sábado, 17 de julho de 2021

Da (des)esperança


Por vezes lamentamos os silêncios que impregnam as nossas vidas, mas com a certeza firme de não desejarmos uma orgia de ruídos sempre à nossa volta, impedindo-nos de nos sentirmos nós mesmos. O pior é sempre possível mas não é fatal que tal aconteça. Se nos lançamos na ação, se nos empenhamos, se a motivação existe e há um rumo, se sabemos o lugar para onde queremos ir, poderemos esperançar alcançá-lo.

Na medida em que o pior não é uma fatalidade é permitido termos esperança. E como o pior pode ser evitado, é urgente avançarmos com empenho naquilo que julgamos evitar a nossa infelicidade.

Para além do otimismo e do pessimismo, há sempre lugar para a esperança. Esta apoia-se sobre a confiança no possível ou no que poderá sê-lo. O tempo, de certa maneira, é uma criação do possível e é fácil entendermos que um dos grandes erros das utopias foi sempre o de tentar fixar, através da imaginação, o futuro ideal, o termo perfeito de qualquer história e até os meios para lá chegar. E tal forma de pensar, por vezes, impede-nos de apreciar com rigor o inesperado, o acontecimento que transforma o (nosso) horizonte previsível.

Mais grave que tudo é a tomada de consciência de não sabermos o que nos pode fazer felizes, nem quais os melhores caminhos para trilharmos. Resta-nos, então, a exuberante satisfação de podermos afirmar com veemência: «Eu não sei bem aquilo que quero, mas estou certo daquilo que definitivamente não quero.»

Para muitos, onde eu me incluo, só isto já é um começo, seja do que for.



terça-feira, 6 de julho de 2021

Subsídios para o plano vacinal

 



O Plano Nacional de Vacinação, iniciado nos anos 60, numa altura em que a Poliomielite matava, foi determinante para a diminuição das taxas da mortalidade infantil em Portugal, que são atualmente das mais baixas da Europa. Mas o que muitos não sabem, porque não são desse tempo e não passaram por isso, é como se processava a vacinação na tropa, ainda no início dos anos 80.

Eu comecei a cumprir o Serviço Militar Obrigatório em 1981, na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, e depois por lá fiquei, contratado pelo Exército durante cerca de 10 anos, que era a forma expedita que os estudantes universitários masculinos da época encontravam para prosseguir os seus estudos e ter uma fonte de rendimento possível. Ainda não existiam mulheres a cumprir o Serviço Militar Obrigatório, ou contratadas, no Exército, o que veio a acontecer muito pouco tempo depois de eu ter terminado o meu vínculo. Mas isso são outros quinhentos.

Recordo-me perfeitamente do dia da vacinação na EPI de Mafra. Estava uma manhã invernal e o frio cortante era acompanhado pelo sibilar do vento glaciar que corria os claustros do convento. Numa vasta capela interior, transformada em enfermaria improvisada, sentados num banco de madeira corrido, em grupos de vinte, de tronco nu, o cabelo quase rapado e os olhos esbugalhados com os exemplos das anteriores vítimas, preparámo-nos para a carnificina.

O cortejo abria com um socorrista transportando debaixo do braço uma terrina cheia de agulhas. Atrás vinha um auxiliar que, com um maço de algodão a imitar uma esfregona, besuntava-nos as omoplatas com tintura de iodo. Depois, a figura sinistra do espetador de agulhas - verdadeiras bandarilhas, a ajuizar pelo tamanho e algumas seguramente rombas. Finalmente aparecia um último elemento com as seringas que ia desajeitadamente enroscando às agulhas há muito espetadas nas omoplatas dos instruendos.

O que sempre me fez suportar alguns calvários que passei na Escola Prática de Infantaria de Mafra, conhecida pela sigla EPI – vulgarmente apelidada entre os magalas como Entrada Para o Inferno ( nas Operações Especiais em Lamego ainda passei maiores tormentos), foi o facto de ver que os meus colegas estavam a passar pelo mesmo e aguentavam estoicamente tudo - pelo menos a maioria, já que alguns, a meio da recruta, baixaram à Psiquiatria e foram internados no Hospital Militar da Estrela.

