domingo, 29 de julho de 2018

Das dores crónicas




Já escutei chamar poetas do quotidiano aos cronistas dos nossos dias, talvez por causa do seu discurso que se move entre a reportagem e a literatura, entre o oral e o literário, entre a narração impessoal dos acontecimentos e a força da imaginação.


Na crónica, há uma ideia pacificamente aceite de que, mais do que um diálogo com o leitor, existe um forte monólogo com o sujeito da enunciação, já que a subjetividade percorre todo o discurso e o derramar das palavras ocorre muitas vezes ao sabor da vertigem do pensamento.

Trata-se um exercício livre, sem deadlines, imposições temáticas ou preocupações com o juízo de quem nos lê. É por isso que gosto particularmente deste discurso livre, errático, que oscila entre o profundo e o brejeiro e cujo valor reside essencialmente na genuinidade despudorada das palavras.

Eu não sei se o que me proponho publicar são crónicas ou simplesmente prosa livre. Prefiro de longe a não rotulagem e só por comodidade chamarei crónicas aos escritos que tenciono postar - este feio neologismo - com alguma regularidade nesta rede social (somente visíveis para algumas pessoas). A escrita é (quase) sempre uma catarse, uma espécie de alívio e libertação e, sobretudo, uma forma de falarmos sem sermos interrompidos.

Há dores crónicas que nada têm a ver com as ditas crónicas das letras, mas que afligem diariamente muita plebe que não sabe o que fazer com tamanha frustração. A dor de cotovelo é um paradigma desta maleita que prolifera e é identificável em quase todos os lugares. É constatável nas conversas nos cafés, nos restaurantes, nos espaços públicos em geral, mas sobretudo nas redes sociais e chega a nausear, tanta a repetição da boçalidade falha de originalidade.

É fácil detetar os crónicos da frustração e da inveja pelos sinais de baixa auto-estima que mimeticamente emitem, pois as frases que verbalizam ou escrevem são invariavelmente as mesmas: "tenho a universidade da vida"; "aquele gajo lá por ser doutor não deixa de ser mais burro do que eu"; "sou uma pessoa simples (leia-se: inculta, iletrada) e (só) gosto de pessoas simples ( as outras, como não as entendo e ofendem-me por serem diferentes de mim, odeio-as); " na fábrica substituía muitas vezes o engenheiro e até sabia mais do que ele"; "não sou doutor mas não sou burro!"; " eu toda a vida trabalhei e não estive sentado a uma secretária"

Os exemplos multiplicam-se e não serei o único que está cansado de escutar e ler impropérios deste género a despropósito de coisa alguma. Basta, digo eu! E é para mim um alívio falar hoje destas coisas. Ninguém é mais do que ninguém e todos temos o nosso valor. A nossa sabedoria soçobra perante a grandeza da nossa ignorância em assuntos que não dominamos e desconhecemos em absoluto. O que seria de mim sem os sapateiros, os canalizadores, os médicos, os padeiros, os enfermeiros, os informáticos, os engenheiros, os agricultores, os pescadores, os serralheiros? Nós somos aquilo para que nos treinámos durante o percurso da nossa vida e, pela lógica da especialização, ninguém consegue ser bom em tudo. Todos dependemos uns dos outros e temos de ter a humildade de aprender e confiar naqueles que treinaram certas valências que para nós são absurdos desconhecidos.

As coisas existem. Estão lá. Não vale a desculpa eterna, a lamuria recorrente, a inveja peçonhenta e sabe-se lá o sacrifício que muitos fizeram para alcançar os patamares a que se propuseram. Quem quer uma coisa tem de lutar para o conseguir, fazer escolhas, desistir de algo em prol de prioridades, dispor-se ao sacrifício. A regra é igual para todos. Não sei de outra forma de conseguir alguma coisa que tenha desejado muito. O contrário é a conformação com uma dor crónica de inveja: o eternizar de uma mediocridade auto-infligida e desejada.


sábado, 3 de março de 2018

Corrupção - um mal endémico




Razão tinha o cínico e sempre atual Maquiavel nos sábios conselhos que dava aos monarcas para a manutenção do poder. É verdade que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.

Felizmente que hoje já não há muitos poderes absolutos que permitam corrupções totais e, sendo assim, consegue-se ir vendo muitos gatos escondidos com o rabo de fora.

São relações de poder as que as pessoas experimentam todos os dias nos empregos, nas relações sociais e até nas amorosas. Tem sempre mais poder quem, por deter, ainda que no momento, qualquer coisa que é importante para o outro, é o dominante na relação. E para além de obviamente haver sempre a possibilidade da perda do cargo que se detém, a doença, a velhice ou a morte são limites absolutos a qualquer poder personalizado. Há também a circunstância trágica de quem detém com volúpia um dado poder conviver dia a dia com o medo: o imenso e aflito medo da perda.

Não há dia em Portugal em que os cabeçalhos dos jornais não noticiem figuras públicas eventualmente envolvidas em casos de corrupção. À parte a Itália - que tem como "desculpa" o ex-libris da milenar máfia -, o nosso país aparece sempre na linha da frente dos países da União Europeia com maior índice de corrupção.

A corrupção, quer na forma ativa, quer na forma passiva, é uma doença crónica, hereditária e degenerativa, sem cura conhecida. E a única coisa que podemos fazer - aqueles que, por ora, ainda não se deixaram corromper - é combater sem tréguas o fenómeno, não hesitando em denunciar todos os casos que tenhamos conhecimento.

Mas o pior de tudo é a acomodação. A atitude (quase) inevitável para quem assiste diariamente às denuncias e sabe de antemão que a culpa vai morrer solteira. Os ilustres acusados são, regra geral, demasiado chiques para conhecerem o meio prisional, têm demasiado poder e dinheiro para contratar a melhor defesa e usam de expedientes dilatórios que a própria lei lhes faculta.

Podemos, a contrario, seguir a via brasileira, parodiando os casos de corrupção nacionais; e, inclusive, acharmos-lhes graça, como parte integrante da nossa cultura, usos e costumes. Uma espécie de folia nacional, como fora um Carnaval que durasse todo o ano.

Leiria 2007*

* O panorama, dez anos volvidos desde que escrevi este texto, não mudou, antes pelo contrário, encontra-se atualissímo e em altas.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Maconha



O Bloco de Esquerda quer aproveitar a nova maioria no Parlamento para conseguir legalizar a produção, distribuição e venda de cannabis para fins terapêuticos e para consumo recreativo. Deixando de lado as hipocrisias, todos sabemos que o álcool e o tabaco são igualmente substâncias com enormes risos para a saúde e o seu consumo é legal e comercializado.

