segunda-feira, 30 de julho de 2018

A distância de um abraço




Há doze anos que percorro com alguma regularidade a estrada entre a cidade do Lis e Almada. Sempre que posso, evito a auto-estrada e opto pela nacional 1. Atualmente chamam-lhe IC 2, mas nos meus tempos de menino, quando em família viajávamos até ao Porto ou em excursões à Serra da Estrela, chamávamos-lhe simplesmente a "estrada para o Porto". O troço da auto-estrada entre Lisboa e Vila Franca de Xira, foi inaugurado no ano do meu nascimento, mas somente em 1991, volvidos 30 anos, as duas maiores cidades do país ficaram ligadas por auto-estrada.

Nos anos sessenta, a modernidade acabava quando deixávamos o troço da auto-estrada em Vila Franca de Xira e nos embrenhávamos na estrada nacional, enfileirados atrás dos vagarosos camiões que transportavam mercadorias entre as duas cidades principais. A "Ponderosa", para os lados de Alenquer, era paragem obrigatória dos excursionistas. Um eventual arranjo entre os donos do café/restaurante e os motoristas, que a mim, criança, me passava despercebido, fazia com que todos os autocarros de excursão parassem naquele lugar, para satisfação das necessidades fisiológicas e um cafezinho.

Se a paciência abunda e a pressa de chegar não é soberana, vou sempre pela nacional. Conduzo uma Yamaha X MAX 250cc que, além de ser bastante confortável, económica e segura, faz velocidades de cruzeiro relativamente baixas, o que permite o deleite integral da paisagem. Quando conduzia a Yamaha FJR 1300 ou mesmo a Aprilia Caponord ETV 1000, chegava mais rápido ao meu destino, mas gastava incomensuravelmente mais combustível e as únicas sensações que retenho dessas viagens, são as ultrapassagens estrondosas e uma estranha incapacidade para conduzir no respeito dos limites de velocidade permitidos.

Hoje tenho tempo. É bom ter tempo e não viver confinado à ditadura dos prazos, dos horários, do tempo controlado e imposto à nossa vontade.

Sigo direito à Batalha e passo rente ao mosteiro, que agora tem umas barreiras acústicas celebérrimas, para salvaguarda dos impactos de ruído e poluição sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, declarado património da Humanidade pela UNESCO. E tudo por causa do "impacto ambiental" - adoro esta expressão, mas ainda gosto mais do vocábulo "sustentável". Tudo o que não seja "sustentável", nos dias que correm, não presta, pelo menos até à invenção de uma nova expressão ou teoria.

São Jorge, Cruz da Légua e Aljubarrota vão ficando rapidamente para trás. Saí de casa às 13h00, pois almocei bastante cedo, e sigo viagem em bom ritmo. Há pouco trânsito. Tenho o depósito atestado e não conto parar. A manhã, a principio bastante nebulosa, deu lugar ao início de uma tarde solarenga com uma temperatura convidativa ao passeio. Depois da Benedita e da Venda das Raparigas - o meu falecido pai tecia sempre piadas de franco mau gosto cada vez que passámos por este lugar - a paisagem começa a ser deveras encantadora. À minha esquerda, na Serra de Aires e Candeeiros, as enormes ventoinhas eólicas não cessam de rodopiar, enquanto um ou outro estorninho faz rasantes à roda dianteira da mota e os mosquitos vão-se estatelando na viseira do capacete. Pouco antes do corte para Rio Maior, a Serra dos Candeeiros fica para trás e a sensação de nos encontrarmos no Ribatejo adensa-se. A seguir vem Alcoentre, terra sobejamente conhecida por albergar um dos maiores estabelecimentos prisionais do país; e depois Aveiras de Cima e Aveiras de Baixo, terra que só tem significado para mim como nome dado a uma estação de serviço da auto-estrada.

Sigo na direção da Azambuja - terra da antiga fábrica da Ford - e Vila Nova da Rainha, que tem um avião de caça à beira da estrada, para relembrar que é o berço da aviação portuguesa e onde existiu a primeira escola militar de aviação. Depois, segue-se o Carregado, a localidade com o maior outlet do país e onde teve início a primeira viagem de comboio em Portugal, Castanheira do Ribatejo e finalmente Vila Franca de Xira. Agora, à medida que me aproximo de Lisboa, o trânsito é muito menos fluído. As paisagens campestres dão lugar a edifícios feios, urbanizações caóticas, lixo urbano, grafitis nas paredes, cartazes rasgados e estradas esventradas. Um pouco por toda a parte a pegada humana faz-se sentir. Os detritos da nossa existência tomaram conta do que outrora foram campos semelhantes àqueles que alguns quilómetros havia deixado para trás. Pouco já há para saborear no que à paisagem respeita e o interesse é chegar rápido.

Deixo para trás, Alhandra, Vialonga e Póvoa de Santa Iria. Todas partilham da mesma fealdade pragmática dos subúrbios. São ilhas onde se concentram pessoas de baixos recursos que não conseguem comprar ou arrendar casa na capital. De semáforo em semáforo, vou volteando pelo meio do trânsito, com manobras próprias de muitos anos de motociclista, até encontrar uma escapadela para a 2ª Circular em direção ao Eixo Norte-Sul. Antes das 15h00 já me encontro em cima da Ponte 25 de Abril a saborear uma aragem fresca que alivia o calor que sinto na cabeça. Já só penso em ver-me livre do capacete.

