sexta-feira, 21 de maio de 2021

A inveja - um sentimento trivial?

 

Se há sentimento mais desajeitado, infeliz, irritantemente inútil e absolutamente a dar com nada, só posso estar mesmo a referir-me à inveja. E diferentemente do ciúme ou da cobiça, que lhe são parentes próximos, não se relaciona com algum objeto externo, não corresponde a nenhum desejo concreto e nomeável, ou seja, não se quer forçosamente ter ou ser o que alguém é ou tem. Apenas se sente raiva e zanga pela existência de outros designados - os escolhidos a dedo pela felicidade de ser ou ter: sucesso, beleza, inteligência, riqueza, cultura, capacidade de sedução, charme... e se considera em alta voz que essas mais-valias têm necessariamente subjacentes situações de demérito, ocasos da sorte, injustiças profundas, distrações de Deus...

E ainda que muitas vezes os possuídos por tais sentires reconheçam (para si mesmos – deep inside) o mérito e a justeza na obtenção das qualidades ou pertenças de alguém, não conseguem evitar deixar-se inundar pela estreiteza deste sentimento tão trivial e tornam-se cromos indisfarçáveis.

Este sentimento é tão infeliz - muito infeliz mesmo - que não tem qualquer gratificação: alimenta-se a si mesmo em circuito fechado e é feito de ressentimentos que moem e esmagam, que azedam a vida e as relações, o que torna tudo o que se tem sempre pouco, sempre menor, sempre desvalorizado. E é sobretudo um sentimento inútil, pois apesar de todos os argumentos de fundo que se possam mobilizar acerca da “sorte” de uns e do “azar” de outros, não se consegue mobilizar forças, formas expeditas de ação no sentido de eliminar ou fazer desaparecer os “seres” que causam tal desconforto, já que a sua liquidação física, no mínimo, seria um ato de loucura ou de vingança. Acho, entretanto, que mesmo que isso fosse possível, o invejoso precisaria sempre de um “ódio de estimação" e a perda do objeto contra o qual direciona a sua inveja seria rapidamente substituído por outro.

O mais ridículo da inveja é que ela é óbvia e transparente. Apanha-se mais depressa um invejoso do que um mentiroso (não caio no exagero de fazer a comparação com um coxo, pois acho que está ela por ela). A inveja é irreprimível e percebe-se à légua quando alguém destila este fel.
Infelizmente é com este sentimento, de uma vulgaridade quase absurda, com que lidamos no dia-a-dia nas nossas atribulações profissionais, nas relações do quotidiano, e temos de estar preparados para ser a tal “muralha de aço” que não se deixa abater ou azedar com esta água ácida com que muitas vezes nos querem batizar.

Julgo eu, porventura com certeza, que não serei o único que já provou o travo destas mentes acéfalas que serpenteiam sibilinas em redor das horas dos nossos dias. Já não faço nenhum esforço - e consigo ! - para não ser como eles. Há muito que me quedei - esta espécie de franqueza sem cueiros - na admiração pelos mais dotados que eu, em simultâneo com um quase sentimento de desprezo que nutro pela mediocridade subjacente à inveja e aos que a adotaram como praxis do quotidiano.

Parece, pois, que estamos todos condenados a viver com esta estirpe, árida e ignóbil, de gente que ainda não aprendeu a canalizar a imensa energia que despende invejando, ao invés de melhorar a sua auto-estima na realização de algo que lhe traga a gratificação capaz de fazer quebrar o ciclo infernal do ver a felicidade através dos olhos dos outros. Haverá, porventura, algo mais triste do que isso? Quase não consigo imaginar!


domingo, 16 de maio de 2021

Em tua memória, Paula C.


Hoje, quinze anos volvidos após a sua morte, recordo-me da Paula C., uma amiga de infância que escolheu abreviar a vida, porque ela há muito lhe parecia um fardo insuportável. Se fechar os olhos, consigo vê-la no pátio do Liceu de Almada, nos finais anos 70, principio dos anos 80: o cabelo cortado à Malvina, aquela da novela «O Casarão», as mãos sempre enfiadas nos bolsos estreitos de umas Levis ruças, uma camisa justa com folhos nos punhos e o eterno cigarro aperrado no canto dos lábios.

