terça-feira, 23 de maio de 2017

Dos segredos




Para mim, uma deliciosa ocupação é deixar amadurecer um segredo e sentir o prazer inebriante de saboreá-lo a sós; mas quantas vezes a degustação desse prazer me entristece e me atira para o devaneio. O esquecimento é a melhor cortina de seda que me ocorre diante de um segredo, mas traz sempre consigo a dolorosa responsabilidade de não o poder esquecer. Guardo alguns segredos. Às vezes sinto-me, inclusive, uma espécie de repositório de segredos: uns meus, outros de pessoas que me são, ou, em algum momento, foram chegadas. Não me refiro, naturalmente, à informação que está por detrás das passwords, essa hipérbole atual, mais própria de uma criação de polichinelos, burocratas caídos em absoluta desgraça.

Nasci com o eclodir da guerra colonial e pertenço à geração dos iniciados nos primeiros cadernos de caligrafia e amestrados nos alfabetos por ditados, cópias e redações. Leio páginas de livros melhor do que comandos eletrónicos e senti algumas dificuldades em acompanhar o galopante avanço das novíssimas tecnologias. Fui treinado para descobrir sinónimos em dicionários, definições em enciclopédias, ensaios de erudição em almanaques. Sou de um tempo em que todas essas coisas se julgavam ferramentas de sobrevivência para o futuro que pudesse acontecer. E afinal, descubro-me ensarilhado entre aptidões, que me diziam ser obrigatórias, e este novo mundo de instrumentos visionários, que apenas as histórias de ficção científica me permitiam imaginar. De repente, depois de pequenas e impercetíveis metamorfoses, encontro-me dentro dessa ficção, na vida real de todos os meus dias. Passa-me pela cabeça o tempo que perdi a decorar tabuadas, nomes de rios, serras, linhas de caminho-de-ferro, declinações e fórmulas químicas. Mal eu sabia que havia de chegar a altura em que tudo isso seria absolutamente desnecessário para a prática comum da civilidade.

Hoje em dia quase tudo se resume ao preenchimento de campos informáticos e ao domínio das ditas aplicações, que tendem a estender a sua fervorosa ditadura a todos os campos da atividade humana. O neologismo «info-excluídos» entrou no léxico da competição laboral e quem não dominar com desenvoltura os ficheiros zipados, os scanners, os downloads e toda a panóplia dessas novas ferramentas, resta-lhe deixar-se ultrapassar pela voragem dos mais novos que, sequiosos de vencer e conquistar, vêm em passo de corrida ansiosos por provar que podem destronar os mais velhos das suas ciências rotineiras e caídas em desuso.

A minha capacidade para arrecadar passwords está perto de atingir o limite do suportável: é o código do alarme da repartição; são as palavras-chave para ter acesso às diferentes aplicações informáticas; a senha para iniciar o computador no ambiente de trabalho; o código do cofre; a senha para ter acesso ao telefone! Se a isto somarem as senhas que tenho para uso pessoal, desde o Multibanco, aos blogues onde escrevo, passando pelas diversas caixas de correio eletrónico, verifico facilmente que vivo num mundo de segredos onde se, porventura, me esquecer de alguma das palavras mágicas – os diversos abracadabras que se me colam como sanguessugas indispensáveis – fico ao relento de quase todas as dinâmicas que atualmente compõem as facetas da minha vida.

Apetecia-me ensaiar um regresso às origens, no sentido mais enfático da expressão, e tornar a um tempo em que imperava a rotina dos momentos comezinhos. Sinto vontade de me estender numa cama, acompanhado de uma sanduíche de marmelada e um copo de leite com Nesquick, e reler todos os livros da Enid Blyton, a começar pelas aventuras dos Sete, e deixar-me de segredos para sempre que não fossem as maravilhas que esses tempos – que não voltam mais – efabularam a minha mente de preciosidades imensas. Esses, sim, eram os verdadeiros segredos guardados por pontes que conduziam diretamente ao sonho e à felicidade.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Veneza e o amor




Amo viajar e Veneza será sempre para mim a lua que se lança da Ponte dos Suspiros; a gôndola que desliza pelas linhas da noite no canal azulado; o gondoleiro que canta indiferente, de tão habituado que está a que nos remos se reflitam as estrelas; a festa junto da água, cheia de luzes de todas as cores, de onde às vezes saí a silhueta do Pierrot, que se reflete engrandecido no silêncio do palácio de mármore. E, sobretudo, a maravilha dos teus olhos e a porcelana do teu corpo submergidas na minha grande emoção. Não é extraordinário sermos semelhantes? Conhecendo a minha pessoa, conhecendo-te, porque és como eu? Toda a fonte de delicadezas e sentimentos, que não se podem definir porque são alma, e que estão dentro de mim, equivalem à mesma que tu tens. É por isso que nos compreendemos tão bem. Por este motivo, os nossos pedidos são nulos, porque as nossas vontades estão sempre satisfeitas. Assim, sem nada dizeres, compreendi que estavas triste, porque essa mágoa também era minha.


