim. Dizem eles que até um código carece de alguma humanidade e é um beneficio que se concede à aridez das regulas dar-lhes um nome, uma paternidade. Ganho bastante dinheiro com este mecanismo fraudulento e sei de antemão que é o meu nome que vende e não a qualidade da falácia do meu trabalho – que nem existe!

Moro só e tenho caspa abundante no cabelo. Já fiz sessenta e dois anos e não tenho mulher, filhos, nem pretendentes a uma coisa ou outra. Sou aquilo que se pode chamar um homem desinteressante, credenciado pela mediocridade institucional de uma escola de propaladores de doutrinas alheias. Aprendi, como todos, a arte e o engenho da reformulação, a dar a entender que aquilo que escrevo é algo original e não a redundância clássica do lente universitário que precisa inaugurar uma escola para sobreviver como tal.

Atualmente estou de férias na Patagónia, planejando mentalmente um homicídio, ou talvez isso seja só um desejo insano que nunca terá concretização. Nem sempre o corpo docente de uma Universidade se anima de boas intenções. São conhecidas as rivalidades, os extremos da maledicência, a teia da intriga em que se desenvolvem e encontram-se aí exemplos de baixeza sem par, mantidos sotto voce, felizmente ignorados pelos discentes e pela gente em geral. No entanto, os casos em que se resolvem por homicídio são, quero acreditar nisso, bastante raros, constituindo uma exceção. Não gostava de ficar conhecido como o professor assassino mas, por outro lado, o que tenho eu a perder?

Um colega mais novo, cheio de mestrados e doutoramentos obtidos em universidades americanas, anda a arruinar-me o negócio próspero das edições. Será que ele não se apercebe que nestas coisas há monopólios, uma primazia tácita dos mais velhos face aos que ainda não chegaram às luzes da ribalta e à maturidade de um final de carreira?

A vingança não é uma modalidade criminosa simples. É muito subjetiva. Fundamental na vingança é que o objeto do ódio tenha a perspicácia de dar por ela. Se cremos que nos vingámos e o outro prossegue na sua vida bonaçoso, indiferente, então não nos vingámos. Isto implica um conhecimento profundo do sujeito de quem pretendemos vingar-nos. Mas o que é o nosso conhecimento do outro senão um caos de interpretações, de pressupostos, de hipóteses, de mal-entendidos, pousados eles mesmos sobre uma série de omissões, máscaras, de silêncios, de vazios? É um estranho conhecimento, uma quase ignorância. Não é o medo da retaliação que me impede de me vingar dele. É antes este aspeto contingente.

Quando regressar destas férias auscultarei a minha real vontade. Para já, faltam quinze minutos para a meia-noite e não quero perder por nada deste mundo a abertura dos Jogos Pan-Americanos. Já pedi que me trouxessem uma garrafa de rum cá acima ao quarto. O reclamo luminoso do hotel está quase a fundir-se e receio que não passe desta noite. Agradeço à divina providência que tal suceda, pois já não suporto mais a intermitência do néon abusando da paz interior do meu quarto noite dentro.*





* Buenos Aires - ficção escrita em 2006


A epístola que encontrei escrita no rasto de uma estrela cadente




Peço à luz que me guarde e me mantenha fora do alcance das sombras, pois sempre que me entrego às memórias das nossas imagens juntos a minha pulsação abranda. Já quase não escuto o bater do meu coração. Talvez que um dia tudo se desmorone, mas se eu for capaz de continuar a contemplar a beleza e a viver na esperança do amor, não sucumbirei, pois são as únicas justificações irrefutáveis do ser.

Gostaria de acelerar o decorrer do tempo mas consigo apenas eternizar o presente. Evado-me de tudo o que este me mostra, desinteresso-me. E o presente, vazio de qualquer encanto, parece-me aborrecido. O verdadeiro amor exige intrinsecamente situar-se numa dimensão que ultrapassa os limites do tempo. E amar não é mais do que a expressão desse desejo de eternidade.


Ainda que o nosso espírito se desvaneça no dia da nossa morte como uma faúlha que se liberta do fogo, teremos, ainda assim, conhecido a eternidade durante o tempo em que sentimos o amor dentro de nós. E a eternidade de que falo consiste tão simplesmente em aproximar-me dessa luz de vida que é a inextinguível presença do amor...por ti.




