terça-feira, 6 de junho de 2017

Os Indiferentes




Indiferente é todo aquele para quem tudo nem é bom nem mau e, para onde quer que vá, arrasta sempre consigo o despautério do prefixo de negação. Não manifesta preferências: é apático, insensível, por leveza e comodidade, ao contrário do indiferentismo. Esse sim, ao menos, acolhe o "ser indiferente" como uma alternativa consciente, uma escola da qual é pupilo voluntarioso.

Indiferentes aos problemas da solidão e do desejo de evasão, que domina a vida de três quartas partes das pessoas, o seu pensamento, a sua inquietação, estamos todos! Ninguém pode sozinho acolher a noite quando ela cai, assim como é impossível travar o rodar inexorável do tempo, o caminhar para a morte que nos espera implacável, em dia e hora incertos; o envelhecimento, o esboroamento dos acontecimentos mais felizes, os erros crassos irrevogáveis; a passagem das linhas que nunca deveriam ter sido transpostas.

Indiferente ficará, por certo, o incauto leitor deste purgante ligeiro, laxante de consciências mais pesadas do que o ar...

Indiferentes, todos nós:

Ao rio, que é o mesmo de há muitos anos, e está hoje mais quedo do que nunca; ao tráfego marítimo; às gaivotas que piam sem cessar; às nuvens que ora escondem o sol, ora o destapam; aos autocarros que baforam nuvens pretas de diesel queimado; aos transeuntes que estugam o passo e mantêm a cabeça baixa enquanto caminham para algum lado; aos carteiristas que deitam olhares profissionais às malas das turistas incautas... [uma banda composta por rapazolas ingleses, trajando camisa branca e calça preta, de cabelo palha, e borbulhas a florir em botão nos rostos colegiais, propõe, para o final da tarde, encher a praça que mais intimidade tem com o Tejo, com acordes soprados por instrumentos doirados que reluzem ao sol, transportando o néctar do som, depois de depurado por curvas caprichosas, para os sentidos de quem por lá passa e se detém com a firme vontade de os escutar.]

À regularidade simétrica com que os carros rolam na avenida; ao marejar da chuva leve da primavera nas folhas altas das árvores; ao som distante da cigarra que canta monocórdica algures no restolho; ao, quase impercetível, orfeão das rãs no lago fronteiriço; aos namorados que passam entrelaçados e trocam juras de amor eterno; à miudagem que bate com paus nas folhas de zinco que ladeiam e protegem a obra... [o guarda-nocturno continua imóvel no seu posto, frente à televisão, sem esboçar um único movimento, como se estivesse sob o efeito de uma hipnose que o tivesse congelado naquela posição].

As horas passam, o dia vai morrendo, o sol esconde-se, a escuridão toma conta de tudo e, às tenras horas da alvorada, os primeiros operários revisitam a obra: os entulhos da véspera, os sacos de cimento vazios caídos no mesmo chão, as areias que não foram mexidas, a não ser pelos gatos noturnos; os andaimes que não soçobraram com os humores do vento.

O guarda-noturno sai, passa por entre um grupo de operários de olhar extinto.

Indiferentes à gaivota que, já há algum tempo, paira sobre as águas do lago e, de repente, sem piedade ou hesitação, mergulha em voo picado sobre um dos patinhos bebés - esses que nasceram há dias e se julgam sob a proteção da mãe - e, sem preâmbulos, com duas ou três bicadas, mata o indefeso e engole-o de uma vez só. E, como se não bastasse, e não estivesse já saciada, passado instantes, repete o mesmo procedimento, desta vez com um ganso recém-nascido que tenta em desespero, subir para a margem.

Em redor, as pessoas serenas e continuam a falar umas com as outras, em amena cavaqueira, como se nada de extraordinário se tivesse passado. Foi apenas a natureza que pronunciou os seus ditames, sem mácula ou cor de pecado. A vida (a nossa, claro!) prosseguiu sem os hiatos destes momentos.

Indiferentes, aos farrapos de carne e pelo grudados no alcatrão quente, os automobilistas não diminuem a marcha, antes fazem pequenos desvios para não experimentarem o desagrado de sentir o baque das rodas dilacerarem o que resta do gato morto, horas atrás, por um camião demasiado indolente para desviar o curso da colisão fatal; e nem as coroas de flores que, amiúde, ornam, como memoriais de tragédias recentes, os separadores centrais, desencorajam a velocidade estonteante dos corredores da morte que se anuncia sobre rodas. Desviam o olhar do desagrado, aumentam o volume do rádio, assobiam músicas de acorde fácil, refastelam as costas no assento dos banco, fingem que o seu mundo é um aparte; nada daquilo lhes respeita, por princípio, por uma questão de sobrevivência.