Porém, nada pode deter-me no caminho que eu mesmo tracei. Caminho onde o horizonte é de um azul tão profundo como o fundo do teu coração. Nestes momentos, sinto-me superior a todos. O fim deste caminho és tu. Eu vou para ti, sem hesitações, com a segurança do homem forte, e espero que me recebas num amplexo pleno de ternuras. Quando penso em tudo isto, fecho os olhos e as palavras rolam dentro de mim, como um sonho transformado em vocábulos. No entanto, nunca vi nos teus olhos a mais pequena teia de aranha, onde os pensamentos ficassem presos. Mas descobri, outrossim, nuvens de tristeza. Eu, às vezes, brinco com a tristeza e com a dor. Deixa-me divagar um pouco mais, amor, não me demoro. Prometo! Por pouco vento que faça, fecho os olhos e percebo o ténue ruído da flor das amendoeiras. É nessas alturas que te vejo e aspiro o teu perfume, mesmo sem saber quem tu és...*

* Prosa poética - Barreiro 2006

Primeiras impressões sobre a cidade de Leiria



Estou em Leiria há cerca de 15 dias. Habito um apartamento modesto que divido com uns engenheiros de formação recente, rapazes novíssimos, boa gente. Da urbe, só conhecia vagamente a entrada principal que, no momento, está tomada pelas obras do «Polis». O centro histórico, com as suas ruelas antigas e casarões fidalgos, encontra-se demasiado entaipado para se poder adivinhar o que vai surgir por detrás desses biombos cinzentos que tudo desfeiam. Toda a cidade parece suspensa na expetativa que a recuperação dos imóveis degradados lhe devolva o brilho e a dignidade de outrora.

Leiria é uma cidade em expansão. A «Nova Leiria», como os leirienses lhe chamam, é uma espécie de Restelo cá da terra. Construída sobre terrenos rústicos, outrora de lavoura, convertidos em lotes urbanos – o dinheiro fala mais alto – onde pontificam apartamentos moderníssimos com tipologias diversas, oferece aos mais abastados todo o conforto moderno. Por lá, exultam duplex, penthouses, ares condicionados, aquecimentos centrais, lareiras, vídeos de porta, aspiradores centrais, garagens com portões automáticos, e toda a gama de paramentos que os consumistas acham necessários à sua nova condição de novo-rico, ou neo-individado. Para muitos, infelizmente, é essa a condição sublime da felicidade, talvez a única que conheçam.

No meio de densa vegetação, dominando por completo, num ângulo de 360 graus, uma cidade originária que dele fez o núcleo de polarização, surge, lindíssimo, o castelo altaneiro. É em especial à noite, visto da Praça Rodrigues Lobo, mercê de uma iluminação suave, amarelejada, que lhe realça ainda mais a beleza, que perco, incansável, o meu olhar no recorte da sua silhueta.

O Liz serpenteia ao longo de toda a parte baixa da cidade, tornando aprazíveis as margens frondosas, bordejadas por álamos e choupos, que derramam os seus braços sobre as águas, onde casais trocam carícias enquanto se deliciam olhando os gansos, os cisnes, os patos, que se deixam ir em inocência e languidez ao sabor da corrente.

Encontro em Leiria uma cidade típica de província, embora já demasiado evoluída para poder merecer o epíteto pejorativo com que, o mais das vezes com injustiça, os lisboetas brindam as cidades dessacralizadas de grandes superfícies comerciais e obras de regime magnificentes.

A pequenez do meio ressalta quando me apercebo que os seus habitantes, não raro, se tratam pelo nome próprio, quando são clientes nas lojas, nos cafés, nas repartições públicas. Trata-se de uma cidade pouco populosa, por comparação às urbes que rodeiam Lisboa, compostas de aglutinados sem fim.