Uma situação tremenda: um ser que, muitos anos antes de morrer – de facto suicidou-se – há muito decidira alhear-se da própria vida e começara a agir como se nada mais tivesse realmente importância. Vivia numa passividade extrema perante tudo e tendia para os excessos, sem cuidar de refletir nas consequências. Essas, pareciam-lhe indiferentes, caretas, risíveis até. Chegou a um estado em que cessou de se projetar no futuro e apenas o presente contava. A sua ligação à existência, parecia-lhe tempo inútil, tempo a mais. A vida era para ser vivida à velocidade de um foguete. E as frustrações da vida, com as quais ela nunca conseguiu lidar, sublimava-as sempre com excessos, compensações desnorteadas, inconsequentes, eternas fontes de sofrimento posterior.

Ainda hoje tenho uma certa dificuldade em incutir no pensamento, a certeza de que a Paula se precipitou para a morte, atirando-se de um oitavo andar e nunca mais a vou ver. Nós, os amigos, nem tivemos tempo para nos despedirmos dela, tal a pressa que ela teve em se despedir da vida.
Que tão fortes motivos pode ter um ser que renuncia propositadamente à vida, numa idade ainda relativamente jovem, antes de chegada a inevitável hora? É um mistério total que encerra razões que a minha razão desconhece.
 
Não lhe conhecia doenças crónicas, mortais, ou enfermidades que justificassem tal atitude. Apenas uma angustia profunda e uma inadaptação constante aos ritos sociais ditos "normais", faziam-na viver num drama interior que constantemente a sobressaltava. Foi doença mental, disseram os entendidos nestes assuntos. Eu digo que ela morreu de tristeza.

Muitas vezes encontrei-a, quer durante os tempos do Liceu, quer mais tarde na Universidade, afundada em desesperos (fomos colegas desde o liceu até à licenciatura). Nem o seu casamento recente, a atual estabilidade laboral (era chefe de divisão num Ministério - quadro superior da função pública - e gozava de alguma folga económica), pelos vistos, lhe trouxeram paz ao seu conturbado espírito.

A braços com os meus próprios dramas e problemas pessoais, hoje assumo que a ameaça do ódio à vida, bem como a ancilose da capacidade de nos amarmos, são conjuras que se podem urdir em qualquer momento e virar-se contra nós. E para além da obscuridade de histórias fragmentadas que me alcançaram, sobre os motivos que a levaram a tomar essa irrevogável atitude, ainda me custa aceitá-las como razões suficientes.

Que lhe diria eu se tivesse podido? Eu que também conheço os silêncios do vazio e a eterna espera da luz? Que poderia eu dizer-lhe, caso fosse a tempo de lhe segurar um braço? Que poderia eu dizer-lhe sem a magoar, sem lhe dar a impressão que não a queria compreender? Sem os ares de quem quer pregar a moral da verdade e é o arauto da felicidade? Dir-lhe-ia, talvez, para tentar manter a esperança e descortinar novos rumos para a felicidade, pois eles efetivamente existem. Mas a obstinação doentia dos suicidas, cedo, ou tarde, acaba por prevalecer. O mal é a fixação apoderar-se deles. A ideação toldar-lhes a mente. Depois só há uma questão: o tempo e o modo.

O desaparecimento da Paula, sempre que o recordo, transformou por completo a minha consciência acerca da morte. Revelou-me tudo o que havia de falso na relação com a minha própria existência e com a minha própria morte. Mudei definitivamente de ideias no que diz respeito a considerar que a morte não tem nada a ver com a vida, que não nos diz nada, que não existe ligação possível entre uma e outra, a menos que nos iludamos. Conseguiu libertar-me dessa absurda convicção de que a morte não tinha nada a ver com a vida, que não representava nada para mim. Pela primeira vez, senti com extrema agudeza, quão ténue, frágil e efémero é o sopro de vida, que toca cada um de nós em cada dia que passa.

RIP, Paula C., hoje que passaram quinze anos sobre o dia da tua morte, relembro o fim que tu própria escolheste para ti: um salto em forma de anjo, às primeiras luzenças da manhã, da varanda do oitavo andar onde moravas, na direção da calçada. És, desde há algum tempo, mais uma estrela no céu.


sexta-feira, 14 de maio de 2021

Manuel Palito



Manuel Palito, a cumprir pena de 25 anos de prisão por duplo homicídio, faleceu. É sempre de lamentar a perda de uma vida humana, mas, neste caso, consigo não sentir qualquer tipo de compaixão por este sub-humano que tirou a vida a duas mulheres e tentou matar outras tantas. Na verdade, sou a favor da pena de prisão perpétua, em casos especialíssimos, em que existem vários crimes de sangue, cometidos com perversidade acentuada.
 
