quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Português para estrangeiros





Este ano repito uma experiência letiva, desta vez na Universidade Senior de Pataias, que já havia tido, há alguns anos atrás, por diversas vezes, com crianças e jovens de diversas nacionalidades: o ensino de Português/iniciação para estrangeiros.

Contava ter no máximo 4/5 alunos, mas compareceram na minha primeira aula catorze. São, com exceção de um suíço, o Jean, casado com uma portuguesa e que bem conheço das caminhadas, todos franceses e residentes no concelho de Alcobaça, que escolheram o nosso país para morar e gozar a merecida reforma.

Quando ensinei Português a crianças russas e ucranianas (nos anos 90) e, posteriormente, a jovens de diversas nacionalidades no SPEAK, registei a imensa facilidade que tinham na aprendizagem. Era tudo fruto - mais do que da motivação pessoal, que em alguns era pouca - de uma fabulosa capacidade de raciocínio e memorização, própria de cérebros novinhos em folha. Alguns jovens, com estudos superiores quase terminados, eram naturalmente os ases da classe.

Nos seniores passa-se exatamente o contrário: à menor capacidade de rápida aprendizagem, contrapõe-se uma muito maior motivação e responsabilidade - assim espero.

Penso que todos eles têm plena consciência da enorme barreira colocada à sua integração, decorrente do facto de não falarem português. A tendência é juntarem-se em colónias de francófonos, residentes nas proximidades, e auto-excluírem-se do restante tecido social.

Para alguns, a comunicação com a comunidade tem-se resumido, como me confessam, às palavras suficientes para terem uma vida funcional: ir à compras, ao médico, ao café ou ao posto de combustível. Em tudo o resto, por desconhecimento da língua, vivem alheados da realidade que os circunda, .

Cabe-me a mim como professor incutir-lhes um espírito de resiliência, mas terão de ser eles mesmos a medir os seus progressos e a esforçarem-se por querer ir sempre mais além, conscientes que estão dos benefícios que podem colher do facto de aprenderem Português.

Cada um vai fazer bem a sua parte. Assim espero.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

A esplanada do Central



A esplanada do Café Central de Almada, lugar de pouso do outono da minha infância e, posteriormente, de grande parte da minha juventude, à tarde, é lugar de suecada. Sexagenários e septuagenários, em alegre algazarra, competem por moedas, com assistência dos jogadores de bancada - que ora apupam uns, ora incitam outros. Quem diria que este celebérrimo café estaria destinado a transformar-se numa arena, onde idosos se batem fervorosamente pelos ases e pelos trunfos numa gritaria insana e ensurdecedora?!

Em meados dos anos 70, durante os anos 80 e até ao início dos anos 90, a esplanada do Central acolheu intelectuais, drogados, traficantes, estudantes, professores, ladrões, parasitas sociais, filósofos, políticos, músicos, poetas, pintores, ativistas e quejandos. Era difícil encontrar um lugar tão heterogéneo em toda a cidade. Célebres eram as noites em que se transformava na arquibancada onde se podia assistir aos ralis noturnos. Os competidores desciam, a velocidades alucinantes, a avenida D. Nuno Álvares Pereira e, chegados à rotunda da ex-Praça da Renovação (mesmo defronte da esplanada do Café Central), faziam piões e chiavam os pneus de tal forma que o cheiro a borracha queimada fazia-se sentir nas narinas. Só quando aparecia o "Nívea", o velho Volkswagen azul e branco da PSP, é que toda a gente debandava. Horas mais tarde, as corridas recomeçavam noite dentro. Não raro, havia despistes contra as montras de lojas.

Almada está cheia de reformados. Gente que trabalhou uma vida inteira e que contribuiu para agora merecidamente gozar o outono da vida. Mais difícil é conceber que a tolerância chegasse ao ponto de permitirem a transformação da esplanada de um café num casino de rua. Não faltam, na cidade, locais mais apropriados para a reunião e o convívio das cartas. Mas a centralidade do lugar apetece e, sobretudo, a complacência das autoridades e dos empregados do café, permite aos velhos algo que a outras idades seria reprimido. Os velhos já arrastam consigo a penosidade da idade e, muitas vezes, da solidão e da doença. Quem sabe não seria cruel afugentá-los da esplanada, como se fossem pombos portadores de maleitas. Não tarda, a sua vida some-se e os novos suspiram por poder chegar à idade da matiné das suecadas no Café Central.

