sábado, 30 de outubro de 2021

Dias cinzentos

 



Hoje, pela primeira vez este ano, sinto-me finalmente nos preâmbulos do inverno. A noite de ontem foi de temporal intenso e de manhã, bem cedinho, descobri a varanda com vasos derrubados, o chão encharcado e cheio de folhas arrancadas pela intempérie. É daqueles dias em que apetece ficar em casa, preguiçando com um livro entre as mãos, vendo um filme interessante ou praticando canções novas na guitarra. Às cinco e meia da tarde já é quase noite cerrada e sob a consistente camada de nuvens, a perder de vista, que vislumbro da janela do meu escritório, tremelicam, ao longe, as luzinhas amarelas que alumiam a estrada e as aldeias em redor. À parte alguns cães que de vez em quando ladram, o silêncio é sepulcral e só é interrompido pelo ruído irritante das minhas falanges a atacarem as teclas de plástico do teclado. Os meus gatos já dormitam com indolência, enrolados um no outro, na almofada da cadeira junto a mim e só me vem à memória uma frase de Fernando Pessoa, daquelas que reputo bastante irritantes, por conter uma ideia forçada de otimismo: “Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é.” Não podia estar mais discordante, eu que sou um ser solar e adoro a luz, a primavera, o verão, os dias azuis e a florescência da natureza. A aproximação do inverno é para mim a chegada das trevas medievais do longo inverno, que auspicia uma estação de negritude, frio e chuva, plena de monocromatismos e sobretudo demasiado longa. 

Os amantes dos dias chuvosos com certeza adoram quando as primeiras nuvens apontam no céu. Alguns até sentem o cheirinho da chuva chegando! Eu, definitivamente, não, mas a água que hoje cai relembra de que tudo na vida faz parte de um grande ciclo e de que somos parte de um plano maior que nós mesmos. Assim como a água que evapora, forma nuvens e depois cai como chuva, nós também estamos em constante transformação e renovação, partindo de um estado para o outro e de uma fase da vida para outra.

Esboçadas estas linhas, em claro desafio ao “horror da folha em branco” que tanto assola escritores como escreventes, concluo que pouco ou nada tinha para dizer para além destas trivialidades. Mas, seguindo a mesma linha de desplante e pleno desrespeito por conteúdos sérios e merecedores de abordagem, regozijo-me pela minha sopa de repolho, tomate e abóbora, entre outras leguminosas que para lá deitei, que está finalmente pronta e saborosa em modo repouso no meu fogão. E se há coisas que estes dias de negrume convidam, para além de outras coisas inconfessáveis que dispenso relatar, é degustar comida quentinha e calórica. Para a lareira ainda é cedo. Lá mais para meados do mês que vem não há noite que não apeteça. Mas agora, se me dão licença, vou ver o telejornal e aterrar na realidade do orçamento que não existe e da pandemia que não acaba, pois por estas bandas já bolsei demasiadas palavras redondas.



quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A novíssima complicómetra



Há mais de 20 anos que me governava com a minha velhota máquina de lavar roupa Philips Whirlpool, completamente manual, com o botãozinho dos programas que se rodava e fazia aquele trec trec trec reconfortante. Até à ferrugem, que já a estava a consumir como um tumor, eu me afeiçoara. Não lavava a quente desde o princípio de incêndio no termostato, ocorrido faz algum tempo, e durante as centrifugações (mais pareciam erupções vulcânicas), não raro, quase vinha ter comigo ao escritório aos saltos pelo corredor. Com o rodar dos anos, a Philips ganhou uma cor pérola, como os dentes de um fumador inveterado, longe dos anos áureos em que resplandecia brancura. Mas, como acontece na vida biológica, também as máquinas têm um fim.

Ontem, relutante, comprei uma máquina de lavar moderna, daquelas que têm música catita a anunciar o início e o fim dos ciclos de lavagem, com 40 programas (só vou utilizar um, talvez dois, o resto são futilidades), ecrã azul luminoso, abertura para colocar peças de roupa esquecidas sem desfazer o programa, que promete poupar muita energia e água e me obrigou a decifrar um livro de instruções pleno de generalidades e muito pouco facilitador. As legendas que vão desfilando no ecrã estão todas em inglês (a outra opção, pasme-se!, é o dinamarquês) e tudo é automatizado, o que deve desencorajar pessoas com iliteracia nas novas tecnologias ou desconhecimento da língua de Shakespeare a comprar uma lavadora dos tempos modernos.

