sábado, 1 de julho de 2017

Apenas...




Vou deixar ciciar as palavras enquanto a noite me envolve e o amor e o vento me sussurram ao ouvido lembranças do sabor do dia: o ranger dos passos; mãos que se entrechocam rápidas sem saber onde poisar; bocas que encontram corpos que pesam a súbita ausência de palavras… tão distantes impuras, quase de ausência, que recusam a presença estática inútil; o estar não estar como fosforescência de brilho ausente muito mais que subtil.

E disse:

Eles desceram da noite e fizeram amor na geada e de manhã na relva. Depois, como dois namorados, desceram a rua e beijaram-se imóveis na tarde. O céu estava azul, apenas...

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Pensamentos matinais



A liberdade de recomeçar é, porventura, a maior de todas as liberdades. A «capacidade Fénix» de nos reerguermos das cinzas, reunindo os cacos, o que sobejou da mobília e das loiças, pondo tudo numa maleta mal enjeitada, refazendo-nos noutro lugar, como se fora um dom de maturidade maior, ou uma mostra da mestria da nossa capacidade de adaptação e sobrevivência.

[Há, inclusive, quem tenha definido a inteligência como a especial capacidade de adaptação a cenários novos, embora pensemos que qualquer tentativa de caraterização do termo redunde numa falácia: há muitos tipos de inteligência, não sendo de todo possível subsumi-la numa definição universal e finalista.]

Igualmente forte, significando coragem, é o poder-dever de cambiar de opinião, arrepiar caminho, refletir, não fazer parte de «uma conspiração de estúpidos», acríticos, acéfalos, completamente tornados invisuais pela incapacidade de análise do self.

Fortalecemo-nos cada vez que nos capacitamos possuir esse sublime virtuosismo, que é a arte de nos reinventarmos. Sentimo-nos aptos a atravessar mares de tormentas, encapelados por ondas de contrariedades, contingências, agastamentos, saindo deles doridos, franzidos, mas capazes de endireitar os nossos amarrotados, de forma a nos apresentarmos, passadas as tormentas, quase incólumes e com um sorriso de vitória nos lábios.

Pretendemos, quantas vezes, delimitar as fronteiras entre o «correto» e o «incorreto» e – sabemo-lo bem – é impossível agradar a gregos e a troianos; movemo-nos sempre nas areias pouco seguras do relativo e do subjetivo, sem saber ao certo onde para esse paradigma chamado «verdade».

A nossa vida desenrola-se num trilho a que chamo, por comodidade, caminho principal, mas que em boa verdade, é um lugar confuso, inóspito, repleto de encruzilhadas, ruelas esconsas, algumas sem saída, percursos alternativos; e, queiramos ou não, perante o que nos vai surgindo ao longo da nossa caminhada, estamos sempre a ser confrontados com a necessidade de optar seguir por uma via ou por outra. Não há escolhas isentas de contrariedades, nem há nada capaz de escapar ao crivo da dúvida casuística. Todas as decisões condensam em si razões prós e razões contra. Estamos, pois, sempre condenados a escolher.

[Escrever serve para muitas coisas, das mais reles às mais elevadas. Como em qualquer arte, o que salva é o mesmo que nos perde. Intensificando a vida, intensifica-se a presença da morte. Mas escrever não é uma coisa que se escolha ou não fazer. E uma pessoa não escreve o que quer, mas sim o que pode. Sinto que escrevo para não morrer e vou morrendo a escrever.]









Deceção



É um lugar comum dizer constantemente que todas as pessoas nos dececionam, mas assim como há pessoas que nos causam esse estado de amargura, outras há que nos surpreendem pela positiva; e outras, ainda, que confirmam tudo quanto já pensávamos delas.

Dizem que os amigos são para as ocasiões - e eu diria que cada vez menos sei quais são as ocasiões em que se deve apelar para os amigos e quais os amigos que se prestam e têm disponibilidade para nos acudir em dadas situações.

