segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Sessenta e uma voltas ao Sol



Aprendi na História que o costume de dar os parabéns e de celebração com o requinte de velas acesas, nos tempos antigos, era para proteger o aniversariante de demónios e garantir segurança no ano vindouro. Entretanto, vencidas que foram as resistências da Igreja, face ao paganismo do costume, a prática enraizou-se e ainda assim se celebra o aniversário de alguém nos dias de hoje.

Por motivos e razões que não convém revelar nesta escrita, há muito tempo que não celebro o dia dos meus anos. Limito-me a agradecer, com sinceridade, às muitas pessoas que perdem um bocadinho do seu tempo para me parabenizar. E nisso o Facebook é um auxiliar precioso, pois, a menos que não revelemos no perfil a data do nosso nascimento - muitas senhoras não o fazem pois gostam de manter o mistério sobre a sua idade real -, os amigos e conhecidos são sempre alertados acerca do momento em que determinado fulano cumpre mais uma volta à roda do Sol.

O ano de 1961 foi de sobressaltos. Nasci um mês depois de Henrique Galvão ter chefiado um assalto ao paquete Santa Maria, com o objetivo de provocar uma crise política contra o regime de Salazar. E, precisamente no mês seguinte, aquele em que nasci, um grupo de angolanos, munidos de facas e catanas, efetuou um assalto à prisão de Luanda e à esquadra da polícia, sendo este ato considerado como o início da guerra colonial portuguesa.

Entretanto, no contexto da Guerra Fria, na Europa, as autoridades da ex-República Democrática Alemã encerravam a fronteira com a Alemanha Ocidental e iniciavam a construção do muro que ficaria
conhecido como o Muro de Berlim.

Alheio a tudo isto, na cidade de Setúbal ( até ao facto de não ser uma criança desejada, mas fruto de um "acidente"), um bebé franzino, o segundo filho de um casal, mais desavindo do que amoroso, dormitava algures num berço no rés-do-chão esquerdo de um prédio familiar.

A história deste petiz, saído da casa paterna com 17 anos de idade para tomar a vida a seu cargo, prestes a fazer 61 anos, tem décadas de peripécias dignas de figurar numa novela camiliana; mas isso é o que cada um de nós sempre diz acerca da sua própria narrativa.

Entretanto, o repositório de memórias em que nos transformamos, esse ninguém nos tira, a menos que alguma demência apague o disco rígido das nossas recordações.

Chegamos ao mundo como se estivéssemos chegando a um país desconhecido para uma estada por tempo indeterminado. Mas não é verdade. O nosso tempo é limitado. Precisamos aprender como viver neste novo lugar e vamos encontrar no caminho pessoas que vão nos amar e nos ajudar a lidar com a vida; e outras que não vão gostar de nós e que nos vão tornar a vida mais difícil, mas temos de aprender a lidar com isso. A resiliência é uma prova de vida, a nossa sobrevivência.
 
Assim é o viver. Sabemos que estamos de passagem. Sabemos que nascemos para morrer, e que cada dia a mais é um dia a menos. Vivemos com a angústia da morte atrás de nós, embora a maior parte do tempo façamos de conta que ela nunca vai nos alcançar. Mas só esquecendo a morte é que é possível seguir em frente e dar um sentido à nossa vida. Viver como se houvesse sempre um amanhã.

Assim dito, parece lírico e simplista, mas acho que é mesmo a melhor solução, pelo menos para mim.



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Deixa o vírus correr



Todos os dias nos noticiários vejo que diversos países por esse mundo fora estão a aligeirar as medidas de contenção e proteção contra o Covid-19. A Dinamarca, salvo erro, vai mesmo abolir o uso da máscara em espaços fechados. Trata-se do primeiro país da União Europeia a levantar as restrições relacionadas com o Sars CoV-2.
 
A medida foi justificada com a elevada taxa de vacinação e com o facto da variante Ómicron ser “menos agressiva”. Mas a notícia está a ser simultaneamente gratificante e preocupante para os dinamarqueses, já que o número de infeções continua a registar máximos diários e os hospitais continuam a trabalhar no limite.