Indiferentes, aos indigentes que se aninham uns contra os outros, sob cobertores de odores nauseabundos, junto à estação dos barcos: a bagagem aligeirada, uns poucos sacos de plástico de uma qualquer grande superfície; algumas caixas de cartão espalmadas; os pés nus, negros da fuligem da vida, tocando ao de leve garrafas de vinho esvaziadas na véspera, exalando a miséria de uma vida à sombra do desejo; os cabelos pegajosos, indomáveis a quaisquer escovas, fedendo a gado lanígero em dia de feira. Os passantes que se movem com o cuidado exagerado de não pisar algum corpo mais saliente. Desistentes, pensam eles. "Derrotados não são os que perderam mas os que, de alguma forma, desistiram de lutar". É esta a receita mágica, a aquiescência, que alivia a mente e impede ulteriores interrogações que provocam má disposição gástrica: o limiar da miséria da vida de uns, por oposição à opulência extrema de outros.

Indiferentes, à dor dos candidatos a passageiros que penam tempos infinitos nas filas apinhadas, quantas vezes à chuva, ao frio, à mercê dos elementos, os condutores dos autocarros passam, displicentes, com o rodado dos veículos nas poças de água que bordejam as paragens. Se algum passageiro de última hora implora que lhe abram a porta, o mais das vezes, viram a cara para o lado, assobiam para o ar para afastar à má consciência, e arrancam com a fúria de um deus alado, contentes com a sua atitude, gratos pela sensação de poder que lhes transmite o facto de poderem, com esse gesto, decidir a boa ou má sorte de alguém: "Deixa-me entrar?" "Não, não deixo, viesse mais cedo!".

A indiferença consciente é tão intrinsecamente humana que, antes de parecer uma deformação ética, uma povoação de egoísmo, mais se assemelha a uma das características, senão porventura à maior, da condição de sobrevivência individual da espécie de que fazemos parte. A escolha reside em ser ou não ser indiferente, como em Shakespeare. É óbvio que a opção tomada nunca será indiferente.*

*escrito em Lisboa, algures em 2005

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O intelectual




Não sei quantas vezes já me interroguei sobre o verdadeiro alcance e significado do vocábulo «intelectual», sem que tenha chegado a alguma conclusão satisfatória...

Um intelectual, para o senso comum das pessoas, é alguém votado ao estudo profundo das coisas e artilhado de uma grande cultura; mas, não raro, já ouvi a expressão ser empregue com um sentido pejorativo: «Estás armado em intelectual?»; «Aquele tem a mania que é intelectual!...»; como se gostar da leitura e do saber, alimentos essenciais do espírito, fosse sinónimo de presunção, pecado, ostentação, vaidade e algo de que nos devamos envergonhar e esconder dos que nos rodeiam, como se fossemos portadores da peçonha.

O intelecto ou a inteligência - e julgo que esta noção é pacificamente aceite por todos – é a capacidade de adaptação e domínio de novas situações, a possibilidade de “fuga” ao determinismo biológico, ultrapassando a limitação das respostas meramente reflexas que são mais próprias dos animaizinhos. Nós reunimos as duas opções e é bom que façamos uso delas.

O conhecimento, então, resulta de uma dialética bem diagnosticada: o sinalagma sujeito/ objeto.

Enquanto a função do sujeito consiste em apreender o objeto tornando-o presente a si próprio, a função do objeto é meramente passiva: deixa-se apreender dando conteúdo ao que é apreendido pelo sujeito.

A experiência de cada um mostra que há para o homem dois modos ou graus de conhecimento: o conhecimento sensível, singular e concreto, e o conhecimento intelectual, universal e abstrato; e toda a Teoria do Conhecimento, que estudámos nas velhas lições de Filosofia, valora exatamente a análise da experiência, o que implica a decomposição desta nos seus elementos: sensação, intuição e pensamento.

Mas toda esta verborreia não elucida ninguém, incluindo eu próprio, sobre o que afinal vem a ser um intelectual.

Um intelectual pode ser, efetivamente, alguém dotado de um grande afã de sapiência e, por essa via, dotado de uma cultura superior – que dista da mediania; ou pode ser alguém que abomina as vias-sacras do futebol, dos tunnings e dos turbos, das revistas de informática, das discotecas com “muitas gajas” e, como consequência (dessa negação), resultar num ermitão voltado para as leituras e consagrado a essas únicas iguarias que lhe alimentam o apetite voraz pelo saber. Essa seria, na minha ótica o melhor sinónimo para aquela palavra (quase) intraduzível do francês, mas que tanto significado comporta: o verdadeiro emerdeur.

Ou, num notável registo de ecletismo, um intelectual pode ser ambas as coisas.

São estes últimos, em boa verdade, os mais bem aceites e tolerados pelas claques que «abominam intelectuais» - o mais das vezes por não o serem e sentirem-se inferiorizados por via desse facto - pois estes ecléticos conseguem conjugar vernáculo, palavreado apócrifo,”bojardas” plenas de graça, tudo mesclado com uma erudição de se lhe tirar o chapéu. E como dignos representantes desta Escola de Feitores das Letras, que agradam a gregos e a troianos, temos as figuras paradigmáticas do Miguel Esteves Cardoso, do Pedro Paixão, do Ricardo Araújo, entre outros figurões – a maltinha da “massa cinzenta” – a que se quer juntar um tal Rui Zink - esse ápex da escrita que também se quer fazer passar por maluco, mas que escreve tão mal, desajeitadamente e sem graça, que, a não ser como apoderado e lacaio, não lhe vislumbro grande futuro nas letras.