Detesto ter de ler livros de instruções e não sou particularmente fã das novas tecnologias. Lido com elas porque tem de ser, porque já não se vendem eletrodomésticos sem os complicómetros do costume, que, de resto, fazem as delícias dos taradinhos por este género de coisas. Gosto de utensílios simples, robustos e fiáveis, com as essencialidades para um desempenho sem rococós. Já me disseram que quando avaria a centralina de um bicho deste calibre, mais vale comprar uma complicómetra lavadora a estrear, porque o preço da peça não compensa a reparação.

Longe vão os tempos em que via a empregada lá de casa a lavar as roupas no tanque de cimento com sabão macaco ou azul e branco. Só mais tarde, no final dos anos 60, veio finalmente a almejada máquina de lavar roupa (durou mais de 30 anos na casa paterna), uma Miele made in Germany, que custou uma fortuna na época.

Não sei se alguma aversão que dispenso às máquinas de lavar roupa terá a ver com o facto de a minha gata angorá, a Fô, branquinha, com nariz rosa e patinhas da mesma cor, ter morrido asfixiada dentro do tambor dessa máquina. Como todos os felídeos, a bichana era metediça e, em má hora, lembrou-se de ir dormir a sesta para dentro da Míele. A empregada não reparou e fechou a porta. De manhã acordei com os gritos lancinantes da minha mãe.

Com 13 anos de idade, lembro-me que foi o meu primeiro grande desgosto. Novas ou velhas, malditas sejam as máquinas de lavar roupa!

domingo, 25 de julho de 2021

Adeus Otelo


Em 1984/85, ainda durante o Serviço Militar Obrigatório, fui colocado no Forte Militar de Caxias. Na época, o celebérrimo e sinistro estabelecimento era uma prisão militar e o preso mais famoso, ainda mais que o cabo Vidrago, perigoso cadastrado que arrancara uma orelha à dentada a outro recluso, era o Tenente Coronel Otelo Saraiva de Carvalho.

Para além das muitas peripécias que presenciei em Caxias, nesses conturbados tempos, que dariam manancial para uma longa história, recordo particularmente o Otelo, pois o destino fez com que nos cruzássemos pessoalmente. Fui incumbido, como graduado, da tarefa diária de assistir ao fornecimento das refeições ao ilustre prisioneiro. Desde que a comida era retirada do panelão gigante, onde se cozinhava para centenas de reclusos, guardas prisionais, militares e funcionários civis, até ser entregue à mãos do ilustre presidiário, era eu quem acompanhava o trajeto da mesma através dos corredores da prisão e dentro do elevador até ao 2º piso onde se situava a sua cela. Só depois de entregue o tabuleiro às mãos de Sua Excelência a minha missão estava terminada.

O comandante do Forte, um major na reserva, amante de cães de caça e uma espécie de governador plenipotenciário daquele lugar - destacava soldados para todos os dias irem correr com os seus animais - tinha uma patente inferior ao mais ilustre prisioneiro. Esse facto, além de mal entendido na esfera castrense, não era bem aceite por Otelo e as discussões entre eles, ao que constava, eram frequentes.

O meio prisional é um lugar de alta conspiração e mexerico e tudo o que por lá acontecia, muitas vezes de forma deturpada, corria em modo sibilante os ouvidos de reclusos e carcereiros. Assisti a muitas situações deploráveis que me dispenso agora de relatar, pois, quase quarenta anos volvidos, a poeira do tempo assentou sobre os factos e muitos dos protagonistas provavelmente já não fazem parte do mundo dos vivos.

