domingo, 8 de setembro de 2019

Eduardo Beauté



Leio as notícias do dia.

O cabeleireiro Eduardo Beauté, com 52 anos de idade, faleceu. Segundo os amigos e pessoas próximas, estaria doente, por demonstrar sintomas de depressão profunda. Não era a primeira vez que isto acontecia, como o próprio revelou em várias entrevistas.

Foi casado com o modelo Luís Borges, bastante mais novo do que ele, de quem se divorciou após discussões recorrentes e que foram alvo de alguns escândalos noticiados nas revistas cor-de-rosa. Entretanto, o casal tinha adotado três crianças, que ficam agora órfãs de um dos pais.

O famoso cabeleireiro, de seu verdadeiro nome Eduardo Ferreira, foi encontrado morto em casa no sábado passado. Aguardam-se notícias oficiais das causas da morte, mas tudo aponta para suicídio.

Aproximadamente uma em cada seis pessoas que cometem suicídio deixam um bilhete que, às vezes, dá pistas para as razões para essa atitude. Não se sabe, por ora, se isso aconteceu no caso do Eduardo.

Os comportamentos suicidas geralmente resultam da interação de vários fatores, sendo que o fator mais comum que contribui para o comportamento suicida é a depressão.

Pessoas que passaram por viuvez, separações ou divórcios, como é o caso de Eduardo, que confessa em algumas entrevistas estar a fazer um luto muito difícil da sua separação, têm maior probabilidade de consumar um suicídio.

Eduardo nasceu na Marinha Grande e foi em Leiria que abriu, nos anos 80, o primeiro salão em nome próprio. Chamou-lhe “Eduardo Haute-Beauté”. As pessoas, quando iam ao seu cabeleireiro, diziam que iam ao Eduardo Beauté e assim ficou sendo conhecido. Muitas pessoas de Leiria lembram-se bastante bem do salão de cabeleireiro e falam amiúde dele. Eu vi o Eduardo algumas vezes em Lisboa, mas nunca o conheci pessoalmente.

Infelizmente, a depressão, já considerada a doença do século e, segundo a OIT, responsável pela causa maior de abstinência ao trabalho, ainda é um estigma severo, para os atingidos pela doença; e vista com uma enorme incompreensão por todos aqueles que nunca sofreram desta maleita. Seja por grave ignorância ou insensibilidade pura - em geral as duas causas concorrem juntas -, as pessoas atingidas pela depressão são consideradas seres fracos, desistentes e criaturas a evitar. São muitas vezes estigmatizadas pelos ditos "seres não deprimidos" e rotuladas de inúteis.

Longe vão os tempos em que as pessoas atingidas por qualquer doença mental eram, juntamente com outros indesejáveis, a saber: alcoólicos, indigentes, criminosos reiterados, pedófilos, pederastas, sádicos, masoquistas e quejandos, encerradas em hospícios, que mais não eram do que casas dos horrores, como forma de os subtrair ao convívio social. O hospício era o pátio traseiro da sociedade.

Felizmente que, hoje em dia, nas sociedades com algum grau de evolução social, a inclusão de pessoas atingidas por alguma patologia mental é prática corrente. Mas ainda existem muitos jurássicos que - sorte a deles - nunca sofreram uma depressão e insistem menorizar as pessoas atingidas pela doença, classificando-os como párias sociais.

A mudança de mentalidades é um trabalho de décadas e por vezes séculos. Temos de esperar algumas mortes e nascimentos para ver renovado o tecido social com novas seivas de pensamento.

A confirmar-se o suicídio, Eduardo foi mais uma vítima desta secular doença e foi esta a única forma que encontrou de colocar um ponto final no atroz sofrimento que o consumia.

RIP, Eduardo

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Dos imigrantes





A imigração portuguesa em França em massa iniciou-se em meados de 1950 e durante as décadas de 1960 e 1970, para fugir da ditadura salazarista e, no caso dos homens, da guerra que se desenrolava nos territórios ultramarinos.