Um intelectual – e tenho de forçar uma definição – é alguém que gosta com intensidade de coisas que deleitam o espírito, mais ou tanto do que os sentidos, e sente um apelo irreprimível pela auto formação de um astral criativo, pleno de curiosidades satisfeitas, que fazem do sonho um ato de permanência. E nós, que nos candidatamos a estas aparências, enriquecemo-nos deste modo: tanto com as denegações quanto com as confirmações que as nossas aquisições nos despertam. E assim se vive em sintonia com o que nos forra e nos se assemelha.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Corte e Cose





«Corte e Cose» é uma das muitas firmas dos franchisings que por aí abundam e integram-se no nosso quotidiano como a visão habituada de mais um nome sugestivo.

As novas formas de intervenção, emergentes dos atuais modos de fazer negócios, habituaram-nos à ideia da firma-conceito, e da força que dele se desprende, como sendo, talvez, uma das melhores formas de publicitação existentes: algo que fica a soar bem no ouvido e na mente de todos nós.

«Corte e Cose», sugere-me a ideia de uma reparação ou, pelo menos, de uma intervenção com resultados positivos – algo que carece ser intervencionado e cujo efeito final resulta num valor acrescentado, e numa melhoria evidente sobre a matéria inicial apresentada.

Escolhi este nome pela sugestão que ele provocou em mim em face ao assunto de que me proponho falar.

Mas não é sobre o franchising que quero dissertar, nem tão pouco sobre as suas técnicas e sucessos comprovados no mundo empresarial moderno. Tomei de empréstimo a firma com outros propósitos.

Pareceu-me que, distorcendo um pouco o nome, poderia obter um epíteto muito aplicável às relações que se estabelecem através da Internet – a novíssima forma de comunicação do nosso tempo, que põe em contacto estranhos que, de outro modo, e segundo todas as probabilidades, nunca teriam qualquer chance de chegar ao conhecimento mútuo.

Numa sociedade impregnada de valores que obtêm sustento na riqueza material obtida, na ostentação e nas relações de subordinação - onde, preferencialmente, devemos ser o subordinador e não o subordinado – no seio da pirâmide social, o tempo para os afetos é risível e tem uma margem escassa para existir.

Longe vão os tempos em que a sociabilidade era coisa fácil, as pessoas travavam conhecimento por força das circunstâncias, numa forma de viver comezinha e doce, que, em leveza, nos guiava e nos fazia felizes.


Hoje, nesta era de ferocidade e heroísmo ao contrário – «tempus fugit» – «perder tempo» com relacionamentos que não tenham por fim, ainda que mediato, um proveito qualquer a nível ascensional-material, é, na mente de muita gente, um empreendimento de todo impensável. Alguns, certamente por infelicidade de expressão, chamam a isto «adaptação».

[Talvez seja eu quem esteja desadaptado, e que nunca tenha conseguido moldar-me com firmeza a esta fabriqueta de viver, dentro da qual me resta existir, e pouco ou nada possa mudar a não ser escrever, até que a impaciência resultante deste estado de coisas me tolde a mente por completo e ganhe o sibilar do meu silêncio.]

O novo meio de comunicação possibilitou aquilo que a voragem dos tempos modernos consumiu: a reaproximação entre as pessoas, o recuperar dos diálogos, a permuta de afetos, a preocupação com as trivialidades do quotidiano dos outros, a exposição das alegrias e das tristezas; enfim, o modo relacional normal entre seres humanos, embutido dos ingredientes de que se lhes reconhece a marca. Tudo isto se as relações entre as pessoas saírem da luminosidade branca do ecrã e se consumarem presencialmente.

Virá o dia em que alguém – se é que já não o tenha feito – escreverá com profundidade sobre este assunto, de uma forma relacional, cientifica, sistemática e desapaixonada, pois restam-me poucas dúvidas que a Internet, se bem utilizada, é o potencial de comunicação mais fabuloso que alguma vez o homem logrou conceber.

A técnica, infelizmente, não molda o comportamento humano, nem possui a magia suficiente para o transformar em algo diferente.

«Corte e Cose», o nome do conhecido franchising, que batiza muitas lojas de arranjos rápidos em superfícies comerciais, aplicado às relações humanas que se formam no universo «on line», sofre uma alteração inevitável. Melhor será chamar-lhe «Cose e Rasga».

São conhecimentos que se travam de modo fortuito, aleatório, e que crescem à velocidade da curiosidade e da empatia que floresce, mas que, o mais das vezes, estão condenados à duração do curso cintilante de uma estrela cadente no astral infinito de uma noite de Verão. E estes lampejos de contato, que alimentam os passatempos de gente fútil e néscia, escondida por detrás das máscaras da cobardia e do anonimato, causam-me um desgosto profundo.

