terça-feira, 23 de novembro de 2021

Aniki Bobone

Paula Bobone, em 2017, voltou a lançar um novo livro, "Domesticália". Desta vez, o objetivo é ensinar os empregados a receber, servir e tratar os patrões com bons modos. Bobone defende a importância dos empregados, dizendo que através destes “conhecem-se os patrões”. Se não fosse verdade, eu próprio poderia ter inventado algo do género como piada, mas o humor perde-se na tristeza de uma certeza: existem efetivamente pessoas assim tão grotescas; e, pior do que isso, têm uma corte fiel de admiradores, espaço de antena e gentios que almejam ser como elas - estes proto-seres.




domingo, 21 de novembro de 2021

Maus tratos aos animais



Não é preciso ser psicólogo forense para saber, com fonte em leituras comuns, que existe uma forte conexão entre a psicopatia e a crueldade contra os animais. As pessoas que os maltratam, com uma insensibilidade imensa e desejos de diversão, entre outras perversões, são psicopatas, pese embora (ainda) não diagnosticados e sem rótulo formal.

O perfil psicológico de um agressor de animais está, regra geral, ligado a alguma doença psicológica, já que, como todos sabemos, as patologias afetam gravemente a capacidade de sentir e racionalizar, podendo surgir alguns transtornos de personalidade que induzam o maltrato aos animais.

O psicopata é uma pessoa que tem muitas dificuldades para entender o sofrimento dos demais e, se um ato violento contra outro lhe proporcionar algum tipo de benefício (por exemplo: aliviar o stress de um dia frustrante batendo num animal), ele não pensará duas vezes antes de fazê-lo. É por isso que muitos psicopatas maltratam animais.

É importante estar atento às crianças que maltratam os animais ou os seus pets, pois esta atitude pode induzir a outros tipos de comportamento agressivo. Uma criança que maltrata animais deve visitar um psicólogo, pois podem existir outros fatores que estão certamente provocando este comportamento. É fundamental identificá-los para evitar condutas de agressão que possam colocar a vida dos animais em risco.

Estas crianças, infelizmente, não interiorizaram conceitos de condutividade elementar como o respeito ao semelhante e aos animais. Regra geral, o tratamento com sucesso da psicopatia, com perturbação da personalidade é, na maioria das vezes, infrutífero. 

Estes jovens vão engrossar a mancha dos futuros adultos que se alistam em forças especiais para terem oportunidade de “legalmente” espancar alguém; vão adotar cães perigosos e treiná-los para combater e matar; vão procurar empregos como seguranças de discotecas, cobranças difíceis, organizações extremistas e congéneres, para cultivarem a violência como opção de vida e expandir as suas tendências; vão ser amantes de trash metal e idolatrar artistas ou músicos que apelem a qualquer forma de violência.

São pessoas agressivas com uma tendência natural a responder com violência aos estímulos que os rodeiam, impulsivos, desprovidos de inteligência emocional, com necessidade de sentir poder como forma de compensação para o limbo de frustração em que vivem mergulhados, profundamente egoístas e desafiadores, que procuram desesperadamente uma identificação ou modelo de ser escolhendo as piores opções de vida.

Este “lixo comunitário” convive paredes meias connosco e está bem identificado no tecido social. E certamente qualquer um de nós conhece um ou mais cromos que se aparentam com esta subespécie humana. Temos de estar mais atentos.



segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Dentro de nós



Por vezes temos uma ideia na cabeça que queremos desenvolver através da escrita. Pode ser um pensamento que surgiu à hora do almoço, depois da jornada de trabalho, ou algo que anda a ruminar há algum tempo na nossa mente; mas chegada a hora de escrever, outra coisa diferente, ambígua, até, jorra-nos dos dedos.

Começamos a escrever e a nossa mente divaga, já que a nossa existência é feita de um contínuo de pequenos acontecimentos, a maioria sem grande importância nem impacto. De vez em quando, muito de vez em quando, o fluir dos dias agiganta-se, abrilhanta-se e, então, dizemos que aconteceu algo de especial e guardamos datas na memória, sentimentos quentes e ternos ou assustados e infelizes algures dentro de nós.