Foram milhares os portugueses que, entre finais dos anos 50 e início dos anos 70, passaram "a salto" as fronteiras para chegar a França, recorrendo a passadores para os guiarem, a depositários para guardarem o dinheiro da viagem, a transportadores e a angariadores de pessoas desejosas de emigrar. Os passadores que faziam este tipo de passagem viam - ou grande parte deles via - esta atividade como negócio.

Muitos dos imigrantes instalavam-se em bairros de lata da região parisiense, em condições insalubres de extrema miséria. A maioria destas pessoas era analfabeta, camponeses e aldeões que se empregavam como operários desqualificados, empregados de limpeza ou da recolha do lixo, em funções que os cidadãos franceses não queriam ocupar. Em Champigny-sur-Marne existiu o maior bidonville (favela) da história de França, ali residindo em barracas 15.000 pessoas.

Lembro-me do meu pai falar da censura exercida sobre um artigo do Paris Match, que publicava uma extensa reportagem fotográfica, sobre as condições miseráveis de vida dos nossos nacionais em meados dos anos sessenta.

Desde 2008 até 2014, têm-se registado significativos aumentos da emigração, sendo mesmo a maior de todos os tempos, devido à crise financeira que ocorreu em Portugal; e França continua a ser o país com maior número de portugueses residentes.

Felizmente, a nova geração de imigrantes portugueses em França, que vemos no mês de agosto encherem as praias, as aldeias e todos os lugares do país, não sofreram as agruras dos seus comparsas de primeira geração. Quando vêm de férias a Portugal, deslocam-se, na sua maioria, em viaturas novas, de alta cilindrada, que fazem questão de exibir, como sendo a prova do sucesso que fizeram em terras estrangeiras.

O sonho de quase todos os emigrados, no entanto, continua a ser o regresso ao país de origem, à aldeia natal, para passar uma velhice tranquila, na moradia vistosa que levou 30 anos de trabalho duro em França para construir. A casa terá de ser a maior e mais luxuosa da aldeia, para fazer morrer de inveja os vizinhos, decorada no género kitsch/emigrante, que todos conhecemos - muitos, velhos e incapacitados ao fim de várias décadas de trabalho intenso em França, deixam a humidade tomar conta dos andares cimeiros, tornados inúteis, do palacete de mil metros quadrados que erigiram, para viver o outono da vida unicamente no rés-do-chão. E as toneladas de cimento e tijolo gastos tornam-se uma amarga metáfora de 30 anos de vida em França.

Nos dias de hoje, muitos portugueses são patrões, fundaram empresas, obtiveram sucesso e contrariaram a pretensa imobilidade social dos imigrantes. Ainda há os que vivem menos bem, mas creio que serão uma minoria. Curiosamente, os turistas franceses que se deslocam a Portugal, na sua maioria, trazem automóveis de gama média ou baixa, contrastando com a ostentação dos portugas que por lá trabalham. E, das duas uma, ou os nossos emigrantes têm habilidades especiais para ganhar mais dinheiro do que os nacionais do país que os acolheu, ou há aqui bluff.

Dizem as más línguas, que muitos se endividam até às orelhas para comprar carros vistosos e que alguns são alugados. Seja como for, longe vão os tempos da mala de cartão da Linda de Suza e dos imigrantes desgraçados que vegetavam nos Bidonville dos arredores da Cidade Luz.


quarta-feira, 31 de julho de 2019

Rui Mingas



Um destes dias, em conversa com um colega do ginásio, onde quase diariamente faço a minha higiene física e mental, que por acaso é também ele professor de educação física, num estabelecimento de ensino secundário aqui na cidade de Leiria, recordei o meu professor Rui Mingas.

Andava eu no primeiro ano do ciclo preparatório, um ano antes da Revolução de Abril, tive o Rui Mingas como professor de ginástica, na Escola Preparatória D. António da Costa, em Almada. Já à época ele era um intérprete conceituado da música angolana e grande parte das aulas eram um misto de desporto e momentos musicais. Ele tocava guitarra, cantava e nós ficávamos deslumbrados a escutá-lo.