No final, posso afirmar categoricamente que o tempo que passei no Exército, quase uma década, pelas amizades que por lá fiz e experiências inolvidáveis, foram dos tempos mais felizes da minha vida. Nunca posteriormente na sociedade civil, pela competição e mesquinhez que se vive dentro das empresas, consegui encontrar a camaradagem salutar e o bom humor que vivi nos tempos da tropa.

A dose cavalar que me inocularam na EPI, uma espécie de coquetel vacinal contra uma série de maleitas, foi seguramente a responsável por durante toda a recruta nunca me ter constipado ou adoecido, apesar de andar constantemente debaixo de chuva e enlameado até aos ossos. Sem essa inoculação não acredito que fosse possível ter suportado as agruras diárias porque passei durante esses penosos dezasseis meses.

Agora a que assistimos à maior campanha vacinal mundial de todos os tempos e que temos um Vice- Almirante à frente de uma Task Force, não me surpreenderia que não tivesse já passado pela cabecinha do nosso Vice a adoção de estratégias militares mais expeditas para imunizar o povinho que se queixa de ficar longas horas na fila: uma série de banquinhos de madeira corridos (há muitos nas igrejas e era só pedir emprestado) podiam muito bem iniciar um esquema vacinal em série. E porque não adaptar também algumas ideias do Taylorismo para a racionalização do processo produtivo, neste caso o ato de imunizar, evitando a lentidão na produção e um esforço desnecessário?

A ideia de um processo de imunização, todos sentados num banquinho de madeira, que começa com um besuntador de tintura de iodo e acaba com o enroscador de seringas, previamente espetadas nas omoplatas dos recrutas, se servisse para vacinar o dobro da população, era mais uma prática castrense de outros tempos a ter em linha de conta.

E depois não me digam que eu não contribuo com subsídios para o processo vacinal.

Siga a Marinha, nosso Vice- Almirante!






quarta-feira, 30 de junho de 2021

Amigos



É um lugar comum dizer constantemente que todas as pessoas nos dececionam, mas assim como há pessoas que nos causam esse estado de amargura, outras há que nos surpreendem pela positiva; e outras, ainda, que confirmam tudo quanto já pensávamos delas.

Dizem que os amigos são para as ocasiões - e eu diria que cada vez menos sei quais são as ocasiões em que se deve apelar para os amigos e quais os amigos que se prestam e têm disponibilidade para nos acudir em dadas situações.

As amizades, com exceção daquelas mais antigas, que nos vêm da infância e nos acompanham ao longo da vida, acontecem-nos por zonas de interesse e ocupação, por empatias, por circunstancialismos, muitas vezes fruto do acaso, que nos surgem no trilho da vida. Tendemos a sentir empatia por pessoas que, julgamos, sentem o nosso pulsar, compreendem o nosso estilo de vida, as nossas perceções, possuem gostos semelhantes e objetivos que nos merecem sentido. E, por vezes, até os amigos vão sendo mais conjunturais, mais fruto das circunstâncias e das necessidades práticas de alianças, consequência de tumultos comuns que fazem com que duas vidas se cruzem no amparo da amizade recíproca.

Quando a nossa vida dá para o torto, quando os empregos falham, quando a solidão nos bate à porta, quando os divórcios ou o fim das relações amorosas acontecem e tudo se baralha dentro de nós, temos saudades dos amigos de outros tempos. É aí que escolhemos criteriosamente com quem podemos contar, de que modo e com que limites precisos, e descobrimos que nem todos os amigos são para todas as ocasiões.

É bom fazer amigos. Nos últimos tempos, em virtude da minha cada vez maior presença na música e também na poesia, tenho feito novos amigos. Nuns casos, trata-se de pessoas bastante mais novas do que eu, mas com uma forma de pensar lúcida e avisada, capaz de entender coisas que, julgava eu, só pessoas com a minha experiência de vida e maturidade conseguiriam alcançar. Noutros casos, são pessoas com idades próximas da minha, mas com vidas e saberes que me completam.

A vida tem destas coisas e nem imaginamos quão enriquecedor é permutar experiências, vivências, com personalidades diferentes.

Os mais velhos, contrariamente ao que diz a «sabedoria popular», também aprendem muito com os mais novos, especialmente quando se trata de pessoas que possuem uma mentalidade muito para além da sua idade biológica.

Gostei muito de ter feito novos amigos, pessoas que valeu a pena ter conhecido, para manter o contato e aprofundar a amizade, já que a vida tem uma duração aleatória e é demasiado preciosa para ser desperdiçada com seres sem luz e medíocres.