O Otelo que eu recordo era uma pessoa serena, impecavelmente fardado e aprumado, com aspeto visivelmente intelectual, acantonado numa cela individual recheada de livros e jornais, servida por um corredor anexo onde ele todos os dias praticava corrida. Nunca vi a porta da cela fechada. Além do mais, tinha uma hora de recreio só para si, num pátio interior, e nunca o vi misturado com outros reclusos. Tomava as refeições na cela e convivia com o seu advogado e com as constantes visitas. Escrevia incessantemente.

Frequentemente visitado por jornalistas estrangeiros, diplomatas, políticos e gente ilustre, era sem dúvida a coqueluche de Caxias e retirava todo o protagonismo ao comandante do estabelecimento prisional - que desejava para ele, Otelo, o tratamento idêntico conferido à restante população prisional. Diziam que essa era a maior fonte de conflitualidade entre eles.

A minha relação com o militar de Abril, à época eu tinha 23 anos, a principio bastante formal, com o fiar dos dias foi-se tornando amistosa e não tardou a que um sorriso aflorasse o rosto do experiente combatente. Quis saber o meu nome, o que estudava, onde morava e o que ia fazer depois da passagem pelo Exército. Ficou radiante quando lhe disse que gostava muito de ler e de viajar.

Jogámos xadrez juntos e não lhe ganhei uma única vez. Falámos sobre literatura, cinema e mundanidades. Nunca aflorámos temas políticos e jamais eu lhe perguntei se era culpado das acusações que o faziam estar preso. Não digo que tenha ficado uma amizade entre nós, pois apenas convivemos durante alguns meses e depois disso nunca mais o vi. Ainda guardo um livro do Woody Allen "Side Effects" que ele me deu com uma simples dedicatória: "Abraço. FMCaxias, 1985". Fiquei com a impressão de que era um homem de emoções contidas, mas muito afável e com uma inteligência superior.

Antes de ser transferido para outra unidade militar fiz questão de me ir despedir dele. Deu-me um aperto de mão tão forte que julguei que me ia quebrar os ossos. Hoje, volvidos 37 anos, dia da sua morte, fui à estante buscar o livro do Woody Allen e tenho-o aqui ao meu lado. Devolvo-lhe, também por escrito, o abraço que na altura me deu.

Culpado ou inocente, certo é que ele foi amnistiado e mais tarde inocentado de todos os crimes de que foi acusado. A nossa História jamais o esquecerá pois foi um homem que se notabilizou e merece ser recordado como o protagonista de um tempo que ajudou a fazer.

RIP


sábado, 17 de julho de 2021

Da (des)esperança


Por vezes lamentamos os silêncios que impregnam as nossas vidas, mas com a certeza firme de não desejarmos uma orgia de ruídos sempre à nossa volta, impedindo-nos de nos sentirmos nós mesmos. O pior é sempre possível mas não é fatal que tal aconteça. Se nos lançamos na ação, se nos empenhamos, se a motivação existe e há um rumo, se sabemos o lugar para onde queremos ir, poderemos esperançar alcançá-lo.

Na medida em que o pior não é uma fatalidade é permitido termos esperança. E como o pior pode ser evitado, é urgente avançarmos com empenho naquilo que julgamos evitar a nossa infelicidade.

Para além do otimismo e do pessimismo, há sempre lugar para a esperança. Esta apoia-se sobre a confiança no possível ou no que poderá sê-lo. O tempo, de certa maneira, é uma criação do possível e é fácil entendermos que um dos grandes erros das utopias foi sempre o de tentar fixar, através da imaginação, o futuro ideal, o termo perfeito de qualquer história e até os meios para lá chegar. E tal forma de pensar, por vezes, impede-nos de apreciar com rigor o inesperado, o acontecimento que transforma o (nosso) horizonte previsível.

Mais grave que tudo é a tomada de consciência de não sabermos o que nos pode fazer felizes, nem quais os melhores caminhos para trilharmos. Resta-nos, então, a exuberante satisfação de podermos afirmar com veemência: «Eu não sei bem aquilo que quero, mas estou certo daquilo que definitivamente não quero.»