Nunca fui adepto das partidas de futebol, ou de outro tipo de competições que animavam a maioria da rapaziada, mas gostava, outrossim, de trepar às cordas, subir os espaldares, correr que nem um desalmado e usar o trampolim para dar saltos mirabolantes. O desporto coletivo e competitivo nunca me fascinou. Daí, os momentos musicais com o Rui Mingas terem sido as aulas de ginástica mais fabulosas da minha precoce juventude.

O Mingas foi praticante de atletismo, salto em altura e barreiras, no Benfica. Participou no celebérrimo programa televisivo Zip-Zip. Gravou vários discos e é um dos autores da canção "Meninos do Huambo", celebrizada em Portugal por Paulo de Carvalho.

Pertencente a uma família de influentes músicos angolanos, desenvolveu a sua sonoridade própria e uma forma única de interpretar a música da sua terra. Foi ele quem compôs a letra do Hino Nacional de Angola.

Foi professor, político, embaixador, cantor, letrista e atleta e é uma das figuras incontornáveis da cultura angolana. A parte que menos simpatizo da sua pessoa, deve-se ao alinhamento com a ditadura caciquista e dinástica de José Eduardo dos Santos. Sei que atualmente é o administrador da Universidade Lusíada de Angola, um cargo que a todos os títulos merece.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Desperdício alimentar



Como muitas pessoas que vivem só, sou um grande consumidor de alimentos já cozinhados, à venda nos supermercados e noutros estabelecimentos que servem refeições. Seja por preguiça, ou até por uma questão económica - para uma única pessoa, é mais barato comprar comida já feita do que gastar água, ingredientes e gás na sua confeção, bem como detergente na limpeza dos utensílios -, praticamente todos os dias compro refeições prontas.

Algo que sempre me questionou foi saber o que acontece à comida que não é vendida. Sei que o IPL (Instituto Politécnico de Leiria) tem um protocolo com certas instituições e sempre que há sobras estas são doadas, uma prática que deve ser saudada. Mas tendo perguntado aos funcionários de alguns supermercados, sobre o que acontece aos excedentes alimentares, foi-me dito que pura e simplesmente vão para o lixo. Ao que parece, a nossa legislação não permite que a comida confecionada seja mantida para além do dia em que é elaborada, e a política em vigor nos supermercados não permite, sequer, que os alimentos sobrantes sejam dados aos funcionários. Algo difícil de entender!


Todos os anos, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), desperdiçamos quantidades de alimentos que valem aproximadamente US$ 750 bilhões. Isso mesmo, enquanto estimativas apontam que 870 milhões de pessoas estão passando fome, o resto do mundo está jogando fora cerca de um terço de todos os alimentos que são produzidos. Apenas nos Estados Unidos, de 30 a 40% do fornecimento de alimentos pós-colheita acaba no lixo. É uma tragédia e uma falta de caridade. Bastaria um terço desse volume desperdiçado para amainar a fome no mundo.

A água que é usada para produzir comida desperdiçada é três vezes o volume do Lago Léman, ou três vezes o que flui pelo rio Volga. Por outras palavras, cerca de 35% do nosso consumo de água doce é jogado no lixo.

Desde 2016, os supermercados franceses estão proibidos de jogar fora alimentos não vendidos. Uma lei, aprovada por unanimidade pelo senado francês obriga as lojas a assinar um acordo de doação para instituições de caridade e bancos de alimentos. Um dos desejos é que a lei chegasse a toda a União Europeia para que também proíba o desperdício de alimentos nos supermercados.