Alguns encaram com leveza os dias que correm. Lembram-se dos tempos da infância e sorriem condescendentes com o que foram. Partilham com os amigos histórias improváveis, exageradas, cheias de feitos e de graças e divertem-se com isso. Olham para sonhos que não se cumpriram e objectivos que não se alcançaram e o coração não se aperta nem descem véus de angústia ou derrota.

Para outros, o passado, o futuro e, sobretudo, o presente desgastam. Há uma queixa fina e virulenta, uma espécie de lamuria, que se torna numa inquietação permanente e sem objeto que corrói, que transforma todos os momentos em tempo perdido, como se a felicidade e a vida estivessem sempre noutro lugar.

Viver pachorrento ou inquieto, tranquilo ou perturbado, não é bem uma opção. Em cima de um temperamento que nos calha em sina, acumulam-se experiências e formas de lidar com o que nos acontece, que nos transforma exactamente no que somos: nós mesmos, únicos, diferentes, extraordinários por isso. Somos quem somos, por acaso e sem escolha, já que não nos soubemos fazer de outra maneira. O que nos afirma como únicos é, no entanto, a nossa forma particular de dizer não e, a partir daí, reconstruir-mos o (nosso) mundo - se é que ainda vamos a tempo. Temos de fazer um esforço, sermos pro-ativos, e não estarmos sempre à espera de uma melhoria das contingências exteriores para fazermos algo por nós. Mas tudo isto, depois de escrito, soa a receita fácil, já que é impossível fazer a nossa vida retornar à pureza dúctil de uma página em branco. E, uma vez mais, como se vê, para o escritor é mais fácil prescrever soluções generalistas (para os outros) do que as considerar para si mesmo.


sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Das injustiças


Passo a publicidade, pois não tenho qualquer intuito comercial na divulgação do cardápio de determinado restaurante, uma vez que frequento vários e sem distinção, mas, a título de exemplo, veja-se: Em 2016, em Pisa, Itália, à conversa com um casal nativo da cidade, disse-lhes que em Portugal era possível comer uma refeição completa de prato do dia (prato, café e bebida) por 7 euros e 50 cêntimos. Eles ficaram incrédulos e pediram-me para repetir o que afirmara, não fosse eu estar equivocado ou a expressar-me mal no meu italiano enviesado. Ficaram incrédulos com a minha reafirmação, pois esse era, à data, o preço de um pannini em Itália. Finda a conversa, disseram-me que ainda nesse mesmo ano viriam de férias a Portugal, para aproveitar as maravilhas dos baixos preços e a beleza do nosso país. Nunca mais soube deles, nem tão pouco imagino se efetivamente vieram à nossa terra.

Repare-se que estamos em 2021 e o nosso prato do dia, segundo creio, não mudou de preço desde então, ou, se tal aconteceu, foi um ajuste mínimo. Quando falamos dos baixos salários - efetivamente são injustificadamente baixos - temos de nos ater ao custo de vida em cada país, pois caso contrário estaremos a fazer um juízo erróneo sobre a relação rendimento/preços.

De uma coisa tenho absoluta certeza. Vive-se amplamente melhor com um salário médio em Portugal do que na maioria dos países europeus que conheço. A exceção acontece na Bulgária, Roménia, Polónia e pouco mais. Na maioria dos países da União Europeia, os custos dos serviços, transportes e habitação, são exorbitantes comparados com os praticados por cá. E as substancialidades, o que verdadeiramente conta, são amplamente mais caras.

Isto não é contraditório com a prática reiterada e indesculpável de uma politica de baixos salários em Portugal, mormente do salário mínimo nacional, para não falar das pensões, subsídios e apoios sociais (há muitas pessoas para quem essa é a única fonte de rendimento), todos eles completamente insuficientes para alguém ter uma vida condigna: casa, habitação, comida e cuidados de saúde primários, alguns dos mais elementares direitos previstos na nossa Constituição.

Será que os empregadores não entendem que, ao pagarem melhores salários, têm funcionários mais motivados, logo mais produtivos e que gastam mais dinheiro, cujos consumos vão fazer crescer todos os sectores da economia? Não, a ganância e a sofreguidão do lucro não os deixa ver/pensar desse modo.

