quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Atomic Rooster na Piedade



Os Atomic Rooster, uma banda de rock progressivo britânica, cujo primeiro baterista tinha sido Carl Palmer, à data já membro do prodigioso trio, Emerson, Lake & Palmer, atuaram em 1973 na Cova da Piedade. Foi a primeira banda de rock estrangeira a cujo concerto assisti ( os Black Sabbath e os Procol Harum estiveram em Cascais no mesmo ano e o Elton John em Vilar de Mouros ).

Antes do 25 de Abril, os concertos pop/rock, aqui no jardim à beira mar plantado, eram escassos e cada vez que uma banda estrangeira atuava, a juventude endoidecia por completo e os bilhetes esgotavam muitos meses antes do evento.

Em 1973, tinha eu apenas 12 anos de idade, na noite em que teve lugar o concerto, juntamente com alguns amigos, conseguimos ludibriar o porteiro e entrámos à borla no salão de festas da SFUAP (Sociedade Filarmónica União Artística Piedense).

Foi o meu primeiro contacto com: guedelhudos com tiras de pano na cabeça a segurar o cabelo; barbudos com os pulsos decorados com pulseiras de missangas; umbigos à mostra; calças à boca-de-sino; maxi casacos de ganga; saltos altos; bornais militares a tiracolo; óculos coloridos à John Lennon, tudo mesclado com o forte odor de uma substância que pairava no ar, mas que à data não conseguia identificar.

Fiquei junto ao palco a admirar os músicos, estarrecido com o som estridente das guitarras, com os fumos de palco e os jogos de luzes, sempre com um olho na entrada, não fosse um dos porteiros descobrir um puto no meio daqueles hippies fim de estação da Cova da Piedade.

Nenhum de nós foi descoberto, até porque a sala estava demasiado cheia e na penumbra. Creio que naquela noite perdi grande parte da minha inocência. Os meus pais nunca souberam que eu havia estado num concerto rock. Pensavam-me em casa de um amigo. E ainda bem.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Tolan o encalhado



Nos princípios de 1980, eu morava e trabalhava em Lisboa e estudava à noite na Universidade, mas utilizava com alguma regularidade os cacilheiros, uma vez que nunca me desprendi da cidade de Almada. Numa manhã de nevoeiro do mês de fevereiro, que bem recordo, o porta contentores Tollan, de bandeira britânica, chocou, em pleno estuário do Tejo, com um navio sueco, arrastando para a morte 4 dos seus 16 tripulantes.

Seguiram-se uma longa saga de tentativas frustradas de remover o navio e durante quase quatro anos, o Tollan permaneceu encalhado em frente à principal praça lisboeta e entrou no anedotário nacional.

Chegou-se ao desplante de se publicarem mapas turísticos da cidade de Lisboa com a representação do Tejo e do navio encalhado.

O nome Tollan, na sua versão aportuguesada, Tolan, deu nomes a cafés, restaurantes e a bares de diversão noturna lisboetas e entrou no léxico como sinónimo de "encalhado".

Os jantares de solteiros passaram, por exemplo, a designar-se como "jantares tollan", já que coloquialmente "estar encalhado" era um termo que se aplicava àquelas pessoas que permaneciam no estado de solteiro, fosse por vontade própria ou por um qualquer infortúnio.

Com a remoção do navio das águas do Tejo e o aparecimento de novas gerações desconhecedoras deste episódio, o termo Tolan, com a significação que à data tomou, caiu em desuso.

Voltámos ao useiro e vezeiro termo "encalhado", para designarmos de forma torpe as pessoas que estagnaram no celibato.

Em 1963, tinha eu dois anos de idade, um violento incêndio destruiu, na sua quase totalidade, a última nau portuguesa da chamada "Carreira da Índia", a fragata D. Fernando II e Glória, mantida ao serviço da Marinha Portuguesa entre 1845 e 1878.

A fragata encontrava-se fundeada em pleno estuário do Tejo, no Mar da Palha, pois servia então de sede à Obra Social Fragata D. Fernando, uma instituição destinada ao acolhimento de rapazes oriundos de famílias de parcos recursos económicos e que ali recebiam instrução escolar e treino de marinha.

Já em adulto, durante algum tempo, insisti com o meu falecido pai, dizendo que me recordava de estar ao seu colo, na varanda da casa de Almada, a assistir ao incêndio. Ele dizia que era impossível que eu com dois anos de idade tivesse memórias, mas o detalhe com que descrevi o momento vivido acabou por o convencer. Na verdade, nem ele nem ninguém, me tinha contado que eu assistira ao incêndio ao seu colo e à intervenção dos bombeiros nas águas do Tejo.