* Barreiro - 2000

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Uma conversa particular


Não é fácil exprimirmos o que sentimos em todas as circunstâncias. Não é só um problema da língua, do ser difícil, traiçoeira, complexa, contraditória, ou tudo isso e mais alguma coisa. O dizermos, o que nos vai na alma, não passa de uma velha metáfora, despida quantas vezes de espiritualismo, mas pungente na nossa necessidade de afirmarmos, permanentemente, uma existência subjetiva e, de algum modo, transcendente em relação a uma entidade que nos espreita do outro lado do espelho; e que, tantas vezes, não identificamos nem reconhecemos como sendo a destinatária dos nossos expatriados pensamentos. O que nos vai na alma, ou, dito por palavras, o que sentimos, é um caudal iníquo e contraditório em que se misturam, de forma aleatória, quando não descontrolada, sensações, pensamentos, desejos, fantasmas, fantasias, medos vagos e outras coisas de igual ambiguidade. Os sentimentos propriamente ditos, aquele fluxo que medeia entre o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a tranquilidade e a inquietação, o desespero e a esperança, a inveja e a gratidão, habitam-nos como uma segunda pele e dão-nos, além do mais, algum sentido de existência e de coerência. Todos sabemos algumas coisas dos nossos demónios. Eu sei que preciso de fazer uma pausa para falar com eles - uma conversa em particular, como é evidente.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Pensamento à lá minute


Se acreditássemos piamente em tudo que se diz na imprensa escrita, na rádio e nos canais televisivos, viveríamos hoje em abrigos nucleares, não saberíamos que o sol continua a brilhar no planeta, crentes que estávamos que o mundo que conhecemos já tinha acabado de vez. Por mais pessimistas que sejam as previsões macro-económicas, por piores que sejam as estatísticas de crescimento económico, os cenários de aumento das desigualdades, da precariedade e do desemprego, que significado terá tudo isso perante a eminência da morte? Se retirarmos os óculos de fantasiar e olharmos para as coisas como elas são, logo veremos que o outono é o prenúncio do inverno e este, por sua vez, é o prenúncio da primavera. E, tal como as estações, toda a natureza das coisas obedece a esta fatalidade cíclica. Normal é que passada a tempestade venha a bonança e que depois da vida venha a morte. Para quê tanta preocupação se a vida é uma vela ao vento que se apaga com um sopro menos suave? Creio que uma das nossas maiores fatalidades é a de julgarmos que somos eternos, daí não conseguirmos enxergar a relatividade das coisas. Seriamos muito mais solidários, com um coração mais piedoso, se alguém conseguisse incutir-nos na cabeça, de uma vez por todas, que esta coisa de viver é uma passagem só de ida, com duração aleatória e sem bis no final.

(escrito algures num tempo que já não recordo)

domingo, 7 de maio de 2017

Derrames




Esta noite reservou-me uma experiência inolvidável, não porque tenha acontecido algo espantoso ou memorável e muito menos pela originalidade da situação. Mas foi o simples facto de estar ciente de que nunca antes o fizera, que me levou a sorrir interiormente perante o cliché da situação: a sensação forte de estar a bisar cenas cinematográficas e o quão ridículo de toda a representação. 

Cada vez mais, adoro rir de mim mesmo e divertir-me, inclusive com os pequenos ridículos que me integram; descobrir as minhas mais do que demasiadas imperfeições e trazê-las à luz quente do dia, cumprimentando-as com elegância e deferência, como se pelo simples facto delas existirem nenhum mal pudesse daí advir. 

As minhas metas de vida, no presente, são mais modestas, mas seguramente mais precisas e próximas da realidade possível. Já que a maior parte do nosso sofrimento advém da frustração de expetativas que criámos, com vista ao alcance de determinados objetivos que, posteriormente, se revelaram impossíveis de ser atingidos, há que abandonar a inflexibilidade como matriz e encarar, de uma vez por todas, a necessidade de ter um plano B ou C, fazendo da regeneração e da mutação fontes inesgotáveis de energia vital – possuir uma espécie de exército de reserva, apto a entrar em ação se as contingências assim o exigirem.

Muito a propósito, recordo Alberto Morávia, um dos romancistas que mais doirou o meu alvorecer como leitor e em especial um dos seus mais emblemáticos romances: "Le Ambizione Sbagliati".

Sempre me senti fascinado pela densidade psicológica dos personagens moravianos, num conflito latente, transversal com a mesquinhez, a ambição desmedida, o sarcasmo e tudo o que de mais sórdido há na natureza humana.