Infelizmente, a fila de desempregados é enorme, os imigrantes estão dispostos a trabalhar por qualquer salário (o que querem é um contrato para conseguirem ter um título de residência) e aceitam condições laborais por vezes inumanas. Os empregadores, desprovidos de escrupulosidades, vêm para a comunicação social fazer queixinhas de que não conseguem encontrar massa laboral e vão ter de recorrer aos imigrantes. Leia-se: Não estão dispostos a pagar salários justos, pois não querem reduzir os seus lucros e, como tal, com lágrimas de crocodilo nos olhos, dizem ter de recorrer aos imigrantes porque a maltinha portuga não quer vergar a mola.

É por estas e por outras que muitas vezes dou razão a algumas lutas dos comunistas. Só é possível combater a desigualdade, a injustiça, mudando o paradigma social, mas tudo feito com equilíbrio e sensatez. Efetivamente todos, sem exceção, devem pagar o seu contributo à sociedade pelos bens que recebem dela. Não acho admissível que alguém parasite à custa dos impostos do trabalho alheio, mas também não é de todo aceitável que um cidadão não tenha um rendimento mensal que lhe possibilite viver com dignidade. Como em tudo, é na justa proporção e no equilíbrio, que reside a razão das coisas.

Pode ser uma imagem de texto que diz "café restaurante estádio EMENTA TAKE-AWAY SOPA €2.50 €2 1.Prato do dia ofth day) 2.Bife Casa (.s +chips +fried egg rice) .Bitoque (Grilled chips fried eeg) 4.Febras €7.50 €7.50 €7.50 chips rice) 5.0melete Simples €7.50 6.0melete com Queijo ou com Fiambre €7.50 cheese Queijo ham) €7.50 Fiambre €7.50 Brás potatoes egga) eg 9.Alheira €7.50 Mirandela €7.50 ACOMPANHAMENTOS CAIXA PEQUENA Arrozbranco 2.60"
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terça-feira, 2 de novembro de 2021

Os serviçais

 

Vivemos num mundo em que a afirmação individual dos sujeitos se faz pelo que têm. Não basta ser inteligente, bonito, elegante, simpático, charmoso, espirituoso, culto, desembaraçado, pleno de sentido de humor, divertido, ou tudo isso em doses massivas. Espera-se que essas habilidades, esses "skills", ou características, rendam, dêem frutos e sejam significados pelo meio envolvente como adquiridos de mais-valia.

A velha discussão sobre a dicotomia entre o ser e o ter parece, pelo menos por agora, resolvida de uma forma expedita: o ter está ao serviço do ser e o ser é uma abstração monumental a que muitos poucos têm acesso. Valorizam-se os sinais exteriores e o que serve de moeda de troca numa rede complicada de significações: dinheiro, um título nobiliárquico, académico, um cargo importante, um nome sonante.

Não ter é o mesmo que não ser. Logo não ter qualquer coisa com jeito, qualquer coisa que os outros reconheçam e avaliem como boa ou desejável, é a desclassificação suprema. É assim que casar com uma determinada mulher ou homem com características selecionadas é uma aquisição de estatuto. E o problema desta expansão possidente não está na aquisição mas na perda.

Ninguém gosta de perder o que quer que seja. E perder pessoas que, para lá do seu valor intrínseco, sejam um leit motiv para a razão da existência, é, para alguns imbecis, igual a perder os sinais exteriores de uma qualquer riqueza que julgavam possuir.

Como é difícil admitir que o sentimento de posse em relação a pessoas seja dominante e mais difícil ainda assumir que se quer alguém mais pelo que ela significa do que pelo que ela é, confundem-se a amizade e o amor com outras valências quaisquer que nada têm a ver com a nobreza desses sentimentos.