Subo a Avenida Bento Gonçalves e estaciono a mota frente ao Café Central de Almada. Acabei de perfazer cerca de 180 kms. A primeira personagem com que me deparo é o Zé Sobral. Tanto quanto recordo, nos anos 70, já invariavelmente o avistava todos os dias naquele local. O Zé Sobral mora a poucos metros do Central e fez toda a sua vida naquela circunscrição geográfica. Dantes, sei que vendia droga e ocupava-se de pequenos delitos, no intervalo de outros expedientes mais honestos. Encontro-o bastante magro, pele e osso, as tatuagens dos braços e do pescoço mirradas na pele queimada por muitos anos de sol, mas o mesmo semblante de sempre. Arruma cadeiras numa esplanada do outro lado da praça, levanta as mesas e varre o chão. Ao que me disseram, ganha para o tabaco e para alguma bucha. Tem uma doença qualquer. Não parece reconhecer-me ou, se calhar, finge não saber quem eu sou. Desvio o olhar em sinal de respeito pela sua condição e entro no café. Ao balcão peço um bolo podre. Há cinquenta anos atrás, elegi-o como o bolo da minha predileção e sempre que me davam uns trocos, juntava dinheiro para comer um. À época, era das maiores satisfações que a vida me dava. Uma homenagem ao travo das coisas simples.

A X Max 250cc ficou no parqueamento subterrâneo do Pingo Doce, pois Almada é terra de larápios. Logo em frente é a casa da minha mãe. Subo no elevador e rodo a chave na porta. Entro na sala de estar e a minha velhinha nem me deixa pousar a mochila. Levanta-se, abraça-me e diz: "Meu rico filho. Tenho rezado tanto por ti!". Também a abraço e ficamos juntos no sofá a ver a televisão sem som. A mãe é surda e não acha necessário subir o volume do som. E eu não me importo. Estamos juntos.

domingo, 29 de julho de 2018

Quando a bota não bate com a perdigota


É da natureza das coisas que as afinidades atraiam pessoas a interagirem entre si. Normalmente, a afinidade é definida quando há um encontro de identidades ou personalidades semelhantes entre duas pessoas. Ter afinidade é ter sintonia com as mesmas ideias, gostos e sentimentos característicos de outra pessoa. É também o sentimento de pertença a um mesmo grupo social e a convicção que ambos partilham de se encontrarem “ao mesmo nível”, seja por se acharem ambos atraentes, terem estaturas físicas semelhantes, níveis de cultura idênticos, ou, porventura, situarem-se no mesmo patamar social. Os motivos que levam duas pessoas a sentirem atração uma pela outra, são muitas vezes o somatório de características comuns e a empatia, dizem, é a base para um bom relacionamento. 

Mas se é verdade que comummente vemos médicos casados com médicas e/ou enfermeiras, professores consorciados com professoras, advogados com companheiras que trabalham na área da Justiça, membros do exército e dos corpos policiais que encontraram a sua parelha nas instituições a que pertencem e invisuais ou surdos-mudos que encontram parceiro/a em virtude de uma deficiência comum, as exceções não são tão insignificantes como se possa julgar. 

É natural que encontremos a nossa cara-metade dentro da mesma profissão ou no seio dos grupos onde mais interagimos, mas as redes sociais e a possibilidade atual de se conhecer alguém fora do nosso universo socioprofissional e geográfico, vieram possibilitar o que outrora seria estatisticamente improvável. Conheço, inclusive, pessoas que desejariam conhecer alguém, com intuitos relacionais, de preferência, fora do seu circuito profissional e social. No entanto, as regras que ditam a aproximação entre duas pessoas, ainda continuam a ser a empatia e o sentimento de identidade comum. 

Decidido a comprovar empiricamente estes pensamentos, desde há alguns dias que observo com curiosidade os casais que passam por mim. Para não parecer um voyeur ou um qualquer tarado em fase maníaca, decidi que o melhor seria observar as pessoas numa grande superfície onde, à falta de imaginação fértil, os casais passeiam regularmente aos fins-de-semana. As pessoas estão entretidas a ver as montras e eu posso estar tranquilamente sentado num daqueles sofás bué de confortáveis, colocados à disposição das almas mais fatigadas. 

Observo o par que está sentado à minha frente. São o protótipo do casal aldeão de meia-idade que, de quando em quando, vem à cidade, mais concretamente, ao shopping, lavar as vistas com coisas chiques. Parecem estafados da caminhada pelos longos corredores e nota-se que não se sentem à vontade com os trajes domingueiros que envergam. Ela usa uns brincos de oiro parecidos com os da minha avó materna, que nunca os tirava, e que um dia vi na palma da mão da minha mãe. Fora ela, minha mãe, quem lhos retirara das orelhas já no leito de morte; e, sendo a única filha sobreviva, ficara com eles. 

O marido usa um chapéu dos anos 50, suspensórios de elástico e tem uma barriga tão proeminente que parece ir rebentar a qualquer momento. Não interagem um com o outro, nem há quaisquer mostras de carinho ou cumplicidade. Limitam-se a estar sentados em silêncio e olham no vazio do longo corredor. Estão provavelmente cansados e a ganhar forças para o regresso a casa. Mas parece-me evidente que estão unidos por um destino comum, incapazes de viver um sem o outro, quem sabe, juntos o tempo de uma vida, até que a morte os separe. 