Seeking Sole Mates



Li algures sobre um método infalível para encontrar o par da meia perdido. A ideia básica é separar em categorias - por exemplo, cores. Começa-se por dividir as meias assim: uma pilha de meias cinzas, outra com as pretas e uma terceira para as brancas. Depois, escolhe-se outro critério, como o comprimento.

Isto não é mais do que a aplicação do método dedutivo (do geral para o particular), ou a modalidade de raciocínio lógico que faz uso da dedução para obter uma conclusão a respeito de determinadas premissas - no caso em apreço aplicado a meias.

Mas, sem ofender as premissas da Lógica, que muito respeito, acabei de adotar um método amplamente mais eficaz. Caso demore muito tempo a encontrar o par da meia, coloco as meias perdidas num saco de plástico, a aguardar as que virão de novas lavagens. Se jamais aparecer o par correspondente, passam à categoria utilitária de panos para engraxar, ou coisa que o valha. Mas mais eficaz do que todos os métodos, a partir de hoje só compro meias rigorosamente iguais. É a chamada solução final.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Duterte & Companhia


Lido por aí: "Duterte pede ao povo filipino que ‘atire’ em funcionários públicos corruptos".


Com esta simultaneidade, não me recordo de uma época recente em que o mundo tenha tido tantos governantes de topo com tamanhas irresponsabilidades.

María Corazón Aquino, também conhecida por Cory Aquino, foi presidente das Filipinas entre 1986 e 1992. Foi a líder do movimento que derrubou a ditadura no seu país, então liderado por Ferdinando Marcos - o tal cuja mulher se deslocava de avião todas as semanas a Paris para comprar roupa e sobretudo sapatos, artigo que colecionava aos milhares, enquanto o povo morria à fome e era torturado e morto nas prisões .

Aquino, falecida em 2009, recebeu diversos prémios e era uma figura respeitada a nível internacional. Foi provavelmente a melhor presidente que as Filipinas tiveram nos tempos modernos

Mas agora as Filipinas têm como presidente o advogado Duterte, eleito por sufrágio supostamente livre e democrático, que afirma publicamente já ter abatido a tiro muitos traficantes e delinquentes. Para além disso, o atual presidente, apela a que seja feita justiça popular, sem recurso aos tribunais, ou a quaisquer direitos de defesa para os eventuais acusados de crimes violentos ou de corrupção. Duterte, que incita a população a praticar a lei de talião e a vindicta privada, recorde-se, é advogado.

Neste estranho mundo atual, temos simultaneamente a decidir os destinos dos seus países, com influência direta ou indireta no planeta: o Trump nos Estados Unidos, o Boris Johnson no Reino Unido, O Erdogan na Turquia, o Kim na Coreia do Norte, o Duterte nas Filipinas e aqueles loucos fanáticos de turbante branco, o Hassan Rohani e o Ali Khamenei, no Irão, entre outros cujo nome não recordo.

A perigosidade de uns é seguramente superior à dos outros, sobretudo pelo poder militar que os respetivos países concentram, mas a particularidade de todos serem belicosos e manifestamente incompetentes para serem líderes mundiais, não nos deve deixar esperançosos de que enveredem por soluções pacificas e consensuais na resolução de eventuais conflitos.

As organizações internacionais correm sérios riscos de se tornarem tigres de papel no cenário das atuais relações internacionais, se é que não o são já, uma vez que o incumprimento das suas resoluções, é cada vez mais impossível de ser aplicado coercivamente, pelo menos no que respeita a certos estados. O direito do mais forte é e sempre será a maior fonte do Direito Internacional Público.

domingo, 8 de setembro de 2019

Eduardo Beauté



Leio as notícias do dia.

O cabeleireiro Eduardo Beauté, com 52 anos de idade, faleceu. Segundo os amigos e pessoas próximas, estaria doente, por demonstrar sintomas de depressão profunda. Não era a primeira vez que isto acontecia, como o próprio revelou em várias entrevistas.

Foi casado com o modelo Luís Borges, bastante mais novo do que ele, de quem se divorciou após discussões recorrentes e que foram alvo de alguns escândalos noticiados nas revistas cor-de-rosa. Entretanto, o casal tinha adotado três crianças, que ficam agora órfãs de um dos pais.

O famoso cabeleireiro, de seu verdadeiro nome Eduardo Ferreira, foi encontrado morto em casa no sábado passado. Aguardam-se notícias oficiais das causas da morte, mas tudo aponta para suicídio.

