sexta-feira, 9 de junho de 2017

Dos sentimentalistas e canalha semelhante




É um lugar-comum dizer que os escritores e poetas, ou os escreventes que aspiram a algo semelhante, amam a boémia como se esta fosse uma arte digna de ser enaltecida e cultivada. Diz-se (vox populis) que os poetas necessitam respirar, a plenos pulmões, o oxigénio embriagador da liberdade, talvez porque o sonho não admite nem muros nem fronteiras. Diz-se, também, não sem uma certa leviandade, retomando talvez o imaginário dos poetas românticos do século XIX, de pince-nez e punhos de renda, que os poetas são incapazes de amar com consistência uma só pessoa.

Acho tudo um absurdo e, mais do que um mito urbano – expressão condizente com os supetões da moda que assolam a nossa língua –, é tão-somente de uma questão de genuíno preconceito que se trata. Se existem pessoas capazes de amar com intensidade e viver de forma sublime o apaixonamento, são precisamente os espíritos poéticos, pois, não raro, conseguem, melhor do que ninguém, abdicar de pensar em si mesmos em nome do sentimento que nutrem. Não será essa a melhor postura provável perante o amor?

[As pessoas que conheço mais centradas em si mesmas, os ditos "amantes da liberdade", pouco ou nada têm de poético; são, antes, seres umbilicais, racionais, feéricos, calculistas, pouco dados a compromissos duradouros, que não abdicam, por ninguém, ou coisa alguma, dos seus hábitos e vontades enraizados; e, quando o fazem, é sempre a contra-gosto, com o sentimento vago de estarem a fazer um enormíssimo frete, tudo em nome de um altruísmo emergente a que urge acudir.

Devido à forma míope como encaram o mundo que os rodeia, tendem a incutir nos outros as suas próprias paixões, por forma a poderem livremente continuar a dar satisfação aos seus gostos pessoais, já que o abdicar de si mesmos é para eles uma demasia. Mais fácil é "conquistarem" os outros para o seu universo pessoal, por forma a não perderem o hobby, e, desse modo, poderem conciliar a "partilha" sem perderem pitada do seu egocentrismo]

O gosto pelas viagens, ou a necessidade de um tipo de evasão semelhante, não deve ser confundido com a inconstância ou a incapacidade de possuir sentimentos sólidos e duradouros por alguém. Viajar é um pouco como desdobrar a vida em várias vidas, é mudar de alma como de camisa, é iludir o tédio das rotinas diárias, pois não pode haver sina mais triste do que ver todos os dias as mesmas árvores, o mesmo céu, as mesmas fisionomias. Viajar é um pouco como trilhar o destino dos rios e dos regatos: fluir sem descanso, não beijando duas vezes a mesma pedra, não banhando duas vezes as mesmas sebes floridas, correndo e cantando por montes e vales. Parece uma contradição, mas é antes uma conciliação: o melhor remédio que existe para este género de tédio que assola as nossas vidas é a mudança de ambiente, talvez porque tenhamos a ilusão, ao vermos novas paisagens, que o nosso espírito se renova, abandonando, como fardos inúteis, as mágoas e as preocupações - na verdade, a "bagagem" que nos ocupa espaço na mente e no coração, acompanha-nos sempre, ainda que viajemos para as antípodas do lugar em que nos encontramos.

Uma característica que encontro amiúde nos ditos espíritos racionais, aqueles que em público se envergonham de expressar emoções, para quem conter a manifestação dos sentimentos é trés chic; e julgam boçais, primitivos, até, todos quantos acreditam no romance e na força da paixão, é a inveja absurda das pessoas sanguíneas, mormente dos poetas e de todos quantos têm a coragem de espraiar a necessidade de amar e de se sentirem amados.

Se por um lado os acham ridículos, grotescos, primevos, dotados de um lirismo insuportável e incapazes – segundo eles – de enxergar o mundo tal qual ele é; por outro, adoravam conseguir endoidecer com uma luz primaveril, com o flauteado das aves na copa das árvores, ou com o arrulhar das ondas do mar no final de uma tarde estival.

Evitam a espontaneidade dos sentimentos como se se tratasse de um pecado, de uma volúpia proibida à sua condição de meio-monges, ações que vituperam em público, mas secretamente admiram. Não ousam, perante os outros, nem a sua reputação alguma vez lhes permitiria, dar gargalhadas insanas, manifestar tristezas pessoais, ou vibrarem de alegria. A cobardia, aliada a uma afasia sentimental e um provável vazio estético, empurra-os para a única situação possível: a tristeza calada em que tudo é silêncio e a alma que chora abafa as vozes do seu sofrer latente.

O mais das vezes, são almas forasteiras, que vagueiam sozinhas na espessura da noite, procurando a companhia sublime do amor. Não devemos descuidar dos seus infortúnios, nem tampouco nos sentirmos ofendidos quando escarnecem de nós. Afinal são eles quem precisa da nossa ajuda.*

* Escrito algures em 2006 (Um desabafo em carne viva)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O Síndrome do Corno Retroativo




Em 1973, um grupo de homens assaltou uma dependência do Kreditbank em Estocolmo e fez reféns os empregados do banco. O sequestro durou seis dias. Uma vez resgatadas, as vítimas mostraram uma estranha simpatia e empatia pelos seus raptores. Essa reação psicológica correu mundo com o nome de Síndrome de Estocolmo.