Também se cresce com as leituras, embora hoje seja para mim evidente que a experiência pessoal, mais do que a livresca, é a grande mestra. Desde que aprendi quão salutar é aceitar-me com as minhas enormes limitações, confesso, atirei às sortes do vento mais de metade das minhas misérias, vergonhas e complexos e já não vivo, nem quero mais, no limbo de desejos insanos que estou ciente não os poder materializar. Hoje sei, de fonte segura, pela lucidez que jorra, cada vez mais forte da torneira da minha experiência, que, pior que tudo, uma vez alcançados os objetivos a que nos propusemos, guindados pelas fasquias elevadas da nossa refinada vontade, não tarda, tudo se reinicia e a insaciedade reapodera-se de nós. Porque não determo-nos um pouco para "jogarmos" com os brinquedos que já possuímos, explorando-lhes as capacidades e aproveitando ao máximo as áreas mais soalheiras do quintal da nossa vida? O contentamento por vezes reside em coisas tão singelas, tão ao nosso alcance, que gastamos energias preciosas na busca incessante de "outras coisas", quando afinal temos bem pertinho de nós tudo quanto precisamos. Apenas carecemos dar mais valor e atenção ao que nos rodeia, porque a vida é efémera, porque o dom de ser nela participante é um bónus diário que nos é ofertado.

A experiência inolvidável que acima referi e que acabou por ficar por explicar, pois, uma vez mais, perdi-me na impudente tarefa de me arvorar o Deão da minha própria alma e enveredar por pensamentos sem regresso possível, não representa afinal nada de especial. Estava eu querendo dizer que levei o meu note book para cama – confesso que não foi muito difícil convencê-lo, pois acho, inclusive, que os computadores portáteis foram, de algum modo, concebidos para este tipo de licenciosidades –, abri-o sobre o cobertor mais grosso que me protege, o celebérrimo "Sogno Allegro" 200x240, 90% algodão - um agasalho transalpino que tem por logótipo um cartoon representando um casal com um ar demasiado intra-uterino, simultaneamente ensonado e feliz, trajando um pijama verde alface, chinelos no mesmo tom, a fazer pose frente a uma luazinha amarela em quarto minguante - e, umas vezes deitado de lado, outras de costas, com o computador sobre os joelhos; depois, já sentado na cama, apenas com dois almofadões a aliviarem-me as costas, lá consegui escrevinhar algumas coisas.

Já não sinto a atroz bigorna de uma tonelada e meia sobre a cabeça. Estou aqui para durar – e que seja a duração a escolher o tempo e o modo - mais intensamente do que muita gente que já se finou e ainda vagueia por aí como espetros ou representações do nada - quiçá não terão recebido a guia de marcha para outras paragens, mais aparentadas com o cinzentismo e conformismo biológico com que encaram a dádiva que é a vida.

Leiria - 2014

Amas-me porquê?



"Amo-te porque sim. Porque os teus olhos parecem dois favos de mel; porque as tuas mãos são ternas e quentes; porque os teus cabelos são macios como fios de seda; porque o teu sorriso é lindo e cativante; porque, na fímbria do teu olhar, e em ti em geral, descubro sempre coisas que me fascinam."

"E és sempre assim complicado a explicar o porquê de amares alguém, isto é, tens sempre que dar grandes explicações e não és capaz de dizer apenas: amo-te porque simplesmente gosto de ti?"

"Não, e acho que já faz parte da minha natureza, esta forma insurreta de complicar coisas convencionalmente simples e derramar palavras como se fossem jorros de água a brotarem de uma nascente.”

“És poeta?”

“Não. Porque perguntas?"

"É que a forma como te expressas…parece que tens muitas palavras dentro de ti que tens necessidade de as trazer cá para fora. Gostava de saber chorar como tu choras. Eu sou muito dominada do ponto de vista emocional. Acho que não choro desde criança."

"Mas, e se eu fosse poeta, tal mudaria alguma coisa? Gostavas que me comportasse contigo como fazes comigo. Com uma ternura austera que me prende mas nem sequer desafia? Às vezes rio-me do que dizes. Pareces-me ingénua e irracional e pergunto-me por quanto tempo serei capaz ou poderei continuar a sentir-me apertado, como se toda a atmosfera me comprimisse contra mim mesmo, pela tua imagem, pelo teu egocentrismo, pela forma como encaras o mundo: é ele que gira à tua volta e não tu que gravitas em torno dele."

"Cada pessoa é única e eu sou como sou, assim como tu és como és. O que interessa, ao cabo e ao resto, é que cada um de nós seja feliz na sua forma peculiar de ser.”

"Nisso tens razão. Fiquemos então por aqui..." 

sábado, 6 de maio de 2017

Edelweiss




Ontem, em Leiria, passou por mim uma mulher. Tinha os olhos perfeitamente azuis, como dois lagos profundos, os ossos da cara largos, os lábios desenhados e vivos, com um andar desengonçado e um indisfarçável ar germânico. Presumo que fosse alemã ou austríaca.