Aproximadamente uma em cada seis pessoas que cometem suicídio deixam um bilhete que, às vezes, dá pistas para as razões para essa atitude. Não se sabe, por ora, se isso aconteceu no caso do Eduardo.

Os comportamentos suicidas geralmente resultam da interação de vários fatores, sendo que o fator mais comum que contribui para o comportamento suicida é a depressão.

Pessoas que passaram por viuvez, separações ou divórcios, como é o caso de Eduardo, que confessa em algumas entrevistas estar a fazer um luto muito difícil da sua separação, têm maior probabilidade de consumar um suicídio.

Eduardo nasceu na Marinha Grande e foi em Leiria que abriu, nos anos 80, o primeiro salão em nome próprio. Chamou-lhe “Eduardo Haute-Beauté”. As pessoas, quando iam ao seu cabeleireiro, diziam que iam ao Eduardo Beauté e assim ficou sendo conhecido. Muitas pessoas de Leiria lembram-se bastante bem do salão de cabeleireiro e falam amiúde dele. Eu vi o Eduardo algumas vezes em Lisboa, mas nunca o conheci pessoalmente.

Infelizmente, a depressão, já considerada a doença do século e, segundo a OIT, responsável pela causa maior de abstinência ao trabalho, ainda é um estigma severo, para os atingidos pela doença; e vista com uma enorme incompreensão por todos aqueles que nunca sofreram desta maleita. Seja por grave ignorância ou insensibilidade pura - em geral as duas causas concorrem juntas -, as pessoas atingidas pela depressão são consideradas seres fracos, desistentes e criaturas a evitar. São muitas vezes estigmatizadas pelos ditos "seres não deprimidos" e rotuladas de inúteis.

Longe vão os tempos em que as pessoas atingidas por qualquer doença mental eram, juntamente com outros indesejáveis, a saber: alcoólicos, indigentes, criminosos reiterados, pedófilos, pederastas, sádicos, masoquistas e quejandos, encerradas em hospícios, que mais não eram do que casas dos horrores, como forma de os subtrair ao convívio social. O hospício era o pátio traseiro da sociedade.

Felizmente que, hoje em dia, nas sociedades com algum grau de evolução social, a inclusão de pessoas atingidas por alguma patologia mental é prática corrente. Mas ainda existem muitos jurássicos que - sorte a deles - nunca sofreram uma depressão e insistem menorizar as pessoas atingidas pela doença, classificando-os como párias sociais.

A mudança de mentalidades é um trabalho de décadas e por vezes séculos. Temos de esperar algumas mortes e nascimentos para ver renovado o tecido social com novas seivas de pensamento.

A confirmar-se o suicídio, Eduardo foi mais uma vítima desta secular doença e foi esta a única forma que encontrou de colocar um ponto final no atroz sofrimento que o consumia.

RIP, Eduardo

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Dos imigrantes





A imigração portuguesa em França em massa iniciou-se em meados de 1950 e durante as décadas de 1960 e 1970, para fugir da ditadura salazarista e, no caso dos homens, da guerra que se desenrolava nos territórios ultramarinos.

Foram milhares os portugueses que, entre finais dos anos 50 e início dos anos 70, passaram "a salto" as fronteiras para chegar a França, recorrendo a passadores para os guiarem, a depositários para guardarem o dinheiro da viagem, a transportadores e a angariadores de pessoas desejosas de emigrar. Os passadores que faziam este tipo de passagem viam - ou grande parte deles via - esta atividade como negócio.

Muitos dos imigrantes instalavam-se em bairros de lata da região parisiense, em condições insalubres de extrema miséria. A maioria destas pessoas era analfabeta, camponeses e aldeões que se empregavam como operários desqualificados, empregados de limpeza ou da recolha do lixo, em funções que os cidadãos franceses não queriam ocupar. Em Champigny-sur-Marne existiu o maior bidonville (favela) da história de França, ali residindo em barracas 15.000 pessoas.

Lembro-me do meu pai falar da censura exercida sobre um artigo do Paris Match, que publicava uma extensa reportagem fotográfica, sobre as condições miseráveis de vida dos nossos nacionais em meados dos anos sessenta.

Desde 2008 até 2014, têm-se registado significativos aumentos da emigração, sendo mesmo a maior de todos os tempos, devido à crise financeira que ocorreu em Portugal; e França continua a ser o país com maior número de portugueses residentes.