Cada vez mais me convenço que o dia-a-dia é feito de um contínuo destes pequenos acontecimentos: coisas que por vezes parecem não ter importância ou impacto, mas que vão dando cor e sentido ao fluir da vida e me fazem adivinhar que ainda há afetos a precisar de partilha, pessoas que gostam de gostar de pessoas e que esse é o maior desiderato da vida.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Eu sei que hoje é terça-feira

 


Eu sei que hoje é terça-feira porque passo de mota na rotunda junto ao mercado do levante - que é um mercado que se monta e desmonta todos os dias. Sim, um mercado onde os comerciantes, todos os dias, montam as suas bancas de manhã para à tarde as desmontarem – e ainda vejo os últimos feirantes a desfazerem o estaminé e a encherem até ao teto as carrinhas brancas com vidros foscos.

Disse-me um dia alguém, com conhecimentos nestes assuntos, que muitos feirantes, em especial os de etnia cigana, fazem das suas carrinhas brancas uma espécie de casas amovíveis, onde comem, dormem, fazem filhos e transportam o material que vendem, que é a principal fonte do seu sustento.

Não creio que este espírito nómada integral ainda esteja presente na maioria dos elementos desta etnia, apesar dos ancestrais costumes, pois felizmente a maioria já tomou consciência de que o sedentarismo, assentar arraiais, é necessário para que os filhos tenham educação escolar, tão essencial à integração social.

Dantes, e durante muitos anos, pelo menos até que um vereador mais iluminado, ou um funcionário subalterno com lampejos de inteligência, se lembrasse de mandar vedar o espaço do mercado com uma cerca, era costume, nos dias de feira, a cidade se encontrar envolta por sacos de plástico, que faziam evoluções e piruetas em rota livre, ao sabor do vento, até caírem no rio Lis ou espalharem-se pelas ruas circundantes.

Até dias recentes, operárias da Câmara Municipal, na sua grande maioria, senhoras com trajes verdes, fazendo vagamente lembrar as companheiras do Robin dos Bosques na charneca de Sherwood, com cabelos loiros e dentes d’oiro, diligentemente e com paciência de Jó - aquele fulano com uma paciência bovina que aparece citado num dos livros do Antigo Testamento – esfalfavam-se, duas vezes por semana, em correrias atrás dos malfadados sacos de plástico, que pareciam fazer-lhes fintas para não se deixarem apanhar.

Se lhes fosse perguntado, provavelmente nenhuma delas imaginaria que, deixando a Ucrânia, o seu futuro, entre outras coisas, passaria por bissemanalmente mover perseguições a sacos de plástico, durante longas horas, numa acolhedora cidade do midwest português.

A captura destas perigosas espécies poluidoras, proscritas por todos os manuais de ecologia, fazia-se quase sempre com sucesso, pese embora alguns saquinhos se escapulissem para longe do seu atento olhar. Os indómitos plásticos, não raro, passeavam-se nos dias seguintes pelo casco histórico da cidade, enrolando-se nas plantas e floreiras, terminado quase sempre a sua errática viagem na correnteza do Lis.

A maledicência é frequentemente o lugar-comum da crónica, pois a escrita é muitas vezes um exercício individual de catarse - o imperioso desabafo. Mas sabe bem mudar este estado de coisas, dizer diferente, fazer outra coisa.

Eu gosto dos imigrantes, daqueles que vêm para o nosso país para trabalhar, que se integram e passam a amar o nosso mundo como se fosse deles também. Gosto da diversidade cultural. Ela enriquece-nos, muda de forma indelével a nossa maneira de perspetivar o universo e a nossa forma comezinha de pensar. O mosaico cultural e étnico é sempre enriquecedor.

Eu sei que hoje é terça-feira porque abro a porta de casa e encontro nas escadas do meu prédio as funcionárias que semanalmente se encarregam das limpezas do condomínio. São, também elas, na sua maioria, imigrantes, oriundas de África ou do Brasil, que trocaram a sua terra natal por um futuro melhor em terras lusas para si e para os seus. Ocupam os elevadores com baldes e esfregonas, regam as plantas sequiosas, sempre em alegre cavaqueira, com boa disposição contagiante e um sorriso plasmado no rosto. E deixam atrás de si um rasto de cheiro a lavado e perfume.