As amizades, com exceção daquelas mais antigas, que nos vêm da infância e nos acompanham ao longo da vida, acontecem-nos por zonas de interesse e ocupação, por empatias, por circunstancialismos, muitas vezes fruto do acaso, que nos surgem no trilho da vida. Tendemos a sentir empatia por pessoas que, julgamos, sentem o nosso pulsar, compreendem o nosso estilo de vida, as nossas perceções, possuem gostos semelhantes e objetivos que nos merecem sentido. E, por vezes, até os amigos vão sendo mais conjunturais, mais fruto das circunstâncias e das necessidades práticas de alianças, consequência de tumultos comuns que fazem com que duas vidas se cruzem no amparo da amizade recíproca.

Quando a nossa vida dá para o torto, quando os empregos falham, quando a solidão nos bate à porta, quando os divórcios ou o fim das relações amorosas acontecem e tudo se baralha dentro de nós, temos saudades dos amigos de outros tempos. É aí que escolhemos criteriosamente com quem podemos contar, de que modo e com que limites precisos, e descobrimos que nem todos os amigos são para todas as ocasiões.

É bom fazer amigos. Nos últimos tempos, em virtude da minha cada vez maior presença na música e também na poesia, tenho feitos novos amigos. Nuns casos, trata-se de pessoas bastante mais novas do que eu, mas com uma forma de pensar lúcida e avisada, capaz de entender coisas que, julgava eu, só pessoas com a minha experiência de vida e maturidade conseguiriam alcançar. Noutros casos, são pessoas com idades próximas da minha, mas com vidas e saberes que me completam.

A vida tem destas coisas e nem imaginamos quão enriquecedor é permutar experiências, vivências, com personalidades diferentes.

Os mais velhos, contrariamente ao que diz a «sabedoria popular», também aprendem muito com os mais novos, especialmente quando se trata de pessoas que possuem uma mentalidade muito para além da sua idade biológica.

Gostei muito de ter feito novos amigos, pessoas que valeu a pena ter conhecido, para manter o contato e aprofundar a amizade, já que a vida tem uma duração aleatória e é demasiado preciosa para ser desperdiçada com seres sem luz e medíocres.

Cada vez mais me convenço que o dia-a-dia é feito de um contínuo destes pequenos acontecimentos: coisas que por vezes parecem não ter importância ou impacto, mas que vão dando cor e sentido ao fluir da vida e me fazem adivinhar que ainda há afetos a precisar de partilha, pessoas que gostam de gostar de pessoas e que esse é o maior desiderato da vida.

Uma conversa particular




Não é fácil exprimirmos o que sentimos em todas as circunstâncias. Não é só um problema da língua, do ser difícil, traiçoeira, complexa, contraditória, ou tudo isso e mais alguma coisa. O dizermos, o que nos vai na alma, não passa de uma velha metáfora, despida quantas vezes de espiritualismo, mas pungente na nossa necessidade de afirmarmos, permanentemente, uma existência subjetiva e, de algum modo, transcendente em relação a uma entidade que nos espreita do outro lado do espelho; e que, tantas vezes, não identificamos nem reconhecemos como sendo a destinatária dos nossos expatriados pensamentos. O que nos vai na alma, ou, dito por palavras, o que sentimos, é um caudal iníquo e contraditório em que se misturam, de forma aleatória, quando não descontrolada, sensações, pensamentos, desejos, fantasmas, fantasias, medos vagos e outras coisas de igual ambiguidade. Os sentimentos propriamente ditos, aquele fluxo que medeia entre o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a tranquilidade e a inquietação, o desespero e a esperança, a inveja e a gratidão, habitam-nos como uma segunda pele e dão-nos, além do mais, algum sentido de existência e de coerência. Todos sabemos algumas coisas dos nossos demónios. Eu sei que preciso de fazer uma pausa para falar com eles - uma conversa em particular, como é evidente.


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Frio em 2004



Estou com frio, tremo de frio, mantenho-me apagado, as emoções enregeladas e só possuo um pequeno candeeiro infantil, com um abat-jour de pano-cru, azuláceo, que esvaece uma luzinha pálida que me dá um pouco de calor de lâmpada. Ele está aceso, eu não. Ele emite uma luz fraca, mas constante, sem arrependimentos; eu já anoiteci, e, há muito, deitei o meu corpo branco ao comprido sobre as bocas de respiração do metropolitano, com a cabeça encostada ao corpo negrito das crianças que se perderam dos sonhos, sentindo, nessa osmose, o verdadeiro sentido do que é anoitecer por dentro...