Há 16 anos atrás, por força de circunstâncias algo semelhantes, morei no Baixo Alentejo, em Santiago do Cacém, mas Leiria, sem dúvida, é incomensuravelmente mais evoluída, menos fechada nos seus ritos, menos preconceituosa.

A noite já desceu sobre a Praça Principal, que faz lembrar uma Calle Mayor em tamanho minúsculo. Do poeta plagiador de Camões, jaz a um canto a sua estátua, sóbria, de uma discrição quase irritante. No cimo, o castelo «Korrodi», sobrevoado por errantes bandos de andorinhas, surge iluminado de graça suave, no introito de mais um final de dia. Pelas ruelas da antiga Judiaria, magotes de jovens tenrinhos, estudantes dos inúmeros estabelecimentos de ensino superior que cercam a cidade, demandam a zona histórica à procura dos bares e da felicidade de mais uma noite de folia. Não tarda, o resto de Leiria, a parte menos jovem, vai dormir, e eu também. *

* Primeiras impressões sobre a cidade de Leiria. 
Leiria - Junho de 2006

domingo, 21 de maio de 2017

Na praia




Prezo muito a doce penitência dos pescadores solitários, fiéis, sempre, junto à sua cana, vigiando o dançar periclitante da linha, como pastores vigilantes de um rebanho de peixes, num prado eterno feito de mar. De quando em quando, desviam os olhos do horizonte e rodam o carreto de nylon verde, ensaiam um lançamento longo, mais junto às rochas negras forradas de algas, em águas mais afortunadas, onde os cardumes se alimentam.

As canas estão fincadas na areia, em suportes próprios. São artes antigas, instrumentos pontiagudos que vão adelgaçando à medida que se aproximam da extremidade. Do lugar donde as vejo, sempre que o vento clama mais forte os seus caprichos, curvam-se com graciosidade, como bicos de tucano. Ao seu lado, muito perto, baldes vulgares, repletos de água do mar, servem de depósito a peixes que já não nadam: jazem argênteos, no fundo, numa quietude de impressionante morte fresca, mas a vibração da água, por breves momentos, parece que os vivifica; mas é mentira.

Sigo sempre no sentido contrário à zona dos chapéus-de-sol, caminhando contra a luz. Fujo das áreas concessionadas, das barracas «Olá», laranja e escarlate; das cadeiras «Pepsi» azul noite. Raspo-me das areias movediças da mundanidade, pelejada de gentes, pauzinhos de gelado, caricas, beatas de cigarros e beatas da vida. Quero-me na praia onde não pontificam os vestígios humanos – não quero «ser-humano» – na língua da areia onde o mar suserano, em frenesim, sem parcimónia, traga despojos de presenças alienígenas (a mim).

Tenho a caneta bem fincada na areia, um pouco acima da linha da vazante, abrigada da rebentação. É uma caneta cinzenta, paper-mate, uma flexigrip ultra, chiquérrima, aborrachada, daquelas que não magoam os dedos, mas, por vezes, magoam a alma. Ela é muito mais pequena do que as canas que observo em meu redor.

Os pescadores distam a alguns metros de mim. Estão dispostos ao longo da praia, em espaços intervalados, cinquenta metros distantes uns dos outros. A minha flexigrip não verga na ponta quando a brisa entorna mais densa. As canas sim.

Aguardo a chegada dos advérbios frescos, de olhar esbugalhado; das frases coragem; dos parágrafos comestíveis, dispostos a disputar-me o domínio, mas eles não vêm. De tempos a tempos, olho para a ponta esférica e aguçada da minha flexgrip. Um raro movimento, um estremecer por breve que seja, enchem-me o coração de esperança e brilho azuláceo. Agora o silêncio. O som do mar. O piar absurdo de uma gaivota que se afasta. As franjas brancas das ondas, ao longe, que aparecem e desaparecem. Um navio a fingir, no horizonte.

[Sempre quis ter uns óculos de sol da cor da felicidade, pois já tenho um chapéu da cor do mar. O mar existe?]

Passaram por mim duas mulheres com os corpos densamente povoados de desejos. Os pescadores não pestanejaram. Permaneceram quedos, os olhos postos no horizonte brilhante. Esperam. Desenleiam as linhas das canas como quem desembaraça os escolhos da vida. Os chumbos estão pendurados no nylon verde como pêndulos de relógios de cuco antigos – O Pêndulo de Foucault não é de chumbo.

Cheira-me a abandono e sinto arrepios de luz pela espinha acima. A felicidade é um acontecimento. Dizem-me que não a devo procurar mas sim esperar. Às vezes canso-me.