Ao meu lado sentou-se um casal relativamente novo. Não têm mais de trinta e poucos anos. São ambos obesos e comem com sofreguidão o conteúdo de dois baldinhos de gelados Häagen-Dazs, acabados de comprar na loja em frente. Cada um deles exibe uma tatuagem semelhante, desde o ombro até ao antebraço, em forma de flor de cor púrpura e azul anil. Vestem roupas muito idênticas e são fisionomicamente parecidos. Não tenho dúvidas que nasceram marcados para se conhecerem. Ela foi a primeira a acabar o gelado. Limpou-se a um lenço de papel e já está a surfar no telemóvel. Utiliza com bastante destreza o polegar direito para fazer deslizar as páginas que vão passando no écran. Usa e abusa do “bué da fixe”, ri alto, sem se importar com quem está ao seu redor, enquanto vai visionado publicações no Facebook. O companheiro, ainda de volta da lambedura do gelado, vai deitando o olho ao telemóvel dela e, sempre que não tem a boca cheia, exclama com veemente aprovação: “Épico, minha, épico!”. 

Nos meus tempos de estudante liceal, o género épico era uma narrativa em versos, que enaltecia episódios heróicos da história de um povo. Acho curiosa a apropriação que a juventude atual faz destes termos para uso em contextos diametralmente diferentes. 

Não tenho qualquer dúvida de que esta parelha nasceu para se complementar. Houve tempos em que ser gordo era sinónimo de bem-estar social e algo benigno. Magros eram os pobres. Na atualidade inverteram-se os valores e a realidade – os alimentos ultraprocessados e mais baratos ao alcance dos menos abonados criaram obesos, com acrescento de culpa. Mas nada disto gera preocupação neste anafado casal que, suspeito, muito faz ranger as molas do colchão lá por casa. 

A minha vista concentra-se agora num casal gótico que acabou de passar. Estando nós em Julho, acho estranho ver estas personagens por aqui, uma vez que o Festival Extramuralhas, um dos maiores eventos do género a nível europeu, dedicados à cultura gótica, que acontece todos os anos na cidade de Leiria, tem tradicionalmente lugar nos últimos dias de agosto. 

Usam piercings em ambas as orelhas, as tatuagens cobrem-lhes quase por completo as partes do corpo expostas, trajam de negro e calçam fracas imitações de botas Doc Martens. Ela tem o cabelo pintado de negro azeviche e os lábios de roxo. Ele tem o cabelo rapado e a cabeça tatuada com símbolos esotéricos. São fiéis representantes da identidade do grupo gótico e fazem questão de exibir os símbolos e comportamentos comuns associados à tribo a que sentem pertencer. 

Foi em Londres, corria o ano de 1978, que tomei contacto pela primeira vez com esta subcultura urbana, que teve início no Reino Unido durante o final da década de 1970 e início da década de 1980. Os meus 17 anos de idade e especialmente o facto de viver num país recém-saído de 40 anos de trevas, não me conferiam qualquer preparação para o que me foi dado ver na capital inglesa no final dos anos 70. O que agora observo neste casal passante é uma reprise mal-amanhada das personagens desse movimento de contra cultura, o punk - descaradamente violento, quer nas expressões musicais, no culto gratuito da discórdia ou na agressividade do vestuário – que à época vi surgir na Grã-Bretanha e do qual os góticos são uma variante suave. 

O casal está em perfeita consonância. Aliás, nem imagino um gótico gostar de um tipo como eu. Um gótico só pode juntar-se a outro gótico, tal como um crente fervoroso de um culto religioso não se imagina emparelhado com um ateu ou um praticante de um culto oposto. E o curioso é que eles devem achar que eu sou um careta insignificante, farinha do mesmo saco, com a mesma petulância com que eu, em pensamento, os rotulo de outsiders e inviáveis. Nestes casos, pertencer-se a uma tribo comum, é uma condição inultrapassável para um acontecimento relacional de cariz amoroso. 

O meu olhar dirige-se agora para um casal na casa dos 40 anos. São os dois altos, bonitos, com ar inteligente e saudável. Vestem roupas caras mas bastante confortáveis. Ele calça sapatos de vela, polo Ralph Lauren e calças chino Sacoor Brothers, tudo a condizer. A mulher traja um vestido branco com bordados azuis e calça uns ténis de marca. Não se limitam a ver as montras, pois transportam sacos com os logótipos de lojas de referência. São pessoas com posses. Passam de relance, mas consigo de imediato ver neles a empatia necessária à completude de uma casal. Nota-se que “foram feitos um para o outro”. 

Decido levantar-me e dar uso às pernas. Erguer-me desta nuvem de preguiça, que me faz estar refastelado no sofá verde, sem me apetecer fazer mais nada que não seja observar os casais que passam, ignotos da minha aventura voyeurista. 