Se eu pudesse, voava, elevava-me, só para não pisar o chão limpo e molhado das escadas, tal o enorme respeito que sinto pelo seu trabalho.





sábado, 19 de junho de 2021

O efeito Dunning-Kruger

Você já ouviram falar do efeito Dunning-Kruger? É um viés cognitivo que leva as pessoas com menos habilidade e conhecimento a pensar que sabem mais do que as outras. Quanto menos elas sabem, mais pensam que sabem.

Muitas vezes, aqueles que têm esse problema tendem a impor as suas ideias, em vez de simplesmente dar uma opinião, considerando-as verdades absolutas. Os outros são vistos como totalmente ignorantes e incompetentes, mesmo que não o sejam.

No correr da vida, tenho-me deparado com muitas destas criaturas que, para além de manifestarem uma absoluta falta de humildade perante o conhecimento que outros demoraram vários anos, uma vida, a adquirir, são frequentemente arrogantes e irredutíveis.

O exemplo paradigmático é a crença popular, totalmente desajustada, de que no regime da separação de bens os cônjuges não são herdeiros um do outro.

Estudos recentes, por mim lidos, perceberam que, quanto mais incompetente era uma pessoa, menos consciente disso ela era. Enquanto as pessoas mais competentes, não raro, se subestimavam.

Daí o efeito Dunning-Kruger, segundo o qual pessoas com baixo nível de competência tendem a pensar constantemente que sabem mais do que sabem, considerando-se mais inteligentes.

Os casos típicos que têm acontecido ao longo da minha vida, são a frequência com que me deparo com os "juristas de café" - muito similares aos "médicos sabichões", que tudo sabem sobre doenças e prescrevem tratamentos para todo o tipo de maleitas - com perceções totalmente erradas de como funciona a Justiça, as leis, e afirmam que a uma determinada situação corresponde uma certa solução legal, seja porque "ouviram dizer" ou porque "a uma certa pessoa amiga aconteceu assim".

Longe vão os tempos em que me enfurecia com tamanha ignorância e, não sem uma certa ingenuidade, tentava explicar, em discussões desajustadas e infrutíferas, que a lei é muitas vezes diferente daquilo que dela se pensa.

Hoje já não perco tempo com criaturas que não estão abertas à dúvida, não evitando impor o seu próprio ponto de vista; e que, não aceitando a palavra de técnicos, que estudaram anos a fio para chegar a certo tipo de conhecimentos, continuam a insistir em crenças absurdas, com absoluto desdenho por quem realmente sabe.

Os ignorantes têm, como toda a gente, direito à vida, mas dentro da bolha de idiotice de que é formado o seu pequeno mundo, do qual não abdicam nem parece quererem sair.


segunda-feira, 7 de junho de 2021

Dá cá o bracinho

Meio milhão de pessoas não respondeu ao sms com a chamada para a vacina e, segundo li, essa atitude pode comprometer a meta do nosso vice-almirante de seringar cem mil almas por dia.

As razões serão de vária ordem. Admito que muita gente não quer efetivamente ser vacinada, quer por pertencer à classe dos negacionistas, ou por ter sucumbido aos medos dos "efeitos secundários" do imunizante, quando todos sabemos que as vacinas, desde o século XIX, têm assegurado a sobrevivência da humanidade.

A primeira vacina do mundo foi descoberta há 224 anos na Inglaterra. Edward Jenner iniciou o combate ao vírus da varíola e o processo foi descoberto 100 anos antes de que o mundo tomasse conhecimento sobre o que eram os vírus.

A varíola era uma ameaça gigantesca à humanidade e a batalha contra ela era travada há séculos. Sabe-se hoje que esta foi a doença viral que mais matou na história. Só para fazer uma comparação: o novo coronavírus tem uma taxa de letalidade global de 6,5%, a varíola tinha taxas de 30%!

Aqui para nós, que ninguém nos escuta e poucos nos lêem, a falta à chamada para as vacinas e a não adesão ao agendamento, deve-se mais à incapacidade funcional de lidar com o telemóvel do que a outro motivo qualquer, mormente a recusa firme de não ser vacinado. Estou em crer que os que não querem oferecer o bracinho à picadela constituem uma camada residual da população.