A minha flexigrip continua hirta, espetada na areia como um soldado perfilado na parada, mas a borracha que a envolve parece ter amolecido. Começa a desfazer-se, pingando gotículas de talento derramado que o mar depressa engole. Os veraneantes, lá longe, parecem vultos pré-fabricados. Movem-se em constância: para lá, para cá, para lá, para cá.

Os pescadores são agora sombras recortadas na contraluz e, com o dedo indicador, acompanho o recorte da silhueta de cada um deles, que me cabe na palma da mão. Os peixes – ainda aguardam por eles – de quando em quando, deixam-se morrer para viverem, ainda que por instantes, dentro de nós. Nós vivemos. Eles não.

Coloco o meu estetoscópio de sonhos e ausculto o pulsar das emoções que me rodeiam. Tomo o pulso à vida, paciente, e peço-lhe com delicadeza que abra a boca e faça: «Ah!». Vi a língua da vida! Ena! Que sensação! De seguida, agarro na minha máquina de fotografar ilusões e proponho-me captar momentos genuínos – um completo desastre! Fico-me pela película da memória. Apetece-me fugir.

Guardo a minha flexigrip, ou o que resta dela. Torno a casa com o mesmo peso com que cheguei. Concentro-me no regresso ao trivial, que é onde a maior parte das coisas se movem e estão à vista de todos. Basta-me sacudir toda esta areia de perseverança, que me incomoda, colocar a pequena mochila às costas e pôr no semblante o sorriso que sempre guardo para os momentos em que me quero parecer com os outros.

Não me despeço dos pescadores, nem do mar, nem do céu, ou da areia. Parto sem olhar para trás, pois sei que as despedidas deixam-me sempre angustiado. Um dia voltarei e, dessa vez, trarei uma cana a sério, muito isco, balde, e tudo o que é necessário para pescar. Por ora, só quero tornar a casa com os pés calçados de subtilezas, antes que cheguem as parábolas da noite e me perguntem o que é feito da minha farta pescaria.



Leiria - escrito no verão de 2006

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Olhar de menina



Gostava de saber chorar como tu choras encostada ao ombro de alguém, com um olhar de menina que não chega a ser um olhar de desculpas pelo que fez, mas um olhar de certezas e de direito por chorar. Gostava de me comportar contigo como fazes comigo. Com uma ternura austera que me prende mas nem sequer desafia.

Por vezes empreendes um espírito distante que me deixa completamente impotente. Nunca serei capaz de te dizer que não, se quiseres que seja sim, nem vice-versa.

Às vezes rio-me do que dizes. Pareces-me ingénua e irracional e pergunto-me, por quanto tempo serei capaz ou poderei continuar a sentir-me apertado, como se toda a atmosfera me comprimisse contra mim mesmo pela tua imagem.

Olho para ti e penso que te conheço tão bem, como se existisses desde sempre comigo. Que nunca poderás ter uma reação que eu não possa prever.

Apetece-me dizer-te tudo o que sei e não sei sobre ti...

Porém, só posso ter a certeza de que te conheci e que os momentos passados estão assegurados. Já tinha desejado conhecer-te. Que passasses por mim e soubesses que eu não era igual aos outros. Que existia.

A ideia de que te atraio e conheço é cimentada cada dia que passa. Como se fosse uma parede que lentamente se vai erguendo a cada tijolo que é posto e um dia me condicionará a vista. Temo este muro apesar de continuar a construí-lo. Sei nitidamente que sou eu quem o constrói.

Sei o teu nome, vigio-te os gestos, os olhares, tudo. Quando não estás faço suposições acerca do que dirias, do que farias. Reconheço-te a voz, o andar, o toque macio da pele, a respiração, o olhar calmo, o espírito inquieto que ninguém pode adivinhar. Pergunto-me se valerá a pena aproximar-me ainda mais desta miragem.

Por vezes imagino que nas ruas da cidade há uma pessoa perigosa escondida atrás de uma esquina para me fazer mal. É assim que te imagino. És tu a pessoa perigosa.

Em cada paixão há frascos de veneno que são postos em copos com água, que nos é dada a beber quando menos esperamos. E depois perguntamos, porque é que não segurámos um pouco mais a sede? Porque existem erros de sincronização entre o racional e o prático?