Dirijo-me à porta de saída do shopping e passa por mim um casal assaz curioso. Ele tem o cabelo rapado e uma longa barba com reminiscências jihadistas. Da orelha direita, pende-lhe um brinco de argola tão grande, que dava para pendurar as chaves de casa e mais algumas utilidades. Veste umas jardineiras e calça uns ténis simples. A rapariga é loira, bastante bonita e é seguramente 10 cm mais alta do que ele. Além disso, é mais nova. Usa umas calças às riscas, que lhe realçam as formas voluptuosas, e uma túnica curta. Parecem formar um casal feliz, descomplexado e, com franqueza, não os imaginava juntos. É a primeira desconexão a que assisto ao fim de meia hora de observação. Mas depois, já na rua, comecei a ver com mais regularidade outras assimetrias e constatei que a regra tem tantas exceções, que chega a ficar ameaçada a sua condição de regra. 

Enquanto me dirigia para o automóvel, absorto no pensamento da inutilidade de todo este meu exercício, dei uma mirada instintiva na enorme superfície vidrada das portas do centro comercial e, de relance, observei a minha figura refletida. Assustei-me com a imagem que a vidraça me devolveu, pois não encontrei semelhanças mínimas com qualquer das criaturas objeto da minha observação. E todas as mulheres que passaram por mim e que imaginava podendo fazer parelha comigo, tinham a seu lado um indivíduo totalmente diferente da minha pessoa. Posso imaginar que jamais me escolheriam como parceiro, mas procuro refúgio no consolo da exceção que contraria a regra, na bota que não bate com a perdigota. E se as afinidades são cruciais para uma comunicação plena e para o bom funcionamento de uma relação amorosa, muitas vezes são as particularidades do outro, as diferenças, e as assimetrias que fazem alguém apaixonar-se. Se no final a coisa resulta bem, é outra conversa que aqui seguramente não vai ter lugar.

Das dores crónicas




Já escutei chamar poetas do quotidiano aos cronistas dos nossos dias, talvez por causa do seu discurso que se move entre a reportagem e a literatura, entre o oral e o literário, entre a narração impessoal dos acontecimentos e a força da imaginação.


Na crónica, há uma ideia pacificamente aceite de que, mais do que um diálogo com o leitor, existe um forte monólogo com o sujeito da enunciação, já que a subjetividade percorre todo o discurso e o derramar das palavras ocorre muitas vezes ao sabor da vertigem do pensamento.

Trata-se um exercício livre, sem deadlines, imposições temáticas ou preocupações com o juízo de quem nos lê. É por isso que gosto particularmente deste discurso livre, errático, que oscila entre o profundo e o brejeiro e cujo valor reside essencialmente na genuinidade despudorada das palavras.

Eu não sei se o que me proponho publicar são crónicas ou simplesmente prosa livre. Prefiro de longe a não rotulagem e só por comodidade chamarei crónicas aos escritos que tenciono postar - este feio neologismo - com alguma regularidade nesta rede social (somente visíveis para algumas pessoas). A escrita é (quase) sempre uma catarse, uma espécie de alívio e libertação e, sobretudo, uma forma de falarmos sem sermos interrompidos.

Há dores crónicas que nada têm a ver com as ditas crónicas das letras, mas que afligem diariamente muita plebe que não sabe o que fazer com tamanha frustração. A dor de cotovelo é um paradigma desta maleita que prolifera e é identificável em quase todos os lugares. É constatável nas conversas nos cafés, nos restaurantes, nos espaços públicos em geral, mas sobretudo nas redes sociais e chega a nausear, tanta a repetição da boçalidade falha de originalidade.

É fácil detetar os crónicos da frustração e da inveja pelos sinais de baixa auto-estima que mimeticamente emitem, pois as frases que verbalizam ou escrevem são invariavelmente as mesmas: "tenho a universidade da vida"; "aquele gajo lá por ser doutor não deixa de ser mais burro do que eu"; "sou uma pessoa simples (leia-se: inculta, iletrada) e (só) gosto de pessoas simples ( as outras, como não as entendo e ofendem-me por serem diferentes de mim, odeio-as); " na fábrica substituía muitas vezes o engenheiro e até sabia mais do que ele"; "não sou doutor mas não sou burro!"; " eu toda a vida trabalhei e não estive sentado a uma secretária"

Os exemplos multiplicam-se e não serei o único que está cansado de escutar e ler impropérios deste género a despropósito de coisa alguma. Basta, digo eu! E é para mim um alívio falar hoje destas coisas. Ninguém é mais do que ninguém e todos temos o nosso valor. A nossa sabedoria soçobra perante a grandeza da nossa ignorância em assuntos que não dominamos e desconhecemos em absoluto. O que seria de mim sem os sapateiros, os canalizadores, os médicos, os padeiros, os enfermeiros, os informáticos, os engenheiros, os agricultores, os pescadores, os serralheiros? Nós somos aquilo para que nos treinámos durante o percurso da nossa vida e, pela lógica da especialização, ninguém consegue ser bom em tudo. Todos dependemos uns dos outros e temos de ter a humildade de aprender e confiar naqueles que treinaram certas valências que para nós são absurdos desconhecidos.

As coisas existem. Estão lá. Não vale a desculpa eterna, a lamuria recorrente, a inveja peçonhenta e sabe-se lá o sacrifício que muitos fizeram para alcançar os patamares a que se propuseram. Quem quer uma coisa tem de lutar para o conseguir, fazer escolhas, desistir de algo em prol de prioridades, dispor-se ao sacrifício. A regra é igual para todos. Não sei de outra forma de conseguir alguma coisa que tenha desejado muito. O contrário é a conformação com uma dor crónica de inveja: o eternizar de uma mediocridade auto-infligida e desejada.


sábado, 3 de março de 2018

Corrupção - um mal endémico




Razão tinha o cínico e sempre atual Maquiavel nos sábios conselhos que dava aos monarcas para a manutenção do poder. É verdade que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.

