quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Este mês de agosto


Fui à varanda manhã cedo e deparei-me com uma chuva miudinha e persistente, quase invisível, que tocou com leveza o meu rosto como se fosse uma caricia. O céu apresentava uma cor indizível, monocromática, um misto de cinzento claro e azul deslavado, sem nuvens, como se o outono tivesse vindo brindar-nos mais cedo, após tantos dias de calor infernal. Um ruído longínquo e constante, produzido pela enorme quantidade de automóveis que àquela hora se deslocavam na estrada nacional, compunha a sonoplastia do cenário. No prédio dianteiro, um andar mais abaixo em relação ao meu, na varanda, abrigado da chuva, o meu vizinho fumava o useiro cigarro ao mesmo tempo que bebia café. É um homem com quarenta e muitos anos, de estatura mediana, usa óculos com lentes grossas e já apresenta alguma calvície, apesar não ter ainda cabelos brancos. Presumo que tenha alguma profissão técnica, talvez seja engenheiro, pois tem ar disso. Vejo-o com alguma regularidade no único café que existe na minha rua. Para mim as pessoas, regra geral, têm ar daquilo que são. Cumprimentei-o e proferi algumas banalidades sobre a súbita mudança do tempo e acerca da urbanização vizinha, cuja construção nunca mais começa, sendo que a vegetação alta e as ervas daninhas já tomaram conta de todo o espaço. Na verdade, os arruamentos que foram construídos para dar serventia aos futuros prédios, apenas servem para que todas as escolas de condução da cidade utilizem o espaço para ministrar manobras elementares aos seus alunos.

À medida que recordo as escassas palavras que trocámos, pois somente nos conhecemos do bom dia e boa tarde, lembrei-me de uma frase de Antoine de Saint-Exupéry, por mim lida algures no preâmbulo de um romance cujo título não recordo, que me alertou para a importância da comunicação com os outros, ainda que para dizer trivialidades: “No momento em que sorrimos para alguém, descobrimo-lo como pessoa, e a resposta do seu sorriso quer dizer que nós também somos pessoa para ele”.

Pode parecer ridículo que uma frase de Exupéry sirva de mote a uma tomada de consciência sobre as atitudes comportamentais que devemos ter para com os nossos semelhantes, mas um sorriso – eu não sorri, nem sei bem como o fazer -, um cumprimento, uma conversa ligeira, é um intenso sinal de que o outro nos importa, que é estimável e, como tal, digno da nossa atenção. Quando eu era criança – nos nossos dias, nas aldeias e em conglomerados habitacionais de baixa intensidade, ainda assim é - sabíamos o nome dos vizinhos do nosso prédio, frequentávamos a casa uns dos outros, pedíamos emprestado um raminho de salsa ou qualquer género alimentar em falta e, de um modo geral, havia uma salutar convivência e um verdadeiro espírito de vizinhança - vocábulo que significa proximidade, contiguidade. Se mo perguntarem, não sei o nome de nenhum vizinho do meu prédio, apesar de já aqui morar há mais de 14 anos. Para além dos indispensáveis bons dias, boas tardes ou boas noites, consoante seja o caso e de algumas cusquices que vieram ao meu conhecimento sem que eu perguntasse, nada sei sobre a vida dos confinantes que moram paredes meias comigo. Ao longo deste tempo, já tive conflitualidades com alguns vizinhos mas aqueles com quem as questões foram mais agudas, num caso até polícia meteu, felizmente, já debandaram para outras paragens. O cumprimento, nos dias de hoje, tornou-se a forma normalizada de dizer ao outro que é importante o suficiente para se lhe desejar que o dia, a tarde ou a noite lhe corra bem. A mensagem é clara: não lhe desejo nenhum mal, pelo contrário, não é meu inimigo e quero que as nossas relações de contiguidade assim continuem: sem profundidade e assumidamente formais. A preservação da individualidade é o derradeiro baluarte de qualquer condómino moderno e, salvo raríssimas exceções, até pela usual conflitualidade das assembleias de condomínio, ninguém deseja ir mais além no relacionamento de vizinhança, pois nunca se sabe quando o vizinho do lado, de cima ou de baixo de nós se torna um arqui-inimigo. Potencialmente, todos o são.

Prezo a minha individualidade e assim me fui acostumando, pois se eu considerar a leitura, a escrita, a fotografia, o treino de um instrumento musical, ou mesmo os longos passeios de mota que englobam sempre o ato de fotografar, a maioria das minhas atividades são habitualmente solitárias. Não obstante, tenho firme consciência de que nada somos sem a relação com os outros. Somos seres eminentemente sociais e é na interação que nos realizamos com plenitude. Tudo faz mais sentido se for partilhado, inclusive o que é entretecido e elaborado a sós, no recato do nosso espaço preferencial. Sou proativo no sentido de colocar em prática aquilo que acho ser correto: cumprimentar os outros, os conhecidos e os desconhecidos por quem passo, durante as passeatas à beira-rio, no jardim; dou os bons dias no ginásio e antes de entabular uma conversa ou fazer uma simples pergunta; concedo a primazia a alguém à entrada de um elevador ou de um estabelecimento e, ainda que levemente, esboço sempre o ensaio de um sorriso ou vénia. Mantenho forte a convicção de que os hábitos de cordialidade tornam mais fácil a nossa convivência com os outros e sobretudo connosco mesmos. A prática da vida, no entanto, faz-nos quase sempre esperar o pior dos outros e tornou-nos desconfiados por natureza. Uma gentileza vinda de um estranho adquire quase sempre a significação de uma intenção oculta.

