domingo, 9 de julho de 2023

Na praia


Prezo muito a doce penitência dos pescadores solitários, fiéis, sempre, junto à sua cana, vigiando o dançar periclitante da linha, como pastores vigilantes de um rebanho de peixes, num prado eterno feito de mar. De quando em quando, desviam os olhos do horizonte e rodam o carreto de nylon verde, ensaiam um lançamento longo, mais junto às rochas negras forradas de algas, em águas mais afortunadas, onde os cardumes se alimentam.

As canas estão fincadas na areia, em suportes próprios. São artes antigas, instrumentos pontiagudos que vão adelgaçando à medida que se aproximam da extremidade. Do lugar donde as vejo, sempre que o vento clama mais forte os seus caprichos, curvam-se com graciosidade, como bicos de tucano. Ao seu lado, muito perto, baldes vulgares, repletos de água do mar, servem de depósito a peixes que já não nadam: jazem argênteos, no fundo, numa quietude de impressionante morte fresca, mas a vibração da água, por breves momentos, parece que os vivifica; mas é mentira.

Sigo sempre no sentido contrário à zona dos chapéus-de-sol, caminhando contra a luz. Fujo das áreas concessionadas, das barracas «Olá», laranja e escarlate; das cadeiras «Pepsi» azul noite. Raspo-me das areias movediças da mundanidade, pelejada de gentes, pauzinhos de gelado, caricas, beatas de cigarros e beatas da vida. Quero-me na praia onde não pontificam os vestígios humanos – não quero «ser-humano» – na língua da areia onde o mar suserano, em frenesim, sem parcimónia, traga despojos de presenças alienígenas (a mim).

Tenho a caneta bem fincada na areia, um pouco acima da linha da vazante, abrigada da rebentação. É uma caneta cinzenta, paper-mate, uma flexigrip ultra, chiquérrima, aborrachada, daquelas que não magoam os dedos, mas, por vezes, magoam a alma. Ela é muito mais pequena do que as canas que observo em meu redor.

Os pescadores distam a alguns metros de mim. Estão dispostos ao longo da praia, em espaços intervalados, cinquenta metros distantes uns dos outros. A minha flexigrip não verga na ponta quando a brisa entorna mais densa. As canas sim.

Aguardo a chegada dos advérbios frescos, de olhar esbugalhado; das frases coragem; dos parágrafos comestíveis, dispostos a disputar-me o domínio, mas eles não vêm. De tempos a tempos, olho para a ponta esférica e aguçada da minha flexgrip. Um raro movimento, um estremecer por breve que seja, enchem-me o coração de esperança e brilho azuláceo. Agora o silêncio. O som do mar. O piar absurdo de uma gaivota que se afasta. As franjas brancas das ondas, ao longe, que aparecem e desaparecem. Um navio a fingir, no horizonte.

[Sempre quis ter uns óculos de sol da cor da felicidade, pois já tenho um chapéu da cor do mar. O mar existe?]

Passaram por mim duas mulheres com os corpos densamente povoados de desejos. Os pescadores não pestanejaram. Permaneceram quedos, os olhos postos no horizonte brilhante. Esperam. Desenleiam as linhas das canas como quem desembaraça os escolhos da vida. Os chumbos estão pendurados no nylon verde como pêndulos de relógios de cuco antigos – O Pêndulo de Foucault não é de chumbo.

Cheira-me a abandono e sinto arrepios de luz pela espinha acima. A felicidade é um acontecimento. Dizem-me que não a devo procurar mas sim esperar. Às vezes canso-me. A minha flexigrip continua hirta, espetada na areia como um soldado perfilado na parada, mas a borracha que a envolve parece ter amolecido. Começa a desfazer-se, pingando gotículas de talento derramado que o mar depressa engole. Os veraneantes, lá longe, parecem vultos pré-fabricados. Movem-se em constância: para lá, para cá, para lá, para cá.

Os pescadores são agora sombras recortadas na contraluz e, com o dedo indicador, acompanho o recorte da silhueta de cada um deles, que me cabe na palma da mão. Os peixes – ainda aguardam por eles – de quando em quando, deixam-se morrer para viverem, ainda que por instantes, dentro de nós. Nós vivemos. Eles não.

Coloco o meu estetoscópio de sonhos e ausculto o pulsar das emoções que me rodeiam. Tomo o pulso à vida, paciente, e peço-lhe com delicadeza que abra a boca e faça: «Ah!». Vi a língua da vida! Ena! Que sensação! De seguida, agarro na minha máquina de fotografar ilusões e proponho-me captar momentos genuínos – um completo desastre! Fico-me pela película da memória. Apetece-me fugir.