Todos sabemos, ou devíamos saber, que se não fossem as vacinas, doenças como a varíola, a tuberculose, o tifo, a malária, o sarampo, a poliomielite, para enumerar apenas algumas, a título exemplificativo, teriam dizimado camadas muito mais substanciais da população mundial. A esperança média de vida, não sendo igual em todos os países, pelos motivos que sobejamente conhecemos, nunca foi tão elevada e nunca a ciência foi capaz em tão curto espaço de tempo de descobrir e fabricar em larga escala um imunizante.

De pouco tem servido dizer que os efeitos secundários nefastos e letais decorrentes da vacina, têm acontecido numa escala ínfima e que os medicamentos que todos os dias tomamos, e deles abusamos, têm um potencial letal muito maior.

Tem razão o nosso vice - que, espero, no final do processo de vacinação, perca esse nefasto prefixo e seja finalmente promovido a almirante - para estar preocupado com a almejada média das cem mil vacinas por dia. Anda muita maltinha a boicotar as coisas e a lixar a meta da imunidade de grupo para agosto.

Eu se fosse comandante chefe da marinha tomava de assalto os bracinhos dessa gente toda e, gostassem ou não, levavam todos com a picadela ou não recebiam o subsídio de férias.


Uma ideia luminosa



Sempre que alguém apresenta uma ideia fraturante, que rompe com o mainstream do “pensamento correto”, esta espécie de papa-açorda de “ideias adequadas” em que nos movemos no dia-a-dia, é logo apelidado de freak, demagogo ou populista - o vocábulo agora mais em voga que muitos usam e abusam ad nauseam. Para grandes males, grandes remédios. Sempre assim foi, assim é, assim será. Um grande problema necessita de uma grande solução. E não é preciso ser iluminado para perceber isto.

A saúde das pessoas, por estar intimamente ligada ao valor Vida, porventura o bem maior defendido pela cúpula do nosso sistema legal, deveria ter uma prioridade absoluta. Por outras palavras, deveria ser gratuita. Numa sociedade ocidental, que pugna pela Democracia, pela defesa dos elementares valores humanistas, não são concebíveis cenários como aquele a que hoje assisti na farmácia perto da minha casa. Um idoso, pelos trajes humildes, presumivelmente bastante pobre, perguntou pelo custo dos medicamentos que constavam da sua receita. Após ser informado do valor de 75 euros, disse que queria levar apenas remédios até ao custo de 15 euros, pois apenas dispunha dessa quantia.

Não, desta vez não me ofereci para pagar, apesar de já o ter feito em algumas ocasiões semelhantes. A minha bondade tem limites. Apenas anoiteci o olhar e fiquei consumido por uma raiva inexplicável. Como é possível que em pleno século XXI, num Estado que se diz Social, um idoso, que porventura terá trabalhado a vida inteira e feito os seus descontos, não tenha uma reforma digna que lhe permita cuidar da sua saúde?

Mas este problema, e outros semelhantes, tem solução. A dificuldade não está na ausência de recursos, salvações, artifícios ou formas de resolver a questão, mas antes na absoluta falta de vontade de mudar o status quo (que, no contexto da minha conversa, significa “o estado das coisas” e não aquela famosa banda pop rock dos anos 70) em que todos marinamos.

Perguntam-me: onde vai o Estado arranjar dinheiro para tornar o Serviço de Saúde totalmente gratuito, pelo menos para todos aqueles que não possam pagar? A resposta seria simples, fosse eu um ministro plenipotenciário para resolver esta questão. Primeiro que tudo, despojava-me de medos perante os poderosos, as teias de interesses e corrupção, as cáfilas de gângsteres que secretamente financiam eleições e partidos políticos. Depois, fornecia o sistema de saúde através de impostos altíssimos sobre as grandes fortunas, confisco de bens obtidos através da corrupção, agravamento fiscal sobre o álcool, o tabaco e quaisquer formas de vícios lesivos da saúde e esbanjadores de recursos com o tratamento dos aditivados. Taxava de forma severa os grandes ordenados, desde futebolistas, a dirigentes desportivos, passando por estrelas televisivas e quejandos, sem esquecer pelo caminho de diminuir os salários e privilégios de toda a classe politica. Vendia, a bons preços, toda a frota automóvel do Estado que não fossem carros elétricos. Tornava tendencialmente obrigatório o trabalho, para os que pudessem e estivessem a cumprir penas de prisão, a fim de que custeassem eles mesmos a sua alimentação e eventuais despesas com a saúde - que são imensas e oneram bastante os contribuintes, já que, numa grande maioria, são pessoas com doenças crónicas.