Espero que Portugal, pioneiro em tanta legislação benéfica para a sustentabilidade humana, dê um passo em frente no sentido de contrariar este desperdício alimentar que é um crime. Mas a verdadeira revolução começa em casa e a partir da consciência de cada um. Colocar no prato somente aquilo que se vai comer. Temos de reduzir a porção de comida boa que vai para o lixo e pensar nas crianças que morrem a cada minuto por desnutrição.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Uma aventura hospitalar num país kafkiano



Anteontem recebi um sms do centro hospitalar para ir efetuar uma colheita de sangue, com vista a uma consulta externa a ter lugar no próximo dia 19. Chegado ao hospital, deparo-me com uma greve dos técnicos de análises. Depois de uma longa espera, consigo remarcar nova colheita para a véspera da consulta. Mostrei perplexidade pelo facto de enviarem sms aos doentes para realizarem colheitas de sangue, sabendo que os técnicos estão em greve, mas fui respondido com um encolher de ombros da funcionária.

Entretanto, estranhando não ter sido chamado para efetuar um exame radiológico (pedido há 6 meses) para ser apresentado nessa mesma consulta, por uma questão de jurisprudência das cautelas e já sabendo o que a casa gasta, fui ao serviço de radiologia indagar. Mandaram-me retirar nova senha e, depois de outra espera de 40 minutos, a funcionária que me atendeu disse-me secamente que ainda não houve vaga para efetuar o exame e que seguramente só iria ser chamado depois da consulta ( marcada há 6 meses para o próximo dia 19).

Sabendo que o exame era essencial para ser avaliado na consulta, sem mais delongas, fui à minha médica de família e pedi que me prescrevesse o dito exame radiológico, para ser realizado particularmente. No hospital, entretanto, fui informado que a médica especialista da minha consulta externa só aceita exames realizados no hospital.

O SNS é o serviço público que regista mais queixas no livro de reclamações, as quais, por serem tantas, acabam, a maioria delas, por cair em saco roto.

A vulgaridade de um serviço de saúde público próximo de países do terceiro mundo, aliado a índices de corrupção, desgoverno e impunidade a todos os títulos inaceitável, gera compreensíveis ondas de revolta nos cidadãos.

Verifico, com mágoa, que passados uns tantos limites e confrontadas muitas vezes com a impotência, a ausência de recursos e irresponsabilidades, algumas pessoas quase deixaram de se indignar.

A normalização deste desconcerto sem concerto, faz com que acabemos por conviver pacificamente com este estado de coisas. O que apetece mesmo é ter uma reação primária e partir para a vindicta privada. Felizmente que possuo um confortável lapso de tempo entre a vontade e a ação e isso permite-me refrear- me e... respirar fundo. Adiante.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

A propósito de uma exposição



A propósito de uma exposição que decorre na ESECS, promovida pelo Museu Escolar de Marrazes, em Leiria, cujo tema é o ensino primário durante o Estado Novo - nome consignado ao regime político autoritário, autocrata e corporativista de Estado que vigorou em Portugal durante 41 anos sem interrupção, desde a aprovação da Constituição de 1933 até ao seu derrube pela Revolução de 25 de Abril de 1974 - recordei os meus tempos de escola primária.

Na 1ª classe, frequentei um externato particular, mas nos anos que se seguiram, o meu pai, num lampejo raro para um salazarista confesso, decidiu que o melhor era matricular os filhos nas escolas oficiais, para que cedo nos habituássemos a conviver com todos os extratos sociais e também com os pobrezinhos, um termo que lhe era particularmente caro.

Não existia ensino misto. Os rapazes e raparigas frequentavam escolas diferentes e havia punições severas para os alunos que fosse apanhados num estabelecimento de ensino do sexo oposto. O horário escolar era das 9h00 às 17h00 e o único recreio era à hora do almoço. As carteiras eram de madeira com os bancos pegados. Na cantina da escola ao almoço só davam a sopa e o pão, mas havia um reforço alimentar pela manhã - naquele tempo, muitas crianças iam para a escola de barriga vazia.