Guardo a minha flexigrip, ou o que resta dela. Torno a casa com o mesmo peso com que cheguei. Concentro-me no regresso ao trivial, que é onde a maior parte das coisas se movem e estão à vista de todos. Basta-me sacudir toda esta areia de perseverança, que me incomoda, colocar a pequena mochila às costas e pôr no semblante o sorriso que sempre guardo para os momentos em que me quero parecer com os outros.

Não me despeço dos pescadores, nem do mar, nem do céu, ou da areia. Parto sem olhar para trás, pois sei que as despedidas deixam-me sempre angustiado. Um dia voltarei e, dessa vez, trarei uma cana a sério, muito isco, balde, e tudo o que é necessário para pescar. Por ora, só quero tornar a casa com os pés calçados de subtilezas, antes que cheguem as parábolas da noite e me perguntem o que é feito da minha farta pescaria.

Leiria - escrito no verão de 2006



segunda-feira, 3 de julho de 2023

Da escrita



Às vezes sinto-me pouco gramatical e apetece-me usar marcas de oralidade na escrita, mas depois não consigo. Tento, tento, e as sucessivas investidas, todas frustres, desanimam-me e soltam a negação. Um dos meus defeitos é, porventura, o de não me conseguir livrar do espartilho das formas consideradas corretas estabelecidas pela ortografia. São normas que intui e me esforço por bem utilizar, como se escrever bem fosse tão só isso: o domínio de uma técnica: «- O aposto e o vocativo são sempre separados por vírgulas!», dizia ele.

Afinal, bem vistas as coisas, as regras gramaticais não passam de convenções que, na sua origem, não resultam de qualquer imperativo interno à própria língua, e só se tornam obrigatórias porque são aceites oficialmente pela comunidade linguística. As regras da ortografia valem como leis que pretendem regulamentar a atividade da escrita, disciplinando-a, e só admitem desvios – não censuráveis – no discurso poético. Para tudo o que escape a esse universo de permissividade total, existe uma censura atroz.

Acho, com uma certa ironia, que o esforço gasto para um razoável domínio destas competências, de algum modo, também pode ser considerado nefasto e responsável pela espontaneidade perdida; penso nos «efeitos perversos» gerados pela obediência ao crivo severo e burocrático da gramática – às vezes um balde de esterco de conceitos predefinidos, que mais não serve senão para tornar longínqua a comunicação, que deve ser a essência do discurso escrito.

A felicidade que dantes sentia por ter ligado aos textos corretos – as minhas boas leituras! - e ter tido a sorte de conhecer professores corretamente preparados, com qualidade didático-pedagógica, esboroa-se, hoje, nesta reflexão à «la minute» que frustra todas as recomendações de boa sintaxe.

Mas se, o mais das vezes me mostro incapaz de me aligeirar com interjeições, diálogos, graçolas, que me valha a catarse, o desabafo intimista, ainda que só eu lhe entenda o verdadeiro sentido e alcance. Fico-me, pois, pelo texto rebuscado. Rebuscado de tanto me devassar e pouco ou nada encontrar de novo, não fora aquilo que, de mim, já tão bem conheço.



terça-feira, 9 de maio de 2023

Cats



Olhando para o cortinado de cetim verde da sala, totalmente rasgado, o cadeirão de veludo, com perto de 100 anos, com o encosto do braço esquerdo com a espuma à mostra, para não falar das cadeiras de couro do escritório numa completa ruína e os ímanes do frigorífico, recordações de Londres e do Rio, partidos um a um, não posso deixar de admitir que tenho sido demasiado tolerante para com a gataria que tem coabitado comigo durante todos estes anos. É verdade que são objetos de que eu gostava, alguns adquiridos em antiquário, outros recordações de viagens, mas o meu amor pelos felinos consegue ser superior aos desgostos que me causaram os danos provocados.

Os gatos são como as crianças pequenas: dão-nos muito amor mas fazem tropelias e estragam objetos que para eles são meros ótimos afiadores de unhas. O segredo é não carpir o desgosto pelas coisas estragadas e aceitar o prejuízo inevitável que os bichanos sempre provocam numa casa.

Fico perplexo sempre que oiço alguém dizer que tem gatos em casa mas eles não estragam nada. Das duas, uma: ou os animais vivem em zonas muito restritas da casa, fechados na cozinha ou numa marquise, ou têm as unhas muito bem cortadas. De qualquer forma, ainda assim, é impossível não estragarem nada. Está na sua natureza usar os dentes e as unhas.

Eu gosto de dormir com o meu Negrito e tê-lo perto de mim no escritório quando toco ou escrevo. O cadeirão de pele de vaca, em que neste momento me sento, encontra-se de tal forma estragado que grande parte da espuma encontra-se à mostra. São excrescências estranhas e inestéticas que me habituei a desvalorizar. A minha mãe, sempiterna amante de gatos, tinha uma filosofia própria no que respeita aos estragos dos bichanos: quando os gatos estragavam por completo os sofás da sala, atirava-os fora (os sofás, entenda-se) e comprava outros, às vezes em segunda mão, sabendo que a sua duração estava aprazada.