Sabe-se que por volta de um ano e meio e três anos, a capacidade intelectual das criança aumenta e vai melhorando a memória aos poucos. Aos quatro anos, segundo a melhor doutrina, as áreas responsáveis pela memória amadurecem e começam a existir lembranças.

O estranho de tudo isto é que dificilmente consigo recordar episódios recentes, mas retive, ainda que em esboço, muitas cenas passadas na minha mais precoce infância.

Após o incêndio, o remanescente da fragata foi rebocado para uma área fluvial com pouca navegabilidade e permaneceu enterrada no lodo durante quase trinta anos. Somente a partir de 1992 foi submetida a um aturado processo de reconstrução, a tempo de ser um dos ex libris da Expo de 1998.

Ambas as histórias comungam um facto que é um naufrágio, mas o encalhamento da nossa fragata, contrariamente ao caso do Tollan, não deu origem um neologismo coloquial, do tipo: "Então, ainda estás D. Fernando e Glória?" - para significar "ainda estás solteiro/a?

Porventura, o cizentismo do regime e a crónica falta de sentido de humor dos bimbos que manipulavam os mecanismos da censura, em tudo o que respeitasse a "brincar com símbolos nacionais", jamais permitiria que alastrasse uma piada de nenhuma conveniência política.

O episódio da fragata D. Fernando II e Glória foi, em alternativa à jocosidade, aproveitado pelo regime para exaltação de um dos símbolos nacionais, a bandeira. Os órgãos de comunicação social da época, veicularam a notícia da história de um bombeiro que, vendo o maior símbolo nacional em risco de ser consumido pelas chamas, com risco da sua própria vida, conseguiu arrear a bandeira e guardá-la em lugar seguro.

O bombeiro foi naturalmente condecorado e, anos mais tarde, confidenciou que tinha sido imerecida a honraria, pois tudo não tinha passado de uma história fabricada.

Foi preciso Abril chegar para se poder brincar com naufrágios, Tolans e encalhados.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Adeus Bernardo



Bernardo Bertolucci, um dos maiores realizadores italianos e do panorama cinematográfico internacional, para alguns, mais famoso pelo inolvidável e polémico filme de 1972, "Último Tango em Paris", com Marlon Brando e Maria Schneider, faleceu hoje aos 77 anos de idade.

Os media deram conta do sucedido sem grande destaque, como se a sua morte não tivesse o mérito suficiente para ser notícia.

Desapareceu hoje um dos maiores diretores cinematográficos de sempre, realizador de filmes como: "O Último Tango em Paris"; "O Conformista"; "O Último Imperador"; "Novecento"; "Um Chá no Deserto", "O Pequeno Buda", só para citar os que me vêm à memória.

Devo-lhe muitas alegrias, porque os seus filmes ajudaram a construir o meu imaginário e tenho a certeza que pairam no forro da minha imaginação.

Ganhador de dois óscares com a película "O Último Imperador", Bertolucci recebeu ainda numerosos prémios e nomeações, atribuídos pelas mais altas instâncias ligadas à sétima arte. Era uma das figuras mais respeitadas no mundo do cinema de autor - descartado o "trash cinema" e a vertente comercial, para gáudio dos simple mind.

A cultura artística sempre foi tratada com desdém (coisa das elites) mas, pior do que isso, é cada vez maior a tendência para incluir nela formas bárbaras e cruéis de diversão, bem como entretenimentos primários e de fraco gosto. Não nos pasmemos se qualquer dia o futebol também for considerado uma arte. Quem sabe, a oitava arte, já que a sétima, felizmente, está tomada e é nossa.

Descanse em paz, Bernardo Bertolucci

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Contra as touradas



Há mais de 2000 anos, morriam, vítimas de formas criativas, nas mãos de gladiadores ou nas garras de animais, toda uma sorte de pessoas. Esses sacrificados podiam ser ladrões, soldados desertores, escravos ou, apenas, cristãos.

Ser condenado à morte, devorado por animais em coliseus, tinha até nome: damnatio ad bestias e ao longo de três séculos, desde a origem do cristianismo até a fé se tornar a religião oficial do império romano, esta prática perdurou.

Hoje, volvidos dois milénios, certos povos, que se afirmam pertencentes ao primeiro mundo civilizacional, para gáudio de uma multidão sádica, que regozija com gritos e incitamentos, tudo sob um pano de fundo musical - a música do suplício e da morte - , praticam a tortura e a morte em animais em arenas de coliseus (as chamadas praças de toiros - decalcadas dos antigos coliseus romanos); e chamam-lhes "espetáculos culturais".