Se querer entrar em querelas ou tomadas de posição a favor ou contra o consumo autorizado de maconha para fins não medicinais - eu sou completamente insuspeito, pois não bebo há 20 anos, não fumo há 17 anos, nem consumo drogas recreativas -, não consigo imaginar um único argumento para que a proibição da sua comercialização exista.

Um adulto que queira beber uma garrafa de whisky diária e fumar dois maços de tabaco por dia, tem os produtos à sua disposição para o fazer. No entanto, sabe que o cancro, a cirrose hepática e outras doenças, estão intimamente associadas ao consumo destas duas substâncias. Sabe também que o consumo de uma substância aditiva, é o gérmen para a despersonalização do indivíduo e para uma eventual conflitualidade familiar e desajustamento social.

A informação sobre os malefícios do consumo a longo prazo de cannabis é de todos conhecida: cancro do pulmão, indução de psicoses graves (em indivíduos com pré-disposição) , patologias cardíacas, perda da memória e da concentração, despersonalização, demência e favorecimento de outras doenças neurológicas, entre outras.

Estando disponível toda a informação sobre os malefícios associados ao consumo reiterado da maconha, porquê então proibir e reprimir o seu consumo, se com a sua permissão se evitariam muitos crimes associados ao tráfico?

A opção de consumir ou não consumir deveria pertencer ao arbítrio do adulto avisado, tal como o consumo abusivo do álcool e do tabaco, substâncias que geram lucros absurdos em impostos para o Estado, numa hipocrisia intolerável.

sábado, 25 de novembro de 2017

Geração do não desenrasca




Jamais empregaria a expressão "geração rasca", usada pelo jornalista Vicente Jorge Silva em 1994, num editorial do jornal Público, aquando das manifestações estudantis, para caracterizar a passividade de alguns jovens dos nossos dias, em relação às dificuldades da vida, pois acho-a ofensiva, manifestamente exagerada e, sobretudo, redutora. Eu próprio lido frequentemente, com jovens bastante empreendedores e responsáveis, gente que tem projetos e luta por eles.

No entanto, não há dúvidas de que, na sociedade portuguesa, uma fatia considerável dos adolescentes e recém adultos, cultivam a dependência em relação aos pais, o gosto pela futilidade e pelo facilitismo, os ténis e a roupa de marca, os smart phones, Ipads e restante parafrenália. Escolhem, sem hesitações, os consumíveis, que não precisam ser mastigados pelo cérebro e pelo senso crítico, com que a selvajaria do marketing, sabendo antemão das suas vulnerabilidades, os bombardeia.

É comum os jovens de hoje em dia dizerem: "não tenho nenhum trabalho, pois não consigo encontrar um que me satisfaça".

Nos meus tempos de juventude, o sonho de qualquer jovem adulto era o de ter uma ocupação profissional, fosse ela qual fosse, tornar-se independente dos pais, viajar, comprar um automóvel usado, frequentar o ensino superior, se necessário fosse, na qualidade de estudante-trabalhador, encontrar rapidamente o seu espaço, fosse arrendando uma casa a meias com amigos/as, ou, nalguns casos, comprando.

Hoje, há uma franja, felizmente marginal, de jovens que se escudam na "crise", nas "dificuldades da vida", na preguiça eterna, esquecendo que a vida é uma luta constante que começa na base da pirâmide social e jamais termina. E, com a crueldade que lhe está associada, os que ficam parados na corrente ascendente, os que nada fazem, são rapidamente ultrapassados e cilindrados pelos que vêm atrás. Desistir é perder na secretaria.

É aos pais super protetores, eles mesmos maus exemplos, ou negligentes com o comodismo galopante dos filhos, que deve ser assacada a maior responsabilidade por esta faixa marginal de jovens inertes, sem hábitos de luta ou sacrifício, que julgam que o mero facto de terem tirado um curso superior lhes garante o acesso imediato a um patamar profissional superior.

Todo o trabalho é honrado e em bastantes países por esse mundo fora, é comum os "doutores" trabalharem em ocupações menos qualificadas; isto até conseguirem, sempre com a sua luta e engenho, uma ocupação adequada às suas qualificações.

Nunca mais me esqueço da frase premonitória proferida por um professor que tive no ensino secundário, em relação às graçolas dos "engraçadinhos de serviço" da sala de aula: " Não gozes com os «caixas de óculos»" a quem chamas «marrões» e ocupam sempre os lugares na fila da frente, pois muito provavelmente vais encontrá-los como teus chefes na vida profissional futura".

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Donno imobile



Dececionar é um verbo transitivo e pronominal e significa, grosso modo, a acção de causar, ou sentir, frustração ou tristeza quando algo esperado não acontece, ou quando alguém não corresponde ao que dele/a se idealizava. Por isso dizemos amiúde que certa pessoa nos dececionou, ou nos desapontou.

Eu sou uma vítima perene das deceções, seja por esperar demasiado dos outros, ou por ser naturalmente exigente com a solidez do caráter. Aceito, nos outros, mas muito menos em mim, os erros e as fraquezas, pois as considero irremediavelmente humanas. Mas a cobardia, a falta de frontalidade, o desvaloro do compromisso e da palavra dada, bem como a mentira viscosa, causam-me repulsas quase impossíveis de digerir.

Não acredito em santidades e julgo, inclusive, que quem almeja tais virtudes vindas dos outros, padece de uma vasta ingenuidade. Muito menos me vejo como um ser integralmente moral, isento de comportamentos censuráveis ou com doses de tolerância próximas de um beato. Mas, por muitas que sejam as imperfeições que me forram, em cada dia que passa, sei que tenho feito um esforço genuíno para melhorar como pessoa. E tenho a feliz certeza de que sou uma pessoa com mais qualidades intrínsecas, mormente, verticalidade e bondade, do que há uns anos atrás.

No entanto, a intolerância próxima do absoluto com falhas graves de caráter, continuam fora do alcance da minha ascese no caminho do melhoramento possível. O motivo para que eu não consiga mudar esta intransigência quase absurda, é o de simplesmente continuar a achar que estou correto.

E quando esse estado de não subsistência de dúvidas, no que ao comportamento dos outros respeita, perdura em mim, torno-me um "donno imobile", muito próximo da tolerância zero.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Falando com as entranhas



Não me acostumo com o que não me faz feliz, revolto-me quando julgo necessário e encho o meu coração com a esperança de momentos melhores, mas não deixo que ele se afogue nela. Se achar que preciso de voltar atrás, volto, pois, como dizia Montaigne, que gosto muito de citar, a única forma de não cair no precipício é precisamente não dar o passo em frente e recuar.