Para muitos, onde eu me incluo, só isto já é um começo, seja do que for.



terça-feira, 6 de julho de 2021

Subsídios para o plano vacinal

 



O Plano Nacional de Vacinação, iniciado nos anos 60, numa altura em que a Poliomielite matava, foi determinante para a diminuição das taxas da mortalidade infantil em Portugal, que são atualmente das mais baixas da Europa. Mas o que muitos não sabem, porque não são desse tempo e não passaram por isso, é como se processava a vacinação na tropa, ainda no início dos anos 80.

Eu comecei a cumprir o Serviço Militar Obrigatório em 1981, na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, e depois por lá fiquei, contratado pelo Exército durante cerca de 10 anos, que era a forma expedita que os estudantes universitários masculinos da época encontravam para prosseguir os seus estudos e ter uma fonte de rendimento possível. Ainda não existiam mulheres a cumprir o Serviço Militar Obrigatório, ou contratadas, no Exército, o que veio a acontecer muito pouco tempo depois de eu ter terminado o meu vínculo. Mas isso são outros quinhentos.

Recordo-me perfeitamente do dia da vacinação na EPI de Mafra. Estava uma manhã invernal e o frio cortante era acompanhado pelo sibilar do vento glaciar que corria os claustros do convento. Numa vasta capela interior, transformada em enfermaria improvisada, sentados num banco de madeira corrido, em grupos de vinte, de tronco nu, o cabelo quase rapado e os olhos esbugalhados com os exemplos das anteriores vítimas, preparámo-nos para a carnificina.

O cortejo abria com um socorrista transportando debaixo do braço uma terrina cheia de agulhas. Atrás vinha um auxiliar que, com um maço de algodão a imitar uma esfregona, besuntava-nos as omoplatas com tintura de iodo. Depois, a figura sinistra do espetador de agulhas - verdadeiras bandarilhas, a ajuizar pelo tamanho e algumas seguramente rombas. Finalmente aparecia um último elemento com as seringas que ia desajeitadamente enroscando às agulhas há muito espetadas nas omoplatas dos instruendos.

O que sempre me fez suportar alguns calvários que passei na Escola Prática de Infantaria de Mafra, conhecida pela sigla EPI – vulgarmente apelidada entre os magalas como Entrada Para o Inferno ( nas Operações Especiais em Lamego ainda passei maiores tormentos), foi o facto de ver que os meus colegas estavam a passar pelo mesmo e aguentavam estoicamente tudo - pelo menos a maioria, já que alguns, a meio da recruta, baixaram à Psiquiatria e foram internados no Hospital Militar da Estrela.

No final, posso afirmar categoricamente que o tempo que passei no Exército, quase uma década, pelas amizades que por lá fiz e experiências inolvidáveis, foram dos tempos mais felizes da minha vida. Nunca posteriormente na sociedade civil, pela competição e mesquinhez que se vive dentro das empresas, consegui encontrar a camaradagem salutar e o bom humor que vivi nos tempos da tropa.

A dose cavalar que me inocularam na EPI, uma espécie de coquetel vacinal contra uma série de maleitas, foi seguramente a responsável por durante toda a recruta nunca me ter constipado ou adoecido, apesar de andar constantemente debaixo de chuva e enlameado até aos ossos. Sem essa inoculação não acredito que fosse possível ter suportado as agruras diárias porque passei durante esses penosos dezasseis meses.

Agora a que assistimos à maior campanha vacinal mundial de todos os tempos e que temos um Vice- Almirante à frente de uma Task Force, não me surpreenderia que não tivesse já passado pela cabecinha do nosso Vice a adoção de estratégias militares mais expeditas para imunizar o povinho que se queixa de ficar longas horas na fila: uma série de banquinhos de madeira corridos (há muitos nas igrejas e era só pedir emprestado) podiam muito bem iniciar um esquema vacinal em série. E porque não adaptar também algumas ideias do Taylorismo para a racionalização do processo produtivo, neste caso o ato de imunizar, evitando a lentidão na produção e um esforço desnecessário?

A ideia de um processo de imunização, todos sentados num banquinho de madeira, que começa com um besuntador de tintura de iodo e acaba com o enroscador de seringas, previamente espetadas nas omoplatas dos recrutas, se servisse para vacinar o dobro da população, era mais uma prática castrense de outros tempos a ter em linha de conta.