A mutilação genital feminina também é considerada uma tradição em muitos povos e nem por isso não a repudiámos, criminalizámos e julgámos menos bárbara. Perante a tradição e o repúdio visceral pela tortura e morte dos animais, dois direitos em conflito, devemos seguir a regra do Direito mais forte como forma natural de superar a clivagem. Não há dúvidas de que a tourada é uma exceção bizarra a todas as leis e princípios pelos quais nos regemos e pautamos.

Acredito que é uma questão de tempo até que a existência das touradas seja uma mácula vergonhosa que assombrará as gerações presentes e vindouras que, perplexas, se interrogarão: como foi possível eles terem feito isto?!

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Novembro apagou nas buganvílias
seus nomes brancos, roxos,
escarlates.
É mais difícil regressar a casa:
... o caminho disfarçou, emudeceu o
seu rosto nos muros e nas grades.
- Por onde seguiremos
sem que o outono espesso nos
trespasse?

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O vendedor de "banha da cobra"


Das muitas profissões que desapareceram, motivadas pelo abre olhos que os novos tempos trouxeram à população em geral, a que mais saudades me deixa é a do vendedor da "banha da cobra".

O vendedor da "banha da cobra" não é uma personagem de histórias de ficção, como muitos jovens da atualidade pensam. O vendedor de banha da cobra existiu efetivamente e arrecadava imenso dinheiro pelas terras por onde passava.

Todos sabemos que a banha da cobra não serve para nada, mas a convicção que esse vendedor transmitia, através duma oratória bem estudada e estruturada, convencia muita gente sobre as capacidades infinitas dos milagrosos medicamentos que apregoava.

Sentado na cadeira do tempo, recuo meio século e dou por mim, criança, fascinado no meio de uma multidão, composta sobretudo por donas de casa e reformados, junto ao velho mercado de Almada.

Visualizo, junto ao mercado da vila de Almada (Almada só foi elevada à categoria de cidade em 1973), um homem bem parecido, trajando um fato azul escuro com riscas brancas e uma gravata com cornucópias douradas, grossos anéis de ouro enfiados em vários dedos e doses excessivas de Bill Cream no cabelo. Está em cima de uma cadeira (por vezes, sobre o estrado de uma carrinha) que lhe serve de púlpito improvisado, para melhor despejar a sua oratória. Tem um microfone (nos tempos mais arredados usavam um megafone, o que tornava a cena ainda mais feliniana) tapado por um lenço (artefato importante, pois aparava os perdigotos que iam largando, à medida que se empolgavam no discurso) preso por uma armação que lhe deixa as mãos libertas para melhor gesticular e mostrar os produtos que apregoa.

Alega, com veemência, que o conteúdo das saquetas que tem dentro das várias malas abertas que o ladeiam, tudo curam: impigens, mau-olhado, torcicolos, urticária, febre dos fenos, dentes, nervos, escleroses, artroses, entorses, diarreias, sarampo, escarlatina, depressões, espinhela caída, terçolhos, verrugas, cravos, desmanchos, problemas renais e/ou figadais, entre outros.

A certa altura, num passe de mágica, surgindo do nada, exibe numa das mãos um grande boião de vidro com umas grandes pedras esverdeadas e negras dentro; e, de seguida, outro boião, um pouco maior do que o anterior, com aquilo que parece ser uma pequena cobra esverdeada conservada em formol - como aqueles animais que observámos nas aulas de Ciências da Natureza.

A populaça está extasiada e escutam-se gritos de sentido horror e espanto. O vendedor está ao rubro, pois sente que finalmente tem o povo nas mãos. A manipulação começou a surtir o efeito desejado e o clímax foi atingido.

"Minhas senhoras, meus senhores! Estas pedras foram retiradas do ventre de uma rapariga com 20 aninhos. Ela queixava-se com fortes dores na barriga e nenhum médico lhe conseguia valer. Os pais dela gastaram toda a fortuna que tinham e correram tudo o que era hospitais! Após tomar estas saquetas milagrosas durante uma semana, começou a expelir estas pedras. Depois, como se não bastasse, expeliu finalmente esta cobra, que vocemecês estão a ver, que a estava a comer por dentro! E é este remédio que vos quero oferecer. Não custa nem 20, nem 15, nem 10! Custa apenas cinco escudos, e quem levar dois leva um totalmente de graça. Um para aquele senhor, outro para aquela menina... e enquanto eu vou lá à frente receber o dinheiro, a minha mulher vai lá atrás distribuir as saquetas..."

De repente toda uma multidão acena com uma nota de 20 escudos, tudo para ser gasto em saquetas ( o conteúdo era na maior das vezes farinha moída). Completamente suado, com a face rubra do desgaste e a voz rouca, resta ao vendedor da "banha da cobra" ajudar a sua esposa no espoliamento do incauto povo, disposto a levar quatro saquetas ou mais, para um tratamento mais eficaz.