Tudo isto tem sido lembrado a propósito de um caso relativamente recente, passado com a austríaca Natascha Kampusch, raptada e fechada num quarto entre os dez e os dezoito anos e que, depois da sua fuga e do subsequente suicídio do raptor, demonstrou sentimentos bastante compreensivos para com o mesmo. Este síndrome não é mais que uma resposta psicológica que encontramos em situações mais quotidianas, como a violência doméstica, exercida quer a nível físico, quer a nível emocional, sobre muitas mulheres, que posteriormente não só se mostram capazes de desculpar o seu agressor, como também se convencem que a agressão pode afinal ser 'uma prova de afeto'.

São muitos os comportamentos de índole patológica que ganharam o nome de algo a que se ligaram ou do cientista que os catalogou.

O chamado Síndrome de Asperger, transtorno de Asperger ou desordem de Asperger, é uma síndrome do espetro autista, diferenciando-se do autismo clássico por não comportar nenhum atraso ou retardamento global no desenvolvimento cognitivo ou da linguagem do indivíduo. Alguns sintomas deste síndrome são: dificuldade de interação social, falta de empatia, interpretação muito literal da linguagem, dificuldade com mudanças, perseveração em comportamentos estereotipados. No entanto, isso pode ser conciliado com um desenvolvimento cognitivo normal ou alto.

O Síndrome de Tourette, talvez o mais estranho dos catalogados, é uma doença que provoca tiques e obriga a dizer palavrões.

Os portadores do Síndrome de Savant são um mistério que fascina e intriga a ciência. Donos de uma memória extraordinária, são capazes de decorar livros inteiros depois de uma única leitura ou tocar uma música na perfeição após a primeira audição. Possuem ao mesmo tempo sérios défices de desenvolvimento, como uma grande dificuldade para falar e se relacionar socialmente. O mais famoso savant do mundo, o americano Kim Peek, que inspirou o director Barry Levinson a fazer o filme Rain Man, aprendeu a ler aos dois anos de idade e, hoje, já adulto, sabe de cor mais de 7.500 livros.

São muitos os síndromes e com certeza não conseguiria enumerá-los na totalidade, quer por desconhecimento dos mesmos, quer por falta de tempo ou de interesse textual. Acho, no entanto, uma injustiça que a possibilidade de conferir epítetos a certos tipos de comportamentos, identificáveis como síndromes, seja apanágio das doutas inteligências, homens da ciência que os identificaram, ou dos lugares onde esses mesmos comportamentos tiveram lugar. Estivado por um espírito criativo, amante confesso dos neologismos, dos barroquismos, e dos lupanares da linguagem, decidi apelidar um comportamento estereotipado, comum entre certos amantes, que confundem relacionamento com posse, amor com fusão e paixão com delírio de ciume, de 'Síndrome do Corno Retroativo'.

O Síndrome do Corno Retroativo, catalogado por mim, como mais uma qualquer doença do foro patológico, caracteriza-se por um ciume intenso, a raiar o absurdo, por quaisquer tipo de relações amorosas havidas com a pessoa com a qual se tem uma relação presente. Essa postura ridícula, excessiva e obsessiva, é capaz de corroer rapidamente relações e fomentar intolerâncias. Parece, no entanto, que certo tipo de pessoas estão condenadas ao ciúme e que a história da sua vida se desenrola na permanente superação desse sentimento que as visita com uma regularidade mais do que desejável. Essas mentes doentias, sofrem por serem ciumentas, porque têm medo que esse sentimento fira o outro, e porque sabem que se deixam submeter a uma imensa banalidade e prova da sua baixa estima.

O doente padecendo do Síndrome do Corno Retroativo, não tolera telefonemas de pessoas que passaram pela vida do seu/sua parceiro, ainda que seja para falar de coisas triviais, mas necessárias, tais como assuntos relacionados com um filho comum. Não tolera ver fotografias de antigos namorados/as, ainda que amarelecidas pelo tempo. Não tolera conversas sobre assuntos amorosos do passado dos seus atuais amantes, e é capaz de abrir cartas que não lhe são dirigidas, rebuscar telemóveis à procura de chamadas recebidas ou efetuadas, ou de eventuais mensagens, persegue e vigia o companheiro, e não lhe admite, sequer, que tenha amigos do sexo oposto.

Temos ciumes sempre por más razões. Ou por medo de perdermos o amor, a consideração ou simplesmente a atenção de alguém; por não sermos suficientemente bons para prender a nós as pessoas. Este ciúme auto-infligido pelos que padecem do Síndrome do Corno Retroativo, assenta sempre numa insegurança básica, numa angústia de quem sente sobre si o desabar do mundo, só de pensar que o 'objeto' do seu amor já foi possuído por outrem. O doente sente-se um corno eterno e irremediável e não encontra forma de se ver livre das 'hastes' que tanto o perturbam. A bem dizer, não há nada que o convença, nem que consiga entrar dentro dos seus neurónios, de que os 'outros' fazem parte do passado e que inevitavelmente todos nós temos uma história de vida, que não podemos nem devemos renegar. A criatura padecendo desta patologia até sofre com a não virgindade do seu parceiro/a e destrói tudo com delírios insuportáveis.