E depois não me digam que eu não contribuo com subsídios para o processo vacinal.

Siga a Marinha, nosso Vice- Almirante!






quarta-feira, 30 de junho de 2021

Amigos



É um lugar comum dizer constantemente que todas as pessoas nos dececionam, mas assim como há pessoas que nos causam esse estado de amargura, outras há que nos surpreendem pela positiva; e outras, ainda, que confirmam tudo quanto já pensávamos delas.

Dizem que os amigos são para as ocasiões - e eu diria que cada vez menos sei quais são as ocasiões em que se deve apelar para os amigos e quais os amigos que se prestam e têm disponibilidade para nos acudir em dadas situações.

As amizades, com exceção daquelas mais antigas, que nos vêm da infância e nos acompanham ao longo da vida, acontecem-nos por zonas de interesse e ocupação, por empatias, por circunstancialismos, muitas vezes fruto do acaso, que nos surgem no trilho da vida. Tendemos a sentir empatia por pessoas que, julgamos, sentem o nosso pulsar, compreendem o nosso estilo de vida, as nossas perceções, possuem gostos semelhantes e objetivos que nos merecem sentido. E, por vezes, até os amigos vão sendo mais conjunturais, mais fruto das circunstâncias e das necessidades práticas de alianças, consequência de tumultos comuns que fazem com que duas vidas se cruzem no amparo da amizade recíproca.

Quando a nossa vida dá para o torto, quando os empregos falham, quando a solidão nos bate à porta, quando os divórcios ou o fim das relações amorosas acontecem e tudo se baralha dentro de nós, temos saudades dos amigos de outros tempos. É aí que escolhemos criteriosamente com quem podemos contar, de que modo e com que limites precisos, e descobrimos que nem todos os amigos são para todas as ocasiões.

É bom fazer amigos. Nos últimos tempos, em virtude da minha cada vez maior presença na música e também na poesia, tenho feito novos amigos. Nuns casos, trata-se de pessoas bastante mais novas do que eu, mas com uma forma de pensar lúcida e avisada, capaz de entender coisas que, julgava eu, só pessoas com a minha experiência de vida e maturidade conseguiriam alcançar. Noutros casos, são pessoas com idades próximas da minha, mas com vidas e saberes que me completam.

A vida tem destas coisas e nem imaginamos quão enriquecedor é permutar experiências, vivências, com personalidades diferentes.

Os mais velhos, contrariamente ao que diz a «sabedoria popular», também aprendem muito com os mais novos, especialmente quando se trata de pessoas que possuem uma mentalidade muito para além da sua idade biológica.

Gostei muito de ter feito novos amigos, pessoas que valeu a pena ter conhecido, para manter o contato e aprofundar a amizade, já que a vida tem uma duração aleatória e é demasiado preciosa para ser desperdiçada com seres sem luz e medíocres.

Cada vez mais me convenço que o dia-a-dia é feito de um contínuo destes pequenos acontecimentos: coisas que por vezes parecem não ter importância ou impacto, mas que vão dando cor e sentido ao fluir da vida e me fazem adivinhar que ainda há afetos a precisar de partilha, pessoas que gostam de gostar de pessoas e que esse é o maior desiderato da vida.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Eu sei que hoje é terça-feira

 


Eu sei que hoje é terça-feira porque passo de mota na rotunda junto ao mercado do levante - que é um mercado que se monta e desmonta todos os dias. Sim, um mercado onde os comerciantes, todos os dias, montam as suas bancas de manhã para à tarde as desmontarem – e ainda vejo os últimos feirantes a desfazerem o estaminé e a encherem até ao teto as carrinhas brancas com vidros foscos.

Disse-me um dia alguém, com conhecimentos nestes assuntos, que muitos feirantes, em especial os de etnia cigana, fazem das suas carrinhas brancas uma espécie de casas amovíveis, onde comem, dormem, fazem filhos e transportam o material que vendem, que é a principal fonte do seu sustento.

Não creio que este espírito nómada integral ainda esteja presente na maioria dos elementos desta etnia, apesar dos ancestrais costumes, pois felizmente a maioria já tomou consciência de que o sedentarismo, assentar arraiais, é necessário para que os filhos tenham educação escolar, tão essencial à integração social.