Tanto quanto se sabe, nunca um vendedor de "banha da cobra" foi alguma vez acusado de lesar a saúde pública e é sabido que pagavam licenças camarárias, para uso dos espaços das feiras, como qualquer outro comerciante.

O conteúdo das saquetas, pelo que sei, era simples farinha moída que, tal como o Melhoral, não fazia nem bem nem mal. Mas o efeito placebo devia funcionar, pois escutei casos, relatados à minha mãe, de pessoas que dizem ter melhorado das suas maleitas depois de fazerem um tratamento completo.

Nunca mais vi nenhum vendedor da "banha da cobra", figura tão usual nos mercados e feiras dos anos 60. O mais parecido que conheço são os pastores das Igrejas Evangélicas que por aí pulsam, com as suas gravatas berrantes, fatos de corte datado, mas com formas muito mais subtis e sofisticadas de comunicação.

A promessa de cura de todas as enfermidades, a vida em esplendor que auguram para todos os que neles acreditem, acontece depois da multidão estar hipnotizada com o seu "dom da palavra", artes manipulatórias de pobres de espírito, cativos na orfandade da sua parca inteligência. É nesse momento de irracionalidade e êxtase, que os crentes se despojam do parco dinheiro que possuem, em troca de uma cura ou de um milagre redentor nas suas vidas.

Os vendedores da "banha da cobra", transmudados noutros personagens que se lhes assemelham, sempre hão-de existir, pois faz parte do roteiro do mundo a sempiterna capacidade manipulatória dos mais fortes sobre os fracos de espírito. E nesta coisa de enganos, a fronteira entre o licito e o não licito é ténue. Não há salvação para quem quiser ser enganado. É deixá-los ir, como dizia o outro...


domingo, 21 de outubro de 2018

O AEC Regent III





O AEC Regent III, fabricado no Reino Unido e usado no transporte público londrino, era o autocarro double deck usado pela Carris em Lisboa, desde os anos 50 até meados da década de 80 do século XX.

A sua cor verde azeitona, o matraquear inconfundível do enorme motor de 9.6 litros e o ruído típico dos travões operados por pressão de ar, tornavam-no inconfundível no trânsito lisboeta.

Ainda gaiato, recordo-me de ter por eles um verdadeiro fascínio, agora num desfiar de memórias:

O teto dos autocarros a roçar as ramadas mais baixas das árvores da Avenida da Liberdade, provocando, por vezes, a fuga de muita passarada que por lá abundava; a forma como a carroçaria chiava e adornava completamente nas curvas mais apertadas; a cabine do chofer, parecida com uma cápsula, com uma porta individual, onde o condutor se agarrava a um volante primitivo, sem direção assistida, forrado com fita isoladora verde, fazendo esforços enormes para manobrar o gigantismo do veículo; a escada traseira (nalguns modelos era na dianteira) elíptica, onde mal nos segurávamos quando o autocarro fazia uma travagem ou uma curva mais apertada (nunca esperavam que as pessoas estivessem sentadas para arrancar); os bancos de napa castanha; as luzes dianteiras, a grelha frontal e o tampão do radiador (reminiscências dos calhambeques) - o radiador era frequentemente reabastecido com água pelos motoristas, que transportavam na cabine um jerry can e um funil, ambos verde azeitona (a cor era a marca da empresa), pois os veículos aqueciam muito, especialmente no verão.

Cheguei a ver um chofer que se queimou gravemente quando estava a desenroscar o tampão do radiador.

Nessa época, sem direitos, greves ou reivindicações, os chofers levavam uma vida desgastante: conduziam veículos primitivos, desconfortáveis, lentos e pesados, sem ar condicionado, com mudanças manuais, sistemas de travagem arcaicos e suspensões duríssimas, eram obrigados a usar farda, fosse verão ou inverno e faziam muitas vezes de mecânico, já que a manutenção e as reparações simples ficavam por sua conta.

Delicioso é, hoje, recordar-me criança, numa época que dista 50 anos do mundo atual e trazer à colação algumas sinestesias que então forravam o meu imaginário. Nesses tempos a vida era bastante dura, mas a saciedade era mais facilmente atingida - as pequenas coisas tinham outro sabor, pois sabiam a grandes coisas.




terça-feira, 9 de outubro de 2018

Em memória do Amadeu Ferreira



Hoje, a propósito de nada, lembrei-me do Amadeu Ferreira, de quem fui colega na Faculdade de Direito de Lisboa e dos seus celebérrimos apontamentos baseados nas aulas do Prof. Dr. Rui Pereira (aquele que foi ministro da administração interna, esse mesmo), que eram tão bons a ponto de várias gerações de alunos terem estudado a cadeira por eles. Há casos, inclusive, de alunos que se limitaram a ler a dita sebenta e passaram na disciplina com uma nota nada vergonhosa.