Depois de acabar esta safra, com tanto dinheiro recolhido e ter obtido o suficiente para garantir a gratuitidade total da saúde para os que mais precisam, certamente me sobrariam uns quantos milhões. Com esse dinheiro, construía mais hospitais, centros de saúde e melhorava os já existentes. Se sobrassem uns tostões, construía mais parques nas cidades e investia ainda mais na cultura. Ora digam-me lá que não são excelentes ideias?

PS. Votem em mim se querem os vossos sonhos realizados.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

A inveja - um sentimento trivial?

 

Se há sentimento mais desajeitado, infeliz, irritantemente inútil e absolutamente a dar com nada, só posso estar mesmo a referir-me à inveja. E diferentemente do ciúme ou da cobiça, que lhe são parentes próximos, não se relaciona com algum objeto externo, não corresponde a nenhum desejo concreto e nomeável, ou seja, não se quer forçosamente ter ou ser o que alguém é ou tem. Apenas se sente raiva e zanga pela existência de outros designados - os escolhidos a dedo pela felicidade de ser ou ter: sucesso, beleza, inteligência, riqueza, cultura, capacidade de sedução, charme... e se considera em alta voz que essas mais-valias têm necessariamente subjacentes situações de demérito, ocasos da sorte, injustiças profundas, distrações de Deus...

E ainda que muitas vezes os possuídos por tais sentires reconheçam (para si mesmos – deep inside) o mérito e a justeza na obtenção das qualidades ou pertenças de alguém, não conseguem evitar deixar-se inundar pela estreiteza deste sentimento tão trivial e tornam-se cromos indisfarçáveis.

Este sentimento é tão infeliz - muito infeliz mesmo - que não tem qualquer gratificação: alimenta-se a si mesmo em circuito fechado e é feito de ressentimentos que moem e esmagam, que azedam a vida e as relações, o que torna tudo o que se tem sempre pouco, sempre menor, sempre desvalorizado. E é sobretudo um sentimento inútil, pois apesar de todos os argumentos de fundo que se possam mobilizar acerca da “sorte” de uns e do “azar” de outros, não se consegue mobilizar forças, formas expeditas de ação no sentido de eliminar ou fazer desaparecer os “seres” que causam tal desconforto, já que a sua liquidação física, no mínimo, seria um ato de loucura ou de vingança. Acho, entretanto, que mesmo que isso fosse possível, o invejoso precisaria sempre de um “ódio de estimação" e a perda do objeto contra o qual direciona a sua inveja seria rapidamente substituído por outro.

O mais ridículo da inveja é que ela é óbvia e transparente. Apanha-se mais depressa um invejoso do que um mentiroso (não caio no exagero de fazer a comparação com um coxo, pois acho que está ela por ela). A inveja é irreprimível e percebe-se à légua quando alguém destila este fel.
Infelizmente é com este sentimento, de uma vulgaridade quase absurda, com que lidamos no dia-a-dia nas nossas atribulações profissionais, nas relações do quotidiano, e temos de estar preparados para ser a tal “muralha de aço” que não se deixa abater ou azedar com esta água ácida com que muitas vezes nos querem batizar.

Julgo eu, porventura com certeza, que não serei o único que já provou o travo destas mentes acéfalas que serpenteiam sibilinas em redor das horas dos nossos dias. Já não faço nenhum esforço - e consigo ! - para não ser como eles. Há muito que me quedei - esta espécie de franqueza sem cueiros - na admiração pelos mais dotados que eu, em simultâneo com um quase sentimento de desprezo que nutro pela mediocridade subjacente à inveja e aos que a adotaram como praxis do quotidiano.

Parece, pois, que estamos todos condenados a viver com esta estirpe, árida e ignóbil, de gente que ainda não aprendeu a canalizar a imensa energia que despende invejando, ao invés de melhorar a sua auto-estima na realização de algo que lhe traga a gratificação capaz de fazer quebrar o ciclo infernal do ver a felicidade através dos olhos dos outros. Haverá, porventura, algo mais triste do que isso? Quase não consigo imaginar!


domingo, 16 de maio de 2021

Em tua memória, Paula C.