Às vezes suponho erroneamente que já não consigo falar com as minhas entranhas, com as fibras que me forram o interior, mas, não raro, engano-me e reencontro sempre essa hábil capacidade, que pode ficar adormecida durante algum tempo, mas fervilha dentro de mim; e, cedo ou tarde, sempre emerge.

Em boa verdade, todos nós somos de algum modo prisioneiros das nossas emoções e da maneira como formámos os valores com que construímos a nossa personalidade. Devemos prestar sempre um tributo sério à coerência e à verdade; e, sobretudo, aceitar-nos como somos, não desvirtuando a estrutura vital da nossa personalidade, pois ela, uma vez formada e amadurecida, dificilmente muda.

Somos seres únicos, incapazes de ser copiados por quaisquer mimetismos de trazer por casa e essa diferença é uma das nossas maiores riquezas.

Nesta vida, das poucas coisas que podemos ter algum controlo e responsabilidade, é precisamente sobre o nosso comportamento, sobre as escolhas e decisões e de pouco vale imputar a outrem este ónus já que, para um adulto formado, viver é, sobretudo, escolher os caminhos e tomar decisões, com a plena consciência de que a inércia não deixa de ser ela mesma também a assunção de uma posição: o nada fazer.

Na base de qualquer conflito existe sempre um ou vários problemas e o conflito só será ultrapassado na medida em que os problemas a ele subjacentes sejam resolvidos - lógica pura e uma frase digna de La Palice, dirão os entendidos! Mas os problemas são sempre suscetíveis de ser abordados de uma forma lógica e racional e podem ser explicitados por um conjunto de fatores que permitam uma resposta ou solução – verdade que tenho hoje por assente – de forma a investir toda a energia na sua resolução.

Aconselho-me a mim mesmo, nesta hora impúbere da madrugada, fugir ao máximo do envolvimento na esfera emocional do conflito: o chamado efeito evitamento, pois é isso que desgasta, já que o que não tem remédio remediado está.

Tenho dito e agora vou dormir um sono de bebé, pelo menos assim o espero.

De novo a Justiça...



Se perguntarem a alguém o que entende por Justiça, o mais certo é que todos se sintam aptos a responder. Mas a resposta, a meu ver, não é assim tão fácil e evidente; e é bem provável que as opiniões resultem díspares e acabem por refletir um pouco o pulsar de cada um em relação ao modo como encara aquilo que acha que deve ser “o viver” dentro do tecido social.

O conceito de «Justiça», mercê da permeabilidade de várias correntes doutrinárias, tem, ao longo dos tempos, vindo a sofrer contínuas alterações – que lhe alteraram a forma e a substância - em resultado do espírito da época e das correntes de pensamento mais fortes que em cada momento vigoraram.

Tenho por assente que a crença daquilo que é justo e injusto [sem querer entrar em querelas impróprias, além de chatas e inúteis, acerca da validade e anterioridade do Direito Natural e Divino, como realidades metafísicas e superiores aos ditados humanos], não é uma constante mas algo que acompanha a evolução das mentalidades e sobretudo das novíssimas conveniências e contingências que vão surgindo e metamorfoseando-se.

A definição daquilo que é justo ou injusto, surge como uma espécie de plasticina apta a moldar-se e transfigurar-se ao sabor de realidades bem mais sórdidas do que o conceito de Bem.

O resultado de tudo isto é evidente: o que dantes era considerado injusto, hoje pode ser valorado de forma oposta e vice-versa, tudo à bolina de conveniências que, muitas vezes, pouco ou nada têm a ver com uma preocupação altruísta do legislador em criar uma sociedade mais igualitária – a igualdade será, porventura, um dos paradigmas do conceito de Justiça, mas, ainda assim, também ela padece de imensas interpretações.

Este conceito, após interiorizado no tecido social, deveria presidir à feitura de qualquer normativo jurídico, para servir a finalidade de “fazer justiça”, que é, afinal, aquilo que todos nós, individualmente ou em coletivo, queremos: a consagração dos valores que temos como nossos, com os quais nos identificamos e reconhecemos, alicerçados na ideia de BEM, refletidos em normativos que devem ser cumpridos sob pena da sanção individual, imposta pelo coletivo na pessoa do Estado.

Um dos grandes objetivos que habitualmente se consideram inerentes ao Direito é a Justiça. Haverá poucas palavras com ressonância social e histórica mais majestosas, e poucas haverá também que sejam mais difíceis de analisar racionalmente e prescindindo dos estímulos emotivos que suscita.

Podemos, aliás, utilizar a aceção justo/injusto em diversos sentidos: podemos, por exemplo, dizer que uma sentença judicial é justa no sentido de que nela se aplicou a lei, sem entrar em juízos de valor sobre esta. Neste sentido justo equivale a legal, o que não é necessariamente verdade. Noutra vertente, chamamos justo um ato ou mesmo à própria lei enquanto respeita um critério básico de igualdade. Este significado é tradicional no pensamento ocidental desde Aristóteles e exprime-se no principio de que: «Os iguais devem ser tratados como iguais e os desiguais como desiguais». Nenhum Direito dito «civilizado» deixará de levar em linha de conta esta máxima anterior.

Mas, com salvaguarda dos direitos ditos inalienáveis de carácter prioritário, como sejam: o direito à vida, à propriedade privada, à liberdade de expressão e dos diferentes credos religiosos, manifestações políticas incluídas, sinto, em tese geral, um progressivo decrescendo nos arautos inerentes a todas as liberdades conquistadas - o mais das vezes com o sacrifício de milhares de vidas - e que espelham a civilização ocidental e humanista que conhecemos, onde vivemos e em que acreditamos.

A Justiça e a Segurança, encaradas tradicionalmente como traves mestras da existência do Direito, e como um corpo de normas apto a regular as relações entre sujeitos num determinado grupo social, também tem servido de álibi aos maiores abusos.

Em nome do presuntivo interesse do coletivo, saído de eleições democráticas, aquilo que se assiste paulatinamente é ao favorecimento das elites políticas e o enriquecimento progressivo e constante da classe economicamente dominante.

Ler John Rawls, ou qualquer outro filósofo político bem intencionado e iluminado por astros flamejantes, não basta. Por vezes, quiçá não seria necessário o ressurgimento de uma ação coletiva para acabar com um Direito injusto; e, caso obtivesse êxito, repor uma nova legalidade, desta feita baseada em conceitos que tivesse efetivamente a ver com a ideia de BEM.

Creio que este conceito não é de interiorização tão difícil, assim fosse possível eliminar à nascença a nossa propensão genética para o egotismo, a visão umbilical que temos da vida e o medo dos "radicalismos", das mudanças abruptas, mas seguramente eficazes. Julgamos ficar a salvo, inertes, num eterno registo de preferência por uma "paz social" podre - "eles, os políticos, são todos iguais!