Recordei o Amadeu como o melhor aluno de Direito da minha geração (no 4º ano da licenciatura já era monitor convidado) e que mais tarde se tornou advogado e professor da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Foi também um dos principais responsáveis pela promoção da língua mirandesa e traduziu várias obras importantes da literatura portuguesa para o mirandês. Era presidente da Associação de Língua e Cultura Mirandesas (ALCM), presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes, vice-presidente da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico de Bragança e, desde 2004, comendador da Ordem do Mérito da República Portuguesa.


Quis o destino que em 2015, com 64 anos de idade, um tumor cerebral, por ironia, instalado precisamente na parte corporal mais insigne deste vulto da inteligência e cultura portuguesa, lhe colhesse a vida.

Não sei o que teria sido de mim sem os apontamentos de Penal I do Amadeu que, dizem, eram um misto de aulas desgravadas do Prof. Rui Pereira, com interpretações e glosas feitas com mestria pelo insigne aluno.

Gravar as aulas plenárias dos professores ( com o consentimento dos mesmos) e depois passar o conteúdo das mesmas para o papel, era uma tarefa hercúlea, mas, com um pouco de sorte, durante um ano letivo completo, calharia uma única vez a uma parelha de alunos. Claro que todos colhiam o beneficio, pois fazia igualmente parte da tarefa fornecer cópias a todos os alunos que fizessem parte do grupo e receber, do dito grupo, as cópias das outras aulas.

Era um sistema (quase) perfeito mas ninguém podia falhar.

Mas, como em tudo na vida, há sempre um lado anedótico:

A colega X, tendo ficado encarregue de gravar e desgravar uma determinada aula - a cidade universitária é constantemente sobrevoada a baixa altitude por aviões comerciais, pois fica na trajetória de aproximação à pista principal do Aeroporto da Portela - não consegui descortinar determinadas frases e sempre que havia lapsos do texto, desenhava um avião. E foi assim que, um dia, cerca de 80 alunos que integravam um grupo de alunos-desgravadores, recebeu a fotocópia de uma aula desgravada, com frases interrompidas a meio por desenhos de aviões. Era hora de ponta, disse ela. Não sei se a desculpa humorística teve uma boa receção.


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Reencontro


Para melhor me entender, foi-me sugerido contatar com um rapazito na casa dos oito anos, uma idade em que as memórias já são firmes, que responde pelo meu nome, no sentido de perceber o que ainda me liga a ele. Sem saber bem como o fazer presencialmente, uma vez que a máquina do tempo não passa de uma efabulação literária, pensei que através da meditação conseguiria atingir em parte os meus propósitos. E foi assim que um dia me deitei na cama, de olhos fechados, fingindo que meditava, sem qualquer treino para o fazer, apenas confiante que o silêncio e a serenidade seriam capazes de me transportar a um determinado tempo e lugar do meu passado.
Embalado por uma sonolência induzida, deixei-me enredar pela espiral do túnel do tempo, fechei os olhos e fui retrocedendo até me fixar numa certa época e lugar.

Era o ano de 1969, aquele em que os homens foram à lua, comandados por Neil Armstrong, o primeiro humano a pisar solo lunar, difundidos toda a noite, a preto e branco, pela Telefunken valvulada, que só estabilizava a imagem mercê das pancadas certeiras dadas pelo meu pai no tampo de carvalho laminado. Os Beatles ainda existiam como banda – os guedelhudos, nas palavras do meu progenitor - e Salazar já não reinava. Com Marcelo Caetano à frente do executivo, a guerra colonial prosseguia nas três frentes e a Pide mudava o nome para DGS. Nixon tomava posse como o 37º presidente dos Estados Unidos da América e a atriz Sharon Tate, juntamente com outras quatro pessoas, é assassinada na casa do realizador cinematográfico Roman Polanski, pela família Mason, naquele que na altura foi considerado um dos crimes mais bárbaros cometidos na sociedade norte-americana.

Foi neste mesmo ano que a 28 de Fevereiro ocorreu um grande sismo. Atingiu o sul do país e a região de Lisboa, mas também foi sentido no norte, sendo o último grande sismo a ocorrer em Portugal Continental, e o mais importante do século XX. Recordo a maioria das notícias, com a compreensão possível a um garoto da minha idade, embora muitas delas fossem tornadas mais brandas pela censura instituída. Tenho boas memórias da aventura que vivi durante o sismo de fevereiro. Na noite em que ocorreu o tremor de terra, como toda gente lhe chamou, face ao conselho que se escutava na rádio, a minha família, juntamente com a nossa empregada, saiu de imediato para a rua, para lugar seguro, longe de construções que pudessem ruir. Ainda éramos apenas quatro elementos, uma vez que os dois irmãos mais novos não haviam nascido.