Acho que foi ela que me ensinou de algum modo a desvalorizar os prejuízos causados pelos nossos amigos felídeos e a aceitar os danos colaterais desta relação ternurenta.

Lembro-me que, teria eu cerca de 4 ou 5 anos, não mais, fiz um lindo desenho com lápis de cera na parede da sala e depois fui chamar a minha mãe para que ela apreciasse a obra de arte, uma vez que lhe era dirigida. Sei, contado por ela mais tarde, que na altura ficou muito zangada mas não teve coragem de me dar umas nalgadas bem merecidas. Assim sou eu com os gatos: barafusto, zango-me, mas não passa disso.




domingo, 7 de maio de 2023

Nós e os outros

 



Fui à varanda manhã cedo e deparei-me com uma chuva miudinha e persistente, quase invisível, que tocou com leveza o meu rosto como se fosse uma caricia. O céu apresentava uma cor indizível, monocromática, um misto de cinzento claro e azul deslavado, sem nuvens, como se o outono tivesse vindo brindar-nos mais cedo, após tantos dias de calor infernal. Um ruído longínquo e constante, produzido pela enorme quantidade de automóveis que àquela hora se deslocavam na estrada nacional, compunha a sonoplastia do cenário. No prédio dianteiro, um andar mais abaixo em relação ao meu, na varanda, abrigado da chuva, o meu vizinho fumava o useiro cigarro ao mesmo tempo que bebia café. É um homem com quarenta e muitos anos, de estatura mediana, usa óculos com lentes grossas e já apresenta alguma calvície, apesar não ter ainda cabelos brancos. Presumo que tenha alguma profissão técnica, talvez seja engenheiro, pois tem ar disso. Vejo-o com alguma regularidade no único café que existe na minha rua. Para mim as pessoas, regra geral, têm ar daquilo que são. Cumprimentei-o e proferi algumas banalidades sobre a súbita mudança do tempo e acerca da urbanização vizinha, cuja construção nunca mais começa, sendo que a vegetação alta e as ervas daninhas já tomaram conta de todo o espaço. Na verdade, os arruamentos que foram construídos para dar serventia aos futuros prédios, apenas servem para que todas as escolas de condução da cidade utilizem o espaço para ministrar manobras elementares aos seus alunos. À medida que recordo as escassas palavras que trocámos, pois somente nos conhecemos do bom dia e boa tarde, lembrei-me de uma frase de Antoine de Saint-Exupéry, por mim lida algures no preâmbulo de um romance cujo título não recordo, que me alertou para a importância da comunicação com os outros, ainda que para dizer trivialidades: “No momento em que sorrimos para alguém, descobrimo-lo como pessoa, e a resposta do seu sorriso quer dizer que nós também somos pessoa para ele”.


Pode parecer desajustado que uma frase de Exupéry sirva de mote a uma tomada de consciência sobre as atitudes comportamentais que devemos ter para com os nossos semelhantes, mas um sorriso – eu não sorri, nem sei bem como o fazer -, um cumprimento, uma conversa ligeira, é um intenso sinal de que o outro nos importa, que é estimável e, como tal, digno da nossa atenção. Quando eu era criança – nos nossos dias, nas aldeias e em conglomerados habitacionais de baixa intensidade, ainda assim é - sabíamos o nome dos vizinhos do nosso prédio, frequentávamos a casa uns dos outros, pedíamos emprestado um raminho de salsa ou qualquer género alimentar em falta e, de um modo geral, havia uma salutar convivência e um verdadeiro espírito de vizinhança - vocábulo que significa proximidade, contiguidade. Se mo perguntarem, não sei o nome de nenhum vizinho do meu prédio, apesar de já aqui morar há mais de 14 anos. Para além dos indispensáveis bons dias, boas tardes ou boas noites, consoante seja o caso e de algumas cusquices que vieram ao meu conhecimento sem que eu perguntasse, nada sei sobre a vida dos confinantes que moram paredes meias comigo. Ao longo deste tempo, já tive conflitualidades com alguns vizinhos mas aqueles com quem as questões foram mais agudas, num caso até polícia meteu, felizmente, já debandaram para outras paragens. O cumprimento, nos dias de hoje, tornou-se a forma normalizada de dizer ao outro que é importante o suficiente para se lhe desejar que o dia, a tarde ou a noite lhe corra bem. A mensagem é clara: não lhe desejo nenhum mal, pelo contrário, não é meu inimigo e quero que as nossas relações de contiguidade assim continuem: sem profundidade e assumidamente formais. A preservação da individualidade é o derradeiro baluarte de qualquer condómino moderno e, salvo raríssimas exceções, até pela usual conflitualidade das assembleias de condomínio, ninguém deseja ir mais além no relacionamento de vizinhança, pois nunca se sabe quando o vizinho do lado, de cima ou de baixo de nós se torna um arqui-inimigo. Potencialmente, todos o são.