Eu queria ser uma criatura inteligente, criada a partir do e para o cérebro. Para a idealização e celebrização das ideias. Lamento não o poder ser. Queria ser envolvido pelo teu olhar cúmplice, pelos teus braços, sentir-te o hálito quente e ficar assim pacientemente para a eternidade. Sacrificar tudo. Nunca mais sentir a humidade do inverno nem o calor excessivo do verão.

És sobretudo, penso agora, a minha maior dúvida, tudo aquilo que gostaria de resolver. Procurar-te naquilo que me mostras e acabar por te descobrir naquilo que inventei.

Consideras que o pior defeito que tens é suportar a solidão. A enorme capacidade de não teres pessoas contigo. Orgulhas-te de ser humilde. Eu orgulho-me de me fazer e conseguir rodear de pessoas, quando preciso disso.

Gostaria de ficar a noite toda a escrever acerca de ti e para ti. Venerar-te mais. E fico triste pela incapacidade de o fazer, de o poder fazer, ainda que parcialmente nestas folhas. Só queria que antes de fechar o caderno batesses na porta - entra, diria eu - e me abraçasses como se abraça um menino, com a maior ternura que possa existir.

Mas as ilusões são comédias demasiado duras. É angustiante sentir-se que uma pessoa apenas nos dá a caridade de mantermos um sonho, perpetuá-lo, até que chegue a altura de o desfrutar.

Esperas pacientemente pela velhice. Eu gostaria de ser eternamente jovem. Poder cá estar quando tudo for diferente e fascinante. O passado é isso mesmo, só passado, só fascina os incapazes. Esses terão sempre medo do futuro porque não gostam de incertezas. Eu estou sempre à espera do futuro, sempre com os olhos postos naquilo que há-de vir. Eu queria viver no futuro porque nada me fascina daquilo que conheço. Estou sempre a querer andar depressa, de tal modo que às vezes me sinto obrigado a recuar para não sair do contexto.

Acaba por ser uma necessidade saber que não se está só. E que ainda avistamos os outros ao longe, mesmo que sejam apenas pequenos pontos quase a confundir-se com a linha do horizonte.

Queria falar contigo. Dizer-te como gosto de ti e como é tão fácil gostar. Seria tão difícil magoar-te. Mas não digo nada. Não o faço. Todas as palavras pareceriam fazer parte de um discurso ensaiado à entrada de um palco. E és tu quem prepara todo o processo da representação, com olhos e gestos cúmplices que parecem enlevar a sedução ou fascínio que me reservas. E eu confio-me a esse espetáculo quase exuberante que me preparas. Assumo o meu papel de ator que nunca representa, nem sequer conhece o papel que lhe cabe, que inventa a cena e o cenário. Crio e destruo situações efémeras, como um arrepio que passa. Depois, em silêncio, dedico-te tudo: cartas, poemas, desenhos. É quase uma vingança que guardo no lado mais obscuro e ao mesmo tempo mais nobre do génio. Por pouco que eu o seja.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Doce fantasia


O teu rosto era imaterial como o de uma virgem de Frei Angélico. De joelhos, em frente do altar do teu leito, oferecer-te-ia o sacrifício do meu amor. Nua do peso da carne, minha alma beberia delicadamente o néctar das tuas escondidas lágrimas. Não te assustes, querida. Aonde nos conduziria o vendaval do medo? Lembro-me do tempo em que o nosso amor arrulhava melodias azuis e róseas no silêncio dos nossos corações, ainda maravilhados do nosso encontro. Agora, a tua face, como a dos anjos e das virgens, reflete a ausência de carne. Não te assustes, querida, com as pequenas aves que andam sempre aos pulinhos na minha varanda. Elas gostam da minha casa, não sei porquê. Juro-te que, um dia, os teus olhos serão novamente iluminados pela jóia da vida e na ramagem azul-pérola do nosso amor florescerão, mais puros ainda, os nossos beijos. Quanto mais desenganos vejo no mundo das realidades, mais sublimes sinto as tuas mãos, a tua cara e o teu pensamento. Parece que do mundo que tinha imaginado, ficaste só tu; como se fosses tu este mundo e o resto somente quimeras. E este mundo que sobeja para mim, e que és tu, tornou-se superior ao que eu poderia imaginar. Somos duas malvas-rosas num jarro, adormecidos num estranho torpor, como agonizantes silêncios de cor. Já só sinto, cada vez mais ténue, a tua respiração ofegando dentro de mim. Sei que a tua pessoa está algures no cetim do firmamento e, por vezes, brinda-me com a sua presença através dos raios da lua prateada que odoram o beiral da minha janela. E, na minha varanda perfumada da tua luz, o meu olhar, de um salto, pousa em ti, beijando-te o rosto e as mãos. Parece que ainda sinto os lábios húmidos da delícia dos teus beijos. Doce fantasia!