Passámos grande parte da noite dentro do carro, a escutar as notícias, juntamente com centenas de pessoas que fizeram o mesmo. O terreiro onde tinha lugar a Feira de Almada, uma vasta área com solo arenoso, do tamanho de dois campos de futebol, sem construções nas cercanias, era a garantia suficiente de que nada nos cairia em cima. Apesar dos gritos da minha mãe para me despachar, demorei a sair de casa, pois nenhuma circunstancia me faria abandonar a Fô, a minha gata angorá de longo pêlo branco e almofadas das patas cor-de-rosa, que teimava não aparecer. Ainda arrepanhei alguns livros dos Cinco e dos Sete e a máquina fotográfica Agfa que sempre me acompanhava. Tudo o que para mim tinha um valor insubstituível trouxe comigo. O resto bem podia ruir e desaparecer. O meu mundo cabia dentro daquele Fiat 850.

Pouco passava das três da manhã, o meu pai decidiu que o perigo havia passado e regressámos a casa. Fiquei com pena de ver a desmobilização dos carros no recinto e que a aventura tivesse durado tão pouco. Não fora os quadros da sala fora do lugar e algumas rachas visíveis na pintura,quase diria que tudo não havia passado de mais uma das efabulações da minha infância, daquelas que tanto me entretinham o espírito.

Agora mesmo, desci as escadas estreitas, com degraus em mármore branco, da casa paterna, com as famosas paredes rugosas que todos os dias me faziam sangue nos dedos e nos cotovelos, sempre que subia ou descia a escada em dois degraus de uma assentada, sem desacelerar nas curvas; e encontrei-me frente ao negro e sinistro portão de ferro, com dois enormes lampiões de cada lado, ao estilo de uma mansão do século XIX, do externato Frei Luís de Sousa. Era sábado, o final de uma tarde de verão. Não havia escola, mas, com exceção do domingo, o externato fervilhava sempre com atividades. O salão e o ginásio eram frequentemente alugados para casamentos, aniversários e outros eventos. Eu era uma presença regular nos “copos de água”. Depois de os convidados terem comido e bebido em abundância, já com um grão na asa, não raro, entretinham-se a dançar. Com um invulgar à vontade, entrava no salão e, sem me fazer rogado, atirava-me aos doces e aos croquetes como se aquele fosse o último dia da minha vida. Faziam-me festas no cabelo e eu com a boca cheia de doces sorria. - Que menino tão bonitinho! Toda a gente pensava que eu era filho de um dos convidados da noiva ou do noivo. Já de barriga cheia, saia com a mesma displicência com que havia entrado e respondia sempre com um sorriso às festinhas que invariavelmente me faziam na cabeça. O meu ar de menino família, limpinho e burguês, convencia qualquer um. Nunca fui apanhado e durante bastante tempo banqueteei-me a valer. O segredo era ter descontração e jamais partilhar o bónus com alguém.

Entrando no estabelecimento escolar e virando à direita, começava uma subida íngreme, imediatamente a seguir ao Jardim de Infância, seguida de uma curva acentuada, ladeada por árvores frondosas. Ao cimo, do lado direito, o arvoredo adensava-se e sei que, com alguma probabilidade, poderia avistar-se, sentado sobre uma ramada mais forte, um rapazito
com calções de sarja, magrito, o cabelo muito cortado, com um remoinho teimoso à frente, os joelhos sempre esfolados, mas de olhar vivo e sonhador.

Não sei se conseguiria chegar ao diálogo com ele. Por natureza tímido e fechado no seu mundo interior, provavelmente não me responderia ou dificilmente trocaria palavras com um estranho, mais velho do que o seu próprio pai. Mas, ainda assim, decidi procurá-lo.

Conhecendo-o como o conheço, não errei nas minhas suposições. No cimo de um carvalho de tronco baixo e copa suficientemente ramosa para albergar gente de palmo e meio, lá estava ele sentado em cima do ramo mais grosso, uma perna para cada lado, como quem monta um cavalo, observando os carros que subiam a ladeira e estacionavam no alcatroado do campo de jogos. Reparei que tinha algo na mão. Um pau com uma corda e folhas de cana pregadas numa das pontas. A princípio estranhei o propósito do objeto, mas cedo um sorriso aflorou a minha face. Como poderia ter esquecido? Era o seu cavalo, a sua companhia dileta, a quem ele fornecia os gestos próprios do animal: o som dos relinchos, o resfolegar após longas cavalgadas, o diálogo permanente entre o cavaleiro e a sua montada. O trabalho que o petiz teve para levar o cavalo para cima da árvore, pensei.