Todas as salas de aula tinham obrigatoriamente na parede três símbolos alinhados: uma fotografia de Salazar, outra do Presidente Américo Tomaz (símbolos de afirmação autoritária e nacionalista) e um crucifixo (o ensino era revestido de uma orientação cristã, ao abrigo de uma Concordata entre o Estado e a Igreja).

Cantava-se o hino nacional aos sábados, de pé e em sentido.

Na escola incutia-se a ordem, o respeito e a disciplina. Os professores aplicavam com muita frequência castigos corporais severos. Recordo, sem saudade, a régua e a temida palmatória, mais conhecida como a “menina dos cinco olhos”. Lembro as humilhações de castigos como as orelhas de burro. Não, raro, muitos professores primários davam largas aos seus recalcamentos e sadismo, sovando as crianças até lhes provocarem danos corporais graves. Recordo o Freitas - nunca mais soube dele - o filho do sapateiro, que ficou meio surdo, tantas as palmadas que levou nas orelhas e que lhe afetaram para sempre a capacidade auditiva. Mas a impunidade dos professores era absoluta e muitos pais encorajavam os professores a "chegarem-lhes com a roupa ao pelo".

As disciplinas dadas eram a Matemática, História, Língua Portuguesa, Geografia, Ciências e Religião e Moral. Os manuais escolares da escola primária mantiveram-se iguais durante décadas e hoje há reedições dos mesmos para quem queira recordar esses tempos de obscurantismo.

Os métodos de ensino baseavam-se na repetição, como método primário, até que o aluno tivesse decorado as matérias consideradas obrigatórias. Em caso de erro, havia uma panóplia de castigos corporais e humilhações sempre à espreita dos faltosos. Cantava-se a tabuada e tínhamos que saber, entre outras coisas, o nome de todos os rios, serras e estações de linhas de caminhos-de-ferro portugueses e das colónias ultramarinas.

Felizmente que os tempos de hoje são outros e eu já conheci os últimos estertores do salazarismo e do marcelismo.

Na minha aula de hoje na Universidade Sénior de Pataias, a última do presente ano letivo, analisámos um texto de Rubem Alves que começa com a descrição de Walt Whitman acerca do que sentiu - os sentimentos ambivalentes - quando, menino, foi pela primeira vez para a escola:

"Ao começar os meus estudos, agradou-me o passo tanto o passo inicial, a simples consciencialização dos factos, as formas, o poder do movimento, o mais pequeno inseto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor - o passo inicial, torno a dizer, assustou-me tanto, agradou-me tanto, que não foi fácil para mim passar e não foi fácil seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali a vaguear o tempo todo, cantando aquilo em cânticos extasiados..."

Falámos da importância da leitura e da responsabilidade do professor, que pode fazer a inteligência de uma criança florescer ou murchar; e dos novos métodos pedagógicos que ensinam sobretudo os alunos a formarem um espírito critico e a ter uma atitude de investigador e autoditata. E, sobretudo, da aventura e enorme prazer de que se reveste a aprendizagem de coisas novas e da educação do olhar. Um olhar diferente e abrangente, como se quer.



ESECS - Exposição do Museu Escolar

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Onde eu moro



Há onze anos que moro nesta urbanização e há mais de uma década que assisto ao despontar da primavera nos ramos das árvores e à chegada das aves que se tinham resguardado dos rigores do inverno em paragens mais quentes. A primavera é sempre acolhida como uma época de renovação e esperança. Se não tivéssemos inverno, a primavera não seria tão agradável e se não experimentássemos algumas vezes o sabor da adversidade, a prosperidade não seria tão bem-vinda.

Durante uma década muitas coisas aconteceram por aqui. Alguns moradores são os mesmos de sempre, embora mais envelhecidos e outros há que se mudaram; e, de alguns, nunca mais soube novidade. Não deixa de ser inquietante observar o crescimento das árvores do jardim fronteiriço, em cada ano que passa, com mais folhagem e ramos mais maduros e compridos, enquanto os moradores antigos, em contra-ciclo, definham a caminho da inevitável velhice. A natureza segue inexoravelmente o seu curso e a renovação é a regra.