Talvez eu exista forrado de uma ingenuidade de filigrana, muito próxima do infantilismo, mas ainda prezo os relacionamentos que escolho para alicerçar, e deposito neles a esperança e a vontade de fazê-los crescer como fonte geradora de felicidade, aprendizagem e crescimento pessoal.

Exasperam-me os modernos partidários do «Cose e Rasga», que utilizam a «comunicação netiana» à laia de passatempo ligeiro, para preenchimento do vácuo crónico da sua sórdida existência.

Apelo ao fim deste ciclo infernal, este fogo-fátuo de afetos, que consiste no fingimento consciente do encetar de relações que, à partida, sabe-se que durarão até à quebra do encanto e da novidade, e dissolvem-se fáceis, como um bocejo, na hora da despedida.

Já nos bastam a desumanização trazida pelo nosso quotidiano grupal, e não vale a pena cair no ciclo infernal que é iniciar uma construção com materiais sem consistência e, passados alguns momentos, longe que vai a novidade, fazê-la ruir e repetir o procedimento numa voragem próxima da insanidade.

É este hoje o meu desabafo, trazido pelo desalento: «Corta e Cose», de preferência com reforço nas costuras, pois que as relações de amizade valem oiro!

(escrito algures em 2006)

O amor verdadeiro




As ilusões são talvez tão inumeráveis como as relações dos os homens entre si, ou dos homens com as coisas. E quando a ilusão desaparece, quer dizer, quando nós vemos o ser ou o facto tal como ele existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, complicado em metade pelas saudades do «fantasma» desaparecido, em metade pela surpresa agradável ante o novo, ante os factos reais e a reposição da clareza e da verdade, muitas vezes só depois de desnudarmos o véu das irrealidades que nos impossibilitavam de ver com clareza.

Se existe um fenómeno evidente, trivial, sempre idêntico e de tal natureza que a respeito dele é impossível estarmos enganados, é o amor maternal. É tão impossível imaginar uma mãe destituída de amor maternal como a luz sem calor, como um sol frio, que não seja no sentido da antítese poética.

Ainda há pouco fui comprar um jornal, eu que faz tanto tempo não comprava jornais. Apanhava-os ali, acolá, espalhados pelas mesas dos cafés e dessa forma me abeirava das notícias. Sentei-me num banco de jardim sentindo na face a brisa suave da manhã e deleitei os olhos a observar a doçura com que uma mãe brincava com os seus filhos; os beijos e as ternurazitas que lhes dava, o brilho que se escapulia dos seus olhos, a incondicionalidade daquele amor ali à minha frente. À nossa volta doidejavam pássaros e as corolas das flores pareciam cálices que exalavam explosões de odores e cores e tudo aquilo me pareceu fazer sentido como se fora um «ensemble» musical reunindo os ingredientes da beleza nas proporções certas.

Recordei que, em tempos, conheci alguém que, na minha licenciosa fantasia, enchia a atmosfera que me circundava de ideais, cujos olhos espalhavam o anseio da grandeza, da beleza, da glória, e de tudo o que me fazia acreditar na imortalidade desse amor. Mas essa pessoa não era quem eu julgava ser: era uma vez mais um fruto das partidas de Delfos das minhas perenes ilusões, algo que eu fantasiara, ou desejara que fosse real.

Hoje dia primaveril lindíssimo, cobertos os pensamentos acerca dela com os mantos da certeza, da realidade, e da consciência aguda da verdade, sinto-me mais conforme comigo mesmo e guardo-me para o dia em que apareça vinda dos meus turvados sonhos, envolta em tules odoríferos, a princesa que se assemelhe em tudo um pouco à minha ilusão.

O tempo e o amor marcaram-me com as suas garras e ensinaram-me cruelmente o que cada minuto e cada beijo nos roubam em juventude e em frescura. E estou tão certo, como esta manhã soalheira, em que o ar treme ao tocar na água do lago, de que algures, num cantinho escondido, por entre os áureos véus das nuvens, num país distante, numa terra sagrada, aqui perto de mim, ou nalgum lugar naufragado nas brumas do meu desejo, dormita a musa que se assemelha na verdade à felicidade engendrada pela minha ilusão.

Estas linhas, escritas no conforto da minha sala forrada de silêncios, são uma forma de me refugiar da tarde e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de manifestar a insurreição do meu olhar perante estas coisas que, por muito que se afastem, regressam sempre ao burel da minha escrita, escrita que é um pouco o cinzel com que esculpo a minha vida.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

A ti




Gostava de saber chorar como tu choras. Encostada ao ombro de alguém, com um olhar de menina que não chega a ser um olhar de desculpas pelo que fez, mas um olhar de certezas e de direito por chorar. Gostava de me comportar contigo como fazes comigo. Com uma ternura austera que me prende mas nem sequer desafia.