Em Portugal, o limite instituído para pena efetiva de prisão é de 25 anos. Muita gente não sabe, mas na maioria dos países europeus existe a pena de prisão perpétua e nem por isso os deixamos de considerar como Estados onde existe democracia, civilidade, compaixão e legislação tecnicamente adequada.

Em 1884, Portugal aboliu definitivamente a prisão perpétua. Ainda hoje, no seu Artigo 30º, referente aos limites das penas e às medidas de segurança, a Constituição da República Portuguesa determina que "não pode haver penas nem medidas de segurança privativas ou restritivas da liberdade com caráter perpétuo ou de duração ilimitada ou indefinida", fazendo de Portugal um dos 13 países do mundo onde a Constituição proíbe especificamente esta punição.
 
Por toda a Europa, contudo, a aplicação da prisão perpétua varia nos mais diversos moldes. Desde uma pena revista, passando por uma pena sem previsão de liberdade condicional até à prisão perpétua irredutível, o território europeu reúne países com posições diferentes. No entanto, a maioria dos países tem um regime diferente do português. Quase todos permitem penas de prisão perpétua, mas incluem uma adenda para que os condenados possam sair em liberdade condicional depois de terem cumprido um determinado número de anos de prisão efetiva.

Quanto às penas sem revisão, são apenas 7 os países que adotam esta variável de prisão perpétua cuja sentença não é reconsiderada de forma rotineira. São eles a Ucrânia, Eslováquia, Países Baixos, Malta, Lituânia, Hungria e Bulgária.
 
A vida, e depois dela a liberdade, para não falar na saúde, estão no topo dos valores que reputamos fundamentais pela sua especial preciosidade. Sem alinhar em "Populismos Venturianos", há muito tempo - desde os bancos da faculdade - que defendo a prisão perpétua para certas categorias de crimes com especial incurabilidade e censura. Quem pratica tais atos não deve, no mínimo, ter o direito de usufruir a liberdade que todos conhecemos, mas deve terminar os seus dias encarcerado. Nestes casos extremamente restritos, o preço a pagar à sociedade deve sobrepor-se a uma eventual ressocialização do criminoso.

Delimitar quais os crimes, com que características tipificadas, capazes de preencher a moldura penal da prisão perpétua, seria uma tarefa do legislador, após um amplo consenso da sociedade.
Uma Justiça ineficaz, branda em demasia com os criminosos, que oferece mais garantias aos delinquentes do que às vítimas; um processo penal que permite medidas dilatórias e expedientes, capazes de levar os crimes até à sua prescrição; uma Justiça para ricos e outra para pobres; um sentimento omnipresente de impunidade dos criminosos, em especial dos mais poderosos e ricos, é tudo o que a nossa sociedade não deseja e falta uma voz para lhe dar a devida expressão. Tem de haver coragem política para dar corpo a tais medidas que, estou certo, correspondem ao sentimento da maioria dos portugueses.

Ainda na Faculdade, escutei um professor de Direito Penal, uma criatura bem conhecida nas televisões, cujo nome não vou divulgar, expressar com alegria, os olhos quase marejados de lágrimas, que nós possuímos a legislação penal e processual penal mais evoluída da Europa. Consigo dar-lhe razão no que respeita ao desconcerto sem conserto que é o imbróglio entontecido de expedientes legais da nossa Justiça, com malhas demasiado largas, por onde sempre se escapam os figurões do costume.