Hoje, quinze anos volvidos após a sua morte, recordo-me da Paula C., uma amiga de infância que escolheu abreviar a vida, porque ela há muito lhe parecia um fardo insuportável. Se fechar os olhos, consigo vê-la no pátio do Liceu de Almada, nos finais anos 70, principio dos anos 80: o cabelo cortado à Malvina, aquela da novela «O Casarão», as mãos sempre enfiadas nos bolsos estreitos de umas Levis ruças, uma camisa justa com folhos nos punhos e o eterno cigarro aperrado no canto dos lábios.

Uma situação tremenda: um ser que, muitos anos antes de morrer – de facto suicidou-se – há muito decidira alhear-se da própria vida e começara a agir como se nada mais tivesse realmente importância. Vivia numa passividade extrema perante tudo e tendia para os excessos, sem cuidar de refletir nas consequências. Essas, pareciam-lhe indiferentes, caretas, risíveis até. Chegou a um estado em que cessou de se projetar no futuro e apenas o presente contava. A sua ligação à existência, parecia-lhe tempo inútil, tempo a mais. A vida era para ser vivida à velocidade de um foguete. E as frustrações da vida, com as quais ela nunca conseguiu lidar, sublimava-as sempre com excessos, compensações desnorteadas, inconsequentes, eternas fontes de sofrimento posterior.

Ainda hoje tenho uma certa dificuldade em incutir no pensamento, a certeza de que a Paula se precipitou para a morte, atirando-se de um oitavo andar e nunca mais a vou ver. Nós, os amigos, nem tivemos tempo para nos despedirmos dela, tal a pressa que ela teve em se despedir da vida.
Que tão fortes motivos pode ter um ser que renuncia propositadamente à vida, numa idade ainda relativamente jovem, antes de chegada a inevitável hora? É um mistério total que encerra razões que a minha razão desconhece.
 
Não lhe conhecia doenças crónicas, mortais, ou enfermidades que justificassem tal atitude. Apenas uma angustia profunda e uma inadaptação constante aos ritos sociais ditos "normais", faziam-na viver num drama interior que constantemente a sobressaltava. Foi doença mental, disseram os entendidos nestes assuntos. Eu digo que ela morreu de tristeza.

Muitas vezes encontrei-a, quer durante os tempos do Liceu, quer mais tarde na Universidade, afundada em desesperos (fomos colegas desde o liceu até à licenciatura). Nem o seu casamento recente, a atual estabilidade laboral (era chefe de divisão num Ministério - quadro superior da função pública - e gozava de alguma folga económica), pelos vistos, lhe trouxeram paz ao seu conturbado espírito.

A braços com os meus próprios dramas e problemas pessoais, hoje assumo que a ameaça do ódio à vida, bem como a ancilose da capacidade de nos amarmos, são conjuras que se podem urdir em qualquer momento e virar-se contra nós. E para além da obscuridade de histórias fragmentadas que me alcançaram, sobre os motivos que a levaram a tomar essa irrevogável atitude, ainda me custa aceitá-las como razões suficientes.

Que lhe diria eu se tivesse podido? Eu que também conheço os silêncios do vazio e a eterna espera da luz? Que poderia eu dizer-lhe, caso fosse a tempo de lhe segurar um braço? Que poderia eu dizer-lhe sem a magoar, sem lhe dar a impressão que não a queria compreender? Sem os ares de quem quer pregar a moral da verdade e é o arauto da felicidade? Dir-lhe-ia, talvez, para tentar manter a esperança e descortinar novos rumos para a felicidade, pois eles efetivamente existem. Mas a obstinação doentia dos suicidas, cedo, ou tarde, acaba por prevalecer. O mal é a fixação apoderar-se deles. A ideação toldar-lhes a mente. Depois só há uma questão: o tempo e o modo.

O desaparecimento da Paula, sempre que o recordo, transformou por completo a minha consciência acerca da morte. Revelou-me tudo o que havia de falso na relação com a minha própria existência e com a minha própria morte. Mudei definitivamente de ideias no que diz respeito a considerar que a morte não tem nada a ver com a vida, que não nos diz nada, que não existe ligação possível entre uma e outra, a menos que nos iludamos. Conseguiu libertar-me dessa absurda convicção de que a morte não tinha nada a ver com a vida, que não representava nada para mim. Pela primeira vez, senti com extrema agudeza, quão ténue, frágil e efémero é o sopro de vida, que toca cada um de nós em cada dia que passa.