«Jó!» – Chamei. Ele ficou assustado. Porventura estaria a pensar que eu o ia repreender por ter abusivamente entrado num colégio que ele já não frequentava, agora que estava na escola do Estado, por vontade imperativa do pai. «Jó!» – Chamei de novo o seu nome.

E quando ele olhou para mim, disse-lhe: «Eu sou tu, mas não te assustes. Não te vou fazer mal. Ainda és feliz, imaculado, e gostava que jamais deixasses a copa da árvore em que te encontras, seguro, sonhador, protegido por um mundo sagrado que é só teu. Ainda não te roubaram a infância, nem o cavalo, ao que vejo. Ainda sonhas… Eu já só consigo fechar os olhos e fingir que sonho e medito. Já não durmo de noite. Deito-me, tão-somente. Vim aqui expressamente para te ver e em especial para te dizer que jamais deves sair deste jardim. O mundo que te espera sou eu e é terrível, acredita-me. Eu sei que não me reconheces, pois eu também não me reconheço em ti. Sei que és petiz, não entendes o que te quero transmitir, mas ainda assim deixa-me falar-te. Não gostava que te transformasses em mim, mas não te prometo que o possa evitar. Sei que deves achar estranho um homem da minha idade dirigir estas palavras a uma criança. Mas acontece que eu sou, ou melhor, transformei-me, no pretérito imperfeito de ti. Gostava de poder voltar a ti. Meter-me dentro de ti e reformular-me. Poupar-te naquilo que te espera. Entendes-me? Eu sei que não, criança. Não te peço para desceres. Eu não me importo de falar cá de baixo, apesar de começar a doer-me o pescoço. Mas esta dor, comparada com outras dores maiores, é uma brincadeira muito igual às que tu fermentas todos os dias. Quando tiveres um pouco mais do dobro da idade que tens, já terás passado por tantos jardins sem rosas, onde todas as flores murcham e o sol custa a entrar, que o sorrir mais não será que uma lembrança, um esgar na tua face magra e sofrida. Lamento tanto ser eu o núncio da tua perene infelicidade, mas acontece que, malgrado a inverosimilhança que separa as nossas vidas, o nosso aspeto físico, as palavras que eu emprego e que tu te limitas a escutar sem as entenderes, eu sou tu. Ou melhor: tu hás-de ser eu. Num futuro não muito longínquo, para mal dos meus tormentos.»

Afastei-me. Deixei aquela criança com um ar aterrado, olhando freneticamente para todo o lado em busca de uma possível ajuda. Nem uma única palavra saiu da sua boca. Apenas o terror plasmado no olhar. Não fui capaz de dizer mais nada. Fica agora na tua paz. Eu vou. Pensei, mas não disse.
Era Setembro. Segui com o rodopiar dos estorninhos rente ao chão e as lágrimas a rebentarem sob os olhos. Senti-me criança outra vez, querendo correr para os braços da minha mãe. Queria que me dissessem que ia ficar tudo bem. Que o dissessem, sobretudo, a ele. Olhei somente uma última vez antes de me afastar. A criança ficava cada vez mais pequenina à medida que eu me afastava da árvore, até se transformar num pontinho ao longe, mas sei que nunca desprendeu os olhos de mim; como um gato assustado; como uma gazela perseguida.

E, por estes momentos, já eu sonhava. Um lobo solitário perseguia uma gazela solitária através de um bosque até à beira de um precipício. A gazela, hábil e conhecedora do terreno, conseguia descer lentamente pelo declive pedregoso, enquanto o lobo corria frenético à beira do precipício, olhando para baixo para a sua presa, tão perto, mas tão inatingível.

Acordei no século XXI com a cabeça enredada em lençóis suados e no medo. O coração batia-me descontrolado. Sei que havia sonhado. Estava consciente do pesadelo que me tinha acordado em sobressalto. Era óbvio que eu era a gazela do sonho. O menino que havia sobrevivido às agruras da vida, por ter ganho defesas bastantes para se defender dos lobos da floresta que é a vida. Mas essa era a parte do sonho que eu aceitava, sem margem para dúvidas, como sendo irreal. O resto era demasiado verdadeiro. O detalhe com que vi aquela criança que era eu. As roupas, o olhar, o cabelo, tudo tão familiar, até a forma tão certeira de saber onde o encontrar.