domingo, 25 de abril de 2021

O meu 25 de Abril

No dia 25 de Abril de 1974, tinha eu 13 anos de idade, frequentava o 1º ano do Liceu (hoje, creio, o equivalente ao 7º ano unificado) e morava na Praça da Renovação (hoje Praça do MFA), no primeiro andar do edifício da Caixa Geral de Depósitos, onde o meu falecido pai pontificava como todo poderoso gerente. À época era, tão-somente, o local mais central da cidade de Almada e os cargos de direção incluíam o privilégio da casa (enorme) oferecida pela CGD.
Recordo esse dia como se fosse hoje, pois, com o andar da carruagem, retenho com mais facilidade, na caixa dos pirolitos reservada ao repositório das recordações, as memórias mais antigas do que o que almocei ou jantei ontem. Deve ser mesmo assim, próprio da idade, ou então estarei porventura a iniciar um processo degenerativo, com perda das funções cognitivas, em que a dado momento terei de recorrer ao incontornável memofante. Valham-me as muitas leituras e o estudo musical, que me obrigam ao exercício da massa cinzenta e a tarefas de memorização.
Mas, voltando à descrição que aqui me trás, queria eu contar que estava a preparar-me para ir para a escola, quando o meu pai, ainda com a espuma da barba no rosto e o rádio a pilhas encostado ao ouvido, ia repetindo as notícias: "aconteceu alguma coisa em Lisboa nesta madrugada. Parece que há uma revolução em curso. As forças armadas estão a dirigir-se para Lisboa".
Entretanto, o barulho ensurdecedor de aviões a hélice, os famosos T-6, passavam a baixa altitude sobre a cidade. Ao longe, também se escutava o barulho de helicópteros. Apenas as estações de rádio começavam a dar as primeiras notícias, que não passavam de comunicados a avisar as pessoas para ficarem em casa, pois estava em curso uma revolução. As principais estações radiofónicas já tinham sido ocupadas pelos militares. No intervalo das emissões, escutava-se em repeat uma marcha marcial que se tornou icónica da revolução.
Nessa manhã de quinta feira, para grande satisfação minha, não fui à escola e da varanda do meu quarto, que dava para a Praça da Renovação, comecei a ver os primeiros ajuntamentos de populares, e também alguns veículos militares, descobertos, que passavam, cheios de soldados sentados costas com costas, dirigindo-se provavelmente para o Forte de Almada.
O meu pai acabou por ter de ir para o Banco, acompanhado de uma comitiva da PSP que entretanto chegou a minha casa. As ordens superiores eram para proteger o dinheiro que se encontrava nos cofres e ele, como primeiro responsável, tinha a obrigação de estar perto dos valores dos depositantes. O medo maior era que, a coberto do furor revolucionário, alguma coisa acontecesse ao dinheiro.
A minha mãe, professora, também ficou em casa e proibiu-me de ir para a rua, mas eu nunca fui dado a submissões e jamais tive vocação para obedecer. Ainda hoje, infelizmente, assim sou e nunca consegui cinzelar essa característica de mau feitio. Antes do almoço já tinha tudo congeminado na minha cabeça. Com a desculpa de que ia brincar no arvoredo do Externato Frei Luís de Sousa, ao lado da minha casa, que curiosamente se mantinha aberto, mas sem aulas, contei os meus tostões e fui a pé até Cacilhas. O dinheiro que tinha no bolso dava para duas viagens de cacilheiro e pouco mais.
O que relato aqui já contei a diversas pessoas. Fui para Lisboa ver o 25 de Abril a acontecer: os soldados deitados no chão, rodeados de populares, um militar, com galões dourados nos ombros, a dar ordens através de um megafone roufenho ( soube mais tarde o seu nome: Salgueiro Maia). O Terreiro do Paço e a Rua Augusta a abarrotar de populares, postados atrás dos soldados que se deitavam no chão com as G3. Muitas Chaimites em fila indiana. No Tejo, duas ou três fragatas, não recordo com precisão, da cor do rio, estavam paradas defronte da Praça do Comércio e tinham um aspeto perfeitamente inofensivo, no recorte da sua silhueta contra-luz, como se fossem belos iates de cruzeiro.
Segui a população através da Rua Augusta rumo ao Chiado e, frente ao Quartel do Carmo, de novo um cenário semelhante. Um oficial gritava ordens de rendição aos militares da GNR que se tinham barricado no interior. Soube bem mais tarde que negociavam a saída do Marcello Caetano. Recordo-me perfeitamente de ver o pai do Miguel Sousa Tavares, o falecido Francisco Sousa Tavares, ex-PPD, ex-marido da Sofia de Mello Breyner, empoleirado numa árvore aos gritos. O barulho era incessante e eu acotovelava-me entre a multidão,
Vi o 25 de Abril de 1974 a acontecer e na altura não percebi rigorosamente nada do que estava presenciar. Para mim, era uma espécie de um plateau de um filme, com bons de um lado e maus do outro; ou, mais parecido ainda, uma daquelas peças de teatro modernas " on going" que se desenrolam na rua e os espetadores vão seguindo os atores. Foi exatamente isso que eu presenciei e talvez seja esta a forma mais honesta de eu descrever o "meu 25 de Abril".
Tinha uma vaga consciência do que era a Pide e a Mocidade Portuguesa, os bufos. Sabia que, nas conversas em família do Marcello Caetano, o meu pai não gostava quando nós metíamos uns cornos ao chefe do Governo, sempre que ele discursava na televisão. Era um tempo horrível e muito chato e só o meu pai lá em casa gostava de assistir àquela ladainha paternalista, que na verdade eu não entendia ou não fazia o mínimo esforço por entender.
Eu participei no 25 de Abril como um espectador ignoto de tudo o que estava a suceder, como se fosse uma criança a assistir a um filme para adultos ou um iliterato a ler um ensaio filosófico. Na altura não percebi nada do que presenciei, mas confesso que gostei. Foi preciso amadurecer um pouquinho mais para perceber o momento histórico que tinha passado sob os meus olhos.
Só muito mais tarde contei aos meus pais que desobedecera às suas ordens e tinha ido para o Terreiro do Paço. Hoje tenho consciência que se algum magala mais nervoso tivesse aberto fogo naquele dia, teria havido uma chacina, tal a quantidade de populares mirones amontoados. Imagine-se o nosso emplastro e multiplique-se por milhares de clones. Assim era a disposição do povo naquele dia junto dos militares.
Há um vídeo da RTP em que eu apareço por fugazes instantes. Um puto magrinho no meio de uma turba de populares. Já escrevi por várias vezes à televisão pública a pedir uma cópia da filmagem e nunca me deram resposta.
O que eu assisti naquele dia foi a uma espécie de Guerras do Alecrim e da Manjerona, uma ópera joco-séria, que, por descuido, poderia ter terminado em grande tragédia. Mas, para meu consolo, tenho a absoluta certeza de que os militares - na sua maioria, pouco mais velhos do que eu, com exceção dos oficiais diretamente envolvidos no planeamento das operações - também não faziam rigorosamente ideia alguma do que estavam ali a fazer.
Éramos todos incautos e inocentes como crianças de tenra idade. Estávamos ali porque era um dia giro, sobretudo diferente dos demais, e todos cuscas por defeito de fabrico.
No regresso a Cacilhas não paguei bilhete no cacilheiro. Todos saltavam as cancelas e eu fiz o mesmo. A anarquia que haveria de se instalar já se esboçava. Com o dinheiro que sobrou, ainda passei no Café Central e comi um bolo podre, o meu favorito, pois sempre que vou a Almada é das únicas coisas que não abdico fazer.
Entretanto a Revolução tinha começado.