Recordei uma das minhas primeiras viagens feita há bastantes anos à Áustria. Em Salzburg, armado em saloio, fui visitar, entre outras maravilhas, o Palácio da família Von Trappen – um percurso lindíssimo pela montanha – e, tal como todos os camaradas turistas, engoli todas as historietas que a guia local, que falava um péssimo castelhano, entendeu contar – o meu alemão é deplorável e datado.

Edelweiss, sim é esse nome que tinha em mente, é uma flor que se pode encontrar no alto das montanhas e Alpes da Suíça, da França, da Áustria e da Itália. Desenvolve-se de modo espantoso nos cumes mais elevados da montanha e o seu nome significa "branco precioso", pois trata-se de uma linda flor em formato de estrela.

Dizem que quando se quer presentear alguém com algo que signifique amor ou amizade eterna, oferece-se uma flor de Edelweiss a essa pessoa, a flor eterna. Diz-se, também, que a sua duração, depois de seca, é superior a cem anos.

Tenho uma Edelweiss, dentro de uma caixa de vidro, adquirida há cerca de 18 anos numa loja de lembranças, em Salzburg, na Áustria, e, realmente, não noto que tenha ocorrido qualquer mudança na sua morfologia desde então. Hoje, mesmo, li – facto que desconhecia em absoluto – que a dita flor já é considerada Património da Humanidade, pela sua raridade e carga simbólica que encerra. Sei que a Edelweiss inspirou poetas um pouco por todo o mundo e uma das composições mais lindas e intemporais é essa que leva o nome da flor: "Edelweiss" - tão bela e emocionante quanto a flor. A música é da autoria de Richard Rodgers e Oscar Hammestein, e é realmente maravilhosa. Pertence ao musical The Sound of Music, de 1959, interpretada por Christopher Plummer, que todos quantos pertencem à minha geração recordam - " Música no Coração" e em "brasileiro", o nome mais foleiro com se podia batizar um dos filmes mais premiados de sempre: "A Noviça Rebelde".

Nem sei porque me saiu este lampejo de escrita às 06h00 da manhã...

Terapias - a alternativa




Se há algo que me conforta sempre que estou debruçado no varandim que dá para o interior de mim, são os momentos em que fecho os olhos e deixo-me invadir pela música. Os temas imemoriais de Mozart, Bach, Vivaldi, Puccini, Gershwin, Tchaikovsky, entre vários autores que tanto admiro, têm esse especial condão de transformar em leveza as máculas mais pesadas que infernizam a minha tranquilidade. A música clássica tem essa mágica: azula os negrumes que por vezes me assombram, com rasgos de felicidade que invadem e restauram a frescura e o esplendor vital que careço sentir.

O choro clamoroso dos violinos, os violoncelos, os cravos, as harpas, conseguem, ainda que por momentos, transportar-me até perto da amostragem do ideal de “mais belo” – a estética elevada à excelência – que há muito persigo como a meta daquilo que julgo ser a felicidade suprema: uma espécie de concórdia harmoniosa, de convergência universal, onde a mediocridade cede lugar à qualidade e o aperfeiçoamento é exemplo a seguir.

Esta musicoterapia, que augura boas sensações, pouco tem de inovador. Há muito que se apontam as propriedades benéficas da audição de certas músicas no espírito humano e também no comportamento animal. Basta relembrar-nos das experiências obtidas em vacarias no que respeita à qualidade e aumento do leite produzidos. A diminuição do stress faz com que as vacas produzam mais e melhor leite e já há explorações pecuárias, em certos países da União Europeia, onde é comum entrar numa vacaria ao som de uma Rapsódia de Rachmaninov ou da Ave Maria de Schubert.

Já se fala da hipoterapia, ou da capacidade dos equídeos favorecerem a cura de certas maleitas do espírito e de doenças do foro cognitivo em crianças, a par talassoterapia e da oftalmoterapia, entre tantas outras técnicas inovadoras e revolucionárias.

Mas todas têm um objetivo comum: o coadjuvarem os tratamentos conducentes ao bem-estar e à descompressão, provocados pela violência antinatural da sociedade moderna, perfeita na criação de criaturas autómatos, monstros desprovidos de criatividade ou capacidade de autodeterminação.

Nós, ou alguns de nós, onde eu me incluo, não estamos impermeabilizados contra a violência extrema que representa a obrigação de desempenhos quotidianos que pouco ou nada tenham a ver com as nossas formas naturais de expressão. E é por vezes esse choque de contrários, esse dilacerar de vontades – ato de violência reiterada que nos obriga a fazer algo completamente desajustado da nossa vocação natural - a fonte mais ignóbil dos nossos maiores padecimentos.