Muitos anos antes do aparecimento da Sociologia, ciência que estuda os fenómenos da sociabilidade, Aristóteles, um dos maiores filósofos gregos, afirmava que o homem é um sujeito social que, por natureza, precisa pertencer a uma coletividade. Somos, portanto, animais comunitários, gregários, sociais e solidários. Mas também somos profundamente egocêntricos, desconfiados, capazes de escolher o Mal em vez do Bem e pouco solidários no que concerne a pessoas fora do contexto dos nossos laços familiares ou das nossas amizades. Há muito tempo que me interrogo sobre algumas facetas padronizadas do comportamento humano, especialmente no que respeita a pessoas que estão fora do contexto da nossa intimidade. Morei 46 anos em Lisboa e nas suas cercanias e por lá trabalhei, estudei e utilizei diariamente os transportes públicos. Durante os anos 60 e 70 do século passado, primeiramente acompanhado pelos meus pais e mais tarde sozinho, utilizava amiúde os barcos cacilheiros, bem como os autocarros da Carris os elétricos e o metropolitano. Sou do tempo dos cacilheiros feitos de madeira e aço que, devido à sua vetustez e após várias décadas ao serviço, acabaram na sua grande maioria na sucata. Na década de 60 uma viagem de Cacilhas para Lisboa, fosse nos ferries para o Cais do Sodré ou nos cacilheiros para o Terreiro do Paço, era um momento bastante agradável, em especial no verão, quando retiravam as grandes lonas verdes que tapavam as janelas e navegávamos numa espécie de barco descapotável, sorvendo a brisa que corria sobre o rio e admirando uma vista panorâmica fantástica sobre a cidade de Lisboa, a Ponte e a margem sul. Durante o trajeto, que durava cerca de 30 minutos ou mais, consoante as condições de navegabilidade, existiam sempre a bordo os engraxadores de sapatos e os homens que trabalhavam em escritórios, bancos, ou locais mais formais, aproveitavam para deixar os sapatos a brilhar, ao mesmo tempo que liam a primeiras notícias da manhã no Diário de Lisboa ou no Jornal de Notícias. Depois, apareciam os mendigos oficiais, a maioria invisuais, tocadores de acordeão, com uma caixa preta pendurada no pescoço, onde constava uma espécie de dístico com um número de matrícula, comprovativo da autorização para o exercício daquela atividade, já que a mendicidade era punida por lei. Não raro, faziam-se acompanhar por uma criança, que ajudava na coleta das moedas e mais facilmente enternecia os corações mais renitentes a doar algo para o sustento do músico invisual e da sua pobre cria. Também apareciam vendedores de jornais, de cautelas da lotaria, cigarros e cigarrilhas e até de bolas de berlim. A viagem era tudo menos rotineira e apresentava todos os ingredientes próprios da cena de um filme de Fellini. Para quem, como eu, absorvia tudo o que se passava ao meu redor, a viagem num cacilheiro era um festival de sinestesia.

Para além da movimentação comercial intensa a bordo, acompanhada de canções do mundo tocadas pelo acordeão do músico invisual, as pessoas falavam com o parceiro do lado, sem receios ou pudores, sobre assuntos triviais. Faziam-se festas nas cabeças das crianças, agarrava-se nelas ao colo. No final dos anos 70 e início dos anos 80, com o crescente fluxo populacional que começou a rodear a grande cidade, a heterogeneidade das pessoas, vindas dos lugares mais díspares do país e também do estrangeiro, acompanhou o fenómeno. Aumentou a desconfiança, as medidas de protecionismo individual, como consequência de um crescendo da criminalidade e da insegurança. O aparecimento dos telemóveis na década de 80 veio cimentar definitivamente o individualismo, que hoje é corrente, favorecendo o fechamento em concha das pessoas e mitigando a sociabilidade. Comecei a me indagar por que motivo as pessoas não se sentavam ao lado uns dos outros sempre que existia um lugar vago no autocarro, mas fui obrigado a começar a fazer o mesmo, pois essa prática ganhou contornos de convenção social, que ainda hoje se mantém.

Somos seres sociais mas ao mesmo tempo temos relutância na proximidade física com estranhos; repulsa até, nos casos de antipatia por motivos racistas, sexistas ou de índole congénere. Esperamos que o quente do assento de um transporte público arrefeça antes de nos sentarmos e, sempre que tocamos num corrimão ou qualquer pega tocado por outras pessoas, não descansamos enquanto não lavamos as mãos. No metropolitano ou no elevador, quando seguimos apertados como sardinhas em lata, desviamos a vista para evitar olhar um desconhecido nos olhos. Pode-se sempre falar de medidas de saúde pública. O evitamento do outro como uma forma de nos assegurarmos de que não nos é transmitido qualquer doença, mas a razão principal é mesmo a convenção social que se instalou de que devemos viver com alguma impermeabilidade em relação aos desconhecidos que acidentalmente cruzam as nossas vidas.