O Direito do mais forte é, infelizmente, o único Direito que parece auspiciar um futuro risonho; e deixem-me rir quando oiço falar em Direito Internacional e na possibilidade de se aplicarem sanções, por incumprimento, a países que detêm um poderio militar e económico que subordina os restantes.

Talvez a manutenção da ideia peregrina de que existe Direito Internacional Público e a possibilidade de o aplicar coercivamente seja, afinal, a ideia mais risível que alguma vez o Homem fantasiou da Justiça...

Sou formado em Direito e....em desilusão, tantos os anos, as teorias, os livros, e os manuais de boas intenções que li, decorei, e que sempre esbarraram contra esta regra implacável: o mais forte (quase) sempre vence.

Por isso mesmo, para grandes males, grandes remédios e a História testemunha-nos ser sempre esse o antídoto único e eficaz. Almejar uma mudança no tecido social sem fazer uma revolução, isto é, sem mudar radicalmente a balança negativa dos desequilíbrios e injustiças flagrantes, é o mesmo que desejar que uma árvore floresça e dê frutos sem lhe podarmos os ramos podres e previamente prepararmos a terra. E, por radical que a minha opinião surja aos olhos de quem me lê, todos sabemos quão verdadeira é.

Isto é: se gritamos contra as injustiças cometidas contra nós, se nos indignamos com a corrupção que medra na classe política, se nos conformamos com a fome de muitos e a aviltante e cada vez maior riqueza de outros; se nada fazemos e continuarmos a pensar que a correção destas desconformidades esquizóides resolvem-se com eleições - mais do mesmo, temos, afinal, aquilo que merecemos. Nós somos quase onze milhões. Quantos são eles, numericamente falando?


sexta-feira, 21 de julho de 2017

A todos os ilustres virtuosos desconhecidos


Todos nos deliciamos quando assistimos a algo que esteja bem executado, seja um solo de violino, uma pintura com formas e cores harmoniosas, um livro bem escrito, um poema inspirado, um rasgo de inspiração. A genialidade é um dom que escasseia e sempre que nos deparamos com alguém que exala virtuosismos, seja em que área for, regra geral, deixamo-nos invadir por uma sensação de admiração profunda e, no íntimo, desejávamos ser também um pouco assim.

Há muitas, e algumas curiosas, teorias, para explicar porque alguns de nós, apesar de tudo poucos, conseguem elevados padrões de criatividade. A posse desses tais recursos internos que possibilitam - seja em que área for: artística, literária, científica, técnica – ter recursos internos capazes de transformar, recriar, pegar em elementos dispersos e disponíveis e produzir qualquer coisa que se reconheça como nova, diferente, por vezes mesmo, única, é algo admirável.

Não me atendo a nenhuma das teorias - algumas conheço-as, outras nem por isso -, mas penso que alguns de nós, efetivamente, têm competências específicas, invulgares, quer para a música ou para a diferenciação de sons, para os números, para a pintura, para a escrita, para a poesia, para as artes em geral; e, a par do labor intenso, que é fulcral para alcançar a excelência em qualquer atividade, a influência do meio, o favorecimento evidente de se ter nascido no seio de uma família de elite, uma educação a todos os níveis esmerada, não obnubila o merecimento de se ter nascido com um dom: uma espécie de dádiva divina que, devidamente trabalhada, resultará em algo de reconhecido valor.

A criatividade talvez seja isso mesmo: uma mistura, sem receita, do que ainda subsiste em cada um de nós dos prazeres das brincadeiras da infância perdida – nesse tempo todos eram criadores –, com habilidades específicas, eventualmente biológicas, apuradas por técnicas bem aplicadas e saturadas pelo trabalho árduo.

Aquilo que criamos, o valor daquilo que fazemos bem, está intrinsecamente ligado com a circunstância de o mundo que nos rodeia se dispor a valorizar isso como tal. É por essa via que um jogador de futebol pode ganhar mais dinheiro – o prémio social – pelos seus desempenhos, do que um cirurgião cardiovascular que salve vidas, várias vezes por semana, e tenha estudado mais de 20 anos para obter a excelência na área da sua técnica.

Também aqui a celebérrima lei que rege o mercado – tal como o conhecemos – a oferta versus a procura, valoriza mais ou menos a produção, que se quer única, ou, pelo menos, rara, da nossa arte e engenho para fazer algo de que resulte fascínio, seja por utilidade material ou estética.

Mas há criadores sem obra e isso também é uma verdade irrefutável. E serão mais os que se lhes reconhece o talento e o valor a título póstumo, do que os que têm a sorte de verem reconhecido o seu mérito durante a efémera passagem pela vida. Esses serão, porventura, sempre apelidados de «ilustres desconhecidos».

É a eles que, com a minha recorrente mania da "defesa dos desfavorecidos", me apetece hoje fazer uma longa vénia com um chapéu de feltro virtual, arrastando penas de pavão pelo chão da indiferença - o solo que habitualmente os espezinha.

Virá certamente o dia que se lhes dará o merecido valor.


A morte



A morte é um tema que não evito abordar, pois não me traz incomodidade, e prefiro não adiar os pensamentos acerca de um porvir que sei ser inevitável. O fiar dos dias, por nos fazer mais velhos em cada momento que passa, aproxima-nos do prazo da validade biológica dos nossos corpos, que mais não são do que perenes cadáveres adiados. Há um relógio imparável que inicia uma contagem decrescente, com vista ao fim da nossa vida, cujas rodas dentadas começam a girar logo no momento do nosso nascimento. Nascer já é ficar mais velho, logo mais próximo da morte, ainda que esta constatação, por tão evidente, raie uma das celebérrimas redundâncias que garantiram um eterno lugar na História a Messieur de La Palice.

A morte surge muitas vezes como um «acidente», algo imprevisto na marcha de uma vida que se augurava mais longa. E uma das facetas que a caracteriza é esta sua caprichosa forma de ser: uma dama fria, imprevisível. Ela é, quantas vezes, aleatória, ilógica, daí fazer todo o sentido encarar o fluir da vida como uma passagem, uma efemeridade – que pode ser mais curta, ou mais longa, consoante aceleremos, ou não, os comportamentos que nos retiram a saúde, sem contar com os «acidentes» que são rasgões não intencionais no tecido da vida, e que nos ultrapassam por estarem para além do nosso controlo.

Porém, não me apetece falar da morte como uma evidência biológica. Quero, antes, interrogar-me acerca de outra questão. Porque hão de haver pessoas que julgam ser imortais e agem como tal, fazendo desta efemeridade que é a vida uma espécie de reinado? Espezinham o próximo; praticam más ações; não se preocupam com o devir, nem com nada que não lhes sirva ou não lhes diga respeito; perscrutam o interior do seu umbigo de tal forma que, para eles, viver passa a ser sinónimo de «eu tenho de os subsumir para poder viver em pleno». O que vai na mente destas gentes? Como podem ser assim?