[Nunca fazer cedências totais às provações (incontornáveis) impostas ao EU, mas, pelo contrário, preservar intata, custe o que custar, a capacidade de expressão do «ser genuíno» - aquilo que vale!]

É esta, porventura, a condição de coerência que julgo ser necessária para a sobrevivência nesta sociedade poluta, que esmaga com regras ditosas que não escolhemos, mas que, para o bem e para o mal, é nela que habitamos e é a ela que temos de nos adaptar ou... ensandecer.

É à música, que amiúde oiço e me diviniza, como um astro luminoso grafado com a maiúscula de Sol, que devo esta homenagem: uma núbil estrela da beleza, esmaltando de oiro e calor de aconchego o fiar dos dias menos azuis, que teimam, por vezes, anuviar os momentos em que a contrariedade em mim prevalece.*



* Uma janela com vista para o mundo - Leiria- 2013

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Tempus fugit


Ocupamos de tal maneira o tempo que passamos na vida, que ficamos com a sensação de que ele não chega para nada. Nunca temos tempo suficiente para fazer tudo aquilo que queremos. No entanto, quando ousamos parar um pouco, talvez, no fundo de nós, algo nos pergunte: Para quê esta pressa, esta necessidade de fazer tantas coisas? O que é que, afinal, isso me traz de importante?; e, sobretudo, onde é que acaba por me levar? 

Uma das grandes preocupações do nosso "estilo de vida moderno" é não perder tempo. Aproveitar ao máximo todos os minutos. Chegar a tempo, ganhar tempo, mesmo sem saber de quê nem para quê. Quando não havia eletricidade, aquilo que fazíamos era mais comandado pela luz do sol do que por outras pressões exteriores ou obrigações a cumprir - embora muitas das criações mais geniais da literatura universal tenham sido escritas à luz de candelabros de velas ou de lamparinas de azeite. Mas é um facto que o dia era mais vivido enquanto tal, e a noite mais sentida como noite. E pela existência dessa dicotomia recortada, desses tempos opostos e complementares, tal permitia-nos descansar e ganhar um maior equilíbrio.

Acontece que o tempo não se perde nem se ganha, ele simplesmente passa e a única coisa que nos convida é que o aproveitemos, não no sentido de fazer o maior número de coisas possíveis, mas de o gozar nas atividades que maior prazer nos proporcionem.

Deleitar-nos com detalhe numa atividade, fica muitas vezes prejudicado pelo afã de querermos fazer muitas coisas. E às vezes esta necessidade frenética de nos mantermos sempre ocupados, mais não é do que uma forma sub-consciente de anestesiarmos pensamentos, infelicidades, ausências, e/ou colmatarmos carências de outra ordem. O melhor que temos a fazer é aproveitarmos para dar um novo rumo à nossa vida, esquecendo, ainda que por instantes, que ela é finita, e concebendo os nossos sonhos como concretizações ainda capazes de ter lugar na réstia do tempo. Mas para tal é necessário apelar à coragem, à incomodidade, pois sem estes atributos a funcionarem em pleno não conseguimos mudar seja o que for.






quinta-feira, 4 de maio de 2017

O que é o amor?




Quantas vezes já alguém terá tentado definir o que seja o amor? Acho que não devem ter conta os ensaios escritos para a definição correta do vocábulo, e muito menos as tentativas para explicar o conceito. Por isso, perante reflexões bem mais aprofundadas que já foram proferidas sobre o assunto, não tenho a veleidade de me achar capaz de ser o arauto de uma interpretação mágica, finalistica, nem tão pouco pretendo com estas palavras inovar no que já foi dito por tantos ao longo dos tempos. Trata-se tão-somente das minhas preleções sobre o tema - um assunto que me é muito caro - e talvez seja isso o que me importa.

Amar uma mulher é um dos sentires que me faz mais feliz. Não tenho dúvidas sobre isso e, se algum dia as tive, com o avanço da idade, da experiência que tenho acumulado com o rolar dos anos, cada vez me convenço mais da certeza desta afirmação. É, porventura, das poucas certezas que nesta idade ventruda alicercei como uma certeza inabalável: o amor é redentor.

Ainda há pouco tempo - uma afirmação que me era muito grata e que creio ser da minha lavra genuína, escrita em algum dos muitos textos que por aí vou deixando espalhados, pois não recordo de a ter lido onde quer que fosse - dizia eu a algumas pessoas com quem entabulava conversas mais profundas, que não sabia ao certo o que queria da vida, mas de uma coisa estava sempre certo: sabia sempre com clareza enunciar aquilo que não queria fazer, que não queria que me sucedesse, os caminhos que não queria trilhar.