domingo, 31 de janeiro de 2021

In Diário de um Pandémico



Como se não bastasse o confinamento, este fechamento imposto, como se fossemos todos monges e monjas em clausura conventual - que, recorde-se, é uma opção individual, tomada em liberdade, um modo de vida, subsequente ao voto religioso que lhes deu a obrigação de não mais saírem do seu Mosteiro ou Convento, muito diferente do não voluntarismo da atual situação - os meus vizinhos, à falta de vontade de se dedicarem a exercícios mais silenciosos tais como: ler, escutar música ou fazer exercícios físicos caseiros, decidiram dedicar-se em bloco à hard bricolage.

Desde muito cedo, as marteladas e o som dos berbequins ecoam pelo edifício, aumentando a tortura psicológica de quem já padece os tormentos de não poder sair de casa. Na sua maioria, quase que aposto, são pessoas que se dedicam a atividades semelhantes no seu dia-a-dia e, carentes de imaginação, tentam recriar em casa, as únicas produções que conhecem: o escopro o martelo e/ou a broca em alta rotação.

" O "ruído de vizinhança" é o "ruído associado ao uso habitacional e às atividades que lhe são inerentes, produzido diretamente por alguém ou por intermédio de outrem, por coisa à sua guarda ou animal colocado sob a sua responsabilidade, que, pela sua duração, repetição ou intensidade, seja suscetível de afetar a saúde pública ou a tranquilidade da vizinhança. "

"As obras de recuperação, remodelação ou conservação realizadas no interior de edifícios destinados a habitação, comércio ou serviços que constituam fonte de ruído "apenas podem ser realizadas em dias úteis, entre as 8 horas e as 20 horas"

In "Lei do Ruído"

Dentro do quadro legal estabelecido, tenho o direito de chamar as autoridades para autuarem os meus vizinhos do berbequim, à semelhança do que eles mesmos me fizeram, só porque, uma noite, há anos atrás, me descuidei a tocar guitarra para além do horário regulamentar. Nem se dignaram tocar à minha campainha, para que eu pedisse desculpas e cessasse de imediato o ruído. Simplesmente, por comodidade cobarde, telefonaram de imediato para a PSP.

A vendetta não faz parte do meu feitio e só espero que o barulho cesse para que eu possa ter alguma tranquilidade de novo.