Todos nós, irremediavelmente, mesmo sem possuir valências científicas, opinamos sobre esta catástrofe que, vai para três anos, forra os nossos quotidianos. Eu sou mais um opinante, como tantos outros, mas que fica perplexo ao saber que desde há um tempo, não muito felizmente, morrem em Portugal diariamente, 61, 53, 59 pessoas, sem que os números abrandem. Perante estes factos, como é possível falar-se em aligeirar as medidas de proteção?
 
Estas vexatas quaestios colocam-me as seguintes interrogações: A pandemia já acabou, como alguns iluminados anunciam? Este alijar de medidas é uma forma sub-reptícia de atingir a “imunidade de grupo”? – deixa todos infetarem-se e depois salvam-se os mais aptos e os imunodeprimidos vão para o galheiro. Será que estamos perante uma presuntiva abordagem malthusiana do problema? Uma seleção darwiniana das espécies mais aptas?

Não nos esqueçamos que o sinistro Malthus no “ An Essay on the Principle of Population”, alertava que a população crescia em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos crescia em progressão aritmética e que o crescimento populacional deveria ser controlado, sendo que as epidemias e toda a espécie de doenças, bem como as guerras, eram necessárias ao equilíbrio populacional.
 
Provavelmente estou a efabular cenários que não explicam esta aparente irresponsabilidade de “deixar o vírus correr”, ou, pelo menos, recuso-me a admitir que seja esse o real propósito, mas aqui do alto da minha gritante ignorância cinjo-me aos factos: morrem mais pessoas em cada dia que passa. Qual a sua condição clínica? Tinham comorbidades associadas? Qual a sua idade? Estavam triplamente vacinadas? Em que circunstâncias se infectaram?

Porque será que a DGS, mantendo obviamente o anonimato dos falecidos, não detalha a situação das pessoas que diariamente morrem por Covid em Portugal?


segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Às vezes penso

Às vezes penso que não há chuva que me chegue, momentos que me bastem, nem sequer recordações de risos que me preencham. Por outras palavras: sinto-me permanentemente vazio mas, simultaneamente, com um estranho lastro que me impede de voar, sequer andar, sequer querer o que quer que seja, adiando-me para outro século.

Às vezes também penso que seria fácil desculpabilizar-me, desculpabilizar-te, dizer a mim mesmo (dentro do espírito de “o copo partiu-se”, como se existissem copos com instintos suicidas…) que as decisões se tomaram, em vez de assumir que foram efetivamente tomadas ou, no mínimo, aceites. Também seria fácil ficar à espera que algo acontecesse, tentando apenas manter-me à tona da mágoa, não me asfixiando na angústia enquanto teu nome placidamente me percorre as veias, como lâmina sem destino.

Mas, felizmente, às vezes não penso. Por isso deixo-me arrastar pela suave ondulação do rio que foi nosso por breves mas incendiados momentos, pelas invisíveis correntes com que ele me abraça e que, todos os dias, inexplicável e implacavelmente, me arrastam até teus lábios de nuvem distante, onde me afogo lentamente com um ingénuo sorriso de criança.

Confesso também: às vezes não penso em mais nada que teu corpo que, num estranho parto e em dias de milagre, nasce dos meus olhos sob a forma de lágrima. E aí espero – por mais que eu o queira racionalmente contrariar - de novo por ti. Por ti Mulher, por ti Sonho, por ti Desejo – seja o que for, no entanto por certo maiúsculo.




terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Élio Isidoro Catalão Marofas

 Élio Isidoro Catalão Marofas abominava o seu nome. Nunca se conformou com a bizarria que aflorara a mente da sua mãe, aquando do momento do seu batismo, que se lembrara de o presentear com tal graça. Há muito tempo que sentia bastante desconforto, associado a uma sensação de cansaço, falta de energia e vitalidade, para realizar as suas atividades habituais. Quando lhe perguntavam o que se passava, respondia que não era capaz de explicar. Mas não se sentia bem. Desde há um tempo, começara a colecionar objetos antigos e apenas se interessava por discussões e leituras sobre o tema. Comummente, em conversas entre amigos da sua geração, recordava a sua infância e juventude e os produtos culturais da época, os tempos em que fora realmente feliz. Entabulava este tipo de conversas como uma forma de escapismo e o presente pouco lhe interessava. Os outros escutavam-no, sabendo-o um bom orador e peroravam para que continuasse.