Por vezes empreendes um espírito distante que me deixa completamente impotente. Nunca serei capaz de te dizer que não, se quiseres que seja sim, nem vice-versa. Às vezes rio-me do que dizes. Pareces-me ingénua e irracional e pergunto-me, por quanto tempo serei capaz ou poderei continuar a sentir-me apertado, como se toda a atmosfera me comprimisse contra mim mesmo pela tua imagem.

Olho para ti e penso que te conheço tão bem, como se existisses desde sempre comigo. Que nunca poderás ter uma reação que eu não possa prever. Apetece-me dizer-te tudo o que sei e não sei sobre ti. Porém, só posso ter a certeza de que te conheci e que os momentos passados estão assegurados. Já tinha desejado conhecer-te. Que passasses por mim e soubesses que eu não era igual aos outros - Que existia!

A ideia de que te conheço é cimentada cada dia que passa. Como se fosse uma parede que lentamente se vai erguendo a cada tijolo que é posto e um dia me condicionará a vista. Temo este muro apesar de continuar a construí-lo. Sei nitidamente que sou eu quem o constrói.

Sei o teu nome, vigio-te os gestos, os olhares, tudo. Quando não estás, faço suposições acerca do que dirias, do que farias. Reconheço-te a voz, o andar, o toque macio da pele, a respiração, o olhar calmo, o espírito inquieto que ninguém pode adivinhar. Pergunto-me se valerá a pena aproximar-me ainda mais desta miragem. 
Por vezes imagino que nas ruas da cidade há uma pessoa perigosa escondida atrás de uma esquina para me fazer mal. É assim que te imagino. És tu a pessoa perigosa.

Em cada paixão há frascos de veneno que são postos em copos com água e que nos é dada a beber quando menos esperamos. E depois perguntamos porque é que não segurámos um pouco mais a sede? Porque existem erros de sincronização entre o racional e o prático?

Eu queria ser uma criatura inteligente, criada a partir do e para o cérebro. Para a idealização e concretização das ideias. Lamento não o poder ser. Queria ser envolvido pelo teu olhar cúmplice, pelos teus braços, sentir-te o hálito quente e ficar assim pacientemente para a eternidade. Sacrificar tudo. Nunca mais sentir a humidade do inverno nem o calor excessivo do verão.

És sobretudo, penso agora, a minha maior dúvida, tudo aquilo que gostaria de resolver. Procurar-te naquilo que me mostras e acabar por te descobrir naquilo que inventei.

Gostaria de ficar a noite toda a escrever acerca de ti e para ti. Venerar-te mais. E fico triste pela incapacidade de o fazer, de o poder fazer, ainda que parcialmente nestas folhas. Só queria que, antes de fechar o caderno, batesses na porta: entra, diria eu, e me abraçasses como se abraça um menino, com a maior ternura que possa existir.

Mas as ilusões são comédias demasiado duras. É angustiante sentir-se que uma pessoa apenas nos dá a caridade de mantermos um sonho, perpetuá-lo, até que chegue a altura de o desfrutar.

Esperas pacientemente pela velhice. Eu gostaria de ser eternamente jovem. Poder cá estar quando tudo for diferente e fascinante. O passado é isso mesmo, só passado, só fascina os incapazes. Esses terão sempre medo do futuro porque não gostam de incertezas. Eu estou sempre à espera do futuro, sempre com os olhos postos naquilo que há-de vir. Eu queria viver no futuro porque nada me fascina daquilo que conheço. Estou sempre a querer andar depressa, de tal modo que às vezes me sinto obrigado a recuar para não sair do contexto.

Acaba por ser uma necessidade saber que não se está só. E que ainda avistamos os outros ao longe, mesmo que sejam apenas pequenos pontos quase a confundir-se com a linha do horizonte.

Queria falar contigo. Dizer-te como gosto de ti e como é tão fácil gostar. Seria tão difícil magoar-te. Mas não digo nada. Não o faço. Todas as palavras pareceriam fazer parte de um discurso ensaiado à entrada de um palco. E és tu quem prepara todo o processo da representação, com olhos e gestos cúmplices que parecem enlevar a sedução ou fascínio que me reservas.

E eu confio-me a esse espetáculo quase exuberante que me preparas. Assumo o meu papel de ator que nunca representa, nem sequer conhece o papel que lhe cabe, que inventa a cena e o cenário. Crio e destruo situações efémeras, como um arrepio que passa. Depois, em silêncio, dedico-te tudo. Cartas, poemas, textos, pensamentos. É quase uma vingança que guardo no lado mais obscuro e ao mesmo tempo mais nobre de génio. Por pouco que seja.*

*(texto publicado em 2006, numa separata do jornal do Barreiro e num pasquim literário da época, de que já não recordo o nome. Trata-se de um escrito puramente ficcional, em jeito de prosa poética, género, à data, tanto do meu agrado, e nunca serviu de missiva para nenhum destinatário em concreto)

Querido Diário!