Felizmente que hoje já não há muitos poderes absolutos que permitam corrupções totais e, sendo assim, consegue-se ir vendo muitos gatos escondidos com o rabo de fora.

São relações de poder as que as pessoas experimentam todos os dias nos empregos, nas relações sociais e até nas amorosas. Tem sempre mais poder quem, por deter, ainda que no momento, qualquer coisa que é importante para o outro, é o dominante na relação. E para além de obviamente haver sempre a possibilidade da perda do cargo que se detém, a doença, a velhice ou a morte são limites absolutos a qualquer poder personalizado. Há também a circunstância trágica de quem detém com volúpia um dado poder conviver dia a dia com o medo: o imenso e aflito medo da perda.

Não há dia em Portugal em que os cabeçalhos dos jornais não noticiem figuras públicas eventualmente envolvidas em casos de corrupção. À parte a Itália - que tem como "desculpa" o ex-libris da milenar máfia -, o nosso país aparece sempre na linha da frente dos países da União Europeia com maior índice de corrupção.

A corrupção, quer na forma ativa, quer na forma passiva, é uma doença crónica, hereditária e degenerativa, sem cura conhecida. E a única coisa que podemos fazer - aqueles que, por ora, ainda não se deixaram corromper - é combater sem tréguas o fenómeno, não hesitando em denunciar todos os casos que tenhamos conhecimento.

Mas o pior de tudo é a acomodação. A atitude (quase) inevitável para quem assiste diariamente às denuncias e sabe de antemão que a culpa vai morrer solteira. Os ilustres acusados são, regra geral, demasiado chiques para conhecerem o meio prisional, têm demasiado poder e dinheiro para contratar a melhor defesa e usam de expedientes dilatórios que a própria lei lhes faculta.

Podemos, a contrario, seguir a via brasileira, parodiando os casos de corrupção nacionais; e, inclusive, acharmos-lhes graça, como parte integrante da nossa cultura, usos e costumes. Uma espécie de folia nacional, como fora um Carnaval que durasse todo o ano.

Leiria 2007*

* O panorama, dez anos volvidos desde que escrevi este texto, não mudou, antes pelo contrário, encontra-se atualissímo e em altas.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Maconha



O Bloco de Esquerda quer aproveitar a nova maioria no Parlamento para conseguir legalizar a produção, distribuição e venda de cannabis para fins terapêuticos e para consumo recreativo. Deixando de lado as hipocrisias, todos sabemos que o álcool e o tabaco são igualmente substâncias com enormes risos para a saúde e o seu consumo é legal e comercializado.

Se querer entrar em querelas ou tomadas de posição a favor ou contra o consumo autorizado de maconha para fins não medicinais - eu sou completamente insuspeito, pois não bebo há 20 anos, não fumo há 17 anos, nem consumo drogas recreativas -, não consigo imaginar um único argumento para que a proibição da sua comercialização exista.

Um adulto que queira beber uma garrafa de whisky diária e fumar dois maços de tabaco por dia, tem os produtos à sua disposição para o fazer. No entanto, sabe que o cancro, a cirrose hepática e outras doenças, estão intimamente associadas ao consumo destas duas substâncias. Sabe também que o consumo de uma substância aditiva, é o gérmen para a despersonalização do indivíduo e para uma eventual conflitualidade familiar e desajustamento social.

A informação sobre os malefícios do consumo a longo prazo de cannabis é de todos conhecida: cancro do pulmão, indução de psicoses graves (em indivíduos com pré-disposição) , patologias cardíacas, perda da memória e da concentração, despersonalização, demência e favorecimento de outras doenças neurológicas, entre outras.

Estando disponível toda a informação sobre os malefícios associados ao consumo reiterado da maconha, porquê então proibir e reprimir o seu consumo, se com a sua permissão se evitariam muitos crimes associados ao tráfico?

A opção de consumir ou não consumir deveria pertencer ao arbítrio do adulto avisado, tal como o consumo abusivo do álcool e do tabaco, substâncias que geram lucros absurdos em impostos para o Estado, numa hipocrisia intolerável.

sábado, 25 de novembro de 2017

Geração do não desenrasca




Jamais empregaria a expressão "geração rasca", usada pelo jornalista Vicente Jorge Silva em 1994, num editorial do jornal Público, aquando das manifestações estudantis, para caracterizar a passividade de alguns jovens dos nossos dias, em relação às dificuldades da vida, pois acho-a ofensiva, manifestamente exagerada e, sobretudo, redutora. Eu próprio lido frequentemente, com jovens bastante empreendedores e responsáveis, gente que tem projetos e luta por eles.

No entanto, não há dúvidas de que, na sociedade portuguesa, uma fatia considerável dos adolescentes e recém adultos, cultivam a dependência em relação aos pais, o gosto pela futilidade e pelo facilitismo, os ténis e a roupa de marca, os smart phones, Ipads e restante parafrenália. Escolhem, sem hesitações, os consumíveis, que não precisam ser mastigados pelo cérebro e pelo senso crítico, com que a selvajaria do marketing, sabendo antemão das suas vulnerabilidades, os bombardeia.