Acho que é pedagógico ter sempre presente que a vida é uma vela ao vento. Que basta uma lufada de ar mais forte para que ela se apague. Devemos, pois, manter intacto o agradecimento por este feérico dom, ainda que afastando-o de qualquer sentimento de religiosidade, ainda que só o perspetivando como sendo uma graça da natureza, que, mesmo assim, não deixa por isso de ser divina.

Eu há muito tempo que não temo a morte. Juro-vos!

terça-feira, 18 de julho de 2017

Da (des)esperança




Por vezes lamentamo-nos dos silêncios que impregnam as nossas vidas, mas com a certeza firme de não desejarmos uma orgia de ruídos sempre à nossa volta, impedindo-nos de nos sentirmos nós mesmos. O pior é sempre possível mas não é fatal que tal aconteça. Se nos lançamos na ação, se nos empenhamos, se a motivação existe e há um rumo, se sabemos o lugar para onde queremos ir, poderemos esperançar alcançá-lo.

Na medida em que o pior não é uma fatalidade é permitido termos esperança. E como o pior pode ser evitado, é urgente avançarmos com empenho naquilo que julgamos evitar a nossa infelicidade.

Para além do otimismo e do pessimismo, há sempre lugar para a esperança. Esta apoia-se sobre a confiança no possível ou no que poderá sê-lo. O tempo, de certa maneira, é uma criação do possível e é fácil entendermos que um dos grandes erros das utopias foi sempre o de tentar fixar, através da imaginação, o futuro ideal, o termo perfeito de qualquer história e até os meios para lá chegar. E tal forma de pensar, por vezes, impede-nos de apreciar com rigor o inesperado, o acontecimento que transforma o (nosso) horizonte previsível.

Mais grave que tudo é a tomada de consciência de não sabermos o que nos pode fazer felizes, nem quais os melhores caminhos para trilharmos. Resta-nos, então, a exuberante satisfação de podermos afirmar com veemência: «Eu não sei bem aquilo que quero, mas estou certo daquilo que definitivamente não quero.»

Para muitos, onde eu me incluo, só isto já é um começo, seja do que for.

sábado, 15 de julho de 2017

A rapariga do lenço à pirata


Já há muita gente na sala e ainda há pouco a manhã começou. Tira uma senha e diz bom dia ao rapaz que está atrás do balcão. É um moço bem-parecido, bastante novo, tem dois piercings, um no nariz, outro na sobrancelha esquerda. É um funcionário diligente, simpático e muito educado.

Ele recorda que, quando era jovem e saudável, também ele era belo. As pessoas olhavam-no na rua e as raparigas, quando seguiam em grupo, viravam a cabeça para trás e davam risadinhas. Ele corava e seguia o seu caminho, lesto, com os olhos ainda mais firmes no chão.

Senta-se numa cadeira vaga, com a senha número setenta na mão e dispõe-se a aguardar a chamada. Pela primeira vez olha com mais atenção em seu redor. A numeração ainda vai nos cinquenta e pouco mas as funcionárias das análises trabalham rápido a extrair a seiva vital. O numerador eletrónico avança com rapidez, à razão de um número por cada três minutos. Ele cronometra o tempo e tenta calcular quanto falta até chegar à sua vez.

Aflige-se com o cenário que o rodeia. Há tanta gente doente! Será que os que estão neste momento lá fora, longe deste ambiente insano, os que ainda trabalham, sorriem despreocupadamente, divertem-se, amam, conduzem a velocidades estonteantes e espreguiçam nas esplanadas da cidade, pensam que vão ficar eternamente sãos, como se fossem deuses? Saberão eles que as coisas não são assim? Que a sombra da morte surge sempre algures numa curva da vida?

Não param de entrar mais pessoas no espaço cada vez mais atulhado. Os funcionários continuam simpáticos, calmos e diligentes para com os pacientes, como se estivessem a atender clientes numa loja comercial. Ele fica contente por ver que, afinal, as mentalidades sempre mudam; que os jovens trazem uma mais-valia aos serviços públicos, devido à sua maior instrução e diferente postura.

Quer relatar o que está a acontecer diante dos seus olhos, ele que é um vulgar utente de um hospital. Aqui não há doutores nem engenheiros, ricos ou pobres: são todos doentes e carecem de tratamento.

Sofrimento é: olhar para o canto da sala e ver uma rapariga – não terá mais de vinte e poucos anos – magricela, a pele como um pergaminho, num rosto de olheiras cavas, como duas fundas negras, expandindo um olhar tristonho, vago, como se fora uma lâmpada apagada.

Acompanham-na os pais. Ampara-se no ombro da mãe. Andar é um custo. Tudo é um custo. O pai carrega, dentro de envelopes acastanhados enormes, os cardápios dos exames, das radiografias, dos tacs, das ressonâncias magnéticas – ele receia que tudo não seja senão um périplo de notas negativas, más notícias, chumbos nas disciplinas vitais à continuação da saúde, da vida, daquela rapariga tão jovem. A rapariga aparenta um estado irremediável.

Ele quer, sobretudo, evadir-se desta visão que o obriga a pensar. O lenço às flores. O lenço que ela usa na cabeça, enrolado à moda dos antigos piratas que dantes povoavam o mar das Caraíbas. Um lenço posto de modo tão simples. Um símbolo. O símbolo da quimioterapia.

As coisas de que ele mais gosta são, não necessariamente por esta ordem: os livros; a escrita; as artes; as flores; o campo; o mar; os rios e toda a água corrente; a fruta deliciosa que cai madura das árvores; a brisa que sopra suave no final da tarde; as horas na relva a ver o céu, sonhando; amar e ser amado. Gosta de beijar e ser beijado. Disso gosta muito.

É fácil desviar o olhar. Fixá-lo no branco das paredes, abrir o livro fininho que sempre transporta na mão. Dar uma mirada no final da novela que a televisão encrustada na parede transmite àquela hora matinal, olhar repetidamente os ponteiros do relógio, mexer no teclado do telemóvel, como se fosse um tique e apagar mensagens e chamadas perdidas que já nada significam. Apagar alguém, desse modo, seria fácil. A morte, afinal, mais não é do que uma súbita falha de luz, de energia.

Fecha os olhos. Sempre detestou agulhas. Sente a picada. Dói. O que é a dor? A dor é subjetiva e ninguém a sente do mesmo modo. Ao seu lado há mais lenços de pirata. Alguns doentes não têm sobrancelhas, nem luz, nem gordura, nem consistência, nem esperança.