Estou demasiado atarefado a fazer a mala. Parto hoje para Leiria, sabias? Vamos nos ver menos vezes, mas não quero que fiques triste. Às vezes, como sabes, o silêncio doira a saudade e aumenta o desejo do reencontro. Além disso, tu tens ciência de que a minha vida é agora mais lá para aqueles lados, onde o Lis serpenteia à sombra dos esgares de um castelo altaneiro. Volto agora para as tarefas do meu quotidiano banal, mas não quero que penses que te abandono; isso nunca! Tu sabes, eu sei, que vou como as aves, mas sempre regresso, mais não seja quando a saudade for tão forte que me impeça de continuar sem ti. Quero sair de casa antes do cair da noite, pois esperanço ainda ver os estorninhos na estrada. Não têm conta a esta hora, em revoadas sucessivas sobre as árvores. Depois o sol acalma e, lá para o fim da tarde, como é usual, uma sombra mole escorre para o alcatrão aquecido da estrada. Logo, mais tarde, quando a noite se sentar à minha beira e me sussurrar aos ouvidos, quero estar recolhido com os meus pensamentos em ti. Nessa hora aflitiva, a luz de mim mesmo é tudo o que trago comigo, porque também eu sou pequenino e tenho medo do escuro....*


Até sempre

(* Excerto de uma passagem de um diário - escrito em maio de 2006, faz agora sete anos, num final de tarde semelhante ao de hoje, em vésperas de vir trabalhar e morar em Leiria)









sábado, 27 de maio de 2017

Dos meus heróis



Há pessoas que estão sempre a afiar as garras e que julgam que a melhor defesa é (sempre) o ataque. Bater antes de ser batido. Marcar desde logo território e partir para o combate numa posição de vantagem. Deixar o adversário knock out sem que ele tenha, sequer, a possibilidade de esboçar um gesto de defesa.

É a politíca da "terra queimada", no que às relações pessoais respeita.

As guerras sempre começaram por ser pequenas escaramuças que degeneraram numa escalada sem fim à vista. Não são mais do que uma representação superlativada dos conflitos interpessoais.

Neste mundo egótico em que a regra maior é sobreviver, ter outro comportamento pode, muitas vezes, levar-nos à auto-aniquilação, ou à morte consentida. Ser bom, ter um comportamento altruista, implica aceitar à partida a ideia de perda, de sofrimento e possuir uma capacidade infinita para amortizar injustiças. É dar sem esperar retorno. É aceitar o sacrifício. É conseguir ser o melhor Ser do mundo e arvorar-se da qualidade maior que é a bondade. É mais fácil ser culto, interessante, esteta, filósofo, ensaista, poeta, diseur, whatever, do que ser genuinamente bom.

Essas boas pessoas são as melhores do mundo e são as únicas que invejo e mais admiro.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

À beira do Lis



Alguém me disse, com um ar muito convicto, que estas bolinhas de algodão em rama que andam por aí a esvoaçar sem rumo e fazem imensos rodopios antes de assentarem no chão, desprendem-se aos milhares dos enormes plátanos que bordejam o Lis e provocam alergias. Eu não sei se isso é verdade, mas acredito que assim seja. O que é certo é que a primavera regressou com força e desde que comecei a escrevinhar estas linhas os pardalitos ainda não largaram a minha janela. Por mero deleite, costumo deixar uns miolos de pão, ou bolachas, em cima do parapeito da varanda, pois sei que mais tarde ou mais cedo eles acabam por aparecer. Sinto um gozo soberbo quando no final da tarde escuto os chilreios destas avezinhas trémulas e gorduchas que dão saltinhos para a esquerda e para a direita rodando sobre si.

Mas será que era disto que eu queria falar? Da primavera, dos oráculos que, um pouco por toda a parte, conseguimos ver anunciar a passagem da meia estação com uma luz que faz as cores do mundo resplandecerem no contraste com o azul do céu? Talvez, sim. Este tempo positiva-me...

No próximo fim-de-semana espera-me uma tarefa árdua: fazer por esquecer recordações, papéis diversos, fotografias, por vezes mesmo pequenas coisas escritas e guardá-las algures no fundo de uma gaveta ou na parte de trás de uma estante mais elevada e de difícil acesso, ou porventura, mais assertivamente, deitar tudo no lixo. Sei que há uma página da minha vida, pesada como chumbo, que quero virar. As outras laudas, as que inevitavelmente lhe seguem, estão em branco e cabe-me a mim preenchê-las com os tais momentos que careço: prestações positivas e a felicidade de uma vida fresca.

Há muito que abandonei o zapping doentio que em definitivo se incorporou nos tiques domésticos de quem se senta na sala depois do jantar. Os meus entretenimentos passam pela leitura, pela escrita, pela música ou pelos passeios pela cidade vazia, depois da acalmia do trânsito e recuperar o prazer de olhar os prédios, as janelas, os telhados, as cores de todas as coisas. E assim, por vezes, vou escorregando de ideia em ideia, afinando planos e contingências que careço solucionar dentro de mim.