Nunca mais me esqueço de um vizinho que tive no Barreiro, há muitos anos atrás, amante de motas, como eu, mas, sobretudo, mais interessado em as desmanchar e modificar do que propriamente usufruir do prazer de conduzir um motociclo no meio de uma serra, sorvendo o ar fresco da manhã.
 
Como as queixas se avolumavam face ao barulho ensurdecedor que provinha da casa do dito condómino, veio-se a descobrir que ele tinha pelos menos três motorizadas desmanchadas numa marquise ( o presuntivo mecânico morava num quarto andar) e todos os fins de semana dedicava-se a desmanchar motores, retificar peças e proceder a operações de soldadura. Diz, quem viu, que ele tinha as motorizadas todas desmanchadas, centenas de peças embebidas em óleo, espalhadas por vários tabuleiros, numa comprida varanda fechada, entretanto transformada em oficina. E, para além de garrafas de oxigénio para soldar, também por lá existiam maçaricos de corte, óleos diversos e um bidon com gasolina.

Pior (ou não) do que isto, só consigo recordar histórias verossímeis de pessoas que, no Miratejo, localidade situada numa freguesia da cidade de Almada, nos anos 70/80, mantinham asnos, mulas e cavalos dentro de casa, ou que faziam fogueiras comunitárias no chão dos apartamentos cedidos pela Segurança Social. As banheiras, entretanto colocadas nas varandas para plantio de couves e outros géneros alimentícios, eram um mal menor.

Não acredito que existam situações semelhantes às descritas no meu prédio. Creio, outrossim, que este confinamento, por todos reconhecido como absolutamente necessário para colocar um travão à disseminação de um vírus diabólico, tem contra indicações e efeitos secundários. E não há ninguém que deles não se esteja a ressentir. Uns furam paredes, outros martelam, outros gritam com as mulheres ou com as crianças. Uma coisa é certa: fechados em casa, os meus vizinhos tornaram-se piores do que eram antes.



domingo, 17 de janeiro de 2021

Volta, Sebastião José de Carvalho e Melo!



Esta situação que vivemos atualmente é tão suis generis que, creio, nem o melhor guião de um filme de ficção cientifica conseguiria a capacidade imaginativa para esboçar uma história idêntica.

Portugal passou de país exemplar aos olhos do mundo, em termos de infeções e boas práticas sanitárias, mencionado com destaque na imprensa internacional, para a nação que no mundo tem atualmente mais infetados por cada milhão de habitantes. E esta é a realidade com que hoje nos defrontamos.

É triste. É dramático. A verificar-se uma saturação total nos hospitais, como se anuncia para breve, no limite, muitas pessoas vão morrer, seja por Covid, seja por qualquer outra patologia que não possa ser socorrida por falta de meios humanos.

Ninguém conseguiria imaginar que os anos 2020/2021 trariam esta catástrofe ao mundo, já que desde há muito tempo (cem anos, pelo menos) a Humanidade não conhecia tamanha tragédia sanitária. 

A pneumónica, a tuberculose, a tosse convulsa, a febre tifóide, a cólera, a peste medieval, que dizimou 2/3 da Europa, são histórias do passado, derrotadas pela pujante ciência e pelas miraculosas vacinas, entretanto desenvolvidas e generalizadas.
 
Os irmãos da minha mãe, no início dos anos 50, faleceram quase todos com tuberculose. Ela, hoje com 86 anos de idade, ainda recorda essa mácula associada à sua infância. A penicilina, além de rara, pois só mais tarde viu o seu uso generalizado, era administrada apenas a quem tivesse grandes posses económicas. Uma grama custava uma fortuna.

Muitos de nós, onde eu me incluo, com a habitual sobranceria que caracteriza a espécie humana, no que respeita a eventualidades deste género, julgávamos que a probabilidade da disseminação generalizada de uma doença mortal fosse, nos dias de hoje, algo impossível de acontecer. Só mesmo no cinema, nos filmes catástrofe, para os apreciadores do género.

Cada um de nós vive esta situação de acordo com a sua forma própria de subjetivar o que está a acontecer. Uns refugiam-se na família nuclear, outros, solitários, como eu, procuram manter hábitos desportivos - mens sana in corpore sano - para obstar ao fecho dos ginásios e de todas as atividades grupais, onde se incluía a prática das caminhadas em grupo, que muito aprecio.

Enquanto há vida há esperança e acredito que, depois de muitas mortes, onde eu próprio posso vir a estar incluído, as vacinas vão começar a surtir efeito, a imunidade na comunidade vai surgir e o Covid será depois apenas mais um vírus, a integrar a coleção de tantos outros que nos rodeiam. Só que domesticado, sem a parte selvagem e letal que ainda o caracteriza.