Memórias de um puto xarila




Às vezes penso em Almada, a cidade da minha infância e juventude, a urbe onde saboreei os primeiros gostos e desgostos da vida, o Frei Luís de Sousa, o afamado externato onde frequentei o infantário e a primeira classe; e, mais tarde, o ano propedêutico, logo substituído pelo 12º ano, numa das maiores reformas do ensino do meu tempo.

Se fechar os olhos e me concentrar, consigo razoavelmente viajar no tempo e vislumbrar um puto vestido com uma bata azul, com um monograma com as letras RJ bordadas no bolso direito, um remoinho teimoso aprestado no cabelo, magrinho, baixote, enfezado, trajando calções justos e com uns caricatos sapatos de atacadores vermelhos nos pés. Esse puto xarila sou eu. Sempre a piscar os olhos, um tique que ainda hoje me habita, e a pestanejar por causa da luz insuportável do sol.

Com uma mala de cabedal afivelada às costas, parece que o estou a ver a caminho da escola, acompanhado pelo batuque ritmado produzido pela caixa de madeira, onde guardava os lápis, as canetas, o compasso e as réguas, a soar contra o interior da mala. Usualmente, acertava o passo por essa batida familiar.

Vivia-se o glorioso tempo das borrachas de cheiro que, além de servirem para apagar os erros, também espalhavam odores e sabiam a frutos diversos, que se cheiravam e, não raro, também se degustavam. Era o tempo das batas obrigatórias e das fisgas fabricadas com elástico de avião, das criadas arregimentadas na província, imaculadamente fardadas, que iam levar os meninos ricos à escola; das crianças que não usavam sapatos, mas possuíam calosidades tão espessas, que faziam inveja aos cascos de muitos equídeos. Uma época em que os ciganos roubavam o lanche aos meninos ricos, os berlindes multicolores, as moedas que lhes conseguissem sacar dos bolsos e os piões com que se faziam habilidades impressionantes - tornei-me um especialista na arte do pião, mais do que no futebol, desporto que nunca dominei. Era essencialmente o protótipo do puto solitário, fechado no meu pequeno mundo onde, diferente do não voluntarismo de um autista, criava conscientemente espaços interditos aos outros.

Muito por culpa da Enid Blyton, montava casas no cimo da copa das árvores, levava para lá livros, bolachas, uma almofada, lápis e papel para escrever, tudo acessórios capazes de me entreter durante uma tarde inteira. Era o puto xarila voyeur que gostava de observar do alto dos ramos, na segurança da folhagem espessa, tudo o que se passava lá em baixo, com a granítica certeza de nunca ser visto. E a sensação de poder que isso dava! O puto xarila que se deleitava a desviar carreiros de formigas com um pauzinho e que observava, com um espanto continuado, a forma como elas conseguiam, em perfeita união de esforços e coordenação, transportar um gafanhoto morto, com várias dezenas de vezes o seu tamanho e peso.

Também me lembro de seguir pessoas, escolhidas ao acaso, sem critério, numa qualquer rua da cidade e anotar a sua descrição física, onde moravam, e, quantas vezes, ter de fugir a sete pés da sua fúria, sempre que era descoberto a armar-me em sombra; furtar smiles e rebuçados no Pão de Açúcar de Almada, até um dia ser apanhado em flagrante e passar pela vergonha de ser resgatado pelo pai, com um puxão de orelhas e uma séria advertência - o pai, que até era amigo pessoal do chefe da polícia!; levar um ou dois despertadores para as sessões de cinema da meia-noite, na saudosa Incrível Almadense, e a meio da cena mais intensa - geralmente um daqueles filmes de terror série B, mais que rodados, cheios de estalinhos, tipo batata-frita e cortes - pôr os despertadores a tocar em simultâneo, provocando o quase desmaio de algumas espetadoras e o riso inevitável dos restantes.

Não têm fim as memórias do puto xarila e elas surgem às camadas, umas vezes em catadupa, outras por efeito de associações fruto do momento. Acabei de contar apenas aquelas que hoje me vieram no imediato à mente, numa espécie de brainstorming, sem peias ou crivo, mas muitas outras, se não a maior parte, estão a marinar na minha mente, entorpecidas, até um dia conhecerem a luz do dia...Não é verdade, puto xarila?

sábado, 13 de maio de 2017

Nostalgia



Sempre que vejo retratos, quando sinto cheiros - embora eu já quase tenha perdido o odor de outrora - quando relembro uma ou outra voz peculiar, quando fecho os olhos e deixo o meu pensamento vaguear, tenho saudades de tudo o que de positivo marcou a minha vida.