Acabava por ser uma postura algo redutora, pois há coisas que não queremos, por julgarmos que elas são fonte de infelicidade e acabamos por descobrir que, afinal, elas são potenciadoras de alegrias que nem suspeitávamos vir a poder sentir.

A certeza da relatividade das coisas, o abandono de posições demasiado extremadas, uma tolerância maior que nos surge sem ser anunciada, tudo são sinais de sapiência e maturidade, ganhos com o rolar da idade.

Hoje, acho que estou em condições de poder afirmar, com segurança e convição, que quero dar e receber amor e que essa permuta é a permissa irrevogável da minha condição de homem feliz e criatura maiúscula. Mais do que tudo, sem descurar a boa saúde, a satisfação das necessidades que considero essenciais, sei que sem amor - amar e ser amado, entenda-se - sou um ser amputado, uma espécie de planta sem nutrientes, que vai murchando de dia para dia e sobrevive por mero desígnio do acaso, à sorte da misericórdia de umas gotas de água que mal lhe chegam ao caule.

Para mim, os dias felizes são azuis. Claro que isto não passa de uma opinião. Haverá quem defenda os dias plúmbeos, com maciços de núvens baixas a ameaçar que o céu nos vai mesmo cair em cima da cabeça. E haverá, seguramente, quem se renda aos dias chuvosos e escorregadios que transformam as casas aquecidas em portos de abrigo seguros e tranquilizantes. Para mim, insisto, os dias felizes são os dias azuis; e espero por eles, choro por eles, ou vou à procura deles onde quer que eles estejam, às vezes bem longe de mim...

Há muitos géneros de amor. Acho que nisso todos estamos de acordo e, de uma forma geral, sabemos distingui-los. Mas, referindo-me mais em concreto ao clássico amor entre dois seres humanos, quando será possível termos a certeza de que o sentimento que nos assola é de amor e não de outra coisa qualquer, partindo do pressuposto que já sabemos o que ele é e, em consequência, conseguimos reconhecê-lo? A dúvida corróis-nos e ensaiamos definições de amor, paixão, química, deslumbre, com a mesma necessidade do rótulo que o analista tem de conferir aos seus pacientes.

O amor é um sentimento muito forte. Talvez seja o sentir mais intenso de que somos capazes, embora haja quem diga que o ódio ainda consegue reverberações maiores. Sobre este último não me pronuncio, pois acho que nunca odiei alguém, ou se tal aconteceu não durou mais que instantes. Quando me magoam imenso, é sempre a indiferença que se encarrega de me apaziguar, pois tenho o condão de «liquidar» as pessoas que me são hostis, ignorando-as e fazendo com que se mantenham longe ou desapareçam do meu horizonte visual e do meu pensamento. Desprezo, afasia, indiferença, são estados de alma que aprendi a gerir com mestria e sei que o tempo encarra-se de transformar a minha dor presente nalgum destes sentires, ou em todos em simultâneo.

Querer muito uma pessoa, desejá-la sexualmente, sentir uma ternura e uma vontade irreprimíveis de estar perto dela; ter vontade de lhe fazer bem; preocupar-se com o seu bem-estar; com tudo quanto lhe diga respeito; admirá-la; possuir uma vontade de partilha quase integral; gostar das suas virtudes - e até dos defeitos - é, quem sabe, um estado muito próximo daquilo que entendemos ser o amor; e muitos de nós, felizmente, já o experienciaram.

Sem querer, ensaiei uma definição, embora algo tosca, daquilo que é suposto ser o sentimento de amor entre um homem e uma mulher, ou entre dois homens e duas mulheres, que a diferença não existe, e confessei a importância que esse preenchimento tem para mim.

Amar é sublime. É, talvez, o sentido da vida que muitos procuram no lugar errado e, por vezes, está tão ao alcance de cada um de nós. Basta ser bom.

sábado, 29 de abril de 2017



Tempos houve em que a verdade era mais que o antónimo da mentira. Já se acreditou, inclusive, que a verdade era uma espécie de quinta essência, um âmago de sentido, que justificava uma busca grandiosa, que tornava o caminho da vida num percurso de aperfeiçoamento e crescimento em direção a uma qualquer transcendência que faria de todos nós seres maiores e melhores. Acontece que, nesta época feérica em que vivemos, o desgaste do conceito atinge tais proporções que uma mentira, se dita vezes sem conta, acaba por se tornar verdade.