No prédio em frente, do outro lado da rua, instalou-se há poucos anos um casal muçulmano. São bastante discretos. Não frequentam os cafés das redondezas e apenas os vi uma única vez no supermercado. A mulher usa sempre um lenço e uma túnica. Os turbantes e túnicas usados hoje nos países árabes são quase idênticos às vestes das tribos de beduínos que viviam na região no século VI. É uma roupa que suporta os dias quentes e as noites frias do deserto. Em casa ela não usa o lenço, mas se calha vir à varanda, coisa rara, vem com ele posto.

No prédio do meu lado esquerdo, morava até há poucos anos atrás, F., um ex-colega meu. Ao que consta, agredia a mulher, num contexto de violência doméstica, mentiras e infidelidades. Ela fartou-se e pediu o divórcio. No meio profissional, as canalhices dele eram comentadas à boca fechada, até porque a mulher também é uma ex-colega de profissão. Venderam o duplex e cada um rumou a outras paragens. O apartamento esteve mais de um ano à venda até que tiveram de baixar o preço pedido e lá conseguiram despachá-lo.

As bizarrias fazem parte da vida e, de uma forma geral, todos os condomínios têm gente excêntrica. A riqueza do meu advém da sua diversidade, se não veja-se: Uma vizinha que atira pedras aos automóveis que estacionam debaixo da sua janela; outra que mandou instalar um gradeamento na porta da entrada do apartamento; outros que riem, falam em voz alta e escutam música, noite dentro; outro, que ( já cá não mora, felizmente) furava as fechaduras de todas as portas de casa, para que a mulher não se pudesse trancar quando tentava fugir das suas agressões. Enfim. A PSP era uma visita constante do condomínio, mas as coisas nos últimos tempos, fruto da renovação da vizinhança, andam muito mais calmas. Há quem pense que isto só sucede em bairros degradados, mas não é verdade.

Agradável agora é a quase chegada do verão, que trás o ruído das crianças que brincam no pequeno jardim debaixo da copa das árvores e a algazarra das pessoas que se juntam na esplanada do único café da rua, bebericando cerveja e comentando resultados desportivos. Eu estou na varanda, com o olho nos gatos, não vá algum deles dar um salto kamikaze ( dois deles já caíram, felizmente sem grandes consequências), enquanto observo discretamente a vizinha muçulmana, sem o lenço posto, que passa a ferro a roupa da família. Não consigo deixar de pensar que ela já nasceu com um destino traçado. Por motivos de religião e pudor, foi-lhe negada a autodeterminação, como os ramos das árvores que não param de engrossar, ou as aves que sempre voltam para nidificar por estas bandas, tudo sem vontade própria.


sábado, 13 de abril de 2019

Obsolescência programada



A obsolescência programada é a decisão do produtor de propositadamente desenvolver, fabricar, distribuir e vender um produto para consumo de forma que se torne obsoleto ou não-funcional, especificamente para forçar o consumidor a comprar a nova geração do produto.

Há quem pense que esta manigância capitalista é uma invenção recente, mas já nos anos 20, 30 e 40 do século XX, nos EUA, era uma prática corrente.

É certo que nem todos os fabricantes aderiram a esta prática e prova disso são alguns produtos, que bem conhecemos, que duraram a vida do seu usuário e, nalguns casos, até a ultrapassaram, tendo sido transmitidos às descendências em perfeito estado de funcionamento.

Hoje em dia compramos uma torradeira, um televisor, um automóvel, um telemóvel, uma máquina de lavar ou uma máquina fotográfica, sabendo antecipadamente que a esperança de vida útil do artigo não ultrapassará um certo tempo. O produto nasce com tempo programado para morrer.

Mas, para felicidade maior das gerações mais antigas, muitos fabricantes não aderiram à obsolescência programada - ou só o fizeram mais tarde, por uma imperiosa necessidade de igualdade de armas - nós, os que a essas gerações pertencemos, conhecemos e usámos muitos produtos industriais que já eram dos nossos pais e dos nossos avós e nos foram transmitidos em perfeito estado de funcionamento.