Ainda que nos faça cair o queixo de espanto, é certo que há por aí muitos gentios a sofrer do Síndrome do Corno Retroativo, ávidos por infernizar quem ingenuamente se lhes submete. E se num primeiro momento, o seu ciume expresso e reivindicativo, até que parece valorizar o outro, até lhe concede um estatuto de desejabilidade intensa e impensada que sabe bem, rapidamente se percebe que esse outro não conta muito, não é amado mas possuído, não tem espaço de afirmação próprio, mas antes se usa para expelir angústias que não lhe dizem respeito. Por estas e por outras, há muito que aprendi a detetar pessoas portadoras desta patologia e a melhor forma de as evitar, mas ninguém, onde eu me incluo, está livre de errar de novo. E por vezes o que apetece é mesmo uma postura trivial de não compromisso, capaz de evitar encontros de terceiro grau com portadores deste síndrome.

O ciume e a possessividade são ingredientes, se em quantidades aceitáveis, inerentes a qualquer relação amorosa, mas quando a patologia se instala, é o inferno que entra na vida de cada um de nós.

Todos certamente já provocámos e sofremos por ciume, desconfiança injustificada e irracional, mas temos de fazer um esforço por não descambar na patologia. Afinal, sofrer às mãos de uma pessoa povoada por esse tipo de patologia, é um pouco como deixar o inferno tomar conta da nossa vida e abdicar daquilo que mais nos integra: a nossa liberdade e auto-estima.*

* escrito em 2008 e publicado em blogues e num pasquim.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Os Indiferentes




Indiferente é todo aquele para quem tudo nem é bom nem mau e, para onde quer que vá, arrasta sempre consigo o despautério do prefixo de negação. Não manifesta preferências: é apático, insensível, por leveza e comodidade, ao contrário do indiferentismo. Esse sim, ao menos, acolhe o "ser indiferente" como uma alternativa consciente, uma escola da qual é pupilo voluntarioso.

Indiferentes aos problemas da solidão e do desejo de evasão, que domina a vida de três quartas partes das pessoas, o seu pensamento, a sua inquietação, estamos todos! Ninguém pode sozinho acolher a noite quando ela cai, assim como é impossível travar o rodar inexorável do tempo, o caminhar para a morte que nos espera implacável, em dia e hora incertos; o envelhecimento, o esboroamento dos acontecimentos mais felizes, os erros crassos irrevogáveis; a passagem das linhas que nunca deveriam ter sido transpostas.

Indiferente ficará, por certo, o incauto leitor deste purgante ligeiro, laxante de consciências mais pesadas do que o ar...

Indiferentes, todos nós:

Ao rio, que é o mesmo de há muitos anos, e está hoje mais quedo do que nunca; ao tráfego marítimo; às gaivotas que piam sem cessar; às nuvens que ora escondem o sol, ora o destapam; aos autocarros que baforam nuvens pretas de diesel queimado; aos transeuntes que estugam o passo e mantêm a cabeça baixa enquanto caminham para algum lado; aos carteiristas que deitam olhares profissionais às malas das turistas incautas... [uma banda composta por rapazolas ingleses, trajando camisa branca e calça preta, de cabelo palha, e borbulhas a florir em botão nos rostos colegiais, propõe, para o final da tarde, encher a praça que mais intimidade tem com o Tejo, com acordes soprados por instrumentos doirados que reluzem ao sol, transportando o néctar do som, depois de depurado por curvas caprichosas, para os sentidos de quem por lá passa e se detém com a firme vontade de os escutar.]

À regularidade simétrica com que os carros rolam na avenida; ao marejar da chuva leve da primavera nas folhas altas das árvores; ao som distante da cigarra que canta monocórdica algures no restolho; ao, quase impercetível, orfeão das rãs no lago fronteiriço; aos namorados que passam entrelaçados e trocam juras de amor eterno; à miudagem que bate com paus nas folhas de zinco que ladeiam e protegem a obra... [o guarda-nocturno continua imóvel no seu posto, frente à televisão, sem esboçar um único movimento, como se estivesse sob o efeito de uma hipnose que o tivesse congelado naquela posição].

As horas passam, o dia vai morrendo, o sol esconde-se, a escuridão toma conta de tudo e, às tenras horas da alvorada, os primeiros operários revisitam a obra: os entulhos da véspera, os sacos de cimento vazios caídos no mesmo chão, as areias que não foram mexidas, a não ser pelos gatos noturnos; os andaimes que não soçobraram com os humores do vento.

O guarda-noturno sai, passa por entre um grupo de operários de olhar extinto.

Indiferentes à gaivota que, já há algum tempo, paira sobre as águas do lago e, de repente, sem piedade ou hesitação, mergulha em voo picado sobre um dos patinhos bebés - esses que nasceram há dias e se julgam sob a proteção da mãe - e, sem preâmbulos, com duas ou três bicadas, mata o indefeso e engole-o de uma vez só. E, como se não bastasse, e não estivesse já saciada, passado instantes, repete o mesmo procedimento, desta vez com um ganso recém-nascido que tenta em desespero, subir para a margem.

Em redor, as pessoas serenas e continuam a falar umas com as outras, em amena cavaqueira, como se nada de extraordinário se tivesse passado. Foi apenas a natureza que pronunciou os seus ditames, sem mácula ou cor de pecado. A vida (a nossa, claro!) prosseguiu sem os hiatos destes momentos.