Sinto saudades de amigos, que nunca mais vi; de pessoas que nunca mais encontrei; sinto saudades da minha infância; sinto saudades do presente que não aproveito de todo, do futuro que, se idealizado, provavelmente não será do modo que eu penso que irá ser. Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi, daqueles que não tiveram como me dizer adeus.

Sinto saudades de tantas coisas boas...

Sinto saudades de uma gata angorá, com quem convivi durante nove anos e que gostava de mim incondicionalmente, como só os animais são capazes; dos livros que li e me fizeram viajar por paragens longínquas sem sair do mesmo lugar; das músicas que ouvi e que me fizeram sonhar; das coisas que vivi e que deixei passar, sem as ter gozado na sua plenitude, por incúria, imaturidade desperdício puro.

Se sinto assim tantas saudades é sinal de que (ainda) me sinto integral e vivo. É porque esperanço reincidir em muitos momentos felizes, pese embora já não forrados com o imaginário próprio de uma idade nefelibata.

Mas a vida pulsa-me nas veias, porque, se nós quisermos, ela é um permanente acontecer, traga-nos ela o que nos trouxer. Depreciamos o mau e superlativamos o bom; e viver torna-se o máximo! Chama-se a isto equilíbrio, 'keep the balance', como dizem os psis.

Até que me provem o contrário, não conheço coisa melhor do que viver!

(excerto de um longo texto escrito há cerca de 10 anos, algures no Barreiro)

O apanágio do escrevente sobrevivo




Durante imenso tempo ficou incapaz de escrever uma linha que fosse. Começava a escrevinhar e logo parava. Tentou pensar em algo que lhe desse prazer contar, resolver-se por um tema que o aliciasse, agarrar uma trivialidade do quotidiano, um mexerico que fosse, e explorá-lo como se tratasse de um filão inesgotável, mas parecia não haver nada que lhe despertasse a vontade de acender um texto. Sentia, com uma intensidade nunca antes experimentada, o horror da lauda em branco e as ideias não lhe fluíam. Eram mais as frases que apagava do que aquelas que conseguia manter; e, mesmo essas, não duravam muito, pois começava a modificá-las a tal ponto que acabava também por as erradicar, sem que chegassem a ser luz duradoura com consistência suficiente para alumiar um escrito.

Via-se como o pianista que se lhe entorpeceram os dedos e já não consegue fazer soar notas nas teclas, teimando deitar culpas ao piano que não presta, ao assento que é desconfortável, a um ruído exterior que lhe abala a concentração. Então, abandonava-se durante minutos, que lhe pareciam laivos de eternidade, vagueando o olhar no ecrã em branco, até que a luminosidade sem matizes lhe fazia perder as forças para continuar.

Depois, apagava tudo o que luzisse em seu redor, despia-se, metia-se na cama, envolto num cordame de lençóis de sonhos, e tentava dormir embalado por músicas que escolhia por soltarem halos de inocência e serenidade.

A tristeza surgia-lhe logo pela manhã, pontual, incontornável. A princípio era uma coisa tímida, sorrateira, ensonada, mas de seguida, já mais afoita, entrava com à vontade e pujança triunfal nas caves da sua alma, agora exausta por excesso de vacuidades. Escrever em público sobre o sofrimento que o assolava afigurava-se-lhe um pecado de exibicionismo moral e hesitava entre fazê-lo ou quedar-se para sempre no silêncio.

Pensou mudar de vida, dedicar-se à especulação imobiliária, ao comércio de antiguidades, ao negócio livreiro; enfim, a qualquer coisa que servisse para o convencer de que o néctar da sua imaginação se tinha esgotado. Porém, não consegui e voltou a escrever. E desta vez escreveu sobre a lua, personificação de muitos dos seus caprichos, astro que amiúde o olhava através da janela, depois de descer sem ruído da escadaria de nuvens e sussurrava-lhe: «Gosto de ti, criança!»