Prezo a minha individualidade e assim me fui acostumando, pois se eu considerar a leitura, a escrita, a fotografia, o treino de um instrumento musical, ou mesmo os longos passeios de mota que englobam sempre o ato de fotografar, a maioria das minhas atividades são habitualmente solitárias. Não obstante, tenho firme consciência de que nada somos sem a relação com os outros. Somos seres eminentemente sociais e é na interação que nos realizamos com plenitude. Tudo faz mais sentido se for partilhado, inclusive o que é entretecido e elaborado a sós, no recato do nosso espaço preferencial. Sou proativo no sentido de colocar em prática aquilo que acho ser correto: cumprimentar os outros, os conhecidos e os desconhecidos por quem passo, durante as passeatas à beira-rio, no jardim; dou os bons dias no ginásio e antes de entabular uma conversa ou fazer uma simples pergunta; concedo a primazia a alguém à entrada de um elevador ou de um estabelecimento e, ainda que levemente, esboço sempre o ensaio de um sorriso ou vénia. Mantenho forte a convicção de que os hábitos de cordialidade tornam mais fácil a nossa convivência com os outros e sobretudo connosco. A prática de vida, no entanto, faz-nos quase sempre esperar o pior dos outros e tornou-nos desconfiados por natureza. Uma gentileza vinda de um estranho adquire quase sempre a significação de uma intenção oculta.

Muitos anos antes do aparecimento da Sociologia, ciência que estuda os fenómenos da sociabilidade, Aristóteles, um dos maiores filósofos gregos, afirmava que o homem é um sujeito social que, por natureza, precisa pertencer a uma coletividade. Somos, portanto, animais comunitários, gregários, sociais e solidários. Mas também somos profundamente egocêntricos, desconfiados, capazes de escolher o Mal em vez do Bem e pouco solidários no que concerne a pessoas fora do contexto dos nossos laços familiares ou das nossas amizades. Há muito tempo que me interrogo sobre algumas facetas padronizadas do comportamento humano, especialmente no que respeita a pessoas que estão fora do contexto da nossa intimidade. Morei 46 anos em Lisboa e nas suas cercanias e por lá trabalhei, estudei e utilizei diariamente os transportes públicos. Durante os anos 60 e 70 do século passado, primeiramente acompanhado pelos meus pais e mais tarde sozinho, utilizava amiúde os barcos cacilheiros, bem como os autocarros da Carris os elétricos e o metropolitano. Sou do tempo dos cacilheiros feitos de madeira e aço que, devido à sua vetustez e após várias décadas ao serviço, acabaram na sua grande maioria na sucata. Na década de 60 uma viagem de Cacilhas para Lisboa, fosse nos ferries para o Cais do Sodré ou nos cacilheiros para o Terreiro do Paço, era um momento bastante agradável, em especial no verão, quando retiravam as grandes lonas verdes que tapavam as janelas e navegávamos numa espécie de barco descapotável, sorvendo a brisa que corria sobre o rio e admirando uma vista panorâmica fantástica sobre a cidade de Lisboa, a Ponte e a margem sul. Durante o trajeto, que durava cerca de 30 minutos ou mais, consoante as condições de navegabilidade, existiam sempre a bordo os engraxadores de sapatos e os homens que trabalhavam em escritórios, bancos, ou locais mais formais, aproveitavam para deixar os sapatos a brilhar, ao mesmo tempo que liam a primeiras notícias da manhã no Diário de Lisboa ou no Jornal de Notícias. Depois, apareciam os mendigos oficiais, a maioria invisuais, tocadores de acordeão, com uma caixa preta pendurada no pescoço, onde constava uma espécie de dístico com um número de matrícula, comprovativo da autorização para o exercício daquela actividade, já que a mendicidade era punida por lei. Não raro, faziam-se acompanhar por uma criança, que ajudava na coleta das moedas e mais facilmente enternecia os corações mais renitentes a doar algo para o sustento do músico invisual e da sua pobre cria. Também apareciam vendedores de jornais, de cautelas da lotaria, cigarros e cigarrilhas e até de bolas de berlim. A viagem era tudo menos rotineira e apresentava todos os ingredientes próprios de uma cena de um filme de Fellini. Para quem, como eu, absorvia tudo o que se passava ao meu redor, a viagem num cacilheiro era um festival de sinestesia.