Recordo, quando eu era criança, que uma família de um estrato social mediano, os pobres usavam sempre o transporte público, tinha um (no máximo dois) automóvel durante toda a sua existência. As coisas existiam tendencialmente para durar e a obsolescência estava longe dos dias de hoje. Os automóveis passavam muitas vezes de pais para filhos e por vezes de avós para netos.

As pessoas, não raro, eram identificadas pelos automóveis que possuíam (algo hoje inconcebível face à velocidade com que se troca de viatura). E quando alguém perguntava:

- Conheces o Almeida?
- Não estou a ver quem seja...
- Aquele que tem um Ford Taunus 20M.
- Um Taunus cinzento escuro? Claro que conheço.

Poupar não era uma palavra vã e, coisa que eu detestava, as camisas e os sapatos do meu irmão mais velho, desde que em muito bom estado, podiam virtualmente passar para mim.

Claro que eu cedo desenvolvi estratégias para que isso não acontecesse, nomeadamente fazendo desaparecer um dos pares dos sapatos candidatos a mudarem de pés. Misteriosamente desapareciam de casa e lá tinha o meu pai de ir comigo à sapataria para eu escolher uns sapatos novos, não sem antes revolvermos a casa toda à procura do sapato perdido. A minha cara de inocente, quando me perguntavam se tinha visto o sapato, salvou-me da maioria das situações.

Mas é sobre o Mercedes 180 D, que começou a ser fabricado na Alemanha nos anos 50 do século passado e se tornou um ícone da cidade de Lisboa (foi a capa do principal álbum do grupo pop português "Táxi"), que eu quero falar.

Nos anos 60 do século XX, era o modelo mais popular e mais usado pelos taxistas da capital. pela sua imensa fiabilidade, robustez e conforto.

Durante a minha infância, viajei imensas vezes nestes vagarosos e confortáveis veículos, que não foram alvo de obsolescência programada. Com manutenção simples, podiam durar anos sem fim e alguns deles ainda hoje circulam nas mãos de colecionadores

Em Lisboa, alguns destes modelos tinham cerca de dois milhões de quilómetros, sempre feitos no pára-arranca, no trânsito infernal da cidade, muitos circulando as 24 horas do dia, com rendição dos motoristas.

Às vezes sinto nostalgia de escutar o matraquear possante e desengonçado do motor diesel do 180 D, com o seu volante branco feito em baquelite, o conta quilómetros peculiar e o claxon em forma de aro por dentro do volante.

Sinto saudades daqueles sofás generosos, onde os passageiros se afundavam e se deliciavam com as vistas de Lisboa, numa tarde chuvosa de inverno, com os reclames luminosos da Avenida da Liberdade e do Rossio a despertarem para conferirem aquele tom mágico que a cidade possuía nos anos 60.

segunda-feira, 11 de março de 2019

O transporte mais seguro



Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade?

Repetem-se os especialistas dizendo que o meio aéreo é o transporte mais seguro. Até pode ser que seja verdade, mas, nas minhas deambulações pela Internet, deparei-me com um site sinistro que compila as histórias de todos os acidentes aéreos, ocorridos entre uma determinada data (século XX) até ao momento presente.

O site é bastante completo e fiável e inclui os relatórios oficiais dos sinistros, com fotos e todo o género de especificações.


Somente no corrente ano de 2019, resultantes de acidentes ocorridos com aviões civis, fossem eles particulares ou comerciais, já se contabilizam cerca de 250 mortes.

A sofisticação e os enormes avanços tecnológicos tornam os aviões cada vez mais seguros, mas será que a formação dos pilotos acompanha a cada vez maior automação dos modernos aparelhos comerciais?