E foi por este motivo, e por outros, que neste final de tarde, dominado por uma persistente má disposição, saí da farmácia próxima à minha casa sem aviar o medicamento que carecia, só porque o funcionário - um tinhoso serviçal de Doutores, Engenheiros, gente importante e afins - descuidou o atendimento de uma velhinha que, coitada, mal se conseguia expressar, só porque entrou no estabelecimento, imagine-se?! Um Doutor! Uma pessoa de título, um médico, a quem ele de imediato fez uma vénia, gesto que lhe acentuou ainda mais a sua pronunciada escoliose - uma doença crónica e progressiva tão comum em todos os serviçais que atingem o Nirvana cada vez que beijam o chão que os aludidos finórios pisam. P. que o pariu! - pensei, mas, claro, nada disse. Limitei-me a sair sem o medicamento que precisava e ainda mais nauseado do que quando entrei.


sábado, 30 de outubro de 2021

Dias cinzentos

 



Hoje, pela primeira vez este ano, sinto-me finalmente nos preâmbulos do inverno. A noite de ontem foi de temporal intenso e de manhã, bem cedinho, descobri a varanda com vasos derrubados, o chão encharcado e cheio de folhas arrancadas pela intempérie. É daqueles dias em que apetece ficar em casa, preguiçando com um livro entre as mãos, vendo um filme interessante ou praticando canções novas na guitarra. Às cinco e meia da tarde já é quase noite cerrada e sob a consistente camada de nuvens, a perder de vista, que vislumbro da janela do meu escritório, tremelicam, ao longe, as luzinhas amarelas que alumiam a estrada e as aldeias em redor. À parte alguns cães que de vez em quando ladram, o silêncio é sepulcral e só é interrompido pelo ruído irritante das minhas falanges a atacarem as teclas de plástico do teclado. Os meus gatos já dormitam com indolência, enrolados um no outro, na almofada da cadeira junto a mim e só me vem à memória uma frase de Fernando Pessoa, daquelas que reputo bastante irritantes, por conter uma ideia forçada de otimismo: “Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é.” Não podia estar mais discordante, eu que sou um ser solar e adoro a luz, a primavera, o verão, os dias azuis e a florescência da natureza. A aproximação do inverno é para mim a chegada das trevas medievais do longo inverno, que auspicia uma estação de negritude, frio e chuva, plena de monocromatismos e sobretudo demasiado longa. 

Os amantes dos dias chuvosos com certeza adoram quando as primeiras nuvens apontam no céu. Alguns até sentem o cheirinho da chuva chegando! Eu, definitivamente, não, mas a água que hoje cai relembra de que tudo na vida faz parte de um grande ciclo e de que somos parte de um plano maior que nós mesmos. Assim como a água que evapora, forma nuvens e depois cai como chuva, nós também estamos em constante transformação e renovação, partindo de um estado para o outro e de uma fase da vida para outra.

Esboçadas estas linhas, em claro desafio ao “horror da folha em branco” que tanto assola escritores como escreventes, concluo que pouco ou nada tinha para dizer para além destas trivialidades. Mas, seguindo a mesma linha de desplante e pleno desrespeito por conteúdos sérios e merecedores de abordagem, regozijo-me pela minha sopa de repolho, tomate e abóbora, entre outras leguminosas que para lá deitei, que está finalmente pronta e saborosa em modo repouso no meu fogão. E se há coisas que estes dias de negrume convidam, para além de outras coisas inconfessáveis que dispenso relatar, é degustar comida quentinha e calórica. Para a lareira ainda é cedo. Lá mais para meados do mês que vem não há noite que não apeteça. Mas agora, se me dão licença, vou ver o telejornal e aterrar na realidade do orçamento que não existe e da pandemia que não acaba, pois por estas bandas já bolsei demasiadas palavras redondas.



quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A novíssima complicómetra



Há mais de 20 anos que me governava com a minha velhota máquina de lavar roupa Philips Whirlpool, completamente manual, com o botãozinho dos programas que se rodava e fazia aquele trec trec trec reconfortante. Até à ferrugem, que já a estava a consumir como um tumor, eu me afeiçoara. Não lavava a quente desde o princípio de incêndio no termostato, ocorrido faz algum tempo, e durante as centrifugações (mais pareciam erupções vulcânicas), não raro, quase vinha ter comigo ao escritório aos saltos pelo corredor. Com o rodar dos anos, a Philips ganhou uma cor pérola, como os dentes de um fumador inveterado, longe dos anos áureos em que resplandecia brancura. Mas, como acontece na vida biológica, também as máquinas têm um fim.