Indiferentes, aos farrapos de carne e pelo grudados no alcatrão quente, os automobilistas não diminuem a marcha, antes fazem pequenos desvios para não experimentarem o desagrado de sentir o baque das rodas dilacerarem o que resta do gato morto, horas atrás, por um camião demasiado indolente para desviar o curso da colisão fatal; e nem as coroas de flores que, amiúde, ornam, como memoriais de tragédias recentes, os separadores centrais, desencorajam a velocidade estonteante dos corredores da morte que se anuncia sobre rodas. Desviam o olhar do desagrado, aumentam o volume do rádio, assobiam músicas de acorde fácil, refastelam as costas no assento dos banco, fingem que o seu mundo é um aparte; nada daquilo lhes respeita, por princípio, por uma questão de sobrevivência.

Indiferentes, aos indigentes que se aninham uns contra os outros, sob cobertores de odores nauseabundos, junto à estação dos barcos: a bagagem aligeirada, uns poucos sacos de plástico de uma qualquer grande superfície; algumas caixas de cartão espalmadas; os pés nus, negros da fuligem da vida, tocando ao de leve garrafas de vinho esvaziadas na véspera, exalando a miséria de uma vida à sombra do desejo; os cabelos pegajosos, indomáveis a quaisquer escovas, fedendo a gado lanígero em dia de feira. Os passantes que se movem com o cuidado exagerado de não pisar algum corpo mais saliente. Desistentes, pensam eles. "Derrotados não são os que perderam mas os que, de alguma forma, desistiram de lutar". É esta a receita mágica, a aquiescência, que alivia a mente e impede ulteriores interrogações que provocam má disposição gástrica: o limiar da miséria da vida de uns, por oposição à opulência extrema de outros.

Indiferentes, à dor dos candidatos a passageiros que penam tempos infinitos nas filas apinhadas, quantas vezes à chuva, ao frio, à mercê dos elementos, os condutores dos autocarros passam, displicentes, com o rodado dos veículos nas poças de água que bordejam as paragens. Se algum passageiro de última hora implora que lhe abram a porta, o mais das vezes, viram a cara para o lado, assobiam para o ar para afastar à má consciência, e arrancam com a fúria de um deus alado, contentes com a sua atitude, gratos pela sensação de poder que lhes transmite o facto de poderem, com esse gesto, decidir a boa ou má sorte de alguém: "Deixa-me entrar?" "Não, não deixo, viesse mais cedo!".

A indiferença consciente é tão intrinsecamente humana que, antes de parecer uma deformação ética, uma povoação de egoísmo, mais se assemelha a uma das características, senão porventura à maior, da condição de sobrevivência individual da espécie de que fazemos parte. A escolha reside em ser ou não ser indiferente, como em Shakespeare. É óbvio que a opção tomada nunca será indiferente.*

*escrito em Lisboa, algures em 2005

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O intelectual




Não sei quantas vezes já me interroguei sobre o verdadeiro alcance e significado do vocábulo «intelectual», sem que tenha chegado a alguma conclusão satisfatória...

Um intelectual, para o senso comum das pessoas, é alguém votado ao estudo profundo das coisas e artilhado de uma grande cultura; mas, não raro, já ouvi a expressão ser empregue com um sentido pejorativo: «Estás armado em intelectual?»; «Aquele tem a mania que é intelectual!...»; como se gostar da leitura e do saber, alimentos essenciais do espírito, fosse sinónimo de presunção, pecado, ostentação, vaidade e algo de que nos devamos envergonhar e esconder dos que nos rodeiam, como se fossemos portadores da peçonha.

O intelecto ou a inteligência - e julgo que esta noção é pacificamente aceite por todos – é a capacidade de adaptação e domínio de novas situações, a possibilidade de “fuga” ao determinismo biológico, ultrapassando a limitação das respostas meramente reflexas que são mais próprias dos animaizinhos. Nós reunimos as duas opções e é bom que façamos uso delas.

O conhecimento, então, resulta de uma dialética bem diagnosticada: o sinalagma sujeito/ objeto.

Enquanto a função do sujeito consiste em apreender o objeto tornando-o presente a si próprio, a função do objeto é meramente passiva: deixa-se apreender dando conteúdo ao que é apreendido pelo sujeito.

A experiência de cada um mostra que há para o homem dois modos ou graus de conhecimento: o conhecimento sensível, singular e concreto, e o conhecimento intelectual, universal e abstrato; e toda a Teoria do Conhecimento, que estudámos nas velhas lições de Filosofia, valora exatamente a análise da experiência, o que implica a decomposição desta nos seus elementos: sensação, intuição e pensamento.

Mas toda esta verborreia não elucida ninguém, incluindo eu próprio, sobre o que afinal vem a ser um intelectual.

Um intelectual pode ser, efetivamente, alguém dotado de um grande afã de sapiência e, por essa via, dotado de uma cultura superior – que dista da mediania; ou pode ser alguém que abomina as vias-sacras do futebol, dos tunnings e dos turbos, das revistas de informática, das discotecas com “muitas gajas” e, como consequência (dessa negação), resultar num ermitão voltado para as leituras e consagrado a essas únicas iguarias que lhe alimentam o apetite voraz pelo saber. Essa seria, na minha ótica o melhor sinónimo para aquela palavra (quase) intraduzível do francês, mas que tanto significado comporta: o verdadeiro emerdeur.