 
A saudade é o que fica daquilo que partiu, dizia ele, daquilo que já não é mais. Saudade é ausência, é o sentimento de vazio que fica daquilo que se foi. Mas às vezes, a saudade é um vazio tão grande que ocupa muito espaço dentro do coração, e aperta tanto o peito que acaba transbordando e escorrendo pelos olhos. São as lágrimas, o líquido precioso que escorre em abundância. Dizem que a palavra saudade, bem portuguesa, não tem tradução noutras línguas. Eu concordo em absoluto. Há quem diga que é sinónimo de nostalgia, mas, no rigor dos termos, não é verdade. Nostalgia representa mais uma sensação de saudade idealizada, por vezes irreal, por momentos vividos no passado, associado a um desejo sentimental de regresso. A idade traz-nos a saudade dos momentos vividos na nossa juventude, quando ser feliz era fácil com tão pouco e tudo era uma descoberta.
 
E o presente, a esperança, Marofas? – Perguntavam-lhe os amigos.

O presente é para mim uma espera por nada, uma delonga desnecessária, acrescentava ele. Toda a minha vida boa se desenrolou no passado. O que se passa agora já não me diz respeito. Limito-me a sobreviver. Camus dizia que toda a infelicidade dos homens nasce da esperança. A esperança é o começo da morte. A minha infelicidade começou quando cresci, quando perdi a inocência das coisas. Se não esperançarmos não nos faremos infelizes. E é possível viver num mundo que existe apenas dentro da nossa mente, alheios ao que nos rodeia no exterior. Num certo momento da vida, não é a esperança a última a morrer, mas a morte é a última esperança.
 
E porque não te matas, Marofas? Porque não colocas um ponto final nesse teu atroz sofrimento de viver? – Perguntavam-lhe os amigos. Porque não tenho a coragem de ser coerente a despeito de estar ciente desta forma de pensar, dizia ele.
 
As conversas decorriam habitualmente à mesa de um café, cercados pelo ruído provocado pelas vozes dos clientes e do trânsito que corria incessante na avenida principal. As palavras de Marofas soavam a um longo solilóquio. Uma espécie de declamação subjetiva que não incitava à participação dos outros tertulianos.
 
Já tinha passado mais de um mês desde a sua última preleção. Na mesa do costume, a mais perto da porta de saída, os convivas habituais estavam quase todos presentes. Comentava-se, ainda, a tragédia. A coragem, infelizmente, surgiu-lhe. A necessidade de buscar a morte como um refúgio para um sofrimento que se lhe tornara insuportável. Um mergulho para o nada. Ainda custava a acreditar. Élio Marofas ingerira mais de 100 comprimidos de Orfidal, uma benzodiazepina que proporciona relaxamento muscular, sedação e efeito tranquilizante. Encontraram-no, passadas duas semanas, morto, na cama, meio despido e em adiantado estado de putrefação.
 
À mesa, nesse dia, todos os restantes tertulianos concordavam que a esperança corresponde à aspiração de felicidade existente no coração de cada pessoa e que quem perde a esperança mais profunda, perde o sentido da sua vida; e sem esperança viver não tem sentido. Faltava, no entanto, alguém com poder oratório capaz de verbalizar esse ensejo por todos partilhado e de sustentar com firmeza essa tese. Todos concordavam que ao Élio tinha faltado a esperança e uma eventual vacina contra o desânimo, capaz de lhe fazer desejar viver e esperar a felicidade. A necessidade da esperança era um dogma por todos aceite, bem como a validade do ato de viver. A pergunta surgia então como inevitável: haveria algum deles, em algum momento, capaz de verbalizar tão bem quanto o Élio este sentimento por todos partilhado? Ou seria fatalmente necessário ser-se como ele: deprimido, desesperançado e nostálgico, para possuir a verve necessária à boa prosa das palavras certas e incertas?



sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

A rua é a nossa casa


Leiria. Uma manhã friorenta, apesar do céu azul e do sol faiscante. O mercado está repleto de gente. Os pregões das ciganas estiolam o ar: " Uma nota de dez euro, uma nota de dez euro! É pr'á cabar! Vamos embora, freguesas! É pr'á cabar o ano!"