Li algures que um piloto de Airbus, referia-se à nova geração de aviões como sendo computadores com asas, aptos a substituírem-se aos pilotos e até mesmo impedirem manobras humanas julgadas (por eles, computadores) "inadequadas" durante o decurso do voo.

Não tenho dúvidas de que os aviões do presente, são incomensuravelmente mais seguros do que os de há duas ou três décadas atrás. O problema dos acidentes é, porém, fácil de adivinhar: cada vez há mais aviões a cruzarem os céus, o número de passageiros quintuplicou em comparação com duas décadas atrás e a crescente sofisticação das modernas aeronaves exige muito mais tempo despendido em formação.

Mas a formação é cara e os aviões só dão lucro se os pilotos estiverem a pilotá-los, de preferência, apinhados de passageiros.

É fácil de adivinhar que o crescimento exponencial do número de passageiros, aliado à falta de escrúpulos de algumas companhias aéreas que, em nome do lucro, descuram manutenções rigorosas, a que se junta a falta de formação adequada dos pilotos para lidar com aeronaves cada vez mais sofisticadas, trará no futuro muitas mais mortes em acidentes.

Em pouco tempo, com total perda de vidas, caíram misteriosamente dois Boeing 737 Max-8, aeronaves novíssimas e com o mais elevado nível de sofisticação oferecido pela tecnologia norte-americana.

Estamos no primeiro trimestre do ano. Vamos ver o que o resto do ano nos reserva no que ao "transporte mais seguro de todos" respeita.

Há soluções tecnológicas, já estudadas, que poderiam ser implementadas para salvar vidas humanas, como o encapsulamento da cabine de passageiros e do cockpit, provido de pára-quedas e com uma proteção especial em relação ao resto do aparelho, mas isso iria encarecer os custos de operação e consequentemente diminuir os lucros chorudos que esta atividade gera para imensa gente.

E, tal como na guerra, a perda de umas centenas de vidas por ano, são danos colaterais bastante comportáveis, para mais, cobertos pelos seguros, e que justificam a inércia de investimentos em maior segurança.

Viva o lucro!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Ser cusca

Curiosidade é o que move o ser humano a querer saber um pouco a mais do que ele já sabe. Somos quase todos curiosos e isso dá um enorme jeito em termos de sobrevivência. Desde pequeninos usamos o que isso tem de inato para conhecermos melhor o mundo que nos rodeia, para aprendermos os sinais de perigo e os de gratificação e também para chamarmos a atenção das pessoas e estabelecermos relações. São sempre os mais curiosos que se interessam por mais e diferentes coisas, que exploram e levam por diante empreitadas e obras que passam ao lado dos que, permanentemente, consideram que o que acontece à sua volta não lhes diz respeito. É bom ser curioso. Mas se uma parte substancial da nossa curiosidade nos ajuda a crescer e nos serve no sentido de sermos mais e melhor, uma outra parece supérflua e até mesquinha. Prende-se a detalhes insignificantes, toma a parte pelo todo e, a partir daí, galopa na construção de histórias improváveis e maledicentes. É essa parte da nossa curiosidade que nos faz calar para escutar a conversa da mesa ao lado entre pessoas que nunca vimos, que nos faz abrandar, quase parar, para ver se do tal acidente resultaram vítimas mortais. Interessamo-nos, disfarçadamente, por aspectos que, juramos a pés juntos, não têm interesse nenhum. Seremos voyeurs? Cuscas? Criaturas infelizes com vidas demasiado triviais para nos comportarmos desta forma horrenda? Frequentemente polarizamos a vida e os acontecimentos em duas categorias simplistas e reducionistas: de um lado os contentinhos bem cheirosos a quem só acontecem coisas boas e, do outro, os desgraçados da sorte enredados em tragédias e cenas tristes. O que é certo é nunca nos contentamos com as partes triviais e desapaixonadas das informações que nos chegam às mãos. Precisamos sempre de apimentar a verdade com algo fascinante e indecoroso; e fazemo-lo, dizemos nós, por mera curiosidade.