É comum os jovens de hoje em dia dizerem: "não tenho nenhum trabalho, pois não consigo encontrar um que me satisfaça".

Nos meus tempos de juventude, o sonho de qualquer jovem adulto era o de ter uma ocupação profissional, fosse ela qual fosse, tornar-se independente dos pais, viajar, comprar um automóvel usado, frequentar o ensino superior, se necessário fosse, na qualidade de estudante-trabalhador, encontrar rapidamente o seu espaço, fosse arrendando uma casa a meias com amigos/as, ou, nalguns casos, comprando.

Hoje, há uma franja, felizmente marginal, de jovens que se escudam na "crise", nas "dificuldades da vida", na preguiça eterna, esquecendo que a vida é uma luta constante que começa na base da pirâmide social e jamais termina. E, com a crueldade que lhe está associada, os que ficam parados na corrente ascendente, os que nada fazem, são rapidamente ultrapassados e cilindrados pelos que vêm atrás. Desistir é perder na secretaria.

É aos pais super protetores, eles mesmos maus exemplos, ou negligentes com o comodismo galopante dos filhos, que deve ser assacada a maior responsabilidade por esta faixa marginal de jovens inertes, sem hábitos de luta ou sacrifício, que julgam que o mero facto de terem tirado um curso superior lhes garante o acesso imediato a um patamar profissional superior.

Todo o trabalho é honrado e em bastantes países por esse mundo fora, é comum os "doutores" trabalharem em ocupações menos qualificadas; isto até conseguirem, sempre com a sua luta e engenho, uma ocupação adequada às suas qualificações.

Nunca mais me esqueço da frase premonitória proferida por um professor que tive no ensino secundário, em relação às graçolas dos "engraçadinhos de serviço" da sala de aula: " Não gozes com os «caixas de óculos»" a quem chamas «marrões» e ocupam sempre os lugares na fila da frente, pois muito provavelmente vais encontrá-los como teus chefes na vida profissional futura".

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Donno imobile



Dececionar é um verbo transitivo e pronominal e significa, grosso modo, a acção de causar, ou sentir, frustração ou tristeza quando algo esperado não acontece, ou quando alguém não corresponde ao que dele/a se idealizava. Por isso dizemos amiúde que certa pessoa nos dececionou, ou nos desapontou.

Eu sou uma vítima perene das deceções, seja por esperar demasiado dos outros, ou por ser naturalmente exigente com a solidez do caráter. Aceito, nos outros, mas muito menos em mim, os erros e as fraquezas, pois as considero irremediavelmente humanas. Mas a cobardia, a falta de frontalidade, o desvaloro do compromisso e da palavra dada, bem como a mentira viscosa, causam-me repulsas quase impossíveis de digerir.

Não acredito em santidades e julgo, inclusive, que quem almeja tais virtudes vindas dos outros, padece de uma vasta ingenuidade. Muito menos me vejo como um ser integralmente moral, isento de comportamentos censuráveis ou com doses de tolerância próximas de um beato. Mas, por muitas que sejam as imperfeições que me forram, em cada dia que passa, sei que tenho feito um esforço genuíno para melhorar como pessoa. E tenho a feliz certeza de que sou uma pessoa com mais qualidades intrínsecas, mormente, verticalidade e bondade, do que há uns anos atrás.

No entanto, a intolerância próxima do absoluto com falhas graves de caráter, continuam fora do alcance da minha ascese no caminho do melhoramento possível. O motivo para que eu não consiga mudar esta intransigência quase absurda, é o de simplesmente continuar a achar que estou correto.

E quando esse estado de não subsistência de dúvidas, no que ao comportamento dos outros respeita, perdura em mim, torno-me um "donno imobile", muito próximo da tolerância zero.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Falando com as entranhas



Não me acostumo com o que não me faz feliz, revolto-me quando julgo necessário e encho o meu coração com a esperança de momentos melhores, mas não deixo que ele se afogue nela. Se achar que preciso de voltar atrás, volto, pois, como dizia Montaigne, que gosto muito de citar, a única forma de não cair no precipício é precisamente não dar o passo em frente e recuar.

Às vezes suponho erroneamente que já não consigo falar com as minhas entranhas, com as fibras que me forram o interior, mas, não raro, engano-me e reencontro sempre essa hábil capacidade, que pode ficar adormecida durante algum tempo, mas fervilha dentro de mim; e, cedo ou tarde, sempre emerge.

Em boa verdade, todos nós somos de algum modo prisioneiros das nossas emoções e da maneira como formámos os valores com que construímos a nossa personalidade. Devemos prestar sempre um tributo sério à coerência e à verdade; e, sobretudo, aceitar-nos como somos, não desvirtuando a estrutura vital da nossa personalidade, pois ela, uma vez formada e amadurecida, dificilmente muda.

Somos seres únicos, incapazes de ser copiados por quaisquer mimetismos de trazer por casa e essa diferença é uma das nossas maiores riquezas.

Nesta vida, das poucas coisas que podemos ter algum controlo e responsabilidade, é precisamente sobre o nosso comportamento, sobre as escolhas e decisões e de pouco vale imputar a outrem este ónus já que, para um adulto formado, viver é, sobretudo, escolher os caminhos e tomar decisões, com a plena consciência de que a inércia não deixa de ser ela mesma também a assunção de uma posição: o nada fazer.