Dantes, e durante muitos anos, pelo menos até que um vereador mais iluminado, ou um funcionário subalterno com lampejos de inteligência, se lembrasse de mandar vedar o espaço do mercado com uma cerca, era costume, nos dias de feira, a cidade se encontrar envolta por sacos de plástico, que faziam evoluções e piruetas em rota livre, ao sabor do vento, até caírem no rio Lis ou espalharem-se pelas ruas circundantes.

Até dias recentes, operárias da Câmara Municipal, na sua grande maioria, senhoras com trajes verdes, fazendo vagamente lembrar as companheiras do Robin dos Bosques na charneca de Sherwood, com cabelos loiros e dentes d’oiro, diligentemente e com paciência de Jó - aquele fulano com uma paciência bovina que aparece citado num dos livros do Antigo Testamento – esfalfavam-se, duas vezes por semana, em correrias atrás dos malfadados sacos de plástico, que pareciam fazer-lhes fintas para não se deixarem apanhar.

Se lhes fosse perguntado, provavelmente nenhuma delas imaginaria que, deixando a Ucrânia, o seu futuro, entre outras coisas, passaria por bissemanalmente mover perseguições a sacos de plástico, durante longas horas, numa acolhedora cidade do midwest português.

A captura destas perigosas espécies poluidoras, proscritas por todos os manuais de ecologia, fazia-se quase sempre com sucesso, pese embora alguns saquinhos se escapulissem para longe do seu atento olhar. Os indómitos plásticos, não raro, passeavam-se nos dias seguintes pelo casco histórico da cidade, enrolando-se nas plantas e floreiras, terminado quase sempre a sua errática viagem na correnteza do Lis.

A maledicência é frequentemente o lugar-comum da crónica, pois a escrita é muitas vezes um exercício individual de catarse - o imperioso desabafo. Mas sabe bem mudar este estado de coisas, dizer diferente, fazer outra coisa.

Eu gosto dos imigrantes, daqueles que vêm para o nosso país para trabalhar, que se integram e passam a amar o nosso mundo como se fosse deles também. Gosto da diversidade cultural. Ela enriquece-nos, muda de forma indelével a nossa maneira de perspetivar o universo e a nossa forma comezinha de pensar. O mosaico cultural e étnico é sempre enriquecedor.

Eu sei que hoje é terça-feira porque abro a porta de casa e encontro nas escadas do meu prédio as funcionárias que semanalmente se encarregam das limpezas do condomínio. São, também elas, na sua maioria, imigrantes, oriundas de África ou do Brasil, que trocaram a sua terra natal por um futuro melhor em terras lusas para si e para os seus. Ocupam os elevadores com baldes e esfregonas, regam as plantas sequiosas, sempre em alegre cavaqueira, com boa disposição contagiante e um sorriso plasmado no rosto. E deixam atrás de si um rasto de cheiro a lavado e perfume.

Se eu pudesse, voava, elevava-me, só para não pisar o chão limpo e molhado das escadas, tal o enorme respeito que sinto pelo seu trabalho.





sábado, 19 de junho de 2021

O efeito Dunning-Kruger

Você já ouviram falar do efeito Dunning-Kruger? É um viés cognitivo que leva as pessoas com menos habilidade e conhecimento a pensar que sabem mais do que as outras. Quanto menos elas sabem, mais pensam que sabem.

Muitas vezes, aqueles que têm esse problema tendem a impor as suas ideias, em vez de simplesmente dar uma opinião, considerando-as verdades absolutas. Os outros são vistos como totalmente ignorantes e incompetentes, mesmo que não o sejam.

No correr da vida, tenho-me deparado com muitas destas criaturas que, para além de manifestarem uma absoluta falta de humildade perante o conhecimento que outros demoraram vários anos, uma vida, a adquirir, são frequentemente arrogantes e irredutíveis.

O exemplo paradigmático é a crença popular, totalmente desajustada, de que no regime da separação de bens os cônjuges não são herdeiros um do outro.