Para além da movimentação comercial intensa a bordo, acompanhada de canções do mundo tocadas pelo acordeão do músico invisual, as pessoas falavam com o parceiro do lado, sem receios ou pudores, sobre assuntos triviais. No final dos anos 70 e início dos anos 80, com o crescente fluxo populacional que começou a rodear a grande cidade, a heterogeneidade das pessoas, vindas dos lugares mais díspares do país e também do estrangeiro, acompanhou o fenómeno. Aumentou a desconfiança, as medidas de protecionismo individual, como consequência de um crescendo da criminalidade. O aparecimento dos telemóveis na década de 80 veio a cimentar definitivamente o individualismo, que hoje é corrente, favorecendo o fechamento em concha das pessoas e mitigando a sociabilidade. Comecei a me indagar por que motivo as pessoas não se sentavam ao lado uns dos outros sempre que existia um lugar vago no autocarro. Fui obrigado a começar a fazer o mesmo, pois essa prática ganhou contornos de convenção social, que ainda hoje se mantém.

Somos seres sociais mas ao mesmo tempo temos relutância na proximidade física com estranhos; repulsa até, nos casos de antipatia por motivos racistas ou de índole congénere. Esperamos que o quente do assento de um transporte público arrefeça antes de nos sentarmos e, sempre que tocamos num corrimão ou qualquer pega tocado por outras pessoas, não descansamos enquanto não lavamos as mãos. No metropolitano ou no elevador, quando seguimos apertados como sardinhas em lata, desviamos a vista para evitar olhar um desconhecido nos olhos. Pode-se sempre falar de medidas de saúde pública. O evitamento do outro como uma forma de nos assegurarmos de que não nos é transmitido qualquer doença, mas a razão principal é mesmo a convenção social que se instalou de que devemos viver com alguma impermeabilidade em relação aos desconhecidos que acidentalmente cruzam as nossas vidas.

Estive no Rio de Janeiro quatro vezes, nos anos de 2006 a 2009, e para além das assimetrias gigantescas que existem nessa gigantesca metrópole sul-americana, com índices de pobreza, criminalidade e corrupção inimagináveis aos olhos de um europeu, que se depara pela primeira vez com o fenómeno, constatei que não existe o evitamento do contacto físico com desconhecidos, que é apanágio dos povos europeus, com maior destaque nos países nórdicos, muito mais afastados dos ritos emocionais dos latinos e grandes cultores da individualidade e da conteção. Para além dos ónibus – até aqui existe diferenciação, pois o “frescão”, com ar condicionado, é mais caro - e dos táxis, existe um transporte público intermediário, com características peculiares, que se pode ver igualmente em qualquer grande cidade africana ou asiática, que é a van. A van é uma furgoneta branca, na sua esmagadora maioria, de marca Volkswagen, fabricada no Brasil sob licença paga aos alemães, e que é um transporte público que tem um ponto de partida e um ponto de chegada: uma linha regular. Não existe propriamente um horário de partida, pois o condutor só arranca quando tem a van completamente atulhada de passageiros, no sentido literal do termo, de forma a tornar a viagem lucrativa. A van, durante o trajecto regular, pára em qualquer lugar da cidade, desde que haja o mínimo de espaço no interior e façamos o sinal de paragem levantando o braço. Fiz viagens em trajetos dentro da cidade do Rio de Janeiro em vans com mais de 20 pessoas a bordo, quando a lotação normal não deveria exceder as 9 pessoas. Desde colchões de camas a animais de criação, passando por caixas com bebidas, comidas e outros géneros, transportadas pelos vendedores ambulantes, no Brasil comumente chamados camelôs ou marreteiros, tudo o que caiba entra dentro da furgoneta branca. Não raro, estando eu sentado, viajei com mulheres literalmente acomodadas sobre as minhas pernas, numa proximidade física, para nós europeus amigos do intocável, quase promíscua. Mas o Brasil é um mundo diferente.

A manhã transformou-se de deslavada e lúgubre, num final de tarde soalheira e aprazível. A vista da janela do meu escritório cambiou radicalmente, como se tivessem mudado uma tela no céu e na paisagem circundante por algo muito mais agradável. O vizinho defronte está de novo na varanda, com o cigarro na mão, mas desta vez com uma camisa social vestida. A mulher, que observo bastantes vezes a estender roupa, não deve permitir fumos em casa, razão pela qual ele permanece muitas vezes na varanda. O ruído longínquo dos automóveis na estrada nacional é a única coisa que não mudou.