Ou, num notável registo de ecletismo, um intelectual pode ser ambas as coisas.

São estes últimos, em boa verdade, os mais bem aceites e tolerados pelas claques que «abominam intelectuais» - o mais das vezes por não o serem e sentirem-se inferiorizados por via desse facto - pois estes ecléticos conseguem conjugar vernáculo, palavreado apócrifo,”bojardas” plenas de graça, tudo mesclado com uma erudição de se lhe tirar o chapéu. E como dignos representantes desta Escola de Feitores das Letras, que agradam a gregos e a troianos, temos as figuras paradigmáticas do Miguel Esteves Cardoso, do Pedro Paixão, do Ricardo Araújo, entre outros figurões – a maltinha da “massa cinzenta” – a que se quer juntar um tal Rui Zink - esse ápex da escrita que também se quer fazer passar por maluco, mas que escreve tão mal, desajeitadamente e sem graça, que, a não ser como apoderado e lacaio, não lhe vislumbro grande futuro nas letras.

Um intelectual – e tenho de forçar uma definição – é alguém que gosta com intensidade de coisas que deleitam o espírito, mais ou tanto do que os sentidos, e sente um apelo irreprimível pela auto formação de um astral criativo, pleno de curiosidades satisfeitas, que fazem do sonho um ato de permanência. E nós, que nos candidatamos a estas aparências, enriquecemo-nos deste modo: tanto com as denegações quanto com as confirmações que as nossas aquisições nos despertam. E assim se vive em sintonia com o que nos forra e nos se assemelha.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Corte e Cose





«Corte e Cose» é uma das muitas firmas dos franchisings que por aí abundam e integram-se no nosso quotidiano como a visão habituada de mais um nome sugestivo.

As novas formas de intervenção, emergentes dos atuais modos de fazer negócios, habituaram-nos à ideia da firma-conceito, e da força que dele se desprende, como sendo, talvez, uma das melhores formas de publicitação existentes: algo que fica a soar bem no ouvido e na mente de todos nós.

«Corte e Cose», sugere-me a ideia de uma reparação ou, pelo menos, de uma intervenção com resultados positivos – algo que carece ser intervencionado e cujo efeito final resulta num valor acrescentado, e numa melhoria evidente sobre a matéria inicial apresentada.

Escolhi este nome pela sugestão que ele provocou em mim em face ao assunto de que me proponho falar.

Mas não é sobre o franchising que quero dissertar, nem tão pouco sobre as suas técnicas e sucessos comprovados no mundo empresarial moderno. Tomei de empréstimo a firma com outros propósitos.

Pareceu-me que, distorcendo um pouco o nome, poderia obter um epíteto muito aplicável às relações que se estabelecem através da Internet – a novíssima forma de comunicação do nosso tempo, que põe em contacto estranhos que, de outro modo, e segundo todas as probabilidades, nunca teriam qualquer chance de chegar ao conhecimento mútuo.

Numa sociedade impregnada de valores que obtêm sustento na riqueza material obtida, na ostentação e nas relações de subordinação - onde, preferencialmente, devemos ser o subordinador e não o subordinado – no seio da pirâmide social, o tempo para os afetos é risível e tem uma margem escassa para existir.

Longe vão os tempos em que a sociabilidade era coisa fácil, as pessoas travavam conhecimento por força das circunstâncias, numa forma de viver comezinha e doce, que, em leveza, nos guiava e nos fazia felizes.


Hoje, nesta era de ferocidade e heroísmo ao contrário – «tempus fugit» – «perder tempo» com relacionamentos que não tenham por fim, ainda que mediato, um proveito qualquer a nível ascensional-material, é, na mente de muita gente, um empreendimento de todo impensável. Alguns, certamente por infelicidade de expressão, chamam a isto «adaptação».

[Talvez seja eu quem esteja desadaptado, e que nunca tenha conseguido moldar-me com firmeza a esta fabriqueta de viver, dentro da qual me resta existir, e pouco ou nada possa mudar a não ser escrever, até que a impaciência resultante deste estado de coisas me tolde a mente por completo e ganhe o sibilar do meu silêncio.]

O novo meio de comunicação possibilitou aquilo que a voragem dos tempos modernos consumiu: a reaproximação entre as pessoas, o recuperar dos diálogos, a permuta de afetos, a preocupação com as trivialidades do quotidiano dos outros, a exposição das alegrias e das tristezas; enfim, o modo relacional normal entre seres humanos, embutido dos ingredientes de que se lhes reconhece a marca. Tudo isto se as relações entre as pessoas saírem da luminosidade branca do ecrã e se consumarem presencialmente.

Virá o dia em que alguém – se é que já não o tenha feito – escreverá com profundidade sobre este assunto, de uma forma relacional, cientifica, sistemática e desapaixonada, pois restam-me poucas dúvidas que a Internet, se bem utilizada, é o potencial de comunicação mais fabuloso que alguma vez o homem logrou conceber.

A técnica, infelizmente, não molda o comportamento humano, nem possui a magia suficiente para o transformar em algo diferente.