Vou com os desistentes, todos de mãos dadas, cantando hinos de saudade e abandono. Fiz as malas e coloquei lá dentro nada; irrevogavelmente, quedo-me nos caprichos da correnteza e deixo que sejam os acontecimentos a surpreender-me: não evito as folhas cárneas que se soltam em silêncio das árvores e planam em rodopio até repousar no chão; não acolho, nem repreendo, a vontade do vento, que é inconstante e sopra conforme lhe apetece, sem lógicas ou direções pré-definidas; não me sinto, sequer, destinatário do apito lúgubre da sirene dos bombeiros que lembra que o dia chegou ao meio;

Eu não sou um dos anunciados nem nunca me faço anunciar. Pura e simplesmente, apareço e desapareço, como uma lua desnudada de feitiços que, por vezes, se cobre, com farrapos velhos de nuvens que sobraram do repasto dos banquetes do céu. Mastigo, com dificuldade, estes pensamentos expatriados da Ópera Bufa que é a vida, aquela única que conheço e me circunda como um círculo cabalístico...

Barreiro - 2004

Empregada, procura-se!



Desde que a minha empregada ucraniana resolveu veranear por dois meses na sua terra-mãe, a minha casa está a ficar suja e em desordem. Felizmente para mim, não padeço de nenhuma desordem mental que me faça limpar compulsivamente, mas gosto de alguma higiene e o meu tempo livre para tarefas domésticas escasseia.

Consciente desse fato, decidi rever os meus parcos conhecimentos do comportamento humano, a fim de poder vislumbrar o perfil mais adequado da senhora de limpezas ideal para trabalhar em minha casa e que me possa socorrer neste momento de aflição. Procuro alguém muito especial. Uma pessoa que padeça de uma desordem mental aparentada com a Mania, que, como se sabe, caracteriza-se por uma alteração de pensamento e comportamental dirigido, em geral, para uma determinada ideia fixa e com síndrome de quadro psicótico grave.

Procuro um ser com grande agitação, loquacidade, euforia, insónia, perda do senso crítico, grandiosidade, prodigalidade, vontade imparável de trabalhar até à exaustão. Não me contento, de forma alguma, com alguém que tenha umas maniazitas, que nem são propriamente manias, no sentido restrito do termo, tais como alguns costumes exagerados ou caracterizados por alguma fixação, ou repetição exagerada de gestos, entre outras coisas. A minha busca está mesmo centrada em encontrar, o mais rápido possível, uma pessoa com Mania, encarada esta como desordem mental.

Mas o busílis da questão é que eu procuro um tipo particular de Mania. Não quero cá em casa nenhuma cleptomaníaca – já me chegaram de sobra!-, nem agorofóbicas, nem tão pouco claustrofóbicas, ou pessoas com outras Manias pouco frutuosas. Procuro, outrossim, alguém cuja Mania se possa manifestar pela repetição compulsiva das limpezas.

Sabemos que há pessoas que vivem mortificadas limpando, limpando o que muitas vezes está limpo, vendo sujidade insuportável na mais pequena poeira. A Mania das limpezas, que pode conduzir a pessoa ao extremo, de, por mais cansada que esteja, não se deitar para descansar, porque não consegue dormir sem limpar o que a sua mente doente considera menos limpo e sem cumprir os afazeres a que se propôs como necessários ao dia de trabalho doméstico, é a mulher ideal para este período negro (e sujo) da minha vida. Quero uma senhora de limpezas mercenária, que limpe e arrume constantemente, numa ansiedade sem tréguas.

Sabemos que, na mente destas pessoas, não é o exterior que está sujo, mas as profundezas da sua mente. Limpam afanosamente o exterior, porque na realidade desejam desesperadamente limpar o interior. Mas, no meu caso, tal pouco me importa. Aproveito para que, limpando a sua mente, aproveitem para me limpar afanosamente a minha casa e mato dois coelhos com uma só cajadada: possibilito que a minha empregada dê azo à concretização da sua Mania e fico com a casa num brinco.