RIP, Paula C., hoje que passaram quinze anos sobre o dia da tua morte, relembro o fim que tu própria escolheste para ti: um salto em forma de anjo, às primeiras luzenças da manhã, da varanda do oitavo andar onde moravas, na direção da calçada. És, desde há algum tempo, mais uma estrela no céu.


sexta-feira, 14 de maio de 2021

Manuel Palito



Manuel Palito, a cumprir pena de 25 anos de prisão por duplo homicídio, faleceu. É sempre de lamentar a perda de uma vida humana, mas, neste caso, consigo não sentir qualquer tipo de compaixão por este sub-humano que tirou a vida a duas mulheres e tentou matar outras tantas. Na verdade, sou a favor da pena de prisão perpétua, em casos especialíssimos, em que existem vários crimes de sangue, cometidos com perversidade acentuada.
 
Em Portugal, o limite instituído para pena efetiva de prisão é de 25 anos. Muita gente não sabe, mas na maioria dos países europeus existe a pena de prisão perpétua e nem por isso os deixamos de considerar como Estados onde existe democracia, civilidade, compaixão e legislação tecnicamente adequada.

Em 1884, Portugal aboliu definitivamente a prisão perpétua. Ainda hoje, no seu Artigo 30º, referente aos limites das penas e às medidas de segurança, a Constituição da República Portuguesa determina que "não pode haver penas nem medidas de segurança privativas ou restritivas da liberdade com caráter perpétuo ou de duração ilimitada ou indefinida", fazendo de Portugal um dos 13 países do mundo onde a Constituição proíbe especificamente esta punição.
 
Por toda a Europa, contudo, a aplicação da prisão perpétua varia nos mais diversos moldes. Desde uma pena revista, passando por uma pena sem previsão de liberdade condicional até à prisão perpétua irredutível, o território europeu reúne países com posições diferentes. No entanto, a maioria dos países tem um regime diferente do português. Quase todos permitem penas de prisão perpétua, mas incluem uma adenda para que os condenados possam sair em liberdade condicional depois de terem cumprido um determinado número de anos de prisão efetiva.

Quanto às penas sem revisão, são apenas 7 os países que adotam esta variável de prisão perpétua cuja sentença não é reconsiderada de forma rotineira. São eles a Ucrânia, Eslováquia, Países Baixos, Malta, Lituânia, Hungria e Bulgária.
 
A vida, e depois dela a liberdade, para não falar na saúde, estão no topo dos valores que reputamos fundamentais pela sua especial preciosidade. Sem alinhar em "Populismos Venturianos", há muito tempo - desde os bancos da faculdade - que defendo a prisão perpétua para certas categorias de crimes com especial incurabilidade e censura. Quem pratica tais atos não deve, no mínimo, ter o direito de usufruir a liberdade que todos conhecemos, mas deve terminar os seus dias encarcerado. Nestes casos extremamente restritos, o preço a pagar à sociedade deve sobrepor-se a uma eventual ressocialização do criminoso.

Delimitar quais os crimes, com que características tipificadas, capazes de preencher a moldura penal da prisão perpétua, seria uma tarefa do legislador, após um amplo consenso da sociedade.
Uma Justiça ineficaz, branda em demasia com os criminosos, que oferece mais garantias aos delinquentes do que às vítimas; um processo penal que permite medidas dilatórias e expedientes, capazes de levar os crimes até à sua prescrição; uma Justiça para ricos e outra para pobres; um sentimento omnipresente de impunidade dos criminosos, em especial dos mais poderosos e ricos, é tudo o que a nossa sociedade não deseja e falta uma voz para lhe dar a devida expressão. Tem de haver coragem política para dar corpo a tais medidas que, estou certo, correspondem ao sentimento da maioria dos portugueses.

Ainda na Faculdade, escutei um professor de Direito Penal, uma criatura bem conhecida nas televisões, cujo nome não vou divulgar, expressar com alegria, os olhos quase marejados de lágrimas, que nós possuímos a legislação penal e processual penal mais evoluída da Europa. Consigo dar-lhe razão no que respeita ao desconcerto sem conserto que é o imbróglio entontecido de expedientes legais da nossa Justiça, com malhas demasiado largas, por onde sempre se escapam os figurões do costume.