Felizmente, a nova geração de imigrantes portugueses em França, que vemos no mês de agosto encherem as praias, as aldeias e todos os lugares do país, não sofreram as agruras dos seus comparsas de primeira geração. Quando vêm de férias a Portugal, deslocam-se, na sua maioria, em viaturas novas, de alta cilindrada, que fazem questão de exibir, como sendo a prova do sucesso que fizeram em terras estrangeiras.

O sonho de quase todos os emigrados, no entanto, continua a ser o regresso ao país de origem, à aldeia natal, para passar uma velhice tranquila, na moradia vistosa que levou 30 anos de trabalho duro em França para construir. A casa terá de ser a maior e mais luxuosa da aldeia, para fazer morrer de inveja os vizinhos, decorada no género kitsch/emigrante, que todos conhecemos - muitos, velhos e incapacitados ao fim de várias décadas de trabalho intenso em França, deixam a humidade tomar conta dos andares cimeiros, tornados inúteis, do palacete de mil metros quadrados que erigiram, para viver o outono da vida unicamente no rés-do-chão. E as toneladas de cimento e tijolo gastos tornam-se uma amarga metáfora de 30 anos de vida em França.

Nos dias de hoje, muitos portugueses são patrões, fundaram empresas, obtiveram sucesso e contrariaram a pretensa imobilidade social dos imigrantes. Ainda há os que vivem menos bem, mas creio que serão uma minoria. Curiosamente, os turistas franceses que se deslocam a Portugal, na sua maioria, trazem automóveis de gama média ou baixa, contrastando com a ostentação dos portugas que por lá trabalham. E, das duas uma, ou os nossos emigrantes têm habilidades especiais para ganhar mais dinheiro do que os nacionais do país que os acolheu, ou há aqui bluff.

Dizem as más línguas, que muitos se endividam até às orelhas para comprar carros vistosos e que alguns são alugados. Seja como for, longe vão os tempos da mala de cartão da Linda de Suza e dos imigrantes desgraçados que vegetavam nos Bidonville dos arredores da Cidade Luz.


quarta-feira, 31 de julho de 2019

Rui Mingas



Um destes dias, em conversa com um colega do ginásio, onde quase diariamente faço a minha higiene física e mental, que por acaso é também ele professor de educação física, num estabelecimento de ensino secundário aqui na cidade de Leiria, recordei o meu professor Rui Mingas.

Andava eu no primeiro ano do ciclo preparatório, um ano antes da Revolução de Abril, tive o Rui Mingas como professor de ginástica, na Escola Preparatória D. António da Costa, em Almada. Já à época ele era um intérprete conceituado da música angolana e grande parte das aulas eram um misto de desporto e momentos musicais. Ele tocava guitarra, cantava e nós ficávamos deslumbrados a escutá-lo.


Nunca fui adepto das partidas de futebol, ou de outro tipo de competições que animavam a maioria da rapaziada, mas gostava, outrossim, de trepar às cordas, subir os espaldares, correr que nem um desalmado e usar o trampolim para dar saltos mirabolantes. O desporto coletivo e competitivo nunca me fascinou. Daí, os momentos musicais com o Rui Mingas terem sido as aulas de ginástica mais fabulosas da minha precoce juventude.

O Mingas foi praticante de atletismo, salto em altura e barreiras, no Benfica. Participou no celebérrimo programa televisivo Zip-Zip. Gravou vários discos e é um dos autores da canção "Meninos do Huambo", celebrizada em Portugal por Paulo de Carvalho.

Pertencente a uma família de influentes músicos angolanos, desenvolveu a sua sonoridade própria e uma forma única de interpretar a música da sua terra. Foi ele quem compôs a letra do Hino Nacional de Angola.

Foi professor, político, embaixador, cantor, letrista e atleta e é uma das figuras incontornáveis da cultura angolana. A parte que menos simpatizo da sua pessoa, deve-se ao alinhamento com a ditadura caciquista e dinástica de José Eduardo dos Santos. Sei que atualmente é o administrador da Universidade Lusíada de Angola, um cargo que a todos os títulos merece.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Desperdício alimentar



Como muitas pessoas que vivem só, sou um grande consumidor de alimentos já cozinhados, à venda nos supermercados e noutros estabelecimentos que servem refeições. Seja por preguiça, ou até por uma questão económica - para uma única pessoa, é mais barato comprar comida já feita do que gastar água, ingredientes e gás na sua confeção, bem como detergente na limpeza dos utensílios -, praticamente todos os dias compro refeições prontas.