Estive no Rio de Janeiro quatro vezes, nos anos de 2006 a 2009, e para além das assimetrias gigantescas que existem nessa gigantesca metrópole sul-americana, com índices de pobreza, criminalidade e corrupção inimagináveis aos olhos de um europeu, que se depara pela primeira vez com o fenómeno, constatei que não existe o evitamento do contacto físico com desconhecidos, que é apanágio dos povos europeus, com maior destaque nos países nórdicos, muito mais afastados dos ritos emocionais dos latinos e grandes cultores da individualidade e da contenção. Para além dos ónibus – até aqui existe diferenciação, pois o “frescão”, com ar condicionado, é mais caro - e dos táxis, há um transporte público intermediário, com características peculiares, que se pode ver igualmente em qualquer grande cidade africana ou asiática, que é a van. A van é uma furgoneta branca, na sua esmagadora maioria, de marca Volkswagen, fabricada no Brasil sob licença paga aos alemães, e que é um transporte público que tem um ponto de partida e um ponto de chegada: uma linha regular. Não existe propriamente um horário de partida, pois o condutor só arranca quando tem a van completamente atulhada de passageiros, no sentido literal do termo, de forma a tornar a viagem lucrativa. A van, durante o trajecto regular, pára em qualquer lugar da cidade, desde que haja o mínimo de espaço no interior e façamos o sinal de stop levantando o braço. Fiz viagens em trajetos dentro da cidade do Rio de Janeiro em vans com mais de 20 pessoas a bordo, quando a lotação normal não deveria exceder as 9 pessoas. Desde colchões de camas a animais de criação, passando por caixas com bebidas, comidas e outros géneros, transportadas pelos vendedores ambulantes, no Brasil comumente chamados camelôs ou marreteiros, tudo o que coubesse entrava dentro da furgoneta branca. Não raro, estando eu sentado, viajei com mulheres literalmente acomodadas sobre as minhas pernas, numa proximidade física, para nós europeus amigos do intocável, quase promíscua e inimaginável. Mas o Brasil é um mundo diferente. Não existe o pudor do corpo, pelo menos da forma intensa e quase religiosa como muitas vezes ainda acontece por aqui.

Já viajei bastante, mas as memórias do Brasil acabam por ser sempre as mais intensas. A manhã, entretanto, transformou-se de deslavada e lúgubre, num final de tarde soalheira e aprazível. A vista da janela do meu escritório cambiou radicalmente, como se tivessem mudado uma tela no céu e na paisagem circundante por algo muito mais agradável. O vizinho defronte está de novo na varanda, com o cigarro na mão, mas desta vez com uma camisa social vestida. A mulher, que observo bastantes vezes a estender roupa, não deve permitir fumos em casa, razão pela qual ele permanece muitas vezes na varanda. O ruído longínquo dos automóveis na estrada nacional é a única coisa que não mudou.
Habito no sítio mais alto da cidade e os transportes públicos não abundam como na capital. De onde eu moro até ao centro, distam cerca de 1700 metros, uma descida agradável quando se vai e uma íngreme e penosa subida quando a casa se torna. Durante o inverno, por vezes em dias frios e chuvosos, encontro com frequência mães, com os filhos pequenos pela mão, fazendo a subida. Por três vezes parei o automóvel e ofereci-me para dar boleia e em todas as ocasiões recebi um “não obrigado” como resposta. Entretanto, desisti de o fazer e, das duas, uma, ou aderi ao convencionado ser socialmente correto ou entendi de uma vez por todas que um homem sozinho num automóvel, a oferecer boleia a uma mulher, não é provavelmente um tipo que mereça confiança.

Não convivo com facilidade com muitas das regras e convenções que se foram sedimentando e, goste-se ou não, fazem parte do mosaico social do qual todos fazemos parte. Vivemos tempos de desconfiança absoluta e descrença nas eventuais boas intenções dos nossos semelhantes. Fazer uma simples festa numa criança desconhecida, gesto para nós usual há alguns anos atrás, ou permanecer sentado num parque infantil observando crianças a brincar, são tidos por comportamentos tacitamente proibidos, face aos múltiplos caso de pedofilia que têm vindo a lume. Cada vez mais, tocar num estranho é tido por um comportamento desaconselhável e evitável. Continuo a renegar a distopia em que a nossa sociedade insiste em se transformar e ainda crente nas palavras de Saint-Exupéry: “No momento em que sorrimos para alguém, descobrimo-lo como pessoa, e a resposta do seu sorriso quer dizer que nós também somos pessoa para ele”. Agora vou fechar a janela porque começa a arrefecer.

Pode ser uma imagem de 3 pessoas, interiores e parede de tijolo














sábado, 23 de julho de 2022

A rapariga do lenço à pirata

 


Já há muita gente na sala e ainda há pouco a manhã começou. Tira uma senha e diz bom dia ao rapaz que está atrás do balcão. É um moço bem parecido, bastante novo, tem dois piercings, um no nariz, outro na sobrancelha esquerda. É um funcionário diligente, simpático e muito educado. Ele recorda que, quando era jovem e saudável, também ele era belo. As pessoas olhavam-no na rua e as raparigas, quando seguiam em grupo, viravam a cabeça para trás e davam risadinhas. Ele corava e seguia o seu caminho, lesto, com os olhos ainda mais firmes no chão.
 
Senta-se numa cadeira vaga, com a senha número setenta na mão e dispõe-se a aguardar a chamada. Pela primeira vez, olha com mais atenção em seu redor. A numeração ainda vai nos cinquenta e pouco mas as funcionárias das análises trabalham rápido a extrair a seiva vital. O numerador eletrónico avança com rapidez, à razão de um número por cada três minutos. Ele cronometra o tempo e tenta calcular quanto falta até chegar à sua vez.
 
Aflige-se com o cenário que o rodeia. Há tanta gente doente! Será que os que estão neste momento lá fora, longe deste ambiente insano, os que ainda trabalham, sorriem despreocupadamente, divertem-se, amam, conduzem a velocidades estonteantes e espreguiçam nas esplanadas da cidade, pensam que vão ficar eternamente sãos, como se fossem deuses? Saberão eles que as coisas não são assim? Que a sombra da morte surge sempre algures numa curva da vida...?
 