É sábado. O facto de ser o último dia do ano é um acaso. Os ritos da cidade continuam iguais aos de todas as vésperas de domingo. A cidade regurgita com pessoas que se movem em todas as direções. Os vendedores ambulantes e as lojas esperam fazer bons negócios.

À beira do Lis, cruzo-me com os habituais corredores, marchantes e passeantes de cães e, junto à margem, observo alguns pescadores, useiros e vezeiros naquelas andanças, que aguardam pacientes que o isco seja mordido.

Mais adiante, depois da Ponte Europa, construída aquando do Euro 2004, sob o viaduto por onde passa o IC2, deparo-me com os vestígios do acampamento de uma grande família de ciganos romenos. Os nossos concidadãos da União Europeia, com o beneplácito das autoridades competentes - em Portugal, e muito bem, não há leis que punam a mendicidade ou o direito a dormir na rua - fizeram do local sua moradia temporária. Diz-se que são nómadas e, como tal, é impossível colocá-los em albergues temporários ou casas de acolhimento, pois contraria a sua opção sublime de vida.

As pessoas passam indiferentes e eu sou a única ave rara que se presta a fotografar e indignar.
Avisto um carro de bebé, roupas de criança estendidas ao sol, muitas mantas e agasalhos diversos, carroças de animais, tudo rodeado por uma imensidão inestética de lixo e dejetos. Vou fotografando e pensando.

Será que os direitos destas crianças a ter uma infância condigna e cuidados de saúde primários, não serão mais fortes do que a opção tomada pelos seus progenitores e que as atinge? Creio que sim.
Será que durante a noite, com temperaturas quase negativas, condições de salubridade nulas e alimentação deficiente, não há um favorecimento doloso do perigar da saúde e da vida destas crianças, a quem não é permitido tomar outras opções? Creio que sim. O que faz o Estado? Nada. O que dizem as leis sobre isto? Dizem muita coisa.

Um pouco por toda a Europa, as leis que visam punir os sem-abrigo por estes viverem na rua estão a multiplicar-se. Ou são passeios que ganham “obstáculos” que os impedem de ali permanecer ou são multas e penas de prisão, bem ao jeito americano, país com tradição neste tipo de abordagem. De forma gradual, alguns países europeus começam a seguir esta tendência. Todavia, também existem novas e honrosas excepções, nas quais Portugal está incluído.

Proliferam as notícias sobre nações que tomaram medidas chocantes de criminalização dos sem-abrigo, penalizando aqueles que fazem da rua a sua casa (como se viver desta forma não fosse uma sanção suficientemente forte). Estas estratégias estão a ser adotadas por governantes de alguns países, que pretendem “mascarar” as cidades, tornando-as aparentemente mais “limpas”, mas que não resolvem o problema da mendicidade.

Questionar estas medidas é pertinente, tendo em conta que uma das principais consequências da crise é precisamente o aumento da pobreza, e que a rua é um destino comum a um número crescente de pessoas que deixaram de poder pagar as suas contas. Esperava-se, desta forma, que os governos estivessem mais sensibilizados e disponíveis para dar apoio aos mais carenciados, e não o oposto.
Pergunto: como e por que motivo é que estas normas são aprovadas, numa Europa aparentemente civilizada e que respeita os direitos humanos, fazendo deles tantas vezes uma bandeira?

No que concerne aos ciganos romenos, que por livre e espontânea vontade, decidiram que a rua é o seu teto eterno e renegam acolhimento, desde que: não sujem o espaço público; não invadam propriedade privada; não obriguem crianças a partilhar os seus ritos; não poluam o meio ambiente, mormente os fluxos de água e os solos; e, por último, não infrinjam normas legais, tudo o mais lhes deve ser permitido. O que restar, obviamente.

Penso eu de que...

Leiria, 31 de dezembro de 2016

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Solex



Quando hoje penso nas Solex, umas bicicletas com motor auxiliar na roda dianteira, quase sempre de cor preta, originalmente produzidas em Courbevoie, França, por uma empresa com o mesmo nome, o meu imaginário invariavelmente navega até os episódios burlescos dos filmes de Jacques Tati. Em especial, detenho-me na cena inicial de “Mon Oncle”, de 1958, onde Mr. Hulot surge, risível, montado num desses ciclomotores.