Ontem, relutante, comprei uma máquina de lavar moderna, daquelas que têm música catita a anunciar o início e o fim dos ciclos de lavagem, com 40 programas (só vou utilizar um, talvez dois, o resto são futilidades), ecrã azul luminoso, abertura para colocar peças de roupa esquecidas sem desfazer o programa, que promete poupar muita energia e água e me obrigou a decifrar um livro de instruções pleno de generalidades e muito pouco facilitador. As legendas que vão desfilando no ecrã estão todas em inglês (a outra opção, pasme-se!, é o dinamarquês) e tudo é automatizado, o que deve desencorajar pessoas com iliteracia nas novas tecnologias ou desconhecimento da língua de Shakespeare a comprar uma lavadora dos tempos modernos.

Detesto ter de ler livros de instruções e não sou particularmente fã das novas tecnologias. Lido com elas porque tem de ser, porque já não se vendem eletrodomésticos sem os complicómetros do costume, que, de resto, fazem as delícias dos taradinhos por este género de coisas. Gosto de utensílios simples, robustos e fiáveis, com as essencialidades para um desempenho sem rococós. Já me disseram que quando avaria a centralina de um bicho deste calibre, mais vale comprar uma complicómetra lavadora a estrear, porque o preço da peça não compensa a reparação.

Longe vão os tempos em que via a empregada lá de casa a lavar as roupas no tanque de cimento com sabão macaco ou azul e branco. Só mais tarde, no final dos anos 60, veio finalmente a almejada máquina de lavar roupa (durou mais de 30 anos na casa paterna), uma Miele made in Germany, que custou uma fortuna na época.

Não sei se alguma aversão que dispenso às máquinas de lavar roupa terá a ver com o facto de a minha gata angorá, a Fô, branquinha, com nariz rosa e patinhas da mesma cor, ter morrido asfixiada dentro do tambor dessa máquina. Como todos os felídeos, a bichana era metediça e, em má hora, lembrou-se de ir dormir a sesta para dentro da Míele. A empregada não reparou e fechou a porta. De manhã acordei com os gritos lancinantes da minha mãe.

Com 13 anos de idade, lembro-me que foi o meu primeiro grande desgosto. Novas ou velhas, malditas sejam as máquinas de lavar roupa!

domingo, 25 de julho de 2021

Adeus Otelo


Em 1984/85, ainda durante o Serviço Militar Obrigatório, fui colocado no Forte Militar de Caxias. Na época, o celebérrimo e sinistro estabelecimento era uma prisão militar e o preso mais famoso, ainda mais que o cabo Vidrago, perigoso cadastrado que arrancara uma orelha à dentada a outro recluso, era o Tenente Coronel Otelo Saraiva de Carvalho.

Para além das muitas peripécias que presenciei em Caxias, nesses conturbados tempos, que dariam manancial para uma longa história, recordo particularmente o Otelo, pois o destino fez com que nos cruzássemos pessoalmente. Fui incumbido, como graduado, da tarefa diária de assistir ao fornecimento das refeições ao ilustre prisioneiro. Desde que a comida era retirada do panelão gigante, onde se cozinhava para centenas de reclusos, guardas prisionais, militares e funcionários civis, até ser entregue à mãos do ilustre presidiário, era eu quem acompanhava o trajeto da mesma através dos corredores da prisão e dentro do elevador até ao 2º piso onde se situava a sua cela. Só depois de entregue o tabuleiro às mãos de Sua Excelência a minha missão estava terminada.

O comandante do Forte, um major na reserva, amante de cães de caça e uma espécie de governador plenipotenciário daquele lugar - destacava soldados para todos os dias irem correr com os seus animais - tinha uma patente inferior ao mais ilustre prisioneiro. Esse facto, além de mal entendido na esfera castrense, não era bem aceite por Otelo e as discussões entre eles, ao que constava, eram frequentes.

O meio prisional é um lugar de alta conspiração e mexerico e tudo o que por lá acontecia, muitas vezes de forma deturpada, corria em modo sibilante os ouvidos de reclusos e carcereiros. Assisti a muitas situações deploráveis que me dispenso agora de relatar, pois, quase quarenta anos volvidos, a poeira do tempo assentou sobre os factos e muitos dos protagonistas provavelmente já não fazem parte do mundo dos vivos.