Não param de entrar mais pessoas no espaço cada vez mais atulhado. Os funcionários continuam simpáticos, calmos e diligentes para com os pacientes, como se estivessem a atender clientes numa loja comercial. Ele fica contente por ver que, afinal, as mentalidades sempre mudam; que os jovens trazem uma mais valia aos serviços públicos, devido à sua maior instrução e diferente postura.
 
Quer relatar o que está a acontecer diante dos seus olhos, ele que é um vulgar utente de um hospital. Aqui não há doutores nem engenheiros, ricos ou pobres: são todos doentes e carecem de tratamento.
Sofrimento é: olhar para o canto da sala e ver uma rapariga – não terá mais de vinte e poucos anos – magricela, a pele como um pergaminho, num rosto de olheiras cavas, como duas fundas negras, expandindo um olhar tristonho, vago, como se fora uma lâmpada apagada.
 
Acompanham-na os pais. Ampara-se no ombro da mãe. Andar é um custo. Tudo é um custo. O pai carrega, dentro de envelopes acastanhados enormes, os cardápios dos exames, das radiografias, dos tacs, das ressonâncias magnéticas – ele receia que tudo não seja senão um périplo de notas negativas, más notícias, chumbos nas disciplinas vitais à continuação da saúde, da vida, daquela rapariga tão jovem. A rapariga aparenta um estado irremediável.
 
Ele quer, sobretudo, evadir-se desta visão que o obriga começar a pensar. O lenço às flores. O lenço que ela usa na cabeça, enrolado à moda dos antigos piratas que dantes povoavam o mar das Caraíbas. Um lenço posto de modo tão simples. Um símbolo. O símbolo da quimioterapia.
 
As coisas de que ele mais gosta são, não necessariamente por esta ordem: os livros; a escrita; as artes; as flores; o campo; o mar; os rios e toda a água corrente; a fruta deliciosa que cai madura das árvores; a brisa que sopra suave no final da tarde; as horas na relva a ver o céu, sonhando; amar e ser amado. Gosta de beijar e ser beijado. Disso gosta muito.
 
É fácil desviar o olhar. Fixá-lo no branco das paredes, abrir o livro fininho que sempre transporta na mão. Dar uma mirada no final da novela, apaziguando uma curiosidade irreprimível. Olhar repetidamente os ponteiros do relógio, para nada. Remexer no telemóvel, como se fosse um tique e apagar mensagens e chamadas perdidas que já nada significam. Apagar alguém, desse modo, seria fácil. A morte, afinal, mais não é do que uma súbita falha de luz, de energia.
 
Fecha os olhos. Sempre detestou agulhas. Sente a picada. Dói. O que é a dor? A dor é subjetiva e ninguém a sente do mesmo modo. Ao seu lado há mais lenços de pirata. Alguns doentes não têm sobrancelhas, nem luz, nem gordura, nem consistência, nem esperança.
 
A vida é esperança. Viver implica (ter) esperança.
 
Lá fora está frio. Muito frio. O sol brilha ténue no meio do dia azuláceo. Apetecem sempre dias assim. Sente-se vivo. É por ora tudo quanto lhe importa.
 
Lisboa 2004
 

 
 
 
 
 
Não tens mais nada
Volta amanhã para ver

A distância de um abraço

 


Há doze anos que percorro com alguma regularidade a estrada entre a cidade do Lis e Almada. Sempre que posso, evito a auto-estrada e opto pela nacional 1. Atualmente chamam-lhe IC 2, mas nos meus tempos de menino, quando em família viajávamos até ao Porto ou em excursões à Serra da Estrela, chamávamos-lhe simplesmente a "estrada para o Porto". O troço da auto-estrada entre Lisboa e Vila Franca de Xira, foi inaugurado no ano do meu nascimento, mas somente em 1991, volvidos 30 anos, as duas maiores cidades do país ficaram ligadas por auto-estrada.
 
Nos anos sessenta, a modernidade acabava quando deixávamos o troço da auto-estrada em Vila Franca de Xira e nos embrenhávamos na estrada nacional, enfileirados atrás dos vagarosos camiões que transportavam mercadorias entre as duas cidades principais. A "Ponderosa", para os lados de Alenquer, era paragem obrigatória dos excursionistas. Um eventual arranjo entre os donos do café/restaurante e os motoristas, que a mim, criança, me passava despercebido, fazia com que todos os autocarros de excursão parassem naquele lugar, para satisfação das necessidades fisiológicas e um cafezinho. 
 
Se a paciência abunda e a pressa de chegar não é soberana, vou sempre pela nacional. Conduzo uma Yamaha X MAX 250cc que, além de ser bastante confortável, económica e segura, faz velocidades de cruzeiro relativamente baixas, o que permite o deleite integral da paisagem. Quando conduzia a Yamaha FJR 1300 ou mesmo a Aprilia Caponord ETV 1000, chegava mais rápido ao meu destino, mas gastava incomensuravelmente mais combustível e as únicas sensações que retenho dessas viagens, são as ultrapassagens estrondosas e uma estranha incapacidade para conduzir no respeito dos limites de velocidade permitidos. 
 
Hoje tenho tempo. É bom ter tempo e não viver confinado à ditadura dos prazos, dos horários, do tempo controlado e imposto à nossa vontade. 
 