Estudos recentes, por mim lidos, perceberam que, quanto mais incompetente era uma pessoa, menos consciente disso ela era. Enquanto as pessoas mais competentes, não raro, se subestimavam.

Daí o efeito Dunning-Kruger, segundo o qual pessoas com baixo nível de competência tendem a pensar constantemente que sabem mais do que sabem, considerando-se mais inteligentes.

Os casos típicos que têm acontecido ao longo da minha vida, são a frequência com que me deparo com os "juristas de café" - muito similares aos "médicos sabichões", que tudo sabem sobre doenças e prescrevem tratamentos para todo o tipo de maleitas - com perceções totalmente erradas de como funciona a Justiça, as leis, e afirmam que a uma determinada situação corresponde uma certa solução legal, seja porque "ouviram dizer" ou porque "a uma certa pessoa amiga aconteceu assim".

Longe vão os tempos em que me enfurecia com tamanha ignorância e, não sem uma certa ingenuidade, tentava explicar, em discussões desajustadas e infrutíferas, que a lei é muitas vezes diferente daquilo que dela se pensa.

Hoje já não perco tempo com criaturas que não estão abertas à dúvida, não evitando impor o seu próprio ponto de vista; e que, não aceitando a palavra de técnicos, que estudaram anos a fio para chegar a certo tipo de conhecimentos, continuam a insistir em crenças absurdas, com absoluto desdenho por quem realmente sabe.

Os ignorantes têm, como toda a gente, direito à vida, mas dentro da bolha de idiotice de que é formado o seu pequeno mundo, do qual não abdicam nem parece quererem sair.


segunda-feira, 7 de junho de 2021

Dá cá o bracinho

Meio milhão de pessoas não respondeu ao sms com a chamada para a vacina e, segundo li, essa atitude pode comprometer a meta do nosso vice-almirante de seringar cem mil almas por dia.

As razões serão de vária ordem. Admito que muita gente não quer efetivamente ser vacinada, quer por pertencer à classe dos negacionistas, ou por ter sucumbido aos medos dos "efeitos secundários" do imunizante, quando todos sabemos que as vacinas, desde o século XIX, têm assegurado a sobrevivência da humanidade.

A primeira vacina do mundo foi descoberta há 224 anos na Inglaterra. Edward Jenner iniciou o combate ao vírus da varíola e o processo foi descoberto 100 anos antes de que o mundo tomasse conhecimento sobre o que eram os vírus.

A varíola era uma ameaça gigantesca à humanidade e a batalha contra ela era travada há séculos. Sabe-se hoje que esta foi a doença viral que mais matou na história. Só para fazer uma comparação: o novo coronavírus tem uma taxa de letalidade global de 6,5%, a varíola tinha taxas de 30%!

Aqui para nós, que ninguém nos escuta e poucos nos lêem, a falta à chamada para as vacinas e a não adesão ao agendamento, deve-se mais à incapacidade funcional de lidar com o telemóvel do que a outro motivo qualquer, mormente a recusa firme de não ser vacinado. Estou em crer que os que não querem oferecer o bracinho à picadela constituem uma camada residual da população.

Todos sabemos, ou devíamos saber, que se não fossem as vacinas, doenças como a varíola, a tuberculose, o tifo, a malária, o sarampo, a poliomielite, para enumerar apenas algumas, a título exemplificativo, teriam dizimado camadas muito mais substanciais da população mundial. A esperança média de vida, não sendo igual em todos os países, pelos motivos que sobejamente conhecemos, nunca foi tão elevada e nunca a ciência foi capaz em tão curto espaço de tempo de descobrir e fabricar em larga escala um imunizante.

De pouco tem servido dizer que os efeitos secundários nefastos e letais decorrentes da vacina, têm acontecido numa escala ínfima e que os medicamentos que todos os dias tomamos, e deles abusamos, têm um potencial letal muito maior.

Tem razão o nosso vice - que, espero, no final do processo de vacinação, perca esse nefasto prefixo e seja finalmente promovido a almirante - para estar preocupado com a almejada média das cem mil vacinas por dia. Anda muita maltinha a boicotar as coisas e a lixar a meta da imunidade de grupo para agosto.