«Corte e Cose», o nome do conhecido franchising, que batiza muitas lojas de arranjos rápidos em superfícies comerciais, aplicado às relações humanas que se formam no universo «on line», sofre uma alteração inevitável. Melhor será chamar-lhe «Cose e Rasga».

São conhecimentos que se travam de modo fortuito, aleatório, e que crescem à velocidade da curiosidade e da empatia que floresce, mas que, o mais das vezes, estão condenados à duração do curso cintilante de uma estrela cadente no astral infinito de uma noite de Verão. E estes lampejos de contato, que alimentam os passatempos de gente fútil e néscia, escondida por detrás das máscaras da cobardia e do anonimato, causam-me um desgosto profundo.

Talvez eu exista forrado de uma ingenuidade de filigrana, muito próxima do infantilismo, mas ainda prezo os relacionamentos que escolho para alicerçar, e deposito neles a esperança e a vontade de fazê-los crescer como fonte geradora de felicidade, aprendizagem e crescimento pessoal.

Exasperam-me os modernos partidários do «Cose e Rasga», que utilizam a «comunicação netiana» à laia de passatempo ligeiro, para preenchimento do vácuo crónico da sua sórdida existência.

Apelo ao fim deste ciclo infernal, este fogo-fátuo de afetos, que consiste no fingimento consciente do encetar de relações que, à partida, sabe-se que durarão até à quebra do encanto e da novidade, e dissolvem-se fáceis, como um bocejo, na hora da despedida.

Já nos bastam a desumanização trazida pelo nosso quotidiano grupal, e não vale a pena cair no ciclo infernal que é iniciar uma construção com materiais sem consistência e, passados alguns momentos, longe que vai a novidade, fazê-la ruir e repetir o procedimento numa voragem próxima da insanidade.

É este hoje o meu desabafo, trazido pelo desalento: «Corta e Cose», de preferência com reforço nas costuras, pois que as relações de amizade valem oiro!

(escrito algures em 2006)

O amor verdadeiro




As ilusões são talvez tão inumeráveis como as relações dos os homens entre si, ou dos homens com as coisas. E quando a ilusão desaparece, quer dizer, quando nós vemos o ser ou o facto tal como ele existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, complicado em metade pelas saudades do «fantasma» desaparecido, em metade pela surpresa agradável ante o novo, ante os factos reais e a reposição da clareza e da verdade, muitas vezes só depois de desnudarmos o véu das irrealidades que nos impossibilitavam de ver com clareza.

Se existe um fenómeno evidente, trivial, sempre idêntico e de tal natureza que a respeito dele é impossível estarmos enganados, é o amor maternal. É tão impossível imaginar uma mãe destituída de amor maternal como a luz sem calor, como um sol frio, que não seja no sentido da antítese poética.

Ainda há pouco fui comprar um jornal, eu que faz tanto tempo não comprava jornais. Apanhava-os ali, acolá, espalhados pelas mesas dos cafés e dessa forma me abeirava das notícias. Sentei-me num banco de jardim sentindo na face a brisa suave da manhã e deleitei os olhos a observar a doçura com que uma mãe brincava com os seus filhos; os beijos e as ternurazitas que lhes dava, o brilho que se escapulia dos seus olhos, a incondicionalidade daquele amor ali à minha frente. À nossa volta doidejavam pássaros e as corolas das flores pareciam cálices que exalavam explosões de odores e cores e tudo aquilo me pareceu fazer sentido como se fora um «ensemble» musical reunindo os ingredientes da beleza nas proporções certas.

Recordei que, em tempos, conheci alguém que, na minha licenciosa fantasia, enchia a atmosfera que me circundava de ideais, cujos olhos espalhavam o anseio da grandeza, da beleza, da glória, e de tudo o que me fazia acreditar na imortalidade desse amor. Mas essa pessoa não era quem eu julgava ser: era uma vez mais um fruto das partidas de Delfos das minhas perenes ilusões, algo que eu fantasiara, ou desejara que fosse real.

Hoje dia primaveril lindíssimo, cobertos os pensamentos acerca dela com os mantos da certeza, da realidade, e da consciência aguda da verdade, sinto-me mais conforme comigo mesmo e guardo-me para o dia em que apareça vinda dos meus turvados sonhos, envolta em tules odoríferos, a princesa que se assemelhe em tudo um pouco à minha ilusão.

O tempo e o amor marcaram-me com as suas garras e ensinaram-me cruelmente o que cada minuto e cada beijo nos roubam em juventude e em frescura. E estou tão certo, como esta manhã soalheira, em que o ar treme ao tocar na água do lago, de que algures, num cantinho escondido, por entre os áureos véus das nuvens, num país distante, numa terra sagrada, aqui perto de mim, ou nalgum lugar naufragado nas brumas do meu desejo, dormita a musa que se assemelha na verdade à felicidade engendrada pela minha ilusão.

Estas linhas, escritas no conforto da minha sala forrada de silêncios, são uma forma de me refugiar da tarde e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de manifestar a insurreição do meu olhar perante estas coisas que, por muito que se afastem, regressam sempre ao burel da minha escrita, escrita que é um pouco o cinzel com que esculpo a minha vida.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

A ti




Gostava de saber chorar como tu choras. Encostada ao ombro de alguém, com um olhar de menina que não chega a ser um olhar de desculpas pelo que fez, mas um olhar de certezas e de direito por chorar. Gostava de me comportar contigo como fazes comigo. Com uma ternura austera que me prende mas nem sequer desafia.