Conheci as Solex em Almada, nos anos 60, ainda eu era uma criança. Importadas de França, eram possuídas apenas pelos filhos dos paizinhos endinheirados e faziam as delícias e, naturalmente, a inveja dos restantes jovens, que sabiam de antemão jamais poder usufruir de luxos iguais. Ser proprietário de uma Solex e ir para a escola montado num desses ciclomotores, gerava ondas de admiração e suspiros nas camadas femininas que ansiavam por “dar uma voltinha”.

Mais tarde, já nos anos 70, haveriam de surgir os ciclomotores “Honda Amigo” e “Maxi Puch”, bastante mais evoluídos e prenunciadores das motorizadas, já sem pedais e com bastante mais potência e perigosidade.
 
Em 1977, fui um sortudo possuidor de uma Casal de 5 velocidades, a minha primeira motorizada, na qual percorri milhares de quilómetros e que deu inicio à minha paixão pelos veículos de duas rodas, gosto que mantenho até aos dias de hoje.
 
Já nessa época, somente quem tinha Honda, Yamaha ou Suzuky, geralmente motorizadas com motor a 4 tempos e de qualidade de construção inegavelmente superior, granjeava algum estatuto e popularidade. Os restantes, os proprietários das Casais, Sachs e Zundapps, com motorização a 2 tempos, barulhentas, a babar óleo e aparentadas com as motorizadas dos aldeões (que ainda hoje circulam no Portugal profundo), eram muitas vezes motivo de achincalhamento.

O Ter foi sempre uma marca de diferenciação e de estatuto – o Ser pouco importava – e creio que a minha primeira consciência de classe deu-se precisamente por estas alturas: havia os que tinham Hondas e Yamahas, os que tinham Casais e Sachs ou Zundapps e, finalmente, os que nada tinham. Os do meio invejavam os meninos- bem das Hondas e os da base da pirâmide invejavam todos. Desde então o mundo não mudou nadinha.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Sobre a felicidade



Atrevo-me a dizer que toda a gente, alguma vez na vida, já foi amada. Na infância, na adolescência, na idade adulta, no liceu, na Universidade, ou até mesmo no envelhecimento, uma mãe, um pai, uma avó, um filho, uma filha, um homem, uma mulher, alguém se cruzou ou se manteve por perto, provavelmente, e amou-nos bem. É, no mínimo, uma atitude de presunção agastada querer receitar a felicidade como quem desfolha as páginas do Pantagruel, e nele encontrar mil e uma formas de fazer bolinhos de felicidade e alegria esfuziante.

O segredo da felicidade é um segredo de Polichinelo – aquela personagem clássica da Comédia Dell’arte, das farsas napolitanas e dos teatros de marionetas. Corcunda, barulhento e quezilento, é a figura do bobo da corte, sempre desbocado, dizendo o que deve e o que não deve num tom jovial e folgazão. Os segredos de Polichinelo são por isso a fingir. São farsas dos verdadeiros segredos, que, para que o sejam, devem permanecer ocultos, escondidos, indecifráveis. Qualquer segredo partilhado, ainda que não transborde uma geografia restrita e nunca chegue à praça pública, perde o essencial da sua razão de ser. Quando se partilha um segredo, alivia-se a carga, descarrega-se o peso de se ser, ou de se julgar ser, o único que sabe ou conhece aquela coisa, que é sempre terrível e oprimente, que delata alguém ou repõe uma verdade escamoteada. Entre o peso dos que contêm e se contêm de mais e a leveza dos que deixam escorrer palavras que despem a alma, deve haver uma justa medida para o que se mostra e para o que se esconde.

A felicidade depende, em parte, de condições interiores e, em parte, de condições exteriores. Todas as pessoas que gozam de boa saúde e podem satisfazer plenamente as suas necessidades julgadas elementares, à partida, deveriam ser felizes. Acontece que as coisas não se passam bem assim. A felicidade, nos humanos, é uma coisa muito rara, ao menos como estado permanente. Os animais são felizes desde que tenham boa saúde e bastante comida. Tem-se a impressão que os seres humanos deveriam sê-lo em iguais circunstâncias, mas tal não sucede. Creio que a maior fonte da infelicidade reside no desamor, nas ideias erradas que se tem sobre o mundo, erradas éticas, errados hábitos de vida que provocam a destruição desse gosto natural e desse apetite pelas coisas realizáveis de que depende afinal toda a felicidade.