Quem me lê, por certo, já se apercebeu desta minha veia diarista, epistolar – em mim recorrente - e talvez que o meu olhar sobre a vida e os seus enfeites abram alas a que alguém me explique melhor o porquê de tantas coisas, as respostas que eu não tenho, ou, se tenho, já nem sei onde as guardei.




terça-feira, 23 de maio de 2017

O Macedo da Travessa da Glória




Não há dia que me desloque à Baixa lisboeta, com algum algum tempo livre, que não visite o Macedo da Travessa da Glória. Tanto quanto recordo, há quase quarenta anos que frequento os principais alfarrabistas da cidade, desde os mais finórios, da Rua do Alecrim - e, nesses, era só mesmo para ver os livros e admirar as suas lombadas gravadas a oiro, bem como as gravuras antigas, os mapas e as fotografias de época, pois os preços praticados eram-me interditos -, onde, não raro, encontrava escritores de vulto e nomes sonantes da nossa cultura, passando pelos alfarrábios do Bairro Alto, do Chiado, da Trindade e do Príncipe Real. E se no início o que me movia era a impossibilidade económica de comprar livros novos, restando-me como única opção o livro usado, ou manuseado, como eufemisticamente alguns prosaicos os gostam de apelidar, aquilo que começou como uma falta de alternativa, foi-se paulatinamente transformando num gosto e mais tarde num vício. Mas foram sempre os alfarrabistas modestos, aqueles cujo comércio são os livros manuseados, e não as preciosidades literárias, ou as edições raras e de luxo, que recolheram as minhas preferências. E ainda hoje assim é, pois, mais do que a eventual beleza da capa e da contracapa do livro, que não desprezo, o que me mais me importa é mesmo o conteúdo da obra.

Apesar de ter perdido grande parte das minhas capacidades olfativas e, com isso, algum do espólio desse repositório de memórias formidável, cada vez que entro na tabanca pombalina do Macedo, reconheço de imediato odores que sempre me foram familiares: a humidade entranhada nas paredes, o bafio mesclado com os cheiros indescritíveis que se desprendem das estantes esconsas, onde livros, que há mais de um século não veem a luz do sol, jazem amontoados uns sobre os outros. Um ambiente deveras impróprio para quem sofre de algum tipo de alergia ou renite, onde uma amálgama de odores, que se mesclam generosamente com os cheiros das frituras e dos vinhos, das casas de pasto que convivem paredes meias com o sebo do Macedo, entram sem parcimónia pela livraria, criando uma atmosfera olfativa de tal ordem que, ainda que me vendassem os olhos, quase podia jurar conseguir adivinhar que me encontrava dentro do estabelecimento do alfarrabista da Travessa da Glória.

O Macedo, tripeiro de gema, há muito radicado em Lisboa, vivendo para os lados da Almirante Reis, mas conservando uma inconfundível pronúncia do norte, é um homem esguio, seco, de rosto encovado e varicoso, chupado por uma vida de cigarros e tacinhas, de cuja boca sobressaem dentes escassos, de um amarelo acastanhado. Não raro, quando se emociona, pois está sempre a opinar sobre tudo e o que era antigo é que era bom, espicha perdigotos, que se lhe depositam no canto da boca, mas dos quais rapidamente se livra, passando a manga da camisola pela boca.

O livreiro ainda mantém aquele ar de 'pintas dos anos 50': desafiador, irónico, fadista, amante de ditoches, falador incansável e armado com a sempiterna unharra multiusos do dedo mindinho, com que amiúde coça o interior dos ouvidos, adereço que sempre lhe conheci. Cada vez que me vê, todo ele é uma festa. Mima-me com o epíteto de "doutor" no começo de cada frase. Oiço-lhe as histórias de sempre, que aliás conheço de cor: A viagem ao Brasil, nos anos 60, e as peripécias no Rio de Janeiro com as brasileiras; a sua infância na Ribeira; os banhos no Douro, como os meninos do Anikibobó do Manoel de Oliveira; a vida boa que já teve; as inúmeras amantes que passaram pelo seu leito; a mulher, que é uma santa e tudo lhe tem aturado e desculpado. Julga-se, acima de tudo, um literato, porque vende livros há muitos anos e conhece títulos como ninguém. Faz questão em discutir comigo algumas leituras - diz que já não lê há uns anos porque as cataratas, entretanto, comeram-lhe os olhos - e fica radiante quando se apercebe que eu conheço alguns dos muito livros de que fala. A mulher tem uma venda de peixe no Mercado do Rego, mas só quer saber de telenovelas.

O primitivo arrendatário do estabelecimento está cego, internado num lar, e agora é ele que tem de continuar sozinho à frente do negócio. A renda, antiquíssima, felizmente, é simbólica, pois o dinheiro que intelectualmente ganha mal dá para o tabaco, para umas quantas tacitas de verde e para comer qualquer coisinha. E o prédio, com cerca de trezentos anos, estala de podre. Mas que fazer? Os herdeiros do senhorio recusam-se a fazer obras e já lhe fizeram saber que até iam a Fátima a pé se ele algum dia resolvesse sair dali.