Habito no sítio mais alto da cidade e os transportes públicos não abundam como na capital. De onde eu moro até ao centro, distam cerca de 1700 metros, uma descida agradável quando se vai e uma íngreme e penosa subida quando a casa se torna. Durante o inverno, por vezes em dias frios e chuvosos, encontro com frequência mães, com os filhos pequenos pela mão, fazendo a subida. Por três vezes parei o automóvel e ofereci-me para dar boleia e em todas as ocasiões recebi um “não obrigado” como resposta. Entretanto, desisti de o fazer e, das duas, uma, ou aderi ao convencionado ser socialmente correto ou entendi de uma vez por todas que um homem sozinho num automóvel, a oferecer boleia a uma mulher, não é provavelmente um tipo que mereça confiança. Não convivo com facilidade com muitas das regras e convenções que se foram sedimentando e, goste-se ou não, fazem parte do mosaico social do qual todos fazemos parte. Vivemos tempos de desconfiança absoluta e descrença nas eventuais boas intenções dos nossos semelhantes. Fazer uma simples festa numa criança desconhecida, gesto para nós usual há alguns anos atrás, ou permanecer sentado num parque infantil observando crianças a brincar, são tidos por comportamentos tacitamente proibidos, face aos múltiplos caso de pedofilia que têm vindo a lume. Cada vez mais tocar num estranho é tido por um comportamento desaconselhável e evitável. Continuo a renegar a distopia em que a nossa sociedade insiste em se transformar e continuo crente nas palavras de Saint-Exupéry: “No momento em que sorrimos para alguém, descobrimo-lo como pessoa, e a resposta do seu sorriso quer dizer que nós também somos pessoa para ele”. 

Agora vou fechar a janela porque começa a arrefecer.










domingo, 30 de abril de 2023

Vaya Con Dios



Nem tudo são más notícias. Ontem, ao sair do elevador, deparei-me com montanhas de bugigangas, o recheio de casa dos vizinhos do lado que, segundo parece, estão de saída. Aleluia! Trata-se de um casal novo, na casa dos trinta e poucos anos, muito mal-educados, com quem mantenho um conflito relacionado com ruído (provocado por eles) a horas impróprias e que já dura há vários anos.

O último episódio, que não tem mais de um mês, por minha iniciativa, terminou com a vinda da polícia, muito perto da meia-noite, após mais um serão de grande algazarra. Nessa noite, igual a muitas outras ocasiões, os vizinhos foliões decidiram uma vez mais encher a casa de gente (trata-se um apartamento T1 arrendado, o de menor tipologia existente no meu piso) e entre risos estridentes, cadeiras a arrastar e gritaria, preparavam-se para levar a festa noite dentro.
Ainda bati repetidamente com os nós do dedos na parede, para evitar uma vez mais tocar à campainha, não fosse acontecer uma situação de vias de facto, face às discussões que já tive com eles. Como resposta, em total gozo e desafio, seguindo o meu gesto, os desnaturados começaram todos mimeticamente a bater na parede enquanto soltavam grandes risadas. Não perdi mais tempo e chamei as autoridades. Passados 15 minutos, a polícia interveio e eles foram advertidos de que, de acordo com a Lei do Ruído, se fossem novamente chamados por causa do mesmo problema, seriam multados em quinhentos euros.

Nos dias seguintes, esperei algum tipo de represália da sua parte e, a conselho das autoridades, andei especialmente atento, mas felizmente nada aconteceu. Aliás, nunca mais me confrontei com eles nas escadas do prédio. Ao que parece, eles evitavam deparar-se comigo, nunca saindo do apartamento ao mesmo tempo do que eu.

Foram vários anos de confrontação, sempre por causa do ruído excessivo que, muitas vezes, durava até às duas da madrugada. Em todas as vezes, decidi confrontá-los pessoalmente com a questão, nunca optando por chamar a polícia. Prometiam fazer menos barulho e ter mais cuidado, mas nunca cumpriram e as sextas-feiras eram fatídicas. O último episódio exauriu o resto da minha paciência.
Para além da manifesta falta de civismo e das mais elementares práticas de urbanidade, a total falta de respeito por alguém com a idade dos seus pais, reflete a parte ausente de valores que nunca tocaram alguns elementos desta nova geração. São os chamados millenials ou Geração Z, que assistiram ao surgimento da tecnologia e das maiores transformações mundiais dos últimos tempos. Nascidos em Democracia, alguns na abastança , muitas vezes foram protegidos pelo facilitismo dos pais e viram satisfeitas necessidades de consumo para as quais nunca tiveram de trabalhar ou esforçar-se.

Mas felizmente não são todos assim. Interajo musicalmente com jovens com idade para serem meus filhos, alguns, netos, e mantemos uma relação cordial, com amizade sincera e respeito mútuo. A música é por essência apaziguadora e esta paixão transversal torna-nos, a nós praticantes, envoltos numa empatia que derruba quaisquer eventuais conflitos geracionais. Esta podia ser uma explicação simplista, mas acontece que eu tenho a sorte de privar com jovens com ambições, quer musicais, quer de outra ordem, que os resguarda de caminhos menos saudáveis e que cultivam o esforço pessoal como forma de atingir propósitos. São adolescentes e jovens que vislumbram para si um futuro, uma carreira, com sucesso na vida, baseada em práticas salutares e opções que os tornam melhores pessoas. Não é certamente o percurso trilhado por este detestável casal que está em vias de deixar de ser meu vizinho.