Uma das principais causas da falta de gosto pela vida é o sentimento de não ser amado, ao passo que, inversamente, o sentimento de ser amado encoraja mais do que qualquer outra coisa. Por variadas razões, um homem pode, por exemplo, considerar-se uma criatura tão horrível que julgue inadmissível alguém amá-lo; pode também ter-se acostumado na infância a receber menos afeto do que as outras crianças; e pode na realidade ser uma pessoa de que ninguém goste. Mas neste último caso a origem do mal reside provavelmente numa falta de confiança em si próprio motivada por precoces infortúnios. O homem que não se sente amado pode tomar, em consequência disso, várias atitudes. Nalguns casos, faz esforços desesperados para conquistar a afeição dos outros, às vezes até por meio de atos excecionais de bondade. Procedendo assim, no entanto, tem poucas probabilidades de êxito, pois a razão da sua bondade facilmente será compreendida pelos que dela beneficiam e a natureza humana é de tal maneira constituída que testemunha afeição com maior felicidade àqueles que parecem pedi-la menos. Portanto, o homem que se esforça por conquistar afeição por meio de ações generosas torna-se um desiludido com a experiência da ingratidão humana. Nunca lhe ocorre que a afeição que procura comprar tem muito mais valor do que os benefícios materiais que oferece em troca e, no entanto, é a consciência dessa verdade que inspira todas as suas ações. Outros homens, ao verem que não são amados, tentam vingar-se do mundo, instigando guerras e revoluções ou escrevendo com a pena molhada em fel. A grande maioria, homens como mulheres, quando sentem que não são estimados, afundam-se num tímido desespero, aliviado somente por fulgores momentâneos.

O mundo é esta amalgama, lugar confuso, onde eu vivo, contendo coisas agradáveis e desagradáveis, em desordenada sequência. É-me, contudo, irreprimível esta conta-corrente de pensamento e reflexão, sobre os fluxos que julgo serem os mais importantes nesta curta experiência de viver; este percurso aleatório – viagem de ida – onde ditados tais como: «A palavra é de prata, o silêncio é de oiro», não colhem em mim o santuário devido. Já se sabe que muito mais difícil do que abrir a boca e soltar o verbo para largar frases feitas, impressões ambivalentes, palavras entre o muito e o nenhum conteúdo é guardar silêncio. Eu encaro o silêncio como uma mera pausa comunicacional, uma forma de pontuar o discurso, de terminar um assunto e partir para outro. Perdoem-me, pois, aqueles que me lêem por ainda não ter terminado este fiar de tomadas de consciência sobre os méritos e deméritos da felicidade mas, mais do que qualquer descoberta alquímica, um dos enigmas mais felizes da vida, reside no facto de encontrarmos todos os dias pessoas a quem tudo o que há de mal parece ter acontecido e, ainda assim, mais do que sobreviventes, são alegres viventes, sôfregos de vida, de bem com ela, e, de caminho, com os outros com quem se cruzam, criaturas de histórias muito banais e acontecimentos quase casuais. São pessoas para quem o caminho do Bem é uma opção consciente. Para quem não entendeu, falo-vos dos meus heróis.

(texto de 2011)


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Lido por aí: “70% dos internados nos cuidados intensivos em Lisboa não estão vacinados.”



Lido por aí: “70% dos internados nos cuidados intensivos em Lisboa não estão vacinados.”
Os negacionistas, seja a maltinha (sempre) do contra, os que acreditam que nos injectam chips no corpo para nos controlarem, ou que predizem que todos os vacinados têm apenas dois anos de vida, têm direito a existir. A nossa complacência e cultura democrática, que endeusam a liberdade de expressão como um Direito Fundamental, permitem o livre arbítrio no exercício da estupidez (ainda não foi proibida) e da ignorância superlativada.

Invoca esta gente que o direito de não ser vacinado é um Direito Fundamental. Na verdade, a recusa de tratamento médico fundamenta-se na liberdade de consciência, de religião e de culto, bem como na salvaguarda da integridade física e moral, todos considerados Direitos Fundamentais pela Constituição da República Portuguesa. Também o Código Deontológico da Ordem dos Médicos impõe respeito pelas opções religiosas, filosóficas ou ideológicas dos doentes, garantindo que recebem o tratamento e conforto moral adequados à sua convicção.