Nos nossos dias, deixou de ser preciso dizer a verdade e as elites que nos governam, aqueles que têm nas suas mãos o poder de escolher os desígnios e as políticas que nos vão reger, são os que em primeiro lugar nunca dizem a verdade. Passámos a encarar as mentiras de um alto governante, de um deputado, de alguém com responsabilidades sociais intensas, como algo natural, normalíssimo até. Já não acreditamos em intenções vitalícias e é (quase) lícito prometer uma coisa agora e no dia seguinte quebrar o compromisso assumido.

E esta falência da verdade é correlativa à emergência da disfuncão aflitiva dos órgãos de cúpula que nos regem, que toleramos e com os quais nos habituámos a viver, não desperdiçando mais do que um simples encolher de ombros quando alguém nos pergunta se, ao menos, nos questionamos: "O que hei-de eu fazer?".

Lírico eu? Talvez, mas a História prova-nos que só as revoluções conseguem operar as ruturas necessárias para extirpar os cancros do tecido social. Se assim é, venham elas!

Vitória ou muerte! (onde é que eu já li isto?)


Nunca deixes de ser a água doce,
desnuda a tua franqueza cristalina
ri quando te apetecer rir,
e chora por dor,
não deixes presentes por desembrulhar,
rasga o papel dos teus sonhos,
deixa-te levar pelo amor,
sê o teu "Deus Super Omnia",
amabile contigo mesmo,
pois tu és o teu improviso,
o farol que ilumina o voo da ave,
o vencer ou morrer por ser,
o propósito de toda a expressão,
a carne feita da tua carne,
aquele que se permite mais do que é justo


(escrito em 2009 . Barreiro)

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Espelho meu...


partir de uma certa idade, parece que o processo que dita o nosso envelhecimento multiplica-se de forma geométrica; e, em cada dia que passa, quando nos olhamos no espelho, achamo-nos mais envelhecidos. Dando por adquirida a verdade de que a fonte da eterna juventude nunca passou de uma efabulação literária, temos de aceitar que o encarquilhar da face, o branquear dos cabelos, a proeminência do ventre e a perda gradual da energia, são realidades com as quais temos de lidar; e, sobretudo, encará-las como fazendo parte de um processo gradual ao qual nenhum de nós consegue escapar.

Dizem, talvez para amortecer o desânimo que nos toca, que envelhecer tem os seus encantos e que os ganhos de maturidade e experiência de vida, de certo modo, contrabalançam o que se perde em vivacidade. O ideal seria, sim, conservarmos a juventude e a experiência, entretanto adquirida. É por isso que existem os ginásios, que se têm multiplicado como cogumelos, muito frequentados por cinquentões e cinquentonas, obstinados em não aceitar as sequelas naturais causadas pelo processo de envelhecimento.

Nada tenho contra os ginastas cinquentenários e saúdo todas as práticas em prol da saúde. Que isso fique bem claro. Acho, sim, patética, a atitude de certos figurões e figuronas, alguns bem conhecidos na nossa praça, que se pintalgam de loiro platinado, colocam perucas e capachinhos, fazem enxertos capilares, usam jeans rasgados e, acima de tudo, adoram serem descorados pela magia do photoshop. São pessoas que renegam infantilmente a idade que têm e nem se apercebem o quão ridículas ficam ao fazê-lo.

Há várias formas de encararmos a chegada da “idade da razão”, umas mais positivas do que outras, mas ficamos quase todos com uma tremenda necessidade de nos sentirmos seguros.

A perda da beleza é, mais do que nos homens, o maior pavor das mulheres. E o que é belo, como todos os conceitos difíceis, está muitas vezes para lá do que se vê. Há quem ache que o belo tem um caráter essencial, que se presume, tão indefetivelmente como tudo o que é importante e que, por isso mesmo, diz muito mais sobre aquele que contempla do que sobre o objeto de admiração. Daí a afirmação de que a beleza está nos olhos daquele que ama. Se for assim, quer dizer, se a beleza for o sintoma de uma rendição afetiva, então entramos num outro registo valorativo em que o sensorial manda.

Mas para lá da subjetivação do que seja ou não belo, existe certamente um conceito objetivo do que seja a beleza e a fealdade; ou seja: ninguém pode, sem usar de má fé, dizer que determinada atriz, eleita popularmente como uma sex simbol, é objetivamente feia. E é no retorno da (nossa) imagem, que o espelho nos dá todos os dias pela manhã, que reside o grosso de todos os nossos pavores: “Espelho meu, há alguém (ainda) mais feio do que eu?”