O Otelo que eu recordo era uma pessoa serena, impecavelmente fardado e aprumado, com aspeto visivelmente intelectual, acantonado numa cela individual recheada de livros e jornais, servida por um corredor anexo onde ele todos os dias praticava corrida. Nunca vi a porta da cela fechada. Além do mais, tinha uma hora de recreio só para si, num pátio interior, e nunca o vi misturado com outros reclusos. Tomava as refeições na cela e convivia com o seu advogado e com as constantes visitas. Escrevia incessantemente.

Frequentemente visitado por jornalistas estrangeiros, diplomatas, políticos e gente ilustre, era sem dúvida a coqueluche de Caxias e retirava todo o protagonismo ao comandante do estabelecimento prisional - que desejava para ele, Otelo, o tratamento idêntico conferido à restante população prisional. Diziam que essa era a maior fonte de conflitualidade entre eles.

A minha relação com o militar de Abril, à época eu tinha 23 anos, a principio bastante formal, com o fiar dos dias foi-se tornando amistosa e não tardou a que um sorriso aflorasse o rosto do experiente combatente. Quis saber o meu nome, o que estudava, onde morava e o que ia fazer depois da passagem pelo Exército. Ficou radiante quando lhe disse que gostava muito de ler e de viajar.

Jogámos xadrez juntos e não lhe ganhei uma única vez. Falámos sobre literatura, cinema e mundanidades. Nunca aflorámos temas políticos e jamais eu lhe perguntei se era culpado das acusações que o faziam estar preso. Não digo que tenha ficado uma amizade entre nós, pois apenas convivemos durante alguns meses e depois disso nunca mais o vi. Ainda guardo um livro do Woody Allen "Side Effects" que ele me deu com uma simples dedicatória: "Abraço. FMCaxias, 1985". Fiquei com a impressão de que era um homem de emoções contidas, mas muito afável e com uma inteligência superior.

Antes de ser transferido para outra unidade militar fiz questão de me ir despedir dele. Deu-me um aperto de mão tão forte que julguei que me ia quebrar os ossos. Hoje, volvidos 37 anos, dia da sua morte, fui à estante buscar o livro do Woody Allen e tenho-o aqui ao meu lado. Devolvo-lhe, também por escrito, o abraço que na altura me deu.

Culpado ou inocente, certo é que ele foi amnistiado e mais tarde inocentado de todos os crimes de que foi acusado. A nossa História jamais o esquecerá pois foi um homem que se notabilizou e merece ser recordado como o protagonista de um tempo que ajudou a fazer.

RIP


sábado, 17 de julho de 2021

Da (des)esperança


Por vezes lamentamos os silêncios que impregnam as nossas vidas, mas com a certeza firme de não desejarmos uma orgia de ruídos sempre à nossa volta, impedindo-nos de nos sentirmos nós mesmos. O pior é sempre possível mas não é fatal que tal aconteça. Se nos lançamos na ação, se nos empenhamos, se a motivação existe e há um rumo, se sabemos o lugar para onde queremos ir, poderemos esperançar alcançá-lo.

Na medida em que o pior não é uma fatalidade é permitido termos esperança. E como o pior pode ser evitado, é urgente avançarmos com empenho naquilo que julgamos evitar a nossa infelicidade.

Para além do otimismo e do pessimismo, há sempre lugar para a esperança. Esta apoia-se sobre a confiança no possível ou no que poderá sê-lo. O tempo, de certa maneira, é uma criação do possível e é fácil entendermos que um dos grandes erros das utopias foi sempre o de tentar fixar, através da imaginação, o futuro ideal, o termo perfeito de qualquer história e até os meios para lá chegar. E tal forma de pensar, por vezes, impede-nos de apreciar com rigor o inesperado, o acontecimento que transforma o (nosso) horizonte previsível.

Mais grave que tudo é a tomada de consciência de não sabermos o que nos pode fazer felizes, nem quais os melhores caminhos para trilharmos. Resta-nos, então, a exuberante satisfação de podermos afirmar com veemência: «Eu não sei bem aquilo que quero, mas estou certo daquilo que definitivamente não quero.»

Para muitos, onde eu me incluo, só isto já é um começo, seja do que for.



terça-feira, 6 de julho de 2021

Subsídios para o plano vacinal

 



O Plano Nacional de Vacinação, iniciado nos anos 60, numa altura em que a Poliomielite matava, foi determinante para a diminuição das taxas da mortalidade infantil em Portugal, que são atualmente das mais baixas da Europa. Mas o que muitos não sabem, porque não são desse tempo e não passaram por isso, é como se processava a vacinação na tropa, ainda no início dos anos 80.

Eu comecei a cumprir o Serviço Militar Obrigatório em 1981, na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, e depois por lá fiquei, contratado pelo Exército durante cerca de 10 anos, que era a forma expedita que os estudantes universitários masculinos da época encontravam para prosseguir os seus estudos e ter uma fonte de rendimento possível. Ainda não existiam mulheres a cumprir o Serviço Militar Obrigatório, ou contratadas, no Exército, o que veio a acontecer muito pouco tempo depois de eu ter terminado o meu vínculo. Mas isso são outros quinhentos.

Recordo-me perfeitamente do dia da vacinação na EPI de Mafra. Estava uma manhã invernal e o frio cortante era acompanhado pelo sibilar do vento glaciar que corria os claustros do convento. Numa vasta capela interior, transformada em enfermaria improvisada, sentados num banco de madeira corrido, em grupos de vinte, de tronco nu, o cabelo quase rapado e os olhos esbugalhados com os exemplos das anteriores vítimas, preparámo-nos para a carnificina.

O cortejo abria com um socorrista transportando debaixo do braço uma terrina cheia de agulhas. Atrás vinha um auxiliar que, com um maço de algodão a imitar uma esfregona, besuntava-nos as omoplatas com tintura de iodo. Depois, a figura sinistra do espetador de agulhas - verdadeiras bandarilhas, a ajuizar pelo tamanho e algumas seguramente rombas. Finalmente aparecia um último elemento com as seringas que ia desajeitadamente enroscando às agulhas há muito espetadas nas omoplatas dos instruendos.

O que sempre me fez suportar alguns calvários que passei na Escola Prática de Infantaria de Mafra, conhecida pela sigla EPI – vulgarmente apelidada entre os magalas como Entrada Para o Inferno ( nas Operações Especiais em Lamego ainda passei maiores tormentos), foi o facto de ver que os meus colegas estavam a passar pelo mesmo e aguentavam estoicamente tudo - pelo menos a maioria, já que alguns, a meio da recruta, baixaram à Psiquiatria e foram internados no Hospital Militar da Estrela.

No final, posso afirmar categoricamente que o tempo que passei no Exército, quase uma década, pelas amizades que por lá fiz e experiências inolvidáveis, foram dos tempos mais felizes da minha vida. Nunca posteriormente na sociedade civil, pela competição e mesquinhez que se vive dentro das empresas, consegui encontrar a camaradagem salutar e o bom humor que vivi nos tempos da tropa.

A dose cavalar que me inocularam na EPI, uma espécie de coquetel vacinal contra uma série de maleitas, foi seguramente a responsável por durante toda a recruta nunca me ter constipado ou adoecido, apesar de andar constantemente debaixo de chuva e enlameado até aos ossos. Sem essa inoculação não acredito que fosse possível ter suportado as agruras diárias porque passei durante esses penosos dezasseis meses.

Agora a que assistimos à maior campanha vacinal mundial de todos os tempos e que temos um Vice- Almirante à frente de uma Task Force, não me surpreenderia que não tivesse já passado pela cabecinha do nosso Vice a adoção de estratégias militares mais expeditas para imunizar o povinho que se queixa de ficar longas horas na fila: uma série de banquinhos de madeira corridos (há muitos nas igrejas e era só pedir emprestado) podiam muito bem iniciar um esquema vacinal em série. E porque não adaptar também algumas ideias do Taylorismo para a racionalização do processo produtivo, neste caso o ato de imunizar, evitando a lentidão na produção e um esforço desnecessário?

A ideia de um processo de imunização, todos sentados num banquinho de madeira, que começa com um besuntador de tintura de iodo e acaba com o enroscador de seringas, previamente espetadas nas omoplatas dos recrutas, se servisse para vacinar o dobro da população, era mais uma prática castrense de outros tempos a ter em linha de conta.

E depois não me digam que eu não contribuo com subsídios para o processo vacinal.

Siga a Marinha, nosso Vice- Almirante!