Sigo direito à Batalha e passo rente ao mosteiro, que agora tem umas barreiras acústicas celebérrimas, para salvaguarda dos impactos de ruído e poluição sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, declarado património da Humanidade pela UNESCO. E tudo por causa do "impacto ambiental" - adoro esta expressão, mas ainda gosto mais do vocábulo "sustentável". Tudo o que não seja "sustentável", nos dias que correm, não presta, pelo menos até à invenção de uma nova expressão ou teoria.
 
São Jorge, Cruz da Légua e Aljubarrota vão ficando rapidamente para trás. Saí de casa às 13h00, pois almocei bastante cedo, e sigo viagem em bom ritmo. Há pouco trânsito. Tenho o depósito atestado e não conto parar. A manhã, a principio bastante nebulosa, deu lugar ao início de uma tarde solarenga com uma temperatura convidativa ao passeio. Depois da Benedita e da Venda das Raparigas - o meu falecido pai tecia sempre piadas de franco mau gosto cada vez que passámos por este lugar - a paisagem começa a ser deveras encantadora. À minha esquerda, na Serra de Aires e Candeeiros, as enormes ventoinhas eólicas não cessam de rodopiar, enquanto um ou outro estorninho faz rasantes à roda dianteira da mota e os mosquitos vão-se estatelando na viseira do capacete. Pouco antes do corte para Rio Maior, a Serra dos Candeeiros fica para trás e a sensação de nos encontrarmos no Ribatejo adensa-se. A seguir vem Alcoentre, terra sobejamente conhecida por albergar um dos maiores estabelecimentos prisionais do país; e depois Aveiras de Cima e Aveiras de Baixo, lugarejos que só têm significado para mim como nome dado a uma estação de serviço da auto-estrada.
 
Sigo na direção da Azambuja - famosa por albergar a antiga fábrica da Ford - e Vila Nova da Rainha, que tem um avião de caça à beira da estrada, para relembrar que é o berço da aviação portuguesa e onde existiu a primeira escola militar de aviação. Depois, segue-se o Carregado, a localidade com o maior outlet do país e onde teve início a primeira viagem de comboio em Portugal, Castanheira do Ribatejo e finalmente Vila Franca de Xira. Agora, à medida que me aproximo de Lisboa, o trânsito é muito menos fluído. As paisagens campestres dão lugar a edifícios feios, urbanizações caóticas, lixo urbano, grafitis nas paredes, cartazes rasgados e estradas esventradas. Um pouco por toda a parte a pegada humana faz-se sentir. Os detritos da nossa existência tomaram conta do que outrora foram campos semelhantes àqueles que alguns quilómetros havia deixado para trás. Pouco já há para saborear no que à paisagem respeita e o interesse é chegar rápido.
 
Deixo para trás, Alhandra, Vialonga e Póvoa de Santa Iria. Todas partilham da mesma fealdade pragmática dos subúrbios. São ilhas onde se concentram pessoas de baixos recursos que não conseguem comprar ou arrendar casa na capital. De semáforo em semáforo, vou volteando pelo meio do trânsito, com manobras próprias de muitos anos de motociclista, até encontrar uma escapadela para a 2ª Circular em direção ao Eixo Norte-Sul. Antes das 15h00 já me encontro em cima da Ponte 25 de Abril a saborear uma aragem fresca que alivia o calor que sinto na cabeça. Já só penso em ver-me livre do capacete. 
 
Subo a Avenida Bento Gonçalves e estaciono a mota frente ao Café Central de Almada. Acabei de perfazer cerca de 180 kms. A primeira personagem com que me deparo é o Zé Sobral. Tanto quanto recordo, nos anos 70, já invariavelmente o avistava todos os dias naquele local. O Zé Sobral mora a poucos metros do Central e fez toda a sua vida naquela circunscrição geográfica. Dantes, sei que vendia droga e ocupava-se de pequenos delitos, no intervalo de outros expedientes mais honestos. Encontro-o bastante magro, pele e osso, as tatuagens dos braços e do pescoço mirradas na pele queimada por muitos anos de sol, mas o mesmo semblante de sempre. Arruma cadeiras numa esplanada do outro lado da praça, levanta as mesas e varre o chão. Ao que me disseram, ganha para o tabaco e para alguma bucha. Tem uma doença qualquer. Não parece reconhecer-me ou, se calhar, finge não saber quem eu sou. Desvio o olhar em sinal de respeito pela sua condição e entro no café. Ao balcão peço um bolo podre. Há cinquenta anos atrás, elegi-o como o bolo da minha predileção e sempre que me davam uns trocos, juntava dinheiro para comer um. À época, era das maiores satisfações que a vida me dava. Uma homenagem ao travo das coisas simples.
 

A X Max 250cc ficou no parqueamento subterrâneo do Pingo Doce, pois Almada é terra de larápios. Logo em frente é a casa da minha mãe. Subo no elevador e rodo a chave na porta. Entro na sala de estar e a minha velhinha nem me deixa pousar a mochila. Levanta-se, abraça-me e diz: "Meu rico filho. Tenho rezado tanto por ti!". Também a abraço e ficamos juntos no sofá a ver a televisão sem som. A mãe é surda e não acha necessário subir o volume do som. E eu não me importo. Estamos juntos.*
 
Almada, 2018 

* A minha mãe atualmente habita numa Residencial Sénior, com piscina e outros luxos exóticos ( ela mal consegue andar, arrasta-se), para os lados da Aroeira, mas o Facebook trouxe-me à memória este texto, muito a propósito da minha vinda ontem de Almada.
 