Algo que sempre me questionou foi saber o que acontece à comida que não é vendida. Sei que o IPL (Instituto Politécnico de Leiria) tem um protocolo com certas instituições e sempre que há sobras estas são doadas, uma prática que deve ser saudada. Mas tendo perguntado aos funcionários de alguns supermercados, sobre o que acontece aos excedentes alimentares, foi-me dito que pura e simplesmente vão para o lixo. Ao que parece, a nossa legislação não permite que a comida confecionada seja mantida para além do dia em que é elaborada, e a política em vigor nos supermercados não permite, sequer, que os alimentos sobrantes sejam dados aos funcionários. Algo difícil de entender!


Todos os anos, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), desperdiçamos quantidades de alimentos que valem aproximadamente US$ 750 bilhões. Isso mesmo, enquanto estimativas apontam que 870 milhões de pessoas estão passando fome, o resto do mundo está jogando fora cerca de um terço de todos os alimentos que são produzidos. Apenas nos Estados Unidos, de 30 a 40% do fornecimento de alimentos pós-colheita acaba no lixo. É uma tragédia e uma falta de caridade. Bastaria um terço desse volume desperdiçado para amainar a fome no mundo.

A água que é usada para produzir comida desperdiçada é três vezes o volume do Lago Léman, ou três vezes o que flui pelo rio Volga. Por outras palavras, cerca de 35% do nosso consumo de água doce é jogado no lixo.

Desde 2016, os supermercados franceses estão proibidos de jogar fora alimentos não vendidos. Uma lei, aprovada por unanimidade pelo senado francês obriga as lojas a assinar um acordo de doação para instituições de caridade e bancos de alimentos. Um dos desejos é que a lei chegasse a toda a União Europeia para que também proíba o desperdício de alimentos nos supermercados.

Espero que Portugal, pioneiro em tanta legislação benéfica para a sustentabilidade humana, dê um passo em frente no sentido de contrariar este desperdício alimentar que é um crime. Mas a verdadeira revolução começa em casa e a partir da consciência de cada um. Colocar no prato somente aquilo que se vai comer. Temos de reduzir a porção de comida boa que vai para o lixo e pensar nas crianças que morrem a cada minuto por desnutrição.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Uma aventura hospitalar num país kafkiano



Anteontem recebi um sms do centro hospitalar para ir efetuar uma colheita de sangue, com vista a uma consulta externa a ter lugar no próximo dia 19. Chegado ao hospital, deparo-me com uma greve dos técnicos de análises. Depois de uma longa espera, consigo remarcar nova colheita para a véspera da consulta. Mostrei perplexidade pelo facto de enviarem sms aos doentes para realizarem colheitas de sangue, sabendo que os técnicos estão em greve, mas fui respondido com um encolher de ombros da funcionária.

Entretanto, estranhando não ter sido chamado para efetuar um exame radiológico (pedido há 6 meses) para ser apresentado nessa mesma consulta, por uma questão de jurisprudência das cautelas e já sabendo o que a casa gasta, fui ao serviço de radiologia indagar. Mandaram-me retirar nova senha e, depois de outra espera de 40 minutos, a funcionária que me atendeu disse-me secamente que ainda não houve vaga para efetuar o exame e que seguramente só iria ser chamado depois da consulta ( marcada há 6 meses para o próximo dia 19).

Sabendo que o exame era essencial para ser avaliado na consulta, sem mais delongas, fui à minha médica de família e pedi que me prescrevesse o dito exame radiológico, para ser realizado particularmente. No hospital, entretanto, fui informado que a médica especialista da minha consulta externa só aceita exames realizados no hospital.

O SNS é o serviço público que regista mais queixas no livro de reclamações, as quais, por serem tantas, acabam, a maioria delas, por cair em saco roto.

A vulgaridade de um serviço de saúde público próximo de países do terceiro mundo, aliado a índices de corrupção, desgoverno e impunidade a todos os títulos inaceitável, gera compreensíveis ondas de revolta nos cidadãos.

Verifico, com mágoa, que passados uns tantos limites e confrontadas muitas vezes com a impotência, a ausência de recursos e irresponsabilidades, algumas pessoas quase deixaram de se indignar.