Por vezes empreendes um espírito distante que me deixa completamente impotente. Nunca serei capaz de te dizer que não, se quiseres que seja sim, nem vice-versa. Às vezes rio-me do que dizes. Pareces-me ingénua e irracional e pergunto-me, por quanto tempo serei capaz ou poderei continuar a sentir-me apertado, como se toda a atmosfera me comprimisse contra mim mesmo pela tua imagem.

Olho para ti e penso que te conheço tão bem, como se existisses desde sempre comigo. Que nunca poderás ter uma reação que eu não possa prever. Apetece-me dizer-te tudo o que sei e não sei sobre ti. Porém, só posso ter a certeza de que te conheci e que os momentos passados estão assegurados. Já tinha desejado conhecer-te. Que passasses por mim e soubesses que eu não era igual aos outros - Que existia!

A ideia de que te conheço é cimentada cada dia que passa. Como se fosse uma parede que lentamente se vai erguendo a cada tijolo que é posto e um dia me condicionará a vista. Temo este muro apesar de continuar a construí-lo. Sei nitidamente que sou eu quem o constrói.

Sei o teu nome, vigio-te os gestos, os olhares, tudo. Quando não estás, faço suposições acerca do que dirias, do que farias. Reconheço-te a voz, o andar, o toque macio da pele, a respiração, o olhar calmo, o espírito inquieto que ninguém pode adivinhar. Pergunto-me se valerá a pena aproximar-me ainda mais desta miragem. 
Por vezes imagino que nas ruas da cidade há uma pessoa perigosa escondida atrás de uma esquina para me fazer mal. É assim que te imagino. És tu a pessoa perigosa.

Em cada paixão há frascos de veneno que são postos em copos com água e que nos é dada a beber quando menos esperamos. E depois perguntamos porque é que não segurámos um pouco mais a sede? Porque existem erros de sincronização entre o racional e o prático?

Eu queria ser uma criatura inteligente, criada a partir do e para o cérebro. Para a idealização e concretização das ideias. Lamento não o poder ser. Queria ser envolvido pelo teu olhar cúmplice, pelos teus braços, sentir-te o hálito quente e ficar assim pacientemente para a eternidade. Sacrificar tudo. Nunca mais sentir a humidade do inverno nem o calor excessivo do verão.

És sobretudo, penso agora, a minha maior dúvida, tudo aquilo que gostaria de resolver. Procurar-te naquilo que me mostras e acabar por te descobrir naquilo que inventei.

Gostaria de ficar a noite toda a escrever acerca de ti e para ti. Venerar-te mais. E fico triste pela incapacidade de o fazer, de o poder fazer, ainda que parcialmente nestas folhas. Só queria que, antes de fechar o caderno, batesses na porta: entra, diria eu, e me abraçasses como se abraça um menino, com a maior ternura que possa existir.

Mas as ilusões são comédias demasiado duras. É angustiante sentir-se que uma pessoa apenas nos dá a caridade de mantermos um sonho, perpetuá-lo, até que chegue a altura de o desfrutar.

Esperas pacientemente pela velhice. Eu gostaria de ser eternamente jovem. Poder cá estar quando tudo for diferente e fascinante. O passado é isso mesmo, só passado, só fascina os incapazes. Esses terão sempre medo do futuro porque não gostam de incertezas. Eu estou sempre à espera do futuro, sempre com os olhos postos naquilo que há-de vir. Eu queria viver no futuro porque nada me fascina daquilo que conheço. Estou sempre a querer andar depressa, de tal modo que às vezes me sinto obrigado a recuar para não sair do contexto.

Acaba por ser uma necessidade saber que não se está só. E que ainda avistamos os outros ao longe, mesmo que sejam apenas pequenos pontos quase a confundir-se com a linha do horizonte.

Queria falar contigo. Dizer-te como gosto de ti e como é tão fácil gostar. Seria tão difícil magoar-te. Mas não digo nada. Não o faço. Todas as palavras pareceriam fazer parte de um discurso ensaiado à entrada de um palco. E és tu quem prepara todo o processo da representação, com olhos e gestos cúmplices que parecem enlevar a sedução ou fascínio que me reservas.

E eu confio-me a esse espetáculo quase exuberante que me preparas. Assumo o meu papel de ator que nunca representa, nem sequer conhece o papel que lhe cabe, que inventa a cena e o cenário. Crio e destruo situações efémeras, como um arrepio que passa. Depois, em silêncio, dedico-te tudo. Cartas, poemas, textos, pensamentos. É quase uma vingança que guardo no lado mais obscuro e ao mesmo tempo mais nobre de génio. Por pouco que seja.*

*(texto publicado em 2006, numa separata do jornal do Barreiro e num pasquim literário da época, de que já não recordo o nome. Trata-se de um escrito puramente ficcional, em jeito de prosa poética, género, à data, tanto do meu agrado, e nunca serviu de missiva para nenhum destinatário em concreto)

Querido Diário!