Com a mudança, por excesso de carga, já avariaram um dos elevadores (são arrendatários, estão de saída, pouco lhes importam os estragos provocados) e hoje era a mim que me apetecia fazer uma festa para comemorar o facto de que vou deixar de conviver paredes meias com tão insalubre presença.
Se cantar e tocar hinos de aleluia, irão terminar às 22h00, porque a Lei do Ruído é para respeitar. Talvez me fique apenas pela “canção do adeus”, com acordes simplificados, mas em som audível o suficiente para que a metáfora musical atinja os ouvidos destas criaturas persona non grata. Vaya Con Dios e pela sombra, que o sol está quente!

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Fósseis



Vossas mercês não sabem das coisas que uma pessoa descobre quando investe a sério na prática da espeleologia dentro do congelador.

Sob uma espessa camada de gelo informe, eis que me aparecem duas douradas embaladas em 2017, no Pingo Doce aqui do burgo. Depois de as descongelar, para lhes ver a cor e forma, pensava em cozê-las para dar aos meus felinos. Mas quando as vi totalmente sem gelo e bem passadas por água corrente, verifiquei que estavam em ótimo estado, apesar de quase fossilizadas dentro do congelador.
O meu jantar foi um regalo! Uma douradinha de 2017, com espinafres de 2020 e um sumo de laranja da época a acompanhar.

Desde que em Mafra, corria ano de 1981, durante o Curso Geral de Milicianos, comi rações de combate que diziam " Angola 1968", acho que ganhei imunidade completa para quaisquer achados histórico-comestíveis.

Hoje degustei um peixe de 2017, mas as escavações ainda não estão terminadas no meu congelador. Acho que há para lá camarão de outras épocas...



domingo, 19 de março de 2023

2020 - tempos de pandemia



Cheguei há pouco da rua. Fui de mota, apanhar ar puro, comprar fruta e comida para os meus felinos.

Leiria encontra-se praticamente deserta, com os munícipes, na sua generalidade, mantendo uma distância social e respeitando o número de pessoas admitido à vez dentro de cada estabelecimento.

Há filas à porta das farmácias e dos supermercados, mas a ordem e a serenidade são a regra e poucos carros circulam pelas artérias da cidade.

Fiquei feliz por constatar que, afinal, somos capazes de solidariedade e respeito pelas regras que nos foram impostas, em prol do nosso bem e do bem-comum. Estamos todos, ou quase todos, conscientes de que só a união e adoção das melhores práticas, na defesa contra um inimigo insidioso e invisível, nos podem ajudar a mitigar esta calamidade trazida pelo novo ano.

Aproveitei para ler um pouco, numa praça, outrora cheia de gente, agora deserta, observando de soslaio os poucos transeuntes que a cruzam, uns com máscara facial e luvas, outros mais descontraídos, sem qualquer proteção, mas todos guardando uma distância segura.

Respirei fundo. Afinal tenho a sorte de viver num país civilizado, pensei. Regra geral, só valoramos as coisas depois de as perdermos e a minha geração e as gerações posteriores, nunca conheceram tamanha provação.

O mundo não vai acabar, nem a primavera vai deixar de florir os campos, nem a água vai deixar de correr nos regatos e os rios vão continuar a abraçar o mar. A diferença está que uns vão continuar a saborear isso, mas outros não.

Esperemos o menos mau do que ainda está para acontecer.

Leiria, 19032020


domingo, 12 de março de 2023

Antropomorfismo



O antropomorfismo atribui características ou aspetos humanos a animais, elementos da natureza, objetos inanimados e constituintes da realidade em geral. Para os que acreditam, foi Deus quem primeiro nos criou à sua imagem e semelhança.
 
No caso dos veículos automóveis em geral, mas mais evidente neste velho trator agrícola, não restam dúvidas de que a parte dianteira representa sempre um rosto humano: os faróis são os olhos, a grelha do motor, a boca e o emblema cimeiro e frontal o nariz.
A tendência para "nos reproduzirmos" em tudo o que concebemos é, em nós humanos, irreprimível e sem dúvida uma das nossas marcas indeléveis.

Campos do Lis - 2016

sexta-feira, 10 de março de 2023

Coisas da avó Joaquina



A minha avó Joaquina nasceu no ano de 1900 e contava-me muitas memórias da sua infância, tais como: o assassinato do Rei. D. Carlos e do príncipe real D. Luís Filipe de Bragança, ocorrido no Terreiro do Paço em 1908, acontecimento que muito a comoveu, pois era uma admiradora incondicional da beleza do príncipe, que via nos muitos postais ilustrados da época.

Também me falava dos gaseados que retornaram a Portugal, após a campanha na Batalha de La Lys, durante a I Guerra Mundial; e muitas vezes, para repreender os netos, usava a expressão: " Está quieto! Parece que estás gaseado!".