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Hélio Isidoro Catalão Marofas




Chamo-me Hélio Isidoro Cassiano Marofas. Nunca gostei do meu nome. Quando me perguntam o que faço na vida nunca sei ao certo o que responder. Sou fazedor de códigos. Tirei uma licenciatura em jurisprudência há mais de trinta anos e, passados que foram mais de vinte anos de ensino público, dediquei-me a esta tarefa inglória. Atualmente é com isto que governo a minha vida: compilo legislação, recolho leis avulsas, reúno coletâneas, plagio códigos e limito-me a oferendar-lhes um preâmbulo cujo título começa invariavelmente pelas mesmas palavras: nota do autor. O autor não pode ser a minha pessoa, como é evidente; e é aqui que começa a desonestidade inteletual e a trama da culpabilidade que se desenrola dentro de mim.

Arrogo-me autor de leis arquitetadas por juristas cujas identidades se perdem no tempo, diplomas que foram mais tarde modificados por outros; gentes que labutam no anonimato nos gabinetes esconsos dos ministérios e cujos nomes nunca vêm à ribalta. Tenho a ousadia de fazer editar códigos jurídicos com o meu nome impresso na capa, como se tratassem de realizações saídas da imaginação e labor de um autor de prosas. Sirvo-me indecentemente dos meus estafados pergaminhos académicos e das influências que granjeei junto das editoras da especialidade, para juntar umas patacoadas, a título de intróito, e dar a uma coletânea legislativa o privilégio de me ter como seu pretenso progenitor.

Os meus colegas dizem-me para não me sentir assim. Dizem eles que até um código carece de alguma humanidade e é um beneficio que se concede à aridez das regulas dar-lhes um nome, uma paternidade. Ganho bastante dinheiro com este mecanismo fraudulento e sei de antemão que é o meu nome que vende e não a qualidade da falácia do meu trabalho – que nem existe!

Moro só e tenho caspa abundante no cabelo. Já fiz sessenta e dois anos e não tenho mulher, filhos, nem pretendentes a uma coisa ou outra. Sou aquilo que se pode chamar um homem desinteressante, credenciado pela mediocridade institucional de uma escola de propaladores de doutrinas alheias. Aprendi, como todos, a arte e o engenho da reformulação, a dar a entender que aquilo que escrevo é algo original e não a redundância clássica do lente universitário que precisa inaugurar uma escola para sobreviver como tal.

Atualmente estou de férias na Patagónia, planejando mentalmente um homicídio, ou talvez isso seja só um desejo insano que nunca terá concretização. Nem sempre o corpo docente de uma Universidade se anima de boas intenções. São conhecidas as rivalidades, os extremos da maledicência, a teia da intriga em que se desenvolvem e encontram-se aí exemplos de baixeza sem par, mantidos sotto voce, felizmente ignorados pelos discentes e pela gente em geral. No entanto, os casos em que se resolvem por homicídio são, quero acreditar nisso, bastante raros, constituindo uma exceção. Não gostava de ficar conhecido como o professor assassino mas, por outro lado, o que tenho eu a perder?

Um colega mais novo, cheio de mestrados e doutoramentos obtidos em universidades americanas, anda a arruinar-me o negócio próspero das edições. Será que ele não se apercebe que nestas coisas há monopólios, uma primazia tácita dos mais velhos face aos que ainda não chegaram às luzes da ribalta e à maturidade de um final de carreira?

A vingança não é uma modalidade criminosa simples. É muito subjetiva. Fundamental na vingança é que o objeto do ódio tenha a perspicácia de dar por ela. Se cremos que nos vingámos e o outro prossegue na sua vida bonaçoso, indiferente, então não nos vingámos. Isto implica um conhecimento profundo do sujeito de quem pretendemos vingar-nos. Mas o que é o nosso conhecimento do outro senão um caos de interpretações, de pressupostos, de hipóteses, de mal-entendidos, pousados eles mesmos sobre uma série de omissões, máscaras, de silêncios, de vazios? É um estranho conhecimento, uma quase ignorância. Não é o medo da retaliação que me impede de me vingar dele. É antes este aspeto contingente.

Quando regressar destas férias auscultarei a minha real vontade. Para já, faltam quinze minutos para a meia-noite e não quero perder por nada deste mundo a abertura dos Jogos Pan-Americanos. Já pedi que me trouxessem uma garrafa de rum cá acima ao quarto. O reclamo luminoso do hotel está quase a fundir-se e receio que não passe desta noite. Agradeço à divina providência que tal suceda, pois já não suporto mais a intermitência do néon abusando da paz interior do meu quarto noite dentro.*





* Buenos Aires - ficção escrita em 2006