Eu se fosse comandante chefe da marinha tomava de assalto os bracinhos dessa gente toda e, gostassem ou não, levavam todos com a picadela ou não recebiam o subsídio de férias.


Uma ideia luminosa



Sempre que alguém apresenta uma ideia fraturante, que rompe com o mainstream do “pensamento correto”, esta espécie de papa-açorda de “ideias adequadas” em que nos movemos no dia-a-dia, é logo apelidado de freak, demagogo ou populista - o vocábulo agora mais em voga que muitos usam e abusam ad nauseam. Para grandes males, grandes remédios. Sempre assim foi, assim é, assim será. Um grande problema necessita de uma grande solução. E não é preciso ser iluminado para perceber isto.

A saúde das pessoas, por estar intimamente ligada ao valor Vida, porventura o bem maior defendido pela cúpula do nosso sistema legal, deveria ter uma prioridade absoluta. Por outras palavras, deveria ser gratuita. Numa sociedade ocidental, que pugna pela Democracia, pela defesa dos elementares valores humanistas, não são concebíveis cenários como aquele a que hoje assisti na farmácia perto da minha casa. Um idoso, pelos trajes humildes, presumivelmente bastante pobre, perguntou pelo custo dos medicamentos que constavam da sua receita. Após ser informado do valor de 75 euros, disse que queria levar apenas remédios até ao custo de 15 euros, pois apenas dispunha dessa quantia.

Não, desta vez não me ofereci para pagar, apesar de já o ter feito em algumas ocasiões semelhantes. A minha bondade tem limites. Apenas anoiteci o olhar e fiquei consumido por uma raiva inexplicável. Como é possível que em pleno século XXI, num Estado que se diz Social, um idoso, que porventura terá trabalhado a vida inteira e feito os seus descontos, não tenha uma reforma digna que lhe permita cuidar da sua saúde?

Mas este problema, e outros semelhantes, tem solução. A dificuldade não está na ausência de recursos, salvações, artifícios ou formas de resolver a questão, mas antes na absoluta falta de vontade de mudar o status quo (que, no contexto da minha conversa, significa “o estado das coisas” e não aquela famosa banda pop rock dos anos 70) em que todos marinamos.

Perguntam-me: onde vai o Estado arranjar dinheiro para tornar o Serviço de Saúde totalmente gratuito, pelo menos para todos aqueles que não possam pagar? A resposta seria simples, fosse eu um ministro plenipotenciário para resolver esta questão. Primeiro que tudo, despojava-me de medos perante os poderosos, as teias de interesses e corrupção, as cáfilas de gângsteres que secretamente financiam eleições e partidos políticos. Depois, fornecia o sistema de saúde através de impostos altíssimos sobre as grandes fortunas, confisco de bens obtidos através da corrupção, agravamento fiscal sobre o álcool, o tabaco e quaisquer formas de vícios lesivos da saúde e esbanjadores de recursos com o tratamento dos aditivados. Taxava de forma severa os grandes ordenados, desde futebolistas, a dirigentes desportivos, passando por estrelas televisivas e quejandos, sem esquecer pelo caminho de diminuir os salários e privilégios de toda a classe politica. Vendia, a bons preços, toda a frota automóvel do Estado que não fossem carros elétricos. Tornava tendencialmente obrigatório o trabalho, para os que pudessem e estivessem a cumprir penas de prisão, a fim de que custeassem eles mesmos a sua alimentação e eventuais despesas com a saúde - que são imensas e oneram bastante os contribuintes, já que, numa grande maioria, são pessoas com doenças crónicas.

Depois de acabar esta safra, com tanto dinheiro recolhido e ter obtido o suficiente para garantir a gratuitidade total da saúde para os que mais precisam, certamente me sobrariam uns quantos milhões. Com esse dinheiro, construía mais hospitais, centros de saúde e melhorava os já existentes. Se sobrassem uns tostões, construía mais parques nas cidades e investia ainda mais na cultura. Ora digam-me lá que não são excelentes ideias?

PS. Votem em mim se querem os vossos sonhos realizados.