Há por aí muitos saudosistas do fascismo que passam a vida a suspirar e a dizer que faltava cá era o Salazar. A meu conselho, matem-se e vão ter com ele ao Inferno, pois é onde provavelmente o encontrarão.

Eu não alinho com os que dizem que faz cá falta o ditador de Santa Comba, mas um pragmático como o Sebastião José de Carvalho e Melo, com os tubaros no sítio, para enterrar os mortos e cuidar dos vivos, seria bem-vindo. Acontece que o dito marquês morreu há mais de 300 anos - aqui bem perto, em Pombal, na Quinta da Gramela - mas com tanto pensamento mágico que vejo aqui pela rede social, quem sabe não vai alguém reencarnar o saudoso nobre e salvar-nos a todos desta pestilência?!


domingo, 10 de janeiro de 2021

Saudades da minha Vilar

Hoje, antes do confinamento geral e obrigatório, que ocorre às 13h00, voltei aos meus passeios de bicicleta pelo percurso do Pólis, à beira do Lis, antes de me fechar em casa, onde aliás já me encontro.
Uma vez que estava sozinho, pedi a um transeunte que por ali deambulava o favor de me fotografar, pois a imagem que eu pretendia ( o castelo ao fundo e o lago maior) seria impossível de obter por meios próprios. Recebi um não categórico e um conselho para pedir a outra pessoa. Agradeci na mesma, delicadamente e sem qualquer rancor, pois, sinal dos tempos em que vivemos, até receio temos de tocar objetos alheios. Depois, sem grande pânico, uma simpática senhora fez o favor de me fotografar.
A escolha da cor da minha atual bicicleta, vermelho vivo, não foi alheia ao facto de, há quase 53 anos atrás, por ocasião do meu aniversário, ter ganho de presente uma Vilar vermelha, com selim branco, pneus tamanho 20, toda em ferro, pesada como chumbo, mas resistente e fiável como nunca outra conheci. Felizmente, ou não, já não se fazem velocípedes assim. Eram fabricadas em Águeda, à época, a terra das bicicletas; e penso que a região ainda mantém grandes tradições na área do ciclismo, pois o maior velódromo de Portugal fica para aquelas bandas.
Com essa bicicleta, a partir dos 7 anos de idade, desde Almada, a maioria das vezes sozinho, pedalei até à Costa da Caparica, seguindo-se a Fonte da Telha, Lisboa, Cascais e Sesimbra, sem contar os inúmeros quilómetros que fazia todos os dias perto de casa.
Éramos inseparáveis até o tabaco entrar na minha vida e ter expulsado a Vilar para um canto da dispensa lá de casa, a ganhar teias de aranha. Foi mais tarde oferecida por mim ao filho da nossa empregada, que certamente lhe deu melhor uso. O tabaco, entretanto, só foi definitivamente banido da minha vida há 20 anos.
Nesta manhã fria, pedalando à beira rio, a minha mente ocupou-se destes pensamentos, enquanto ziguezagueava por entre os passantes para não atropelar ninguém; e, por fugazes momentos, revi-me naquele rapazinho franzino, que pedalava furiosamente uma Vilar vermelha pelas ruas de Almada e pelos pinhais da Charneca da Caparica, com os joelhos sempre esfolados das quedas constantes, mas com um sorriso de felicidade estampado no rosto. A felicidade, imagem de marca da inocência, habitava-me naqueles tempos.



sábado, 2 de janeiro de 2021

Mensagem facebuquiana de ano novo

Em cada ano novo que começa, temos por uso e costume modificar algumas coisas nas nossas vidas. Não era por acaso que dantes, simbolicamente, muita gente atirava pela janela mobílias velhas e outros monos diversos. Era uma forma de se desligarem de coisas que não lhes faziam falta e, pelo contrário, só lhes traziam atrapalhações desnecessárias; e também a afirmação de um (re)começo marcado por diferenças positivas.
As redes sociais, da forma como as encaro, têm a virtude excelsa de me possibilitarem fazer novas amizades - tenho conhecido pessoas admiráveis que, de outro modo, jamais tal teria sido possível.
Tudo isto, para além do contacto fácil e imediato com pessoas que me são afetivamente próximas, bem como a possibilidade de exprimir, através das minhas publicações, a pessoa que realmente sou.
Exprimo subjetividade, não crio bonecos de mim mesmo, ou falsas representações, como vejo muito por aí plasmado, nem reproduzo, em repeat, "frases fofinhas de famosos" e mensagens fantásticas de auto-ajuda e encorajamento - na maioria das vezes com atribuições de autoria completamente falsa e/ou inverosímil - pese embora, como é evidente, por assertividade e dois palmos de testa, que julgo possuir, não exponha as minhas misérias e fraquezas para sufrágio do público. Publico o que julgo poder ser mostrado.
O conteúdo dos meus postes ou são da minha autoria ou, caso contrário, os créditos estão sempre identificados. Aceito e vejo como um ato de liberdade individual, publicações com postes requentados, sempre de autoria alheia, retirados de sites propositadamente criados para gente sem imaginação criativa ou ineptidão para a expressão subjetiva.
Não me identifico com Humberto Eco, escritor italiano e inteletual de enorme craveira, que já não está entre nós, oligárquico e elitista assumido, quando, numa entrevista, acentuou a ideia de que "as redes sociais vieram dar voz aos imbecis"
Vivemos, pelo menos na parte ocidental do globo, num mundo democrático e o facto de as redes sociais terem dado a possibilidade a (quase) todos de terem um espaço para se exprimirem, foi o expoente máximo de uma das liberdades democráticas que mais aprecio: a liberdade de expressão.
Neste novo ano de 2021, irei continuar a desconectar "amizades" que não comunicam comigo, jamais interagem; ou, nos casos em que não existe, sequer, a remota possibilidade de um dia a virtualidade passar a um plano presencial - que é o único que realmente me interessa e traz sentido à vida.
Existe uma exceção que são as figuras públicas, que admiro, e cujas vidas (públicas) gosto de seguir. Para eles, serei sempre um "Escuta Zé Ninguém", um anónimo que eles, sem se darem conta, extasiam, mas que dispensa a existência do conhecimento pessoal.
Um bom ano para todos os amigos e amigas e desculpem esta minha franqueza. Sintam-se à vontade para me fazerem o mesmo. Tudo fica mais límpido.

Bem hajam!






domingo, 27 de dezembro de 2020

Aulas de condução



Tirei a carta numa Escola de Condução em Almada, em 1979, num Volkswagen 1300 igualzinho a este. 
Como eu já sabia conduzir, o instrutor, logo pela manhã, despreocupado com as lições que achava desnecessárias, parava sempre o carro junto a uma tasca, longe dos circuitos habituais de aprendizagem, e tratava de se atestar. 

Dizia-me para eu ficar caladinho e que aquilo ficava só entre os dois. E fumava e cantarolava alegremente, ao mesmo tempo que lançava piropos às donzelas que seguiam pelo passeio.
Era um homem bonito, com patilhas e bigode, ar de engatatão, camisa florida, tudo tão na moda no final dos anos 70. 

Na época, abrir o vidro do carro e lançar palavras de charme, mesmo de teor picante, às mulheres que passavam, não só era consentido como tido por um comportamento masculino normal, viril até. 
Mas ele deixava-me conduzir até à Costa da Caparica, para ver o mar, e eu, naturalmente, ficava muito feliz. No fundo, dávamo-nos bem e éramos cúmplices.

Era a minha aula extra, que ele não consentia a mais ninguém.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Chacina animal



Numa montaria, eufemismo cujo significado real significa extermínio organizado de animais, pouco mais de uma dezena de caçadores, aqui para os lados da Azambuja, em terras ribatejanas, divertiram-se a assassinar, pelo mero psicopático prazer de matar, 540 animais (veados e javalis, entre outros).

Não há palavras, adjetivação, para classificar com a força desejada tamanha selvajaria. O que rareará na mente insana desta gente? Qual o prazer que extraem do ato de matar, sem que a legitima defesa, ou a satisfação da necessidade básica de alimento estejam presentes? 

Não duvido que, caso não existisse punição, ainda maior gozo lhes proporcionaria matar seres humanos - just for the pleasure - atividade amplamente praticada pelos nazis, estalinistas, entre outros, há poucos anos atrás.

Virá o tempo em que a caça, a tourada e toda a sorte de atividades de desrespeito, humilhação, tortura e morte dos animais, será encarada pelas gerações vindouras com desdém e tida como selvática a gente que tais atos praticava.
  
Virá o tempo em que o prazer de matar e/ou torturar animais fará parte do catálogo das doenças mentais, para os especialistas, o "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders", conhecido familiarmente pela sigla DSM.