A vida é esperança. Viver implica (ter) esperança.

Lá fora está frio. Muito frio. O sol brilha ténue no meio do dia azuláceo. Apetecem sempre dias assim. Sente-se vivo. É por ora tudo quanto lhe importa.

Um ensaio sobre o nada




Os sonhos que tenho acariciado mesclam-se num universo imenso de pensamentos recorrentes, felicidades acalentadas, raramente concretizadas. São expressões, imagens, projetos, devaneios, amores baldados, tudo coisas que se conjugam entre a fronteira daquilo que entendo ser o céu e a terra, ao menos da forma como os concebo. Não há divisão entre eles, nem os distingo, senão quando chego a algum ponto em que sei ter construído algo a que, por necessidade imperiosa e pragmática, chamei realidade. Reconheço-o – faço disto uma contrição – pois quantas vezes aquilo que escrevo, a forma como o faço, é intrincada, pouco percetível, quase como se não houvesse consciência alguma de um destinatário que não seja eu mesmo; é-me, no entanto, penoso, aligeirar este discurso impenitente, que só assim me sai: uma água que brota em aspersão da torneira das minhas emoções. São os meus pensamentos expatriados, quase sulfurosos, confusos, que saem a passeio e invadem laudas brancas, imaculadas, aptas a receber tudo o que alguém lhes aprouver gravar, onde, naturalmente, se incluem palavras órfãs de contexto.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Da inveja




Se há sentimento mais desajeitado, infeliz, irritantemente inútil e absolutamente a dar com nada, só posso estar mesmo a referir-me à inveja. E diferentemente do ciúme ou da cobiça, que lhe são parentes próximos, não se relaciona com algum objeto externo, não corresponde a nenhum desejo concreto e nomeável, ou seja, não se quer forçosamente ter ou ser o que alguém é ou tem. Apenas se sente raiva e zanga pela existência de outros designados - os escolhidos a dedo pela felicidade de ser ou ter: sucesso, beleza, inteligência, riqueza, cultura, capacidade de sedução, charme... e se considera em alta voz que essas mais-valias têm necessariamente subjacentes situações de demérito, ocasos da sorte, injustiças profundas, distrações de Deus...

E ainda que muitas vezes os possuídos por tais sentires reconheçam (para si mesmos – deep inside) o mérito e a justeza na obtenção das qualidades ou pertenças de alguém, não conseguem evitar deixar-se inundar pela estreiteza deste sentimento tão trivial e tornam-se cromos indisfarçáveis.

Este sentimento é tão infeliz - muito infeliz mesmo - que não tem qualquer gratificação: alimenta-se a si mesmo em circuito fechado e é feito de ressentimentos que moem e esmagam, que azedam a vida e as relações, o que torna tudo o que se tem sempre pouco, sempre menor, sempre desvalorizado. E é sobretudo um sentimento inútil, pois apesar de todos os argumentos de fundo que se possam mobilizar acerca da “sorte” de uns e do “azar” de outros, não se consegue mobilizar forças, formas expeditas de ação no sentido de eliminar ou fazer desaparecer os “seres” que causam tal desconforto, já que a sua liquidação física, no mínimo, seria um ato de loucura ou de vingança. Acho, entretanto, que mesmo que isso fosse possível, o invejoso precisaria sempre de um “ódio de estimação e a perda do objeto contra o qual direciona a sua inveja seria rapidamente substituído por outro.

O mais ridículo da inveja é que ela é óbvia e transparente. Apanha-se mais depressa um invejoso do que um mentiroso (não caio no exagero de fazer a comparação com um coxo, pois acho que está ela por ela). A inveja é irreprimível e percebe-se à légua quando alguém destila este fel.

Infelizmente é com este sentimento, de uma vulgaridade quase absurda, com que lidamos no dia-a-dia nas nossas atribulações profissionais, nas relações do quotidiano, e temos de estar preparados para ser a tal “muralha de aço” que não se deixa abater ou azedar com esta água ácida com que muitas vezes nos querem batizar.

Julgo eu, porventura com certezas, que não serei o único que já provou o travo destas mentes acéfalas que serpenteiam sibilinas em redor das horas dos nossos dias. Já não faço nenhum esforço - e consigo ! - para não ser como eles. Há muito que me quedei - esta espécie de franqueza sem cueiros - na admiração pelos mais dotados que, em simultâneo com um quase sentimento de desprezo, nutro pela mediocridade subjacente à inveja e aos que a adotaram como práxis do quotidiano.

Parece pois que estamos todos condenados a viver com esta estirpe, árida e ignóbil, de gente que ainda não aprendeu a canalizar a imensa energia que despende invejando, ao invés de melhorar a sua auto-estima na realização de algo que lhe traga a gratificação capaz de fazer quebrar o ciclo infernal do ver a felicidade através dos olhos dos outros. Haverá, porventura, algo mais triste do que isso? Quase não consigo imaginar!

Da Retórica




Nos dias de hoje a expressão ganhou uma conotação pejorativa, diferente, que é comummente aceite como significando «vender banha da cobra». Esta mestria nasceu na Grécia, como todos os melhores estudos e de lá se espalhou pelas mais partes da Europa. É mais moderna do que a Gramática, mas teve a mesma origem.

Querendo os homens na Grécia persuadir aos povos várias coisas, foi necessário que observassem como eles se persuadiam, e quais eram os meios com que se moviam as paixões do ânimo. Assim nasceu a Retórica.

É uma arte quase tão antiga como a Filosofia e esta erudição agradou aos romanos, que se regularam pelo mesmo método; e tantos se entregaram a ela, que, se não excederam os gregos na ciência, sem dúvida, excederam-nos na sua aplicação e exercício, porque, em abono da verdade, chegaram a enamorar-se da sua galantearia e utilidade. Estes últimos, sempre foram a reboque das ideias dos gregos e, em muitas coisas, é verdade que conseguiram ir além.

Por pouco que nos interroguemos sobre o que seja a Retórica, ficamos aproximadamente com a ideia de que é a «arte de persuadir» e, por consequência, que é uma coisa nobilíssima no «comércio humano», nas relações com que nos pautamos uns com os outros. Todo o lugar é teatro para a Retórica. Não agrada um escrito se não é feito com arte; não persuade um discurso se não é formado com método. Afinal, todo o exercício da língua necessita da direção da Retórica.

Mas esta necessidade de «elegância» não pode, a meu ver, dispensar a sensibilidade, pois, de outro modo, como seria possível compor o que seja se se desconhece em absoluto o método de tecer e dilatar os seus próprios argumentos e servir-se das suas próprias razões? O discurso de um homem despido de todo o artifício, tomado no sentido literal da expressão, não é menos do que o caos.