A normalização deste desconcerto sem concerto, faz com que acabemos por conviver pacificamente com este estado de coisas. O que apetece mesmo é ter uma reação primária e partir para a vindicta privada. Felizmente que possuo um confortável lapso de tempo entre a vontade e a ação e isso permite-me refrear- me e... respirar fundo. Adiante.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

A propósito de uma exposição



A propósito de uma exposição que decorre na ESECS, promovida pelo Museu Escolar de Marrazes, em Leiria, cujo tema é o ensino primário durante o Estado Novo - nome consignado ao regime político autoritário, autocrata e corporativista de Estado que vigorou em Portugal durante 41 anos sem interrupção, desde a aprovação da Constituição de 1933 até ao seu derrube pela Revolução de 25 de Abril de 1974 - recordei os meus tempos de escola primária.

Na 1ª classe, frequentei um externato particular, mas nos anos que se seguiram, o meu pai, num lampejo raro para um salazarista confesso, decidiu que o melhor era matricular os filhos nas escolas oficiais, para que cedo nos habituássemos a conviver com todos os extratos sociais e também com os pobrezinhos, um termo que lhe era particularmente caro.

Não existia ensino misto. Os rapazes e raparigas frequentavam escolas diferentes e havia punições severas para os alunos que fosse apanhados num estabelecimento de ensino do sexo oposto. O horário escolar era das 9h00 às 17h00 e o único recreio era à hora do almoço. As carteiras eram de madeira com os bancos pegados. Na cantina da escola ao almoço só davam a sopa e o pão, mas havia um reforço alimentar pela manhã - naquele tempo, muitas crianças iam para a escola de barriga vazia.

Todas as salas de aula tinham obrigatoriamente na parede três símbolos alinhados: uma fotografia de Salazar, outra do Presidente Américo Tomaz (símbolos de afirmação autoritária e nacionalista) e um crucifixo (o ensino era revestido de uma orientação cristã, ao abrigo de uma Concordata entre o Estado e a Igreja).

Cantava-se o hino nacional aos sábados, de pé e em sentido.

Na escola incutia-se a ordem, o respeito e a disciplina. Os professores aplicavam com muita frequência castigos corporais severos. Recordo, sem saudade, a régua e a temida palmatória, mais conhecida como a “menina dos cinco olhos”. Lembro as humilhações de castigos como as orelhas de burro. Não, raro, muitos professores primários davam largas aos seus recalcamentos e sadismo, sovando as crianças até lhes provocarem danos corporais graves. Recordo o Freitas - nunca mais soube dele - o filho do sapateiro, que ficou meio surdo, tantas as palmadas que levou nas orelhas e que lhe afetaram para sempre a capacidade auditiva. Mas a impunidade dos professores era absoluta e muitos pais encorajavam os professores a "chegarem-lhes com a roupa ao pelo".

As disciplinas dadas eram a Matemática, História, Língua Portuguesa, Geografia, Ciências e Religião e Moral. Os manuais escolares da escola primária mantiveram-se iguais durante décadas e hoje há reedições dos mesmos para quem queira recordar esses tempos de obscurantismo.

Os métodos de ensino baseavam-se na repetição, como método primário, até que o aluno tivesse decorado as matérias consideradas obrigatórias. Em caso de erro, havia uma panóplia de castigos corporais e humilhações sempre à espreita dos faltosos. Cantava-se a tabuada e tínhamos que saber, entre outras coisas, o nome de todos os rios, serras e estações de linhas de caminhos-de-ferro portugueses e das colónias ultramarinas.

Felizmente que os tempos de hoje são outros e eu já conheci os últimos estertores do salazarismo e do marcelismo.

Na minha aula de hoje na Universidade Sénior de Pataias, a última do presente ano letivo, analisámos um texto de Rubem Alves que começa com a descrição de Walt Whitman acerca do que sentiu - os sentimentos ambivalentes - quando, menino, foi pela primeira vez para a escola:

"Ao começar os meus estudos, agradou-me o passo tanto o passo inicial, a simples consciencialização dos factos, as formas, o poder do movimento, o mais pequeno inseto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor - o passo inicial, torno a dizer, assustou-me tanto, agradou-me tanto, que não foi fácil para mim passar e não foi fácil seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali a vaguear o tempo todo, cantando aquilo em cânticos extasiados..."

Falámos da importância da leitura e da responsabilidade do professor, que pode fazer a inteligência de uma criança florescer ou murchar; e dos novos métodos pedagógicos que ensinam sobretudo os alunos a formarem um espírito critico e a ter uma atitude de investigador e autoditata. E, sobretudo, da aventura e enorme prazer de que se reveste a aprendizagem de coisas novas e da educação do olhar. Um olhar diferente e abrangente, como se quer.



ESECS - Exposição do Museu Escolar