Estou demasiado atarefado a fazer a mala. Parto hoje para Leiria, sabias? Vamos nos ver menos vezes, mas não quero que fiques triste. Às vezes, como sabes, o silêncio doira a saudade e aumenta o desejo do reencontro. Além disso, tu tens ciência de que a minha vida é agora mais lá para aqueles lados, onde o Lis serpenteia à sombra dos esgares de um castelo altaneiro. Volto agora para as tarefas do meu quotidiano banal, mas não quero que penses que te abandono; isso nunca! Tu sabes, eu sei, que vou como as aves, mas sempre regresso, mais não seja quando a saudade for tão forte que me impeça de continuar sem ti. Quero sair de casa antes do cair da noite, pois esperanço ainda ver os estorninhos na estrada. Não têm conta a esta hora, em revoadas sucessivas sobre as árvores. Depois o sol acalma e, lá para o fim da tarde, como é usual, uma sombra mole escorre para o alcatrão aquecido da estrada. Logo, mais tarde, quando a noite se sentar à minha beira e me sussurrar aos ouvidos, quero estar recolhido com os meus pensamentos em ti. Nessa hora aflitiva, a luz de mim mesmo é tudo o que trago comigo, porque também eu sou pequenino e tenho medo do escuro....*


Até sempre

(* Excerto de uma passagem de um diário - escrito em maio de 2006, faz agora sete anos, num final de tarde semelhante ao de hoje, em vésperas de vir trabalhar e morar em Leiria)









sábado, 27 de maio de 2017

Dos meus heróis



Há pessoas que estão sempre a afiar as garras e que julgam que a melhor defesa é (sempre) o ataque. Bater antes de ser batido. Marcar desde logo território e partir para o combate numa posição de vantagem. Deixar o adversário knock out sem que ele tenha, sequer, a possibilidade de esboçar um gesto de defesa.

É a politíca da "terra queimada", no que às relações pessoais respeita.

As guerras sempre começaram por ser pequenas escaramuças que degeneraram numa escalada sem fim à vista. Não são mais do que uma representação superlativada dos conflitos interpessoais.

Neste mundo egótico em que a regra maior é sobreviver, ter outro comportamento pode, muitas vezes, levar-nos à auto-aniquilação, ou à morte consentida. Ser bom, ter um comportamento altruista, implica aceitar à partida a ideia de perda, de sofrimento e possuir uma capacidade infinita para amortizar injustiças. É dar sem esperar retorno. É aceitar o sacrifício. É conseguir ser o melhor Ser do mundo e arvorar-se da qualidade maior que é a bondade. É mais fácil ser culto, interessante, esteta, filósofo, ensaista, poeta, diseur, whatever, do que ser genuinamente bom.

Essas boas pessoas são as melhores do mundo e são as únicas que invejo e mais admiro.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

À beira do Lis



Alguém me disse, com um ar muito convicto, que estas bolinhas de algodão em rama que andam por aí a esvoaçar sem rumo e fazem imensos rodopios antes de assentarem no chão, desprendem-se aos milhares dos enormes plátanos que bordejam o Lis e provocam alergias. Eu não sei se isso é verdade, mas acredito que assim seja. O que é certo é que a primavera regressou com força e desde que comecei a escrevinhar estas linhas os pardalitos ainda não largaram a minha janela. Por mero deleite, costumo deixar uns miolos de pão, ou bolachas, em cima do parapeito da varanda, pois sei que mais tarde ou mais cedo eles acabam por aparecer. Sinto um gozo soberbo quando no final da tarde escuto os chilreios destas avezinhas trémulas e gorduchas que dão saltinhos para a esquerda e para a direita rodando sobre si.

Mas será que era disto que eu queria falar? Da primavera, dos oráculos que, um pouco por toda a parte, conseguimos ver anunciar a passagem da meia estação com uma luz que faz as cores do mundo resplandecerem no contraste com o azul do céu? Talvez, sim. Este tempo positiva-me...

No próximo fim-de-semana espera-me uma tarefa árdua: fazer por esquecer recordações, papéis diversos, fotografias, por vezes mesmo pequenas coisas escritas e guardá-las algures no fundo de uma gaveta ou na parte de trás de uma estante mais elevada e de difícil acesso, ou porventura, mais assertivamente, deitar tudo no lixo. Sei que há uma página da minha vida, pesada como chumbo, que quero virar. As outras laudas, as que inevitavelmente lhe seguem, estão em branco e cabe-me a mim preenchê-las com os tais momentos que careço: prestações positivas e a felicidade de uma vida fresca.

Há muito que abandonei o zapping doentio que em definitivo se incorporou nos tiques domésticos de quem se senta na sala depois do jantar. Os meus entretenimentos passam pela leitura, pela escrita, pela música ou pelos passeios pela cidade vazia, depois da acalmia do trânsito e recuperar o prazer de olhar os prédios, as janelas, os telhados, as cores de todas as coisas. E assim, por vezes, vou escorregando de ideia em ideia, afinando planos e contingências que careço solucionar dentro de mim.

Quem me lê, por certo, já se apercebeu desta minha veia diarista, epistolar – em mim recorrente - e talvez que o meu olhar sobre a vida e os seus enfeites abram alas a que alguém me explique melhor o porquê de tantas coisas, as respostas que eu não tenho, ou, se tenho, já nem sei onde as guardei.