 

domingo, 17 de julho de 2022

Um começo


 


Por vezes lamentamos os silêncios que impregnam as nossas vidas, mas com a certeza firme de não desejarmos uma orgia de ruídos sempre à nossa volta, impedindo-nos de nos sentirmos nós mesmos. O pior é sempre possível mas não é fatal que tal aconteça. Se nos lançamos na ação, se nos empenhamos, se a motivação existe e há um rumo, se sabemos o lugar para onde queremos ir, poderemos esperançar alcançá-lo.

Na medida em que o pior não é uma fatalidade é permitido termos esperança. E como o pior pode ser evitado, é urgente avançarmos com empenho naquilo que julgamos evitar a nossa infelicidade.

Para além do otimismo e do pessimismo, há sempre lugar para a esperança. Esta apoia-se sobre a confiança no possível ou no que poderá sê-lo. O tempo, de certa maneira, é uma criação do possível e é fácil entendermos que um dos grandes erros das utopias foi sempre o de tentar fixar, através da imaginação, o futuro ideal, o termo perfeito de qualquer história e até os meios para lá chegar. E tal forma de pensar, por vezes, impede-nos de apreciar com rigor o inesperado, o acontecimento que transforma o (nosso) horizonte previsível.

Mais grave que tudo é a tomada de consciência de não sabermos o que nos pode fazer felizes, nem quais os melhores caminhos para trilharmos. Resta-nos, então, a exuberante satisfação de podermos afirmar com veemência: «Eu não sei bem aquilo que quero, mas estou certo daquilo que definitivamente não quero.»

Para muitos, onde eu me incluo, só isto já é um começo, seja do que for.
Leiria - 2011

PS. Eu nem sei bem se hoje sou a mesma pessoa que escreveu isto. Penso que, nos entretantos da vida, arregimentei mais coerência.
 

 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Distração


Hoje, depois do treino no ginásio, completamente distraído com as minhas deambulações, entrei para dentro do chuveiro com os óculos postos e as sapatilhas calçadas. Felizmente percebi a tempo o meu lapso quando as primeiras bátegas me caíram na cabeça e fiquei com os óculos embaciados. Embora não tenha sido uma distração com consequências graves, concedo que “estar com a cabeça no ar” é um estado normal em mim e me tem acompanhado ao longo da vida, por vezes em situações recorrentes.
Já fui protagonista de diversos episódios risíveis, motivados pelo meu comportamento nefelibata, por sorte, sempre sem outras sequelas que não fossem provocar o riso nas pessoas que assistiram.

No local de trabalho: bater com o cotovelo ou o braço numa porta e pedir desculpas pelo facto; esquecer-me do código que desligava o alarme da porta da repartição e confrontar-me por diversas vezes com a chegada da polícia; entrar na casa de banho feminina; tomar o pequeno-almoço no bar e não pagar a despesa. 

Na rua: tentar abrir a porta de um automóvel semelhante ao meu e depois ver-me confrontado com a chegada do proprietário; deixar o telemóvel em cima do tejadilho do automóvel e arrancar com o mesmo; abastecer e esquecer-me de ir pagar o gasóleo; por duas vezes, meter gasolina no depósito em vez de gasóleo.

No prédio onde moro: sair do elevador no andar errado e tentar abrir a porta do apartamento do inquilino que mora no piso superior ao meu; deixar a porta da garagem aberta com muitos valores lá dentro; deixar o molho das chaves pendurado na fechadura da caixa do correio ou na porta do meu apartamento, encomendar uma pizza e depois esquecer-me e estar a tomar banho quando o funcionário que faz as entregas toca à porta; deixar comida a fazer no fogão e só dar conta disso quando cheira a queimado; deixar a porta do apartamento aberta depois de chegar a casa com muitas compras. 

Na música: esquecer-me, durante um concerto ao vivo, de um determinado acorde ou notas de um solo durante uma sequência musical; perder constantemente as palhetas e depois encontrá-las mais tarde no saco do aspirador, por vezes três ou quatro de cada vez.

No barco cacilheiro: durante o trajeto para Lisboa, deixar-me dormir e ser acordado por um dos tripulantes, para me informar que já toda a gente havia saído do barco e eu corria o risco de voltar para Cacilhas. 

Se eu fizesse um esforço maior, tenho a certeza de que me recordaria de muitos mais episódios, com comicidade apreciável, que ocorreram ao longo da minha vida, mas isso tornaria o texto longo e quem sabe repetitivo.

Deixo propositadamente para o fim o relato de uma das cenas mais burlescas que protagonizei. O que vou contar aconteceu teria eu trinta e muitos anos e, já licenciado, frequentava à noite um mestrado na Faculdade de Direito de Lisboa. Durante o dia, trabalhava numa repartição notarial, na Avenida Defensores de Chaves, em Lisboa, onde era o ajudante principal da respetiva notária.

À época, morava na cidade do Barreiro e esta cena aconteceu durante o inverno, num dia ventoso e com bastante chuva, pois recordo-me que eu levava numa das mãos a mala com os códigos jurídicos e na outra um guarda-chuva.

Como era habitual, nesse dia, também levei o saco do lixo para despejar no contentor mais próximo, antes de entrar para o autocarro que me levaria ao barco. Ao chegar à repartição, por volta das 09h00, as minhas colegas começaram a comentar que cheirava muito mal e não sabiam de onde vinha o mau odor, até que uma delas me perguntou o que é eu tinha dentro do saco de plástico do Pingo Doce que trazia na mão.