Eu não me considero um sol-posto, nem o centro do universo, antes pelo contrário, malgrado não ser essa a impressão que transmito às pessoas que não me conhecem pessoalmente. Aliás, julgo que os astros que compõem a beleza do universo, não têm, em si mesmos, beleza alguma. É a proporção que os faz vistosos. Assim, também acontece connosco humanos, onde a nossa pertença ocupa um micrométrico espaço a que pomposamente chamamos: «o nosso domínio».

Não me rala se um dia vier a pertencer ao índex dos escreventes sem graça, sem história, pois todos nós sabemos alguma coisa acerca dos nossos demónios e do destino que se lhes reserva. Sabemos o que nos atormenta, o que nos tira o sono, o que nos deixa lívidos de raiva ou rubros de cólera. Sabemos o que nos faz sorrir, o que nos deleita, o que nos transmite prazer. O que interessa é mantermo-nos íntegros, o mais possível, iguais a nós mesmos e conseguirmos sempre, nessas breves visitas às caves da nossa intimidade, estabelecer relações, lobregar causas prováveis, atribuir-lhes sentidos, aceitarmo-nos e ver para lá do visível, do factual e do objetivável. Sobretudo, não nos recearmos e vivermos segundo a batuta daquilo que nos integra, deixando os outros livres para pensar o que lhes aprouver.

E aqueles que não nos querem bem, seja qual for o motivo, ainda que fútil e desacompanhado da informação necessária ao tecimento de julgamentos valorativos, que se afastem e trilhem caminhos, na medida do possível, a leste do rumo que escolhemos dar aos percursos da nossa vida.

De todos os demónios que me habitam, o único que me pode conduzir seguro ao mais vexatório desamor de mim próprio chama-se medo. E eu não receio as críticas. Serei, se quiserem, retórico (no pior dos sentidos), inconsequente, desagregado, narciso, profano, amoral, mas, com cada vez menos predisposição para fazer concessões ao bien-faire que me querem impingir.

Não peço, pois, que me aturem. Essa tarefa é minha, pois há muito que ando com o mundo às costas, para lá e para cá.*

* Um escrito de 2009 - mensagem com destinatário(s) referenciados - que descobri algures numa pasta que tinha como perdida.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Peregrinação interior


É a desintegração da matéria; é a rebentação do corpo contra o sofrimento; é o sinal do pecado original; é o trágico farrapo da couraça de barro do meu peito ao chocar com a vontade divina; é o espasmo do subconsciente que me liga com a terra. Que mais? Mas eu direi que no fundo da minha dor, quando o pensamento volta a ser árbitro da minha vida, sinto uma grande piedade de mim. E todas as coisas me parecem benignas, e todos os sentimentos quase místicos. E, como uma magnólia de luz, abre-se na minha frente o cruel mundo dos homens. Para além desse mundo é o nada? Não, não! E se assim fosse? Prefiro sonhar-me num campo onde musgos, abetos e faias brincam às escondidas e perder-me, criança, no bosque frondoso. Não quero mais olhar para aquelas árvores, aquele céu, aquelas montanhas que olhávamos, tu e eu, navegando na imensidade do nosso amor sem mácula. Mas, agora que passei num lugar onde as cores se perseguiam atrevidas, descaradas, azul e vermelho, como numa pintura de Chagall, provo o fel da nostalgia da tua ausência. E esta morte trava-me os pés e não me deixa andar; e a cada unhada que a morte cravar no meu cérebro, do meu silêncio farei um grito, e da dor oração.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A anátema

Às vezes sinto-me pouco gramatical e apetece-me usar marcas de oralidade na escrita, mas depois não consigo. Tento, tento, e as sucessivas investidas, todas frustres, desanimam-me e soltam a negação.

Um dos meus defeitos é, porventura, o de não me conseguir livrar do espartilho das formas consideradas corretas estabelecidas pela ortografia. São normas que intui e me esforço por bem utilizar, como se escrever bem fosse tão só isso: o domínio de uma técnica: «- O aposto e o vocativo são sempre separados por vírgulas!», dizia ele.

Afinal, bem vistas as coisas, as regras gramaticais não passam de convenções que, na sua origem, não resultam de qualquer imperativo interno à própria língua, e só se tornam obrigatórias porque são aceites oficialmente pela comunidade linguística. As regras da ortografia valem como leis que pretendem regulamentar a atividade da escrita, disciplinando-a, e só admitem desvios – não censuráveis – no discurso poético. Para tudo o que escape a esse universo de permissividade total, existe uma censura atroz.

Acho, com uma certa ironia, que o esforço gasto para um razoável domínio destas competências, de algum modo, também pode ser considerado nefasto e responsável pela espontaneidade perdida; penso nos «efeitos perversos» gerados pela obediência ao crivo severo e burocrático da gramática – às vezes um balde de esterco de conceitos predefinidos, que mais não serve senão para tornar longínqua a comunicação, que deve ser a essência do discurso escrito.

A felicidade que dantes sentia por ter ligado aos textos corretos – as minhas boas leituras! - e ter tido a sorte de conhecer professores corretamente preparados, com qualidade didático-pedagógica, esboroa-se, hoje, nesta reflexão à «la minute» que frustra todas as recomendações de boa sintaxe.

Mas se, o mais das vezes me mostro incapaz de me aligeirar com interjeições, diálogos, graçolas, que me valha a catarse, o desabafo intimista, ainda que só eu lhe entenda o verdadeiro sentido e alcance.

Fico-me, pois, pelo texto rebuscado. Rebuscado de tanto me devassar e pouco ou nada encontrar de novo, não fora aquilo que, de mim, já tão bem conheço.

sábado, 1 de julho de 2017

Apenas...




Vou deixar ciciar as palavras enquanto a noite me envolve e o amor e o vento me sussurram ao ouvido lembranças do sabor do dia: o ranger dos passos; mãos que se entrechocam rápidas sem saber onde poisar; bocas que encontram corpos que pesam a súbita ausência de palavras… tão distantes impuras, quase de ausência, que recusam a presença estática inútil; o estar não estar como fosforescência de brilho ausente muito mais que subtil.

E disse:

Eles desceram da noite e fizeram amor na geada e de manhã na relva. Depois, como dois namorados, desceram a rua e beijaram-se imóveis na tarde. O céu estava azul, apenas...

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Pensamentos matinais



A liberdade de recomeçar é, porventura, a maior de todas as liberdades. A «capacidade Fénix» de nos reerguermos das cinzas, reunindo os cacos, o que sobejou da mobília e das loiças, pondo tudo numa maleta mal enjeitada, refazendo-nos noutro lugar, como se fora um dom de maturidade maior, ou uma mostra da mestria da nossa capacidade de adaptação e sobrevivência.