Eu fui ele até que a vida nos separou. Os elementos da natureza, seja terra, água, flores, folhas, pedras, areia, ou o simples silvo do vento, enriqueciam o comportamento de jogo livre e potenciavam o seu desenvolvimento cognitivo, emocional e físico. Mas isso foi abruptamente interrompido pela urgência com que a vida decidiu terminar a sua infância antes do tempo.
Até que a vida nos separou, eu sei que fui ele. Mas não consegui contactá-lo, falar-lhe numa linguagem que lhe fosse acessível. Apenas o assustei e deixei confuso. Fui desajeitado e patético, inepto para chegar à compreensão de uma criança com oito anos de idade; e estive tão perto de falar com o petiz que eu fui.

Somos seres pequenos e irrelevantes. É apenas o espaço que ocupamos no coração dos outros que nos emociona, que nos dá propósito, orgulho e sentido de identidade. Precisamos do amor incondicional, ilógico e irracional dos nossos pais. Precisamos que nos vejam através de lentes distorcidas por esse amor e que nos digam de todas as formas que o mero facto de estarmos vivos os enche de alegria. A conceção de adulto feliz e maturado pressupõe, em mim, a manutenção de alguns desejos e propósitos da criança que fui. Sei que o meu cavalo não era uma obra-prima, com aquelas franjas feitas de cana a imitar crinas e um cordel tosco como rédea, mas sempre que o retiro do sótão dos meus pensamentos, receio que seja maldição do destino recriar a infância na vida adulta. E depois interrogamo-nos por que motivo não somos felizes.


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A maltinha do Equador



Quando se pensa no Equador, o país de maior biodiversidade do mundo por unidade de área, vem no imediato à nossa mente aquele pequeno país da América do Sul, limitado a norte pela Colômbia, a leste e a sul pelo Peru e a oeste pelo oceano Pacífico, cortado a meio pela linha imaginária do equador.

O país é dominado, na sua parte central, pelos Andes, a maior cordilheira do continente americano e detém a soberania das ilhas Galápagos (património Mundial da Unesco), que distam apenas a cerca de 1 000 km do território continental, onde nasceu o evolucionismo, criado pelo britânico Charles Darwin.

Imagina-se igualmente pessoas com aspeto de Incas, os descendentes daqueles que sobreviveram aos massacres sanguinários liderados por Francisco Pizarro - foram ainda mais os que morreram face às doenças transmitidas pelos colonizadores, para as quais não possuíam anticorpos.

Atualmente, a maioria da população equatoriana é mestiça, descendente dos colonizadores espanhóis que se miscigenaram com os povos indígenas - os espanhóis e os portugueses, contrariamente aos colonizadores da Europa do Norte, por todas as terras por onde passaram, sempre deixaram a sua semente e a mistura produzida criou um povo com traços sui generis e particularmente belos.

O IPL de Leiria celebra diversos protocolos com vários países, de forma a possibilitar a aprendizagem da língua portuguesa e posterior frequência de um curso de licenciatura, a jovens oriundos de várias partes do mundo.

O refeitório da ESECS, onde frequentemente almoço, acolhe desde há poucos dias um grupo considerável de jovens equatorianos. E, à conversa com alguns deles, no meu fluente portunhol, fiquei a saber que se encontram a frequentar um curso intensivo de língua portuguesa. No final, para os que tiverem aproveitamento, será possibilitada a frequência de um curso de licenciatura no IPL de Leiria.

No meu imaginário precoce, quem sabe burilado pela leitura do Tintin nos Andes, os equatorianos fazem-se acompanhar por lhamas, trajam roupas andinas multicoloridas, ponchos largos e usam chapéus e colares ​​ao redor do pescoço; e, da sua indumentária, deve obrigatoriamente fazer parte uma flauta de pã e um adufe.

No mundo globalizado onde vivemos, não fora os traços mestiços, o tom moreno da pele e os cabelos negro azeviche, que denunciam a proveniência sul-americana, os jovens que hoje soltavam risadas no refeitório, eram assustadoramente iguais aos seus congéneres ocidentais: o mesmo corte de cabelo à Justin Bieber, as tatuagens, os piercings, os brincos, as calças rotas, as sapatilhas, o tique inexorável dos polegares, que freneticamente deslizam nos ecrãs de telemóveis...

A Aldeia Global, com a criação de uma rede de conexões, que deixam as distâncias cada vez mais curtas, facilitando as relações culturais e económicas de forma rápida e eficiente, criou modelos estereotipados de jovens que seguem afanosamente os seus ídolos, com os quais se identificam e desejam imitar.

Mas, como em tudo, há os prós e há os contras, recordando o álbum conceptual de Roger Waters "The Pros and Cons of Hitch Hiking". Esperemos que os efeitos perversos desta irrevogável globalização, a que todos pedimos boleia, sejam mitigados pelo encontro do melhor dos mundos.

Boa sorte, maltinha do Equador!