Esta disposição foi expressamente pensada para todos aqueles que, por qualquer motivo, não desejam que lhes seja ministrado um determinado tratamento face a uma dada circunstância limite. Todos certamente se lembram dos Jeovás e da sua recusa em receber transfusões de sangue, mesmo em situações que possam implicar a perda da vida.

Na minha ótica, cada um é dono da sua vida, do seu corpo e, em situações extremas, que impliquem doença grave, irreversível e letal, com grande sofrimento, deve poder decidir sobre o seu destino: aceitar tratamento paliativo ou abreviar a vida e morrer com dignidade e mínimo sofrimento.

Uma coisa totalmente diferente é alguém escudar-se nas normas constitucionais que defendem o livre arbítrio, sobre a recusa de tratamento médico ou administração de vacinas, quando essa posição coloca em risco a vida da restante população. O meu Direito cessa quando atinge o Direito do outro: o Direito de não ser contaminado, de não adoecer e de não morrer face à obstinação do outro não se querer vacinar. Não é preciso ser jurista para saber/entender que é desta forma que se deve perspetivar a situação.

Como se não bastasse, a regra elementar de que qualquer Direito cede perante outro Direito mais forte – as situações na lei são imensas e ilustrativas – que raio de justiça é esta que obriga o cidadão vacinado e pagador de impostos a patrocinar os tratamentos médicos dos negacionistas que, entretanto, se infetaram e eventualmente infetaram outros?

Que justiça é esta que permite que os profissionais de saúde deixem de acudir utentes com outras patologias, para tratarem 70% de infetados com Covid 19 na cidade de Lisboa, que se recusaram a ser vacinados?

Quem responderá pelas vidas que se vão perder, pelos tratamentos e cuidados de saúde que deixam de ser prestados, porque os técnicos de saúde estão quase todos mobilizados a tratar os negacionistas?

Em Singapura, quem não se vacinar, caso adoeça com Covid, terá de custear os seus próprios tratamentos, já que o Estado não o fará.

Sou obrigado a usar o cinto de segurança quando conduzo o meu automóvel e, quando ando na minha mota, tenho de usar um desconfortável capacete na cabeça - que me tem levado parte do cabelo. Caso não o faça, as coimas são pesadíssimas. Por que raio não posso partir o (meu) externo ou esmagar a (minha) cabeça, ambos partes do meu corpo e que só a mim dizem respeito, exercendo o livre arbítrio de não me proteger?

A propagação de doenças infeto-contagiosas é um crime punido pelo nosso Código Penal e por isso ainda menos entendo a argumentação dos negacionistas. E o que mais me preocupa é que vejo bastantes pessoas inteligentes, seres pensantes, que continuam a negar a ciência, burilando teses absurdas para justificar o seu Não à vacinação.

A vacinação contra o Covid deveria ser obrigatória e a falta dessa medida já peca por tardia.

Se a nossa espécie ainda não se extinguiu, face à enormidade de vírus e bactérias que nos têm acompanhado ao longo da História da Humanidade, foi precisamente devido aos avanços da ciência e as vacinas têm ocupado um papel crucial em todo esse processo.

Infelizmente, o fanatismo e as crenças absurdas, uma vez instaladas na nossa mente, desafiam quaisquer esquemas lógicos de pensamento e são um convite aos caminhos da irracionalidade. Sempre assim foi e sempre assim será.




segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Ómicron? Chamem o Jack Estirpador!



O Instituto Ricardo Jorge revelou esta segunda-feira que já foram confirmados 13 casos da variante Ómicron em Portugal, em jogadores do Belenenses SAD. Mas o virologista Pedro Simas considera que, dada a elevada taxa de vacinação contra a covid-19 em território nacional, o país está numa situação endémica e não pandémica, pelo que a nova variante não será um problema para o país. O especialista acrescenta que, com o passar do tempo, vão sempre surgir novas estirpes do SARS-CoV-2.

Monsieur de La Palice não teria dito melhor.

A propósito da virulência nos tempos que correm, há especialistas demasiado optimistas, como é o caso do Doutor Simas, outros demasiado pessimistas e ainda os moderados ou prudentes nas afirmações. Para compor o ramalhete, ainda temos comentadores televisivos, sem qualquer preparação sobre o assunto, que todos os dias, em horário nobre, bolsam opiniões e ditam sentenças sobre o estado da coisa.