[Há, inclusive, quem tenha definido a inteligência como a especial capacidade de adaptação a cenários novos, embora pensemos que qualquer tentativa de caraterização do termo redunde numa falácia: há muitos tipos de inteligência, não sendo de todo possível subsumi-la numa definição universal e finalista.]

Igualmente forte, significando coragem, é o poder-dever de cambiar de opinião, arrepiar caminho, refletir, não fazer parte de «uma conspiração de estúpidos», acríticos, acéfalos, completamente tornados invisuais pela incapacidade de análise do self.

Fortalecemo-nos cada vez que nos capacitamos possuir esse sublime virtuosismo, que é a arte de nos reinventarmos. Sentimo-nos aptos a atravessar mares de tormentas, encapelados por ondas de contrariedades, contingências, agastamentos, saindo deles doridos, franzidos, mas capazes de endireitar os nossos amarrotados, de forma a nos apresentarmos, passadas as tormentas, quase incólumes e com um sorriso de vitória nos lábios.

Pretendemos, quantas vezes, delimitar as fronteiras entre o «correto» e o «incorreto» e – sabemo-lo bem – é impossível agradar a gregos e a troianos; movemo-nos sempre nas areias pouco seguras do relativo e do subjetivo, sem saber ao certo onde para esse paradigma chamado «verdade».

A nossa vida desenrola-se num trilho a que chamo, por comodidade, caminho principal, mas que em boa verdade, é um lugar confuso, inóspito, repleto de encruzilhadas, ruelas esconsas, algumas sem saída, percursos alternativos; e, queiramos ou não, perante o que nos vai surgindo ao longo da nossa caminhada, estamos sempre a ser confrontados com a necessidade de optar seguir por uma via ou por outra. Não há escolhas isentas de contrariedades, nem há nada capaz de escapar ao crivo da dúvida casuística. Todas as decisões condensam em si razões prós e razões contra. Estamos, pois, sempre condenados a escolher.

[Escrever serve para muitas coisas, das mais reles às mais elevadas. Como em qualquer arte, o que salva é o mesmo que nos perde. Intensificando a vida, intensifica-se a presença da morte. Mas escrever não é uma coisa que se escolha ou não fazer. E uma pessoa não escreve o que quer, mas sim o que pode. Sinto que escrevo para não morrer e vou morrendo a escrever.]









Deceção



É um lugar comum dizer constantemente que todas as pessoas nos dececionam, mas assim como há pessoas que nos causam esse estado de amargura, outras há que nos surpreendem pela positiva; e outras, ainda, que confirmam tudo quanto já pensávamos delas.

Dizem que os amigos são para as ocasiões - e eu diria que cada vez menos sei quais são as ocasiões em que se deve apelar para os amigos e quais os amigos que se prestam e têm disponibilidade para nos acudir em dadas situações.

As amizades, com exceção daquelas mais antigas, que nos vêm da infância e nos acompanham ao longo da vida, acontecem-nos por zonas de interesse e ocupação, por empatias, por circunstancialismos, muitas vezes fruto do acaso, que nos surgem no trilho da vida. Tendemos a sentir empatia por pessoas que, julgamos, sentem o nosso pulsar, compreendem o nosso estilo de vida, as nossas perceções, possuem gostos semelhantes e objetivos que nos merecem sentido. E, por vezes, até os amigos vão sendo mais conjunturais, mais fruto das circunstâncias e das necessidades práticas de alianças, consequência de tumultos comuns que fazem com que duas vidas se cruzem no amparo da amizade recíproca.

Quando a nossa vida dá para o torto, quando os empregos falham, quando a solidão nos bate à porta, quando os divórcios ou o fim das relações amorosas acontecem e tudo se baralha dentro de nós, temos saudades dos amigos de outros tempos. É aí que escolhemos criteriosamente com quem podemos contar, de que modo e com que limites precisos, e descobrimos que nem todos os amigos são para todas as ocasiões.

É bom fazer amigos. Nos últimos tempos, em virtude da minha cada vez maior presença na música e também na poesia, tenho feitos novos amigos. Nuns casos, trata-se de pessoas bastante mais novas do que eu, mas com uma forma de pensar lúcida e avisada, capaz de entender coisas que, julgava eu, só pessoas com a minha experiência de vida e maturidade conseguiriam alcançar. Noutros casos, são pessoas com idades próximas da minha, mas com vidas e saberes que me completam.

A vida tem destas coisas e nem imaginamos quão enriquecedor é permutar experiências, vivências, com personalidades diferentes.

Os mais velhos, contrariamente ao que diz a «sabedoria popular», também aprendem muito com os mais novos, especialmente quando se trata de pessoas que possuem uma mentalidade muito para além da sua idade biológica.

Gostei muito de ter feito novos amigos, pessoas que valeu a pena ter conhecido, para manter o contato e aprofundar a amizade, já que a vida tem uma duração aleatória e é demasiado preciosa para ser desperdiçada com seres sem luz e medíocres.

Cada vez mais me convenço que o dia-a-dia é feito de um contínuo destes pequenos acontecimentos: coisas que por vezes parecem não ter importância ou impacto, mas que vão dando cor e sentido ao fluir da vida e me fazem adivinhar que ainda há afetos a precisar de partilha, pessoas que gostam de gostar de pessoas e que esse é o maior desiderato da vida.

Uma conversa particular




Não é fácil exprimirmos o que sentimos em todas as circunstâncias. Não é só um problema da língua, do ser difícil, traiçoeira, complexa, contraditória, ou tudo isso e mais alguma coisa. O dizermos, o que nos vai na alma, não passa de uma velha metáfora, despida quantas vezes de espiritualismo, mas pungente na nossa necessidade de afirmarmos, permanentemente, uma existência subjetiva e, de algum modo, transcendente em relação a uma entidade que nos espreita do outro lado do espelho; e que, tantas vezes, não identificamos nem reconhecemos como sendo a destinatária dos nossos expatriados pensamentos. O que nos vai na alma, ou, dito por palavras, o que sentimos, é um caudal iníquo e contraditório em que se misturam, de forma aleatória, quando não descontrolada, sensações, pensamentos, desejos, fantasmas, fantasias, medos vagos e outras coisas de igual ambiguidade. Os sentimentos propriamente ditos, aquele fluxo que medeia entre o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a tranquilidade e a inquietação, o desespero e a esperança, a inveja e a gratidão, habitam-nos como uma segunda pele e dão-nos, além do mais, algum sentido de existência e de coerência. Todos sabemos algumas coisas dos nossos demónios. Eu sei que preciso de fazer uma pausa para falar com eles - uma conversa em particular, como é evidente.