O Macedo sempre acreditou em mim, esperava ainda ver o meu canudo de senhor doutor. Dizia ser eu um jovem diferente dos outros e nunca o consegui convencer do seu erro. Falávamos de ópera e ele trauteava as árias de Caruso; falávamos do Camilo e do Zola e da enorme fortuna que ele teria se os livros de sebo que tinha em stock fossem libras de oiro. E ele ria-se sempre e cofiava o bigode amarelecido - que entretanto estranhamente fez desaparecer - com a ponta da unharra do dedo mindinho.

«Muita saúde para si e para os seus, Sr. Macedo, e obrigado por me aconselhar sempre "boas leituras". "Apareça sempre, doutor, nem que não compre nada, nem que seja para me visitar, pois enquanto nos virmos um ao outro, ainda que poucas vezes por ano, é sinal de que ambos estamos vivos.»

Até sempre, Macedo! *

* Escrito numa mesa de café em Lisboa faz alguns anos.

Dos segredos




Para mim, uma deliciosa ocupação é deixar amadurecer um segredo e sentir o prazer inebriante de saboreá-lo a sós; mas quantas vezes a degustação desse prazer me entristece e me atira para o devaneio. O esquecimento é a melhor cortina de seda que me ocorre diante de um segredo, mas traz sempre consigo a dolorosa responsabilidade de não o poder esquecer. Guardo alguns segredos. Às vezes sinto-me, inclusive, uma espécie de repositório de segredos: uns meus, outros de pessoas que me são, ou, em algum momento, foram chegadas. Não me refiro, naturalmente, à informação que está por detrás das passwords, essa hipérbole atual, mais própria de uma criação de polichinelos, burocratas caídos em absoluta desgraça.

Nasci com o eclodir da guerra colonial e pertenço à geração dos iniciados nos primeiros cadernos de caligrafia e amestrados nos alfabetos por ditados, cópias e redações. Leio páginas de livros melhor do que comandos eletrónicos e senti algumas dificuldades em acompanhar o galopante avanço das novíssimas tecnologias. Fui treinado para descobrir sinónimos em dicionários, definições em enciclopédias, ensaios de erudição em almanaques. Sou de um tempo em que todas essas coisas se julgavam ferramentas de sobrevivência para o futuro que pudesse acontecer. E afinal, descubro-me ensarilhado entre aptidões, que me diziam ser obrigatórias, e este novo mundo de instrumentos visionários, que apenas as histórias de ficção científica me permitiam imaginar. De repente, depois de pequenas e impercetíveis metamorfoses, encontro-me dentro dessa ficção, na vida real de todos os meus dias. Passa-me pela cabeça o tempo que perdi a decorar tabuadas, nomes de rios, serras, linhas de caminho-de-ferro, declinações e fórmulas químicas. Mal eu sabia que havia de chegar a altura em que tudo isso seria absolutamente desnecessário para a prática comum da civilidade.

Hoje em dia quase tudo se resume ao preenchimento de campos informáticos e ao domínio das ditas aplicações, que tendem a estender a sua fervorosa ditadura a todos os campos da atividade humana. O neologismo «info-excluídos» entrou no léxico da competição laboral e quem não dominar com desenvoltura os ficheiros zipados, os scanners, os downloads e toda a panóplia dessas novas ferramentas, resta-lhe deixar-se ultrapassar pela voragem dos mais novos que, sequiosos de vencer e conquistar, vêm em passo de corrida ansiosos por provar que podem destronar os mais velhos das suas ciências rotineiras e caídas em desuso.

A minha capacidade para arrecadar passwords está perto de atingir o limite do suportável: é o código do alarme da repartição; são as palavras-chave para ter acesso às diferentes aplicações informáticas; a senha para iniciar o computador no ambiente de trabalho; o código do cofre; a senha para ter acesso ao telefone! Se a isto somarem as senhas que tenho para uso pessoal, desde o Multibanco, aos blogues onde escrevo, passando pelas diversas caixas de correio eletrónico, verifico facilmente que vivo num mundo de segredos onde se, porventura, me esquecer de alguma das palavras mágicas – os diversos abracadabras que se me colam como sanguessugas indispensáveis – fico ao relento de quase todas as dinâmicas que atualmente compõem as facetas da minha vida.

Apetecia-me ensaiar um regresso às origens, no sentido mais enfático da expressão, e tornar a um tempo em que imperava a rotina dos momentos comezinhos. Sinto vontade de me estender numa cama, acompanhado de uma sanduíche de marmelada e um copo de leite com Nesquick, e reler todos os livros da Enid Blyton, a começar pelas aventuras dos Sete, e deixar-me de segredos para sempre que não fossem as maravilhas que esses tempos – que não voltam mais – efabularam a minha mente de preciosidades imensas. Esses, sim, eram os verdadeiros segredos guardados por pontes que conduziam diretamente ao sonho e à felicidade.