A Direção Geral de Saúde, agora mais prudente e ajustada, não fora pelo menos isso ter aprendido, já não afirma algo e passados momentos o seu contrário.

Assertivo, ou ajustado, como se prefira o epíteto, seria, outrossim, investigar, constatar e somente depois informar com certeza cientifica a população.
 
Mas acontece que a sede de informar, a necessidade de noticiar, com toda a tramóia de interesses económicos que lhes subjazem, é mais forte do que a verdade e o rigor, que nestes tempos sombrios seriam desejáveis para maior conforto das populações.

Sobre a variante Ómicron, segundo li, a única coisa que realmente se sabe é que é mais virulenta que as demais, mas não necessariamente mais letal, nem tão pouco se sabe se as atuais vacinas são ineficazes perante a nova estirpe. Sejamos prudentes, sim, mas sem perder o tino e entrar em irrealidades.

Todos os anos as vacinas gripais são ajustadas por causa das cambiantes do vírus. Provavelmente vamos conviver com o Covid – recordam o nome de algum vírus ou bactéria que se tenha extinguido totalmente no planeta? – para sempre, torná-lo menos letal, como parte do leque de doenças potencialmente mortais que abreviam a nossa existência.

Quase dá vontade de chamar o Jack Estirpador para nos livrar destas estirpes infinitas, mas afinal vamos todos morrer de alguma coisa. 



quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres



Hoje assinala-se o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Na verdade, todos os dias são comemorativos de alguma coisa e, na falta de um calendário maior, celebram-se vários factos relevantes no mesmo dia; alguns certamente mais importantes e justificáveis do que outros.
 
Não deixa de ser triste constatar que, infelizmente, a violência contra as mulheres, seja no seio conjugal, ou numa relação de namoro, apesar de uma assinalável evolução das mentalidades, proporcionada pela educação e por uma sociedade mais informada, continua a existir.

É, no entanto, sinistro constatar que a violência cometida contra as mulheres acontece quer entre jovens e/ou seniores, sejam pouco ou muito escolarizados, não poupando, na sua transversalidade, qualquer camada sociocultural.
 
Recordo a rocambolesca história de um médico, digno de um remake da novela gótica Jekyll e Mr. Hyde, escrita por Robert Louis Stevenson, figura de proa nos meandros sociais de uma pequena cidade, onde se emproava em cargos políticos ao mesmo tempo que praticava medicina, que sovava a mulher a ponto de um dia lhe ter partido ambos os braços. Esse sociopata, querido e endeusado pela população, figurão mestre em manipulação e embuste, chegava a dar consultas grátis como forma de se promover, com vista a atingir os seus propósitos de ambição pessoal.

O mito da “família idealizada” levou-nos a pensá-la como um lugar de afetos e de expressividade íntima, onde ninguém tinha o direito de interferir: “Entre o marido e a mulher ninguém mete a colher”. Esta idealização associada a outros mitos foi, em parte, responsável pela negligência da gravidade do fenómeno da violência exercida contra as mulheres, considerando-a, muitas vezes, como uma componente normal num relacionamento conjugal.

As nossas sociedades estão repletas de inarráveis crueldades cometidas contra as mulheres e outros membros da família. No nosso país, apesar de se supor que é um fenómeno que afeta inúmeras famílias, só recentemente é que foi colocada de forma evidente na agenda política nacional.
 
Há coisas que, apesar de já contar com seis décadas de existência, ainda me deixam perplexo. Como é possível um homem agredir fisicamente, ou psicologicamente, uma mulher, ainda que um facto grave, que justifique colocar um ponto final num relacionamento, tenha acontecido?
 
As relações amorosas devem subsistir enquanto são motivo de felicidade para ambos os intervenientes e a coragem de as terminar, quando a sua manutenção já não é desejável, não é desonra para ninguém. Assertivamente é mesmo o que se deve fazer, pois o tempo tudo sara.

Ao findarmos um relacionamento tóxico estamos dar, a nós mesmos e ao outro, a oportunidade de um reencontro com a tão desejável paz perdida. Ainda que a encontremos apenas dentro de nós mesmos.