As risadas duraram cerca de dois dias. Resultado: fiz os trajetos de autocarro na cidade do Barreiro, travessia de barco no Tejo, de novo autocarro em Lisboa e metro, sempre com o saco do lixo entrelaçado nos dedos da mão esquerda, juntamente com a pega da minha pesada mala preta.

Quem me está a ler estou certo de que a primeira ideia que lhe vem à mente é a de que eu, porventura, estarei enfrentando um processo de demência ou perda das capacidades cognitivas. Poderia ser o caso se eu não tivesse ao longo da minha vida sido sempre assim. Quando me ponho a pensar, por vezes, desligo-me do mundo físico que me rodeia e sento-me em cima de uma nuvem. Uma nuvem que segue navegando com a brisa ligeira.



quarta-feira, 13 de julho de 2022

O intelectual

 


Não sei quantas vezes já me interroguei sobre o verdadeiro alcance e significado do vocábulo «intelectual», sem que tenha chegado a alguma conclusão satisfatória...

Um intelectual, para o senso comum das pessoas, é alguém votado ao estudo profundo das coisas e artilhado de uma grande cultura; mas, não raras vezes, já ouvi a expressão ser empregue com um sentido pejorativo: «Estás armado em intelectual?»; «Aquele tem a mania que é intelectual!...»; como se gostar da leitura e do saber, alimentos essenciais do espírito, fosse sinónimo de presunção, pecado, ostentação, vaidade, e algo de que nos devamos envergonhar e esconder dos que nos rodeiam, como se fôramos portadores da peçonha.

O intelecto ou a inteligência - e julgo que esta noção é pacificamente aceite por todos – é a capacidade de adaptação e domínio de novas situações, a possibilidade de “fuga” ao determinismo biológico, ultrapassando a limitação das respostas meramente reflexas que são mais próprias dos animaizinhos. Nós reunimos as duas opções e é bom que façamos uso delas.

O conhecimento, então, resulta de uma dialética bem diagnosticada: o sinalagma: sujeito/ objeto.
Enquanto a função do sujeito consiste em apreender o objeto tornando-o presente a si próprio, a função do objeto é meramente passiva: deixa-se apreender dando conteúdo ao que é apreendido pelo sujeito.
A experiência de cada um mostra que há para o homem dois modos ou graus de conhecimento: o conhecimento sensível, singular e concreto; e o conhecimento intelectual, universal e abstrato; e toda a Teoria do Conhecimento, que estudámos nas velhas lições de Filosofia, valora exatamente a análise da experiência, o que implica a decomposição desta nos seus elementos: sensação, intuição e pensamento.

Mas toda esta verborreia não elucida ninguém, incluindo eu próprio, sobre o que afinal vem a ser um intelectual.

Um intelectual pode ser efetivamente alguém dotado de um grande afã de sapiência e, por essa via, dotado de uma cultura superior – que dista da mediania - tornando-se uma pessoa interessante; ou pode ser alguém que abomina as vias-sacras do futebol, dos copos, das putas e do vinho verde, dos tunnings e dos turbos, das revistas de informática, das discotecas com “muitas gajas”, das novelas da noite e quejandos e, em sintonia com essa negação absoluta e fundamental, resultar num ermitão, chato como a potassa, voltado unicamente para as leituras, e consagrado a essas iguarias que lhe alimentam o apetite voraz pelo saber. 

Ou, num notável registo de ecletismo, um intelectual pode ser ambas as coisas. São estes, em boa verdade, os mais bem aceites e tolerados pelas claques que «abominam intelectuais» - o mais das vezes por não o serem e sentirem-se inferiorizados por via desse facto - pois conseguem conjugar vernáculos, palavreado apócrifo,”bojardas” plenas de graça, com uma erudição de se lhe tirar o chapéu. E como dignos representantes desta Escola de Feitores das Letras, que agradam a gregos e a troianos, temos as figuras paradigmáticas do Miguel Esteves Cardoso, do Pedro Paixão – a maltinha da “massa cinzenta” – a que se quer juntar um tal Rui Zink - esse ápex da escrita que também se quer fazer passar por maluco, mas que escreve tão mal, desajeitadamente e sem graça, que, a não ser como apoderado e lacaio dos outros, não lhe vislumbro futuro nas letras.

Um intelectual – e tenho de forçar uma definição – é alguém que gosta com força, com muita força, de coisas que deleitam o intelecto, mais do que os sentidos, e apelam à formação de um astral criativo, pleno de curiosidades satisfeitas, que fazem do sonho um ato de permanência. E nós enriquecemo-nos deste modo: tanto com as denegações quanto com as confirmações que as nossas aquisições nos despertam.
 



sexta-feira, 8 de julho de 2022

Global Pen-Friends

 

Nos idos anos 70 do século passado, ainda as redes sociais e a Internet não tinham sido inventadas, mas decerto já sonhadas, existia um sucedâneo das atuais redes sociais, muito popular à época. Refiro-me ao "Global Pen-friends".
 
Constatei que a organização ainda existe, mas com um espírito totalmente comercial, longe da natureza desinteressada dos seus primórdios. Fruto da globalização e da infestação capitalista que nos rege, transformou-se numa rede internacional de contactos, à semelhança de tantas outras, onde se paga para ver e contactar perfis.

Na minha juventude, os amigos por correspondência, os chamados pen-friends, eram pessoas com as quais nos correspondíamos através de cartas, geralmente de correio aéreo. O pen pal (literalmente: amigo de caneta) era alguém com quem comunicávamos, por vezes, durante largos anos, sendo raros os casos em que nos conhecíamos fisicamente, apesar das mútuas promessas nesse sentido.