E a minha demanda não vai cessar até que eu consiga encontrar um espécimen com esta doença – preferencialmente que peça pouco dinheiro à hora, já que eu lhe proponho um objeto para a satisfação da sua compulsão de forma graciosa.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O menino perdido




Durante a noite, o menino levantava-se da cama. Caminhava pela casa vazia e às vezes cismava frente às janelas que pensava terem ficado abertas. Todos os dias era o mesmo. Deixava tudo aberto porque se sentia abandonado. Era uma grande casa, repleta de quartos e corredores intermináveis. Como criança que era, erguia os olhos ao céu e à noite e escutava lá fora o pranto dos campos. Escutava os grilos e as cigarras e julgava-os gambozinos. Nessa noite o menino olhou pela janela com os olhos muito abertos e tudo era uma escuridão enorme por não se saber onde terminavam aqueles frutos tão noturnos da vida. A casa também chorava com ele. Toda aquela casa envelhecia durante o tempo e por dentro o menino agastava-se com o seu próprio silêncio. Trazia em si aquele choro das magnólias e das hortênsias, vergadas sob o seu próprio peso, que já pendem para a terra. Aquele mesmo choro dos presentes nunca oferecidos, daqueles presentes para sempre esquecidos, para sempre ausentes no amor. O menino repetia para consigo mesmo: «um dia morrerei», e voltava a repetir, «tudo isto que eu vejo é transitório, todo este nada que eu sou é absolutamente transitório». E com estes ditos, inclinava-se cada vez mais para o silêncio; e no seu coração mais cansado, a morte, terna mas petulante, aconchegava-se no seu peito como se fora o tão ansiado abraço do amor.





quarta-feira, 14 de junho de 2017

Em que estás a pensar?

Na escala de Dó M, sem sustenidos nem bemóis; no meu regresso aos textos; nas férias grandes que se aproximam e na eventualidade de viajar até à terra dos tamancos; nas viagens de mota sozinho ou acompanhado; nos músculos que me doem; na diferença entre a moral e a beleza: é que nós sabemos que a beleza existe mesmo; que uma utopia, mesmo que transporta para a dimensão pessoal, continua a ser uma utopia: uma coisa que não acontece nunca, nunca, nunca; que mesmo as boas pessoas, às vezes, vêem o sofrimento apenas como divertimento; que falo em demasia e, por isso, também escrevo em demasia; que tenho alguns anos e ainda não me sucedeu nada, capaz de me fazer feliz, que fosse verdadeiramente lógico...

sábado, 10 de junho de 2017

Diatribes às 2h50 da madrugada


Ainda que estivesse ao meu alcance, a 'sedução' é coisa que não me interessa. Etimologicamente, 'seduzir' é enganar. E eu ainda mantenho viva essa ingenuidade pateta e verídica que são os 'sentimentos'. E o amor não é apenas o estado em que se está disposto a sacrifícios. É o estado em que se está disposto a humilhações - que findam atingida que seja uma certa fasquia: a tal linha vermelha que jamais admitimos seja ultrapassada.

2014

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Um sonho - um desejo




Por vezes só damos conta dos sonhos depois de acordarmos e vermos que eles acabaram e resta-nos aquela vontade de sonhar tê-los um pouquinho mais. Existem pessoas que são um sonho, um sonho pelo qual nós dormiríamos a vida inteira, mas o destino vem e acorda-nos, por vezes violentamente, e leva-nos aquele sonho tão bom.

Existem pessoas que são estrelas, doces luzes que enfeitam e iluminam as noites escuras das nossas vidas, mas vem o amanhecer e rouba-nos com toda a sua claridade aquela estrela tão linda.

Existem pessoas que são flores, belezas discretas que alegram o nosso caminho, mas com o tempo, as flores murcham e enchem-nos com a saudade da sua cor e do seu perfume.

Existem, finalmente, pessoas que são simplesmente amor. Um amor doce como o mel de uma flor, que desabrochou e veio até nós num sonho lindo! E ainda bem que são amor, porque as flores e os sonhos, a luz das estrelas, mais cedo ou mais tarde, terminam. O amor, quando verdadeiro, não queremos que termine nunca... *

* escrito em 2005