Na base de qualquer conflito existe sempre um ou vários problemas e o conflito só será ultrapassado na medida em que os problemas a ele subjacentes sejam resolvidos - lógica pura e uma frase digna de La Palice, dirão os entendidos! Mas os problemas são sempre suscetíveis de ser abordados de uma forma lógica e racional e podem ser explicitados por um conjunto de fatores que permitam uma resposta ou solução – verdade que tenho hoje por assente – de forma a investir toda a energia na sua resolução.

Aconselho-me a mim mesmo, nesta hora impúbere da madrugada, fugir ao máximo do envolvimento na esfera emocional do conflito: o chamado efeito evitamento, pois é isso que desgasta, já que o que não tem remédio remediado está.

Tenho dito e agora vou dormir um sono de bebé, pelo menos assim o espero.

De novo a Justiça...



Se perguntarem a alguém o que entende por Justiça, o mais certo é que todos se sintam aptos a responder. Mas a resposta, a meu ver, não é assim tão fácil e evidente; e é bem provável que as opiniões resultem díspares e acabem por refletir um pouco o pulsar de cada um em relação ao modo como encara aquilo que acha que deve ser “o viver” dentro do tecido social.

O conceito de «Justiça», mercê da permeabilidade de várias correntes doutrinárias, tem, ao longo dos tempos, vindo a sofrer contínuas alterações – que lhe alteraram a forma e a substância - em resultado do espírito da época e das correntes de pensamento mais fortes que em cada momento vigoraram.

Tenho por assente que a crença daquilo que é justo e injusto [sem querer entrar em querelas impróprias, além de chatas e inúteis, acerca da validade e anterioridade do Direito Natural e Divino, como realidades metafísicas e superiores aos ditados humanos], não é uma constante mas algo que acompanha a evolução das mentalidades e sobretudo das novíssimas conveniências e contingências que vão surgindo e metamorfoseando-se.

A definição daquilo que é justo ou injusto, surge como uma espécie de plasticina apta a moldar-se e transfigurar-se ao sabor de realidades bem mais sórdidas do que o conceito de Bem.

O resultado de tudo isto é evidente: o que dantes era considerado injusto, hoje pode ser valorado de forma oposta e vice-versa, tudo à bolina de conveniências que, muitas vezes, pouco ou nada têm a ver com uma preocupação altruísta do legislador em criar uma sociedade mais igualitária – a igualdade será, porventura, um dos paradigmas do conceito de Justiça, mas, ainda assim, também ela padece de imensas interpretações.

Este conceito, após interiorizado no tecido social, deveria presidir à feitura de qualquer normativo jurídico, para servir a finalidade de “fazer justiça”, que é, afinal, aquilo que todos nós, individualmente ou em coletivo, queremos: a consagração dos valores que temos como nossos, com os quais nos identificamos e reconhecemos, alicerçados na ideia de BEM, refletidos em normativos que devem ser cumpridos sob pena da sanção individual, imposta pelo coletivo na pessoa do Estado.

Um dos grandes objetivos que habitualmente se consideram inerentes ao Direito é a Justiça. Haverá poucas palavras com ressonância social e histórica mais majestosas, e poucas haverá também que sejam mais difíceis de analisar racionalmente e prescindindo dos estímulos emotivos que suscita.

Podemos, aliás, utilizar a aceção justo/injusto em diversos sentidos: podemos, por exemplo, dizer que uma sentença judicial é justa no sentido de que nela se aplicou a lei, sem entrar em juízos de valor sobre esta. Neste sentido justo equivale a legal, o que não é necessariamente verdade. Noutra vertente, chamamos justo um ato ou mesmo à própria lei enquanto respeita um critério básico de igualdade. Este significado é tradicional no pensamento ocidental desde Aristóteles e exprime-se no principio de que: «Os iguais devem ser tratados como iguais e os desiguais como desiguais». Nenhum Direito dito «civilizado» deixará de levar em linha de conta esta máxima anterior.

Mas, com salvaguarda dos direitos ditos inalienáveis de carácter prioritário, como sejam: o direito à vida, à propriedade privada, à liberdade de expressão e dos diferentes credos religiosos, manifestações políticas incluídas, sinto, em tese geral, um progressivo decrescendo nos arautos inerentes a todas as liberdades conquistadas - o mais das vezes com o sacrifício de milhares de vidas - e que espelham a civilização ocidental e humanista que conhecemos, onde vivemos e em que acreditamos.

A Justiça e a Segurança, encaradas tradicionalmente como traves mestras da existência do Direito, e como um corpo de normas apto a regular as relações entre sujeitos num determinado grupo social, também tem servido de álibi aos maiores abusos.

Em nome do presuntivo interesse do coletivo, saído de eleições democráticas, aquilo que se assiste paulatinamente é ao favorecimento das elites políticas e o enriquecimento progressivo e constante da classe economicamente dominante.

Ler John Rawls, ou qualquer outro filósofo político bem intencionado e iluminado por astros flamejantes, não basta. Por vezes, quiçá não seria necessário o ressurgimento de uma ação coletiva para acabar com um Direito injusto; e, caso obtivesse êxito, repor uma nova legalidade, desta feita baseada em conceitos que tivesse efetivamente a ver com a ideia de BEM.