Bastava fazer uma inscrição, que era enviada por correio, julgo que gratuita ou com um preço simbólico, escolher as idades, o género das pessoas e os países com os quais nos queríamos corresponder. Depois, recebíamos moradas e perfis de pessoas que encaixavam nas nossas preferências. Gastava-se somente o dinheiro do selo, do envelope "air-mail", a tinta da caneta e o papel de carta.
Nos anos 70, imediatamente após o 25 de Abril, a música pop/rock, até então com difusão mitigada em Portugal, fazia as delicias da juventude. O interrail, o conhecimento de "novos mundos", as vindimas em França - forma expedita de ganhar dinheiro suficiente para viajar - a ida a Londres, capital mítica do pop/rock e da moda juvenil, faziam parte do imaginário dos guedelhudos, de calças à boca-de-sino, com missangas nos pulsos e bornais militares a tiracolo, em que eu me inseria.

O conhecimento da língua inglesa, falada e escrita, era o passaporte natural para os jovens que recusavam fazer parte de uma geração retrógrada e alheada do "real world" que acontecia lá fora. Para muitos da minha geração, os pen-friends foram a forma expedita de praticarem o inglês, conhecerem estrangeiros/as, apaixonarem-se virtualmente, fazerem promessas vãs, por vezes, juras de amor, pregarem algumas mentiras dificilmente verificáveis e colecionarem fotos de lindas suecas e inglesas, que eram passadas de mão em mão no pátio do liceu.

Cheguei a ter 12 pen-friends, que iam desde a Suécia até à África do Sul e penso que a quase todas prometi um dia as visitar pessoalmente. Nunca me aconteceu conhecer fisicamente uma pen-friend, até porque, com o avançar da idade, os meus interesses começavam a focar-se em realidades mais tangíveis. Sei, no entanto, de casos em que os pais financiaram viagens a certos meninos, para que estes pudessem ir conhecer as suas princesas longínquas. Pelo menos num caso que sei, deu em namoro, mas apenas durante o período da visita.

Independentemente da ingenuidade inerente, recordo o tempo dos pen-friends como uma época fantástica que em muito contribuiu para preencher o meu imaginário e consolidar alguma fluidez na escrita do inglês. Ainda guardo numa caixa as muitas dezenas de cartas que me foram remetidas, bem como muitas fotografias de lindas jovens com os penteados da moda 70s. De vez em quando, em dia de arrumações, lá tropeço numa das caixas e releio com deliciosa vontade as missivas que me enviavam.
Num dia em que eu já não esteja, atirem para o lixo tudo isso e mais alguma coisa. As coisas que nos importam, só têm a medida da importância que é dada por nós mesmos. Esses tempos foram saborosos e não voltam mais. Vivemos noutra dimensão, não necessariamente melhor.




Amor antigo

E assim iremos sempre de olhos futuros: tu, envelhecendo na minha ausência; eu, a erguer-me na curva da esperança, sonhando com os teus beijos doces ao morrer do dia, neste curto espaço de tempo entre nós e a morte, tempo em que me vais perdendo, desejos insanos com que vou sonhando; e o meu amor por ti vai-se alimentando de fantasias, poentes, maresias, gaivotas voando rente ao areal, espumas, marulhares de ondas, brisas e sussurros, para que não morra o tempo nos teus braços, mas somente a minha vida, a tua lembrança de mim, a minha eterna memória de ti, a dedicação e amor que te oferendo, a ti. Só a ti...

Num tempo em que o amor morava na Pérola do Atlântico 

Porto Moniz - Madeira - 2004

 


 

quarta-feira, 6 de julho de 2022


Há pouco mais de uma década, estacionado na 2ª Circular, em zona adjacente ao Aeroporto da Portela, fazia grande furor um Convair com quatro reatores, transformado em discoteca e depois em bar de striptease e alterne.


Dizem as crónicas da época, que o aparelho fazia tráfico de armas e aterrou em Lisboa por causa de uma avaria técnica. Uma vez que o problema não foi solucionado e por causa da ilicitude da carga, a tripulação abandonou o avião à sua sorte e bateu asas. Anos mais tarde, o aeroporto de Lisboa leiloou o aparelho, o qual acabou sendo arrematado por um empresário da noite, com negócios obscuros, que o transformou, primeiro em bar/discoteca e depois em bar de meninas.


Acontece que o dito empresário, dono do famigerado avião, morreu num atentado bombista (um engenho explosivo colocado no seu automóvel) e o Convair acabou mesmo na sucata.
Quem se lembra desta história rocambolesca?


(já escutei piadinhas/sugestões para rentabilizar parte da frota da TAP, entretanto parada à conta do Covid-19)


sexta-feira, 1 de julho de 2022

Azul, apenas...

 


Vou deixar ciciar as palavras enquanto a noite me envolve e o amor e o vento me sussurram ao ouvido lembranças do sabor do dia: o ranger dos passos; mãos que se entrechocam rápidas sem saber onde poisar; bocas que encontram corpos que pesam a súbita ausência de palavras… tão distantes impuras, quase de ausência, que recusam a presença estática inútil; o estar não estar como fosforescência de brilho ausente muito mais que subtil.

E disse:

Eles desceram da noite e fizeram amor na geada e de manhã na relva. Depois, como dois namorados, desceram a rua e beijaram-se imóveis na tarde. O céu estava azul, apenas...