(escrito algures no ano passado)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sexually Exploited Children



Uma das minhas leituras do momento é um livro impressionante, na sua versão original em inglês, 'Sexually Exploited Children' - desconheço se existe alguma tradução para a nossa língua -, escrito por Phyllis Kilbourn e Marjorie McDermid, duas pessoas intimamente ligadas ao fenómeno, pertencentes à Associação de matriz católica, 'Rainbows Hope', que se dedica maioritariamente à denúncia e ajuda de crianças vítimas de abusos sexuais.

O livro, como o próprio nome indica, trata da tragédia de mais de um milhão de crianças forçadas todos os anos à prostituição, estimando-se que mais de dez milhões de crianças em todo o mundo sejam vítimas da indústria do sexo. Desde o incesto, ao rapto, ao tráfico, à venda das chamadas 'crianças noivas', à mutilação genital, à pornografia, à escravatura e à sujeição a doenças infeto-contagiosas, de tudo as crianças inocentes são vítimas. E este negócio, apesar do incremento dos esforços das Nações Unidas e das ONGs, tem vindo a aumentar em cada ano que passa.

A Tailândia, a Índia, o Bangladesh, as Filipinas, o Laos, o Cambodja, o Vietname, o Sri Lanka e a China, situados no sudoeste asiático, bem como a Colômbia e o Brasil, na América do sul, são os principais países fornecedores da matéria prima para este chorudo negócio. Pelos motivos mais variados, estejam eles ligados a fatores de pobreza extrema, tradições culturais, corrupção, ou desrespeito absoluto pelos Direitos Fundamentais das Crianças, é um facto que, sobretudo nestes países, a proporção de crianças abusadas, vendidas e obrigadas a prostituírem-se em bordéis, é assustadora.

Hoje, o turismo sexual - sem procura não existe oferta - é, talvez, o principal instigador do fenómeno. Calcula-se que cerca de 700 mil ocidentais, sobretudo homens, viajem todos os anos para um destes países para terem sexo com crianças, uma vez que nos seus países de origem as leis são muito mais duras, as autoridades mais atentas e o estigmatismo social para com os pedófilos extremamente severo.

A Pedofilia, cujo étimo vem do grego e quer dizer literalmente 'amor pelas crianças', tem hoje um significado totalmente diferente. Trata-se de uma perversão sexual na qual a atracão sexual de um indivíduo adulto ou adolescente está dirigida primariamente para crianças pré-púberes. É encarada pela psiquiatria como uma patologia, um desvio sexual e classificada como uma desordem mental e de personalidade do adulto; mas face à consciência da ilicitude do ato e à possibilidade de escolher entre o praticar ou não, é severamente punida pela lei penal da maioria dos países, onde é igualmente considerada um crime público - que não carece de queixa, ou independente de queixa. Nos países acima descritos, onde a corrupção é transversal a toda a sociedade e em que na maioria das vezes os governantes têm lucros chorudos provenientes da exploração sexual, é fácil a impunidade.

Há na atualidade um debate aceso sobre o fenómeno da pedofilia e a hipótese da castração química dos prevaricadores tem sido aventada nos debates parlamentares de alguns países. A tese pacificamente acolhida tem sido a de que a concordância do pedófilo é sempre necessária e fundamental. Uma vez mais, mal-grado a minha formação jurídica e as injeções maciças de Direitos Fundamentais e da Personalidade que tive de estudar e engolir, não concordo com a desproporcionada proteção e garantia dada aos arguidos e aos condenados, face aos direitos das vítimas, a que se assiste na maioria das legislações penais das sociedades ocidentais.

Se a maioria dos cidadãos trabalha, paga os seus impostos, vive segundo as margens e os balizamentos sociais e obedece aos códigos de ética, social e legalmente aceites, de forma pacífica, tem o legítimo direito de ver a proteção da sua vida e dos seus bens primariamente reconhecidos. O prémio justo para com aqueles que vivem dentro das margens da lei, que não cometem crimes e que pagam o seu tributo social através dos impostos e das taxas, seria a existência de uma legislação penal pouco branda para com os criminosos e verdadeiramente desencorajadora da prática de crimes.

No caso dos pedófilos reincidentes, a castração química deveria ser sempre uma medida penal acessória do cumprimento de uma pena de prisão efetiva, sem carecer do consentimento prévio do prevaricador.

Enquanto não tratarmos os criminosos como criminosos, enquanto não nos decidirmos a premiar os cumpridores e punir eficazmente os faltosos, caminharemos paulatinamente, mas de forma eficaz, para uma sociedade laça, decadente, fraca, que soçobrará inevitavelmente face à sua própria inércia.

(escrito algures em 2011)