Ao que parece os gases afetavam gravemente todo o sistema neurológico dos atingidos, provocando comportamentos muitas vezes anormais, daí a vulgarização da expressão.

Recordo-me particularmente de ela falar das vítimas do Tifo e da Gripe Espanhola, também apelidada de pneumónica, que a partir de 1918 tomou forma de pandemia, disseminando o vírus influenza, que se espalhou por quase toda a parte do mundo, vitimando entre 50 a 100 milhões de pessoas.

Lembro-me de ela relatar histórias de pessoas que eram enterradas à pressa, com medo da disseminação do vírus, e acordavam nos caixões, com carradas de terra em cima. Acabavam por morrer por asfixia, claro está. Quando se escutavam barulhos estranhos durante a noite, relatados pelos coveiros que pernoitavam nos cemitérios, aos quais se atribuía alguma credibilidade, desenterravam os corpos e, não raro, eram encontrados defuntos com as unhas cravadas na tampa do caixão ou voltados ao contrário.

A minha avó Quina era particularmente mórbida. Era adepta incondicional de funerais e não falhava um que acontecesse nas redondezas. Pedia a Deus muitas vezes que a levasse (durou até aos 95 anos!) e efabulava o cenário do seu próprio funeral e da roupa que gostaria de trajar. Foi certamente por sua influência que também eu ganhei um certo gosto pelo mórbido, levando-me inclusive a fotografar funerais.

Mais tarde, um pouco mais crescido, relembrei-me das histórias da minha avó e a curiosidade fez-me ler algo mais sobre estes factos. Sabendo da sua propensão para a morbidez, quis certificar-me da veracidade dos seus relatos e pude constatar que tudo aconteceu como ela contava.

A minha prima, Paula Arocha, companheira dos melhores momentos da minha infância, certamente se recorda de, no quintal da casa onde ela morava, fazermos funerais, com coroas de flores e cruzes de madeira, e nos postarmos a rezar pela morte de um presuntivo falecido primo. Isto até a avó Quina ir à varanda, deparar-se com o sinistro espetáculo no quintal e quase desfalecer.

A pneumónica, apelidada de Gripe Espanhola, curiosamente não surgiu em Espanha, mas este país, uma vez que não participou na I Guerra Mundial, não censurava as noticias e divulgou os milhões de infetados por todo o mundo. Alguém se lembrou, provavelmente um jornalista, de inventar o epíteto "Gripe Espanhola".

A história da humanidade está repleta de epidemias e pandemias, mas a nossa curta memória e especialmente o incremento sensacionalista dos media, faz-nos recear o Covid-19 mais do que outras virulências bem mais mortíferas que devastaram milhões de vidas. Malthus, sinistramente, defendia a necessidade das pandemias e das guerras, como um bem-vindo controlo populacional. Mas não cheguemos nós a tanto.



terça-feira, 7 de março de 2023

Março, marçagão...

 

Março, marçagão, manhãs de Inverno e tardes de verão".

 Estamos quase a entrar na estação bipolar, no tempo do renascimento, em que as coisas da natureza se refazem. Pelos interstícios da chuva, acabo de chegar do Pingo Doce, ainda com os ouvidos encharcados com a publicidade em repeat:” Preços de 2021, só no Pingo Doce!” - Tudo isto acompanhado por um jingle irritante que não cessa de nos atazanar. Irra! Não há pachorra! O marketing, a publicidade sofisticada, invenção dos norte-americanos, é um pouco como aquela mentira que, de tantas vezes ser dita, acaba por se tomar como verdade. Com um elevado grau de certeza, posso afirmar que a publicidade sempre teve em mim um efeito contrário: quanto mais escuto elogios sobre um produto mais desconfiado fico. Acredito, outrossim, nos relatos de experiências alheias de gente que reputo confiável e baseio as minhas decisões na prática pessoal  ou na alheia credível. A despropósito desta conversa, já tentaram marcar um exame radiológico aqui na cidade? O Hospital São Francisco não tem sequer vagas para marcação, fica-se em lista de espera a aguardar desistências ou vagas. A funcionária garantiu-me que há quase 300 almas a aguardar. A clinica Cedile marca uma ecografia para final de Junho e já tem poucas vagas. É evidente que, fora dos regimes convencionados, quem puder pagar na íntegra os exames, fá-los rapidamente noutros estabelecimentos privados. Não é exagerado dizer que muitas pessoas quando forem convocadas já foram cremadas e o problema fica naturalmente resolvido. 

Hoje deu-me para a maledicência e para o desabafo mas daqui a pouco, quando agarrar de novo na guitarra, faço uma pausa na preocupação com os desajustes do quotidiano. Há coisas que não mudam nunca e o segredo talvez seja aprender a conviver com isso, num constante processo de adaptação.