Creio que este conceito não é de interiorização tão difícil, assim fosse possível eliminar à nascença a nossa propensão genética para o egotismo, a visão umbilical que temos da vida e o medo dos "radicalismos", das mudanças abruptas, mas seguramente eficazes. Julgamos ficar a salvo, inertes, num eterno registo de preferência por uma "paz social" podre - "eles, os políticos, são todos iguais!

O Direito do mais forte é, infelizmente, o único Direito que parece auspiciar um futuro risonho; e deixem-me rir quando oiço falar em Direito Internacional e na possibilidade de se aplicarem sanções, por incumprimento, a países que detêm um poderio militar e económico que subordina os restantes.

Talvez a manutenção da ideia peregrina de que existe Direito Internacional Público e a possibilidade de o aplicar coercivamente seja, afinal, a ideia mais risível que alguma vez o Homem fantasiou da Justiça...

Sou formado em Direito e....em desilusão, tantos os anos, as teorias, os livros, e os manuais de boas intenções que li, decorei, e que sempre esbarraram contra esta regra implacável: o mais forte (quase) sempre vence.

Por isso mesmo, para grandes males, grandes remédios e a História testemunha-nos ser sempre esse o antídoto único e eficaz. Almejar uma mudança no tecido social sem fazer uma revolução, isto é, sem mudar radicalmente a balança negativa dos desequilíbrios e injustiças flagrantes, é o mesmo que desejar que uma árvore floresça e dê frutos sem lhe podarmos os ramos podres e previamente prepararmos a terra. E, por radical que a minha opinião surja aos olhos de quem me lê, todos sabemos quão verdadeira é.

Isto é: se gritamos contra as injustiças cometidas contra nós, se nos indignamos com a corrupção que medra na classe política, se nos conformamos com a fome de muitos e a aviltante e cada vez maior riqueza de outros; se nada fazemos e continuarmos a pensar que a correção destas desconformidades esquizóides resolvem-se com eleições - mais do mesmo, temos, afinal, aquilo que merecemos. Nós somos quase onze milhões. Quantos são eles, numericamente falando?


sexta-feira, 21 de julho de 2017

A todos os ilustres virtuosos desconhecidos


Todos nos deliciamos quando assistimos a algo que esteja bem executado, seja um solo de violino, uma pintura com formas e cores harmoniosas, um livro bem escrito, um poema inspirado, um rasgo de inspiração. A genialidade é um dom que escasseia e sempre que nos deparamos com alguém que exala virtuosismos, seja em que área for, regra geral, deixamo-nos invadir por uma sensação de admiração profunda e, no íntimo, desejávamos ser também um pouco assim.

Há muitas, e algumas curiosas, teorias, para explicar porque alguns de nós, apesar de tudo poucos, conseguem elevados padrões de criatividade. A posse desses tais recursos internos que possibilitam - seja em que área for: artística, literária, científica, técnica – ter recursos internos capazes de transformar, recriar, pegar em elementos dispersos e disponíveis e produzir qualquer coisa que se reconheça como nova, diferente, por vezes mesmo, única, é algo admirável.

Não me atendo a nenhuma das teorias - algumas conheço-as, outras nem por isso -, mas penso que alguns de nós, efetivamente, têm competências específicas, invulgares, quer para a música ou para a diferenciação de sons, para os números, para a pintura, para a escrita, para a poesia, para as artes em geral; e, a par do labor intenso, que é fulcral para alcançar a excelência em qualquer atividade, a influência do meio, o favorecimento evidente de se ter nascido no seio de uma família de elite, uma educação a todos os níveis esmerada, não obnubila o merecimento de se ter nascido com um dom: uma espécie de dádiva divina que, devidamente trabalhada, resultará em algo de reconhecido valor.

A criatividade talvez seja isso mesmo: uma mistura, sem receita, do que ainda subsiste em cada um de nós dos prazeres das brincadeiras da infância perdida – nesse tempo todos eram criadores –, com habilidades específicas, eventualmente biológicas, apuradas por técnicas bem aplicadas e saturadas pelo trabalho árduo.

Aquilo que criamos, o valor daquilo que fazemos bem, está intrinsecamente ligado com a circunstância de o mundo que nos rodeia se dispor a valorizar isso como tal. É por essa via que um jogador de futebol pode ganhar mais dinheiro – o prémio social – pelos seus desempenhos, do que um cirurgião cardiovascular que salve vidas, várias vezes por semana, e tenha estudado mais de 20 anos para obter a excelência na área da sua técnica.

Também aqui a celebérrima lei que rege o mercado – tal como o conhecemos – a oferta versus a procura, valoriza mais ou menos a produção, que se quer única, ou, pelo menos, rara, da nossa arte e engenho para fazer algo de que resulte fascínio, seja por utilidade material ou estética.

Mas há criadores sem obra e isso também é uma verdade irrefutável. E serão mais os que se lhes reconhece o talento e o valor a título póstumo, do que os que têm a sorte de verem reconhecido o seu mérito durante a efémera passagem pela vida. Esses serão, porventura, sempre apelidados de «ilustres desconhecidos».

É a eles que, com a minha recorrente mania da "defesa dos desfavorecidos", me apetece hoje fazer uma longa vénia com um chapéu de feltro virtual, arrastando penas de pavão pelo chão da indiferença - o solo que habitualmente os espezinha.

Virá certamente o